vultos do sindicalismo

LULA, OS AMIGOS E A CHULETA

Como o presidente vem tentando se reaproximar dos antigos companheiros do ABC
O presidente no ato de lançamento de sua campanha de reeleição, no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo - Crédito: Ricardo Stuckert
O presidente no ato de lançamento de sua campanha de reeleição, no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo - Crédito: Ricardo Stuckert

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A crítica apareceu de tempos em tempos na imprensa, nos últimos anos: Lula se afastou daqueles que foram seus companheiros nas greves operárias na região do ABC, na Grande São Paulo, e de muitos amigos que o acompanharam na fundação do PT, em 1980. Seu distanciamento das origens costuma ser atribuído à influência de sua mulher, a socióloga Rosângela da Silva, a Janja. Em parte, a reclamação vem de colegas próximos. Em outubro de 2024, durante um almoço em Brasília, ouvi o desabafo desgostoso de um deles, dizendo que Lula já não promovia mais churrascos e partidas de futebol com os amigos da velha guarda. Comuns de 2003 a 2010, nos dois primeiros mandatos do presidente, esses animados encontros aconteciam na Granja do Torto, a casa de campo presidencial, hoje pouco utilizada. O problema, segundo me contou o veterano, é que Janja não é fã desses churrascos animados. Outros diziam que ela vinha restringindo até a visita de filhos e familiares do presidente.

A assessoria de Lula e alguns dirigentes do PT sempre contestaram a ideia de que Janja tenha erguido uma barreira entre o marido e correligionários. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, diz que tudo se deve a uma nova fase natural na vida do amigo: “A presença da Janja é um novo espaço importante na vida dele e essa dinâmica naturalmente muda, mas não é por conta de rechaçar ninguém”, diz. “O mundo é outro, a vida das pessoas é outra. Se cada um fizer uma reflexão sobre qual era o seu círculo de amizade trinta anos atrás, os churrascos e tal, vai ver que a situação não é diferente da vida do presidente.”

Recentemente, em meio a uma das disputas eleitorais mais duras de sua carreira, Lula tem se reaproximado das origens sindicais. Amigos que antes se queixavam de seu afastamento hoje dizem que ele agora busca estreitar e fortalecer seus laços com a região onde emergiu para a política. Lula tem visitado o ABC com maior frequência e conversado mais com antigos colegas de sindicato.



Um marco do distanciamento de Lula em relação a sua origem política se deu em dezembro de 2021, quando ele desocupou a cobertura onde morava no bairro Nova Petrópolis, em São Bernardo do Campo. Por questões de segurança – a menos de um ano da eleição em que derrotou Jair Bolsonaro, o clima político já estava bastante acirrado –, ele passou a morar em um sobrado de muros altos, com 700 m², no Alto de Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista. Lula ainda hoje mantém o aluguel do imóvel, que se tornou sua base em São Paulo.

Naturalmente, devido à distância, minguaram as visitas a São Bernardo e arredores. Em 2025, há apenas um registro de viagem oficial do presidente à região do ABC. Neste ano, em compensação, já foram quatro – estimuladas, em parte, pela campanha eleitoral. Em fevereiro, Lula esteve em Mauá para entregar ambulâncias do Samu a prefeitos da região. Em março, se encontrou com o ex-ministro da Fazenda e candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC – que Lula comandou entre 1975 e 1981. Em julho, o presidente prestigiou a posse do novo presidente do sindicato, Wellington Damasceno. Quem deixava o cargo depois de dezoito anos era um grande amigo de Lula, Moisés Selerges Júnior. Não se trata de um companheiro das greves históricas de 1979 e 1980: Selerges tem 60 anos, vinte a menos do que o presidente. Concorreu este ano a deputado federal pelo PT, mas não se elegeu.

O maior evento recente de Lula no ABC teve lugar no histórico estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, palco das memoráveis assembleias das greves operárias. Lá, em 16 de agosto, a campanha à reeleição foi lançada oficialmente. Na abertura da cerimônia, Lula recebeu no palco dirigentes sindicais como Jair Meneguelli, Natal Casemiro, Expedito Soares e João Bagaço.

Nos anos 1980, Lula trocou o sindicalismo pela vida partidária, mas se manteve próximo de seus sucessores na associação de classe: Meneguelli, presidente do sindicato de 1981 a 1987, Vicentinho (1987 a 1994) e Luiz Marinho (1996 a 2003). Todos os três fizeram incursões pela política. Meneguelli foi deputado federal de 1995 a 2003, e Vicentinho está na Câmara dos Deputados desde 2003.

