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UM MATADOR NA ASSEMBLEIA DE GOIÁS

Eleito deputado estadual, ex-chefe da segurança de Caiado foi investigado por 24 homicídios – entre eles, o de um delator do PCC
Edson Raiado se elegeu pelo PSD, meses depois de ser denunciado por triplo homicídio qualificado, abuso de autoridade e falsidade ideológica - Crédito: Reprodução
Edson Raiado se elegeu pelo PSD, meses depois de ser denunciado por triplo homicídio qualificado, abuso de autoridade e falsidade ideológica - Crédito: Reprodução

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A cena parece saída de Tropa de elite. À noite, no meio da mata escura, um grupo de policiais marcha, iluminado por uma luz branca, forte e piscante. Em coro, eles repetem os versos entoados por um oficial: “Matar o bandido/ Acende uma vela/ Bota ele na mala/ Eu vou pra estrada velha/ Eu tenho uma notícia/ De um corpo baleado/ E a testemunha/ Aponta o caçador/ Eu quero a testemunha/ Na sexta-feira à tarde/ Caçando esse covarde/ Se eu pego eu atiro/ Sem dó nem compaixão/ Minha emoção é zero/ O verdadeiro inferno.”

À frente do grupo está o então tenente-coronel Edson Luís Souza Melo, conhecido como Raiado. Quando o vídeo foi gravado, em maio de 2023, ele chefiava o Comando de Operações de Divisas (COD), uma unidade da PM de Goiás cujos integrantes são conhecidos como “caçadores”. Agora, acaba de se eleger deputado estadual pelo PSD, com 32.717 votos. A gravação não prejudicou sua campanha, embora seja uma exaltação de práticas flagrantemente ilegais, como matar testemunhas. Há muitos anos, Raiado é um vocal defensor da truculência policial. “Acredito que a polícia deve matar mais. Deve matar mais, no sentido de bandido, né?”, disse em 2022, quando tentou, sem sucesso, uma vaga de deputado federal pelo Avante.

Agora, um levantamento feito pela piauí mostra que Raiado foi além das palavras. Entre 2014 e 2023, participou diretamente de treze ocorrências em que houve “morte decorrente de intervenção policial” – isto é, homicídios pelas mãos da polícia. Nessas treze ocorrências foram registradas 24 mortes. O levantamento foi feito com base em processos judiciais e na ficha funcional de Raiado. Não é possível saber quais mortes foram causadas por balas disparadas por ele. Em nenhum desses casos houve um policial morto ou ferido – fato notável, considerando que, segundo a versão oficial da PM, todas as mortes aconteceram durante trocas de tiros, tendo os policiais apenas reagido a disparos de criminosos.

A alta letalidade não atrapalhou a carreira de Raiado. Pelo contrário: em fevereiro de 2021, ele foi nomeado chefe da segurança do governador Ronaldo Caiado (PSD), função que desempenhou até março de 2022. Ficou famoso nacionalmente por ter comandado o grupo que matou o assaltante Lázaro Barbosa depois de dias de perseguição na mata, em 2021, e aproveitou o embalo para se lançar candidato. Nunca foi repreendido publicamente pelo chefe por suas declarações. Tornou-se, em vez disso, retrato de uma mudança na política de segurança pública de Goiás, que nos últimos anos se tornou mais violenta. Em 2015, o estado registrou 151 mortes causadas pela polícia. O número teve saltos expressivos até 2021, segundo ano de governo Caiado, quando chegou a 611. Desde então, vem caindo, mas ainda num patamar muito superior ao de dez anos atrás (em 2025, por exemplo, foram 362 mortes). Hoje, Goiás é o quinto estado com maior número de vítimas desse tipo no país, de acordo com os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Raiado ingressou na PM de Goiás em 2010, depois de ter servido como guarda municipal em Goiânia. Na polícia, fez um curso de dois anos para oficiais e se tornou segundo tenente. Em julho de 2014, passou a atuar na Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas). Foi quando adotou o codinome Raiado – uma referência, segundo ele, ao raio que estampa os escudos do batalhão. Já no mês seguinte, teve a sua primeira “resistência seguida de morte”, quando ele e sua equipe atiraram em um homem suspeito de assaltar uma chácara. Em 2015, veio sua primeira chacina: Raiado comandou um grupo de dezenove policiais que mataram quatro jovens no Setor Balneário Meia Ponte, na capital goiana. Segundo reportagens da época, as vítimas eram suspeitas de envolvimento na morte do filho de dois PMs, ocorrida uma semana antes.

