vultos da testosterona
Pedro Tavares, de Brasília Mai 2026 09h08
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Na última semana de abril, as redes sociais do vereador de Taubaté João Henrique de Moraes Ramos, conhecido como João Henrique Dentinho (PP), foram inundadas de posts sobre o evento O Farol e a Forja, um encontro para homens que acontecerá em São Paulo, no final de julho, com palestras sobre “liderança masculina” e princípios cristãos. O evento é promovido pelo ator Juliano Cazarré, famoso por trabalhos como a novela Avenida Brasil (2012) e o filme Boi Neon (2016). “Como eu e Juliano temos valores parecidos, acho que o algoritmo me entregou mais isso”, disse Dentinho à piauí. Passeando pelos comentários nas redes, o vereador ficou espantado com as críticas que Cazarré vinha recebendo.
Num passado recente, o ator revelou não ter vacinado seus primeiros cinco filhos contra a Covid, se declarou contra o direito ao aborto legal em caso de estupro e, por essas e outras, aparece tanto no Brasil Paralelo quanto Bruna Marquezine no site de Hugo Gloss. Ainda não se sabe o conteúdo das palestras, mas, como cão mordido por cobra tem medo até de linguiça, muitos entenderam que lá vem bomba. Betty Gofman escreveu: “Gente, que criatura incompreensível esse ator, esse homem.” Paulo Betti disse: “É tanto convencimento que ele se refere a si na terceira pessoa como se fosse uma entidade.” Júlia Lemmertz parafraseou o ex-deputado Eduardo Cunha: “Que Deus tenha piedade dessa nação…”
O vereador Dentinho não conhece Cazarré pessoalmente, mas resolveu ampará-lo com as armas que de que dispunha. Encaminhou algumas dessas postagens inflamadas para um grupo de WhatsApp que mantém com colegas da Frente Parlamentar da Família, bancada de sete vereadores que compartilham valores conservadores. Das conversas no grupo nasceu a ideia de requerer uma moção de apoio ao ator e à sua esposa, Letícia Cazarré.
Na tarde de 28 de abril, uma terça-feira, o presidente da Câmara de Taubaté, Richardson da Padaria (União), abriu os trabalhos da 53ª sessão ordinária. A leitura da ata do dia foi feita por Dentinho, na função de primeiro-secretário. Em meio a requerimentos sobre infraestrutura urbana e o auxílio alimentação de pensionistas, foi lida a moção 141, de “apoio ao ator Juliano Cazarré e à sua família, em defesa da liberdade de consciência, da coragem de professar valores cristãos e do direito de exaltar a paternidade, a masculinidade responsável e a instituição familiar sem submissão ao patrulhamento ideológico”.
A moção foi aprovada por 10 votos a 2. Passou raspando. Como a Casa tem dezenove vereadores, projetos e moções precisam de no mínimo dez votos para serem aprovados. Os dois votos contrários partiram de vereadores do campo da esquerda: Talita de Lima Barbosa (PSB) e Isaac do Carmo (PT). Entre os que votaram a favor, havia apenas uma mulher, a vereadora Zelinda Pastora (PRD). “O Nicola [Neto, vereador do Novo] é abertamente homossexual, tem marido e tudo, e votou a favor da moção. Você vê? Esse discurso de ódio da esquerda não faz sentido”, disse Dentinho dias depois da votação. “O que eu mais valorizo no Cazarré é que ele é um homem de verdade, um marido de verdade. Um pai de família, com seis filhos. Conseguimos ver nele a responsabilidade”, prossegue o vereador de 59 anos que é, ele próprio, ator profissional formado na Escola de Artes Maestro Fêgo Camargo, de Taubaté. Está no terceiro mandato de vereador.