Marinho é quem vem trabalhando mais perto de Lula. Foi ministro do Trabalho e da Previdência nos primeiros governos petistas, e hoje, no terceiro mandato de Lula, ocupa novamente a pasta do Trabalho. Também foi prefeito de São Bernardo do Campo de 2009 a 2016. Ele admite que sua convivência com Lula fora dos compromissos oficiais já não é mais tão frequente, mas considera que isso é “normal”. Também garante que seu amigo seguiu sempre interessado pelo Sindicato dos Metalúrgicos e seus dirigentes: “Nunca deixou de existir o carinho, a amizade.”

Entre as grandes amizades que Lula cultiva em São Bernardo, está um ex-metalúrgico que se tornou dono de um restaurante. Juno Rodrigues Silva, o Gijo, conhece Lula desde os anos 1970. Em seu estabelecimento, mantém, com orgulho, uma mesa cativa, de número 01, para receber o amigo famoso em suas passagens pela cidade. A chuleta da casa é um dos pratos preferidos de Lula, que a pedia com frequência quando morava em São Bernardo. Em março, no sindicato, o presidente reencontrou Gijo e lembrou a antiga amizade com o “companheiro de lutas”. A chuleta, porém, ficou para uma próxima visita.



Lula já era presidente do PT em 1985, quando Moisés Selerges Júnior começou a trabalhar na área de pintura de chassi de caminhão na fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo. Ele só começou a se aproximar de Lula durante o segundo mandato do petista no Palácio do Planalto. Hoje, é um dos poucos cidadãos brasileiros que têm a liberdade de se dirigir ao presidente da República com um sonoro palavrão (ele prefere não revelar qual). “Faço na brincadeira, e com todo o respeito”, ressalva Selerges. “É uma característica minha e acho que isso me aproximou mais dele. Eu não penso, na hora, que estou conversando com o presidente da República ou com o rei da Inglaterra. Sei lá, para mim é igual. Converso como se conhecesse a pessoa há uns trezentos anos.”

Selerges conta que foi o presidente quem o encorajou a ser candidato, seguindo os exemplos de Meneguelli, Vicentinho e Marinho. Ele diz que Lula ambiciona construir uma Frente Parlamentar dos Trabalhadores na Câmara, para fazer frente à bancada evangélica, à da bala, das bets e do boi. Planos políticos à parte, Lula converteu Selerges em uma espécie de assessor presidencial para assuntos são-bernadenses. Liga para ele quando quer o contato de alguma pessoa da cidade, ou quando precisa de ajuda em suas visitas oficiais. Selerges era convidado, às vezes, para ir ao sítio Los Fubangos, antigo refúgio às margens da represa Billings que a família de Lula mantém no bairro do Riacho Grande, em São Bernardo. 

Em 2020, depois de deixar a prisão em Curitiba, Lula buscou o amigo para que ele o ajudasse a fazer um programa muito brasileiro: ir a um boteco. Não é coisa trivial quando se trata de um político tão conhecido e tão reconhecível, sujeito a ser assediado tanto por fãs inconvenientes quanto por adversários agressivos. Entre amigos, Lula lamenta, por exemplo, a impossibilidade de assistir a um filme no cinema.

“Por acaso, eu ia completar 54 anos [no dia 3 de julho]. O que eu fiz, então? Decidi fazer minha festa num bar em São Bernardo, o Adoniran. Fechei o boteco”, conta o sindicalista. Foram convidados apenas os familiares do aniversariante e do seu amigo, além de integrantes do Instituto Lula, entidade que conserva o acervo do presidente. A celebração teve o gosto da liberdade: era a primeira festa com amigos próximos desde que Lula deixara a prisão, em novembro de 2019.

A intimidade de Selerges com Lula se estendeu à família. O cigarro o aproximou de Marisa Letícia, segunda mulher do presidente, falecida em 2017, por causa de um acidente vascular cerebral. Quando Lula fazia reuniões no sindicato, Selerges deixava o auditório de tempos em tempos para fumar do lado de fora, junto com a então primeira-dama. Marisa às vezes pedia que o companheiro tabagista encerrasse logo os eventos do dia, antes que Lula se alongasse nos discursos. Hoje, segundo Selerges, Janja pede a mesma coisa. 