A piauí teve acesso aos inquéritos que investigaram nove das treze ocorrências com mortes envolvendo Raiado e seus comandados. Em quase todas essas investigações, conduzidas pela própria PM ou pela Polícia Civil, repetiu-se um padrão: não foram ouvidas testemunhas oculares, não foi feita perícia no local do ocorrido, não se buscaram imagens de câmeras de segurança que pudessem esclarecer a circunstância das mortes. Na maioria das vezes, os únicos depoentes foram os próprios policiais. Em todas, as vítimas foram levadas a hospitais, mesmo quando já estava claro que haviam morrido – caso do assaltante Lázaro Barbosa, socorrido depois de levar mais de trinta tiros.

Apesar disso, todas as investigações contra Raiado foram arquivadas prontamente – com uma única exceção. Em 2023, a morte de um delator do PCC pôs o coronel na berlinda.



A história começa em 2018. No começo daquele ano, o piloto Felipe Ramos Morais, que fez fortuna transportando drogas para o PCC, foi escalado para uma missão especial por seu chefe, o traficante Wagner Ferreira da Silva, conhecido como Cabelo Duro. Ele deveria levar Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e seu aliado Fabiano Alves de Souza, o Paca, para a Bolívia, onde os dois supervisionavam remessas de cocaína. A dupla estava no litoral cearense, e Morais os buscou de helicóptero. O voo partiu de Fortaleza rumo ao país vizinho, mas, depois de poucos minutos, a pretexto de abastecer o tanque, Morais pousou numa área de mata. Era uma emboscada, como mostrou uma reportagem da piauí em 2020. Assim que a aeronave pousou, saíram da mata quatro homens armados com pistolas calibre 9 milímetros. Paca e Gegê, esse último considerado na época o mais importante integrante do PCC em liberdade, foram mortos com dezenas de tiros.

O assassinato deu início a uma guerra fratricida na facção paulista. Traficantes ligados a Paca e Gegê mataram Cabelo Duro dias depois, no Jardim Anália Franco, Zona Leste de São Paulo. Temendo ser o próximo da lista, Morais fugiu. Seu paradeiro só foi descoberto meses depois, quando ele foi preso pela polícia em Caldas Novas (GO) e levado para a penitenciária federal de Campo Grande (MS). Fechou um acordo de delação premiada e, como contrapartida, pôde aguardar em liberdade o julgamento do caso Gegê e Paca.

Depois de algum tempo, Morais se mudou para Goiânia, onde passou a trabalhar fazendo voos panorâmicos, com o auxílio de Paulo Ricardo Pereira Bueno, mecânico de aeronaves, e Nathan Moreira Cavalcante. “O Felipe [Morais] afirmava que se sentia mais seguro em Goiânia do que quando vinha a São Paulo nos visitar, talvez pelo fato da grande presença do PCC na capital paulista”, disse à piauí o pai dele, Carlos Alberto das Neves Morais.

O piloto não sabia, mas o risco de morte em Goiás era iminente – só que não pelas mãos da facção. Em 17 de fevereiro de 2023, ele e seus dois colegas de trabalho foram assassinados a tiros pela Polícia Militar, em uma chácara do condomínio residencial Buena Vista II, em Goiânia. Dois policiais efetuaram os disparos: Edson Raiado e o major Renyson Castanheira Silva, na época seu braço direito no Comando de Operações de Divisas.