“O Cazarré traz muito forte para os filhos a questão da religiosidade. Ele é católico e essa é uma qualidade muito importante para um pai”, acrescenta o vereador Alberto Barreto (PRD), que também foi um dos votos favoráveis. “O que causa esse rebuliço todo é que ele é um ator da Globo. Ele não segue a cartilha deles lá.” Talita Barbosa, conhecida como Talita Cadeirante, defendeu seu voto contrário em tom verborrágico ao final da sessão: “É lamentável e é muito difícil de acreditar que existam movimentos hoje querendo conservar esse tipo de padrão histórico familiar. É difícil conceber a ideia de que existam movimentos, como o movimento red pill, que fundamentam esse curso que a câmara apoiou hoje.”
À piauí, a vereadora disse que Taubaté tem mais o que fazer. “Para quem a política dessa cidade trabalha? Essa moção não é sobre Taubaté. É sobre um projeto político de resgatar um padrão familiar falido que tem como consequência a violência contra meninas e mulheres.” Alguns moradores pensam parecido. Quando a página Taubaté em Debate noticiou no Facebook a homenagem, uma seguidora comentou: “Cuidar da cidade começa quando?”
Em geral, as moções aprovadas por câmaras municipais – sejam de apoio ou de repúdio – tratam de personagens ou episódios locais. Mas eventualmente há exceções, como a de Cazarré, que, nascido em Pelotas e residente no Rio de Janeiro, nada tem a ver com Taubaté. Depois de aprovada no plenário, a moção de apoio foi enviada por e-mail para o ator. Os vereadores, porém, não sabem se ele a recebeu ou sequer soube da homenagem. Até o dia 8 de maio, ele não tinha respondido. A piauí também tentou contato com Cazarré por mensagem, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
O episódio no plenário Jaurés Guisard, sede da Câmara Municipal, foi a expressão taubateana do que já vinha acontecendo nas redes sociais desde que Cazarré divulgou o seminário, no final de março. Atrizes como Marjorie Estiano, Cláudia Abreu e Elisa Lucinda entraram para o coro dos críticos ao evento. Mas outras pessoas conhecidas ficaram ao lado de Cazarré, como a cantora Claudia Leitte, o ator Caio Castro, o ex-paquito Theo Becker, a cantora Luiza Possi e até o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (União).
“Eu sou artista. O artista quer ser amado. A gente não gosta de levar porrada, de ser vaiado, muito menos por colegas de profissão, alguns inclusive que eu admiro. Mas o que eu posso fazer? Eu continuo tratando e continuarei tratando eles com cordialidade”, disse Cazarré ao fazer uma participação no podcast Inteligência Ltda., em 28 de abril. “Faz tempo que ele divide opiniões. É um cara de muito boa índole e gentil, mas tem esse viés religioso ortodoxo que faz com que ele pareça meio pirado ao olhar dos outros”, disse à piauí um ator da Globo que, para não se indispor com o colega, pediu para não ser identificado.
Além das críticas ácidas, o workshop de masculinidade foi tratado com humor. Fábio Porchat publicou nas redes um esquete em que interpreta o personagem Mauro César, um agitado gestor de crise. No vídeo, aparece entusiasmado, simulando uma conversa com Cazarré por telefone. “Que sacada maravilhosa”, diz Mauro César. “Eu mesmo tô desaprendendo [a ser homem], outro dia me peguei chorando vendo a Ana Paula [Renault] e o Tadeu [Schmidt] no BBB.” Outros humoristas, como Rafinha Bastos, entraram na onda.
Anunciado como o maior encontro de homens do Brasil, O Farol e a Forja acontecerá nos dias 24, 25 e 26 de julho no auditório do Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro (Uni Italo), no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. São esperados setecentos homens, segundo Cazarré, que é creditado como curador do evento e atua como seu maior garoto propaganda. O objetivo do encontro, de acordo com o site oficial, é que os participantes voltem para casa “mais conscientes, mais centrados, mais responsáveis”. Diz o slogan: “forjando líderes que não se curvam ao caos. Um evento que transforma consciências e desperta o potencial máximo.”