Em 2011, já encerrado o segundo mandato presidencial, Lula foi diagnosticado com um câncer de laringe. Os amigos de São Bernardo, onde ele morava então, correram para ajudá-lo no pós-tratamento. A quimioterapia e a radioterapia causaram perda de musculatura nas pernas, com redução de mobilidade. Os médicos recomendaram exercícios físicos diários. Luiz Marinho, então prefeito de São Bernardo, sugeriu que o amigo utilizasse os equipamentos da sede do São Bernardo Futebol Clube, na época presidido por Luiz Fernando Teixeira, deputado estadual do PT. Tempos mais tarde, o sindicato dos metalúrgicos – por coincidência, dizem seus dirigentes – decidiu montar um centro de treinamento para os associados, em parceria com uma academia. Lula passou a se exercitar lá, e Selerges, então diretor administrativo do sindicato, o acompanhava. De início, Luiz Marinho também aderiu à malhação, mas logo desistiu. “Ele relaxou e parou”, comenta Selerges.

Lula, ao contrário, não parou mais. Levou para Brasília os treinadores que trabalhavam para o time local: o preparador físico Marcos Gomes, o “Marquinhos”, e o fisioterapeuta Leandro Dias. A dupla orienta os exercícios que o presidente faz às cinco da manhã, no Palácio da Alvorada. Imagens de Lula nos pesos e aparelhos vêm sendo divulgadas por sua assessoria, para mostrar que ele está em forma para um quarto mandato.



Nos últimos meses, antes da eleição, Lula chamou Selerges para conversas sobre o futuro político do ex-metalúrgico. “De vez em quando, quando ele pede, eu vou. Fico em um hotel, mas passo o dia lá com ele”, diz Selerges. O desejo de ajudar o amigo não se limita ao campo político: Lula cedeu a Selerges o apartamento onde morou em São Bernardo.

Em 2017, quando nasceu a filha de Selerges, Lula visitou o amigo e não gostou do que viu: a casa, em um bairro modesto de São Bernardo, não tinha mesa nem sofá. O sindicalista diz ter respondido que gostava da vida simples, e que ele e a mulher estavam acostumados a dormir na rede. Lula se mostrou irredutível: disse que, como dirigente do sindicato, Selerges precisava morar em um lugar confortável – e, de preferência, mais bem mobiliado. Contou, então, que certa vez, em seus tempos de sindicalista, recebeu em sua casa um empresário que se sentou em um sofá rasgado. “Ele [Lula] me disse que colocou um pano no sofá, mas o empresário ficou escorregando o tempo todo”, recorda Selerges. 

O sindicalista só aceitou se mudar para o apartamento de cobertura depois de muita insistência de Lula, que recorreu a um argumento afetivo: queria que uma pessoa de sua confiança cuidasse do lugar onde viveu por anos ao lado de Marisa e dos filhos. Selerges topou, com a condição de pagar aluguel. O valor combinado foi de 2 mil reais mensais, bem abaixo do mercado. Segundo um corretor local, a locação de um apartamento semelhante é estimada em cerca de seis mil ao mês.

Lançado candidato a deputado federal, Selerges dividiu raia com Vicentinho, outra cria do sindicalismo do ABC e veterano na Câmara, cumprindo hoje seu sexto mandato consecutivo. Para não parecer que os dois estavam disputando o mesmo eleitorado, apoiadores de Selerges passaram a comentar que a atuação de Vicentinho hoje vai além das questões trabalhistas, envolvendo, entre outros temas, o combate ao racismo e à intolerância religiosa.

 Luiz Marinho também foi aventado como candidato a deputado federal por São Paulo, o que só aumentaria a concorrência entre políticos de origem sindicalista. Mas em dezembro do ano passado, antes que Marinho pensasse em se desincompatibilizar do ministério para disputar a eleição, Lula o chamou para uma conversa. Disse que precisava dele na pasta do Trabalho. “Mas quem a gente lança como deputado?”, perguntou Marinho, segundo ele próprio se recorda. Lula respondeu de pronto: “Coloca o Moisés.” Marinho seguiu questionando: “Mas ele se elege?” O presidente respondeu com um trocadilho: “O nome dele não é Selerges? Então, ele se elege.”

Não foi o que aconteceu. Tanto Selerges (89,9 mil votos) quanto Vicentinho (68,5 mil) pararam na suplência.


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Jornalista, é autor de “O Reino – a história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal” (384 pgs, Companhia das Letras)