A versão oficial do que aconteceu naquela tarde, às vésperas do Carnaval, é simples e objetiva. Segundo a PM, uma denúncia anônima informou que a chácara vinha sendo usada como entreposto para o tráfico de drogas por meio de helicópteros. Raiado e Silva decidiram então ir até o local para averiguar a denúncia. Ao chegar, viram um helicóptero com o motor ligado e três homens fugindo em uma caminhonete. O trio, reagindo à aproximação da polícia, passou a atirar. “De pronto”, Raiado e seu colega “revidaram a injusta agressão, fazendo cessar a atividade criminosa”, diz o registro da ocorrência da Polícia Civil.

Minutos depois, os policiais acionaram o Samu. Ao chegarem ao local, os paramédicos encontraram as vítimas fora da caminhonete, estiradas no chão. Estavam mortas. Na chácara, havia ainda outros dois helicópteros. Em um deles, a polícia disse ter encontrado cinco quilos de cocaína. Raiado se vangloriou. “Hoje está sendo dado um duro golpe no tráfico internacional de drogas”, disse ao programa Brasil Urgente, da TV Band. 

Mas o que ocorreu foi exatamente o contrário: a operação foi um duro golpe na investigação do tráfico internacional de drogas. Na época, a Justiça Federal aguardava um novo depoimento de Morais para decidir se validava seu acordo de delação premiada. A demora se devia ao fato de que, depois de topar a colaboração, Morais havia recuado, dizendo ter sido coagido pela polícia (denúncia que nunca comprovou). Procuradores envolvidos no caso ainda tinham esperança de que um acordo fosse possível. Em seus primeiros depoimentos, Morais havia feito revelações importantes sobre os vínculos do PCC com empresários do setor de combustíveis, em São Paulo, dando origem à Operação Rei do Crime, em 2020. Com sua morte, a investigação ruiu, e os empresários investigados ficaram impunes. A Rei do Crime serviu de base para outra investigação de lavagem de dinheiro no ramo de combustíveis, a Carbono Oculto, dessa vez com um braço importante no interior de Goiás.

As contradições da polícia sobre o que ocorreu na chácara ficaram claras desde o primeiro momento, graças à perícia. A primeira delas: as três pistolas supostamente utilizadas por Morais e seus colegas estavam com munição máxima, repousadas no banco traseiro da caminhonete. Ou seja, não haviam dado um tiro sequer. A segunda: o carro tinha apenas duas marcas de tiros, enquanto os corpos foram encontrados com quinze, ao todo – o que sugere duas possibilidades: ou os policiais eram dotados de uma pontaria digna de snipers do mais alto escalão, ou as vítimas não foram mortas dentro da caminhonete. A terceira contradição reforça essa última suspeita: as três vítimas foram atingidas pelas costas.

A perícia, contudo, não pôde concluir o trabalho como deveria. Quando chegou à chácara, duas horas depois do ocorrido, quase todos os estojos (recipientes que guardam a espoleta e a pólvora) das munições dos policiais haviam sido recolhidos. Isso impediu que os peritos identificassem a exata localização dos dois PMs na suposta troca de tiros. O delegado Alexandre Bruno de Barros, que havia assumido a Delegacia de Homicídios oito dias antes, colheu o depoimento de Raiado e Silva, mas não perguntou sobre os estojos. Ignorou, além disso, uma informação relevante no depoimento da viúva de Bueno: ela disse que o marido havia trabalho com Raiado anos antes, no conserto de aeronaves do Grupamento de Radiopatrulhamento Aéreo (Graer), e que certa vez o coronel o presenteou com um livro.

Bueno utilizava um iPhone quando foi morto, mas, segundo a mãe de Cavalcante, a professora Viviane Cavalcante de Jesus Almeida Moreira, sua viúva recebeu da polícia um outro aparelho, da marca Samsung. A troca nunca foi explicada, e o conteúdo das conversas do iPhone nunca foi anexado ao inquérito. Já no aparelho de Cavalcante não foram encontrados indícios de crimes, apenas conversas com Morais sobre os voos panorâmicos. Nem Bueno nem Cavalcante tinham antecedentes criminais. 