Entre os palestrantes há padres e empresários, um urologista, um psicólogo, um pastor, um professor de literatura e o lutador Minotauro. Um agrupamento eclético de homens, entre os quais também está o médico Ítalo Marsili, um admirador de Olavo de Carvalho que foi cotado para o Ministério da Saúde em 2020, quando, em plena pandemia, Bolsonaro trocava de ministro como quem troca de gravata. Marsili se notabilizou por declarações misóginas. Certa vez, atribuiu a crise da democracia ao voto feminino, já que, para obter o voto de uma mulher, segundo ele, “é só você seduzi-la”. Ao que concluiu: “Na única democracia no mundo que funcionou, que foi a democracia grega, não estava previsto o voto feminino.” Resta saber se as únicas três mulheres confirmadas como palestrantes no evento concordam com essa visão. São elas a empresária Barbara Mendes, a jornalista Mônica Salgado e a esposa do anfitrião, Letícia Cazarré, que é educadora e bióloga.
O curso de Cazarré não é pioneiro. Outros grupos já se propuseram a recuperar a masculinidade supostamente perdida do homem contemporâneo, caso do Legendários, divulgado como um “movimento cristão de imersão masculina, com foco em desenvolvimento físico, mental e espiritual”. Mas Cazarré tem se esforçado para mostrar que cada coisa é uma coisa. “Meu evento é intelectual”, elucidou no Instagram. “Não vamos criar estresse físico, vamos sentar e ouvir pessoas que vão iluminar nossa mente.”
A proposta do ator é criar uma terceira via da masculinidade – algo pensado para o homem que não quer ser um “bunda mole, um frango que pede desculpa por ter nascido homem” nem “o red pill, que diz que a parada dele é ficar fortão, pegar uma mulher a cada noite”. As palavras são do próprio Cazarré, num vídeo publicado em suas redes sociais. Por esse aspecto, o curso parece realmente se diferenciar de outros que enveredam pelo machismo explícito ou promovem uma masculinidade bruta. Em comum, no entanto, todos parecem embebidos em uma nostalgia pelo homem de antigamente, romantizado como uma figura rústica e provedora. Naqueles tempos, diz Cazarré, a dureza da vida forjava a masculinidade. Hoje, segundo ele, tudo anda “fácil demais”; vivemos um “abismo moral”.
O humorista Hélio de la Peña entrou no debate, meio fazendo piada, meio criticando quem debocha de Cazarré. Para ele, o ator é um exemplo de cancelamento reverso, o que ocorre quando alguém, de tão atacado, acaba sendo promovido. “O segredo para viralizar é irritar”, disse De la Peña, no Instagram. Ele sugere que parte da esquerda pode ter se precipitado nas críticas ao curso. “Se tiver lições de como lavar louça, trocar fralda de bebê sem entrar em pânico, e ensinar o pai de primeira viagem a não fingir morte súbita quando o herdeiro chora às três da madrugada, estamos falando de uma revolução silenciosa. Ser homem não é só prover. Tem que saber lidar com o fato de que às vezes quem provê melhor é a esposa.”
Só em julho saberemos se essas lições estavam na ementa. Pelo que foi divulgado até agora, O Farol e a Forja não se restringe a palestras. Quem adquirir os pacotes premium, como o Forjador (3,1 mil reais) e o Mestre (5,4 mil reais), poderá participar de uma confraternização com direito a pizzas, churrasco, cerveja e vinho, além de música country e muito networking em ambiente exclusivo, “onde um homem desafia o outro a ser melhor”. Para quem só está interessado nas palestras, o ingresso mais barato sai por 1,7 mil reais.
A piauí perguntou aos vereadores de Taubaté se eles pretendem se inscrever no curso. Alberto Barreto respondeu de bate-pronto: “Não. Graças a Deus, eu não preciso. Eu sei muito bem meu posicionamento como homem.” Dentinho, a quem o ator deve a homenagem, deu uma resposta menos enfática: “Você me deu uma boa ideia, quem sabe eu não apareça por lá.” Para ele, Cazarré representa a maioria dos homens de Taubaté.