Apesar das contradições gritantes nos depoimentos dos policiais e das falhas na investigação, o delegado Barros concluiu que Raiado e Silva agiram em legítima defesa. “De maneira geral, a dinâmica das versões apresentadas é compatível com os depoimentos colhidos na delegacia. Foram acrescentados detalhes, mas de maneira geral não foram detectadas contradições”, escreveu, sugerindo, por isso, o arquivamento do inquérito. O Ministério Público concordou, e em 18 de agosto de 2023 a Justiça arquivou a investigação.

Quatro meses depois, porém, o promotor Luís Guilherme Martinhão Gimenes, que tinha acabado de assumir o caso, recebeu o resultado de um exame residuográfico que constatava a ausência de resíduo de pólvora nas mãos de Felipe Morais – uma prova cabal de que o piloto não havia disparado nenhum tiro contra os policiais. O promotor também anexou ao caso uma carta escrita pela mãe de Cavalcante, Viviane Moreira, em que ela elencava falhas na investigação da Polícia Civil, depois de ter decidido investigar o caso por conta própria. “Eu não poderia deixar de buscar justiça para o meu filho”, ela disse à piauí. 

Moreira descobriu uma testemunha ocular da ocorrência: um morador de uma chácara ao lado que, segundo ela, fugiu de moto depois de ouvir os tiros, com medo dos policiais. A mãe de Cavalcante também cobrou a falta de perícia no interior da caminhonete e questionou como era possível que seu filho estivesse dentro do veículo, já que ele foi alvejado no tornozelo e na planta de um dos pés. Um laudo feito pelo perito Ricardo Molina a pedido da advogada Mariza Almeida Ramos Morais, mãe do piloto, constatou que parte dos tiros foram disparados quando os três já estavam rendidos, deitados e de costas. A perícia da Polícia Civil não havia analisado a direção dos tiros no corpo das vítimas.

Com base nos laudos e nos questionamentos da mãe de Cavalcante, o Ministério Público pediu a reabertura da investigação, que foi aceita pela Justiça. Dessa vez, peritos analisaram o interior da caminhonete e concluíram que não havia ali nenhum vestígio de sangue. O procurador Gimenes, enquanto isso, pediu à Polícia Civil que encontrasse a testemunha ocular descoberta por Moreira. A tarefa, no entanto, coube ao delegado Marcus Vinicius Cardoso do Nascimento, o novo chefe da Delegacia de Homicídios. Nascimento é um antigo colega de Raiado e participou, com ele, da matança de quatro rapazes em Goiânia, em 2015. Por mais de um ano, protelou o pedido de Gimenes, a ponto de o procurar acusá-lo de omissão à corregedoria da Polícia Civil. Somente em fevereiro deste ano, passados três anos do ocorrido, a testemunha foi ouvida por Nascimento. Negou ter presenciado a ocorrência, dizendo que um dos policiais ordenou que ele se abaixasse. 

Em abril, o Ministério Público ouviu uma segunda testemunha ocular, cujo depoimento está sob sigilo, e denunciou Raiado e Silva por triplo homicídio qualificado. Os dois também foram denunciados, em julho, pelos crimes de abuso de autoridade e falsidade ideológica – este último devido à suspeita de que alteraram a cena das mortes (segundo a denúncia, além de sumirem com os estojos das balas, os policiais mudaram os corpos de posição antes da chegada do Samu e inseriram na chácara armas que fingiram ser das vítimas).

Sob condição de anonimato, para evitar retaliações, um oficial da PM goiana afirmou à piauí que, antes de serem mortos, Morais e seus colegas vinham sendo monitorados pela polícia. Segundo ele, um agente ficou encarregado de acompanhar a rotina dos três, enquanto outros preparavam a “morte assinada” de Morais – jargão da PM para se referir a assassinatos em confrontos forjados. A informação não consta no inquérito. A piauí apurou que, no dia seguinte à segunda denúncia contra Raiado e Silva na Justiça, homens a bordo de uma caminhonete fizeram disparos contra a casa de um PM que havia vigiado Morais – o que os investigadores interpretaram como uma tentativa de intimidação contra ele.

Procurado pela piauí, o promotor Luís Guilherme Gimenes não quis dar entrevista. O delegado Marcus Vinicius Cardoso do Nascimento negou ter protelado o depoimento da primeira testemunha ocular. “Pelo contrário. Fiz todas as [diligências] que foram solicitadas. Essa testemunha ninguém tinha encontrado por mudar de estado e  minha equipe conseguiu encontrá-la”, disse à piauí. Alexandre de Barros não foi localizado. No mês passado, ele foi afastado da Polícia Civil por suspeita de desviar cargas apreendidas.



Demóstenes Torres, ex-senador cassado em 2012 por acusação de envolvimento com o jogo do bicho, assumiu a defesa do coronel Edson Raiado. No final de julho, ingressou com um pedido de habeas corpus para trancar o inquérito. O pedido foi aceito em votação unânime pelos quatro desembargadores da 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás. O relator, Fernando César Rodrigues Salgado, afirmou que Raiado passava por um “constrangimento ilegal” com a reativação do inquérito e, num malabarismo jurídico de difícil compreensão, afirmou que a investigação havia sido arquivada por “autêntico juízo de mérito sobre a inexistência de crime, e não de mero arquivamento por falta de provas”.

Salgado tem um histórico de decisões favoráveis a policiais. Em 2012, quando era juiz de primeira instância, absolveu dezessete policiais militares alvos da Operação Sexto Mandamento, da PF, acusados de participar de um grupo de extermínio em Goiás. Na época, Salgado foi investigado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e absolvido anos depois – mas, como a sindicância tramitou em sigilo, não é possível saber do que tratava.

Entre os quatros desembargados que julgaram o caso também estava Adriano Roberto Linhares Camargo. Em novembro de 2023, Camargo fez duras críticas à polícia goiana durante um outro julgamento que tratava de possíveis abusos cometidos pela PM. “Aliás, aqui vai uma reflexão pessoal: para mim, tem que acabar a Polícia Militar... e instituir uma forma diferente de atuação na área da investigação e repressão ao crime […] A Polícia Militar de Goiás é invisível. Vejam nos jornais a quantidade de confrontos e ninguém leva um tiro... morrem quatro, cinco, seis... não é por preparo não... nós sabemos por que é.”

Camargo pagou um preço alto pela declaração. “Respeita a Polícia Militar do estado de Goiás que está sob meu comando. Quem responde por ela sou eu!”, esbravejou o governador Ronaldo Caiado, em um vídeo publicado no Instagram. Caiado disse que Camargo era qualificado para ser desembargador e insinuou que ele tinha ligação com “as forças do crime”. Sob pressão, o presidente do tribunal, Carlos Alberto França, afastou Camargo da função, alegando que sua fala poderia “incentivar os ofensores da lei e criminosos a continuar sua empreitada”. Pouco tempo depois, o CNJ lhe devolveu o cargo.

O desembargador e sua família, enquanto isso, passaram a receber ameaças, segundo a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). A situação só acalmou quando Camargo se retratou publicamente. Poucos meses depois, em abril de 2024, o processo administrativo que corria contra ele no Tribunal de Justiça foi arquivado. No julgamento sobre Raiado, o desembargador não repetiu as críticas de outrora. Apenas acompanhou o relator, pondo um ponto final nas investigações. O Ministério Público, porém, está recorrendo da decisão.

A repercussão das mortes da chácara, em 2023, não foi o suficiente para parar Raiado. Em junho daquele ano, três meses depois do ocorrido, o policial participou de uma outra chacina, novamente com três mortos, em Goiânia. Em 2024, já com a experiência de ter trabalhado para Caiado, coordenou a segurança do então candidato a prefeito de São Paulo Pablo Marçal (PRTB). No mesmo ano, foi promovido a coronel, patente mais alta da PM.

A piauí enviou nove perguntas para a defesa de Edson Raiado a respeito das circunstâncias das treze ocorrências com mortes das quais participou. Pediu também esclarecimentos sobre o caso de Felipe Morais, incluindo os indícios de adulteração da cena da morte. Em resposta, o advogado Demóstenes Torres encaminhou uma nota afirmando apenas que o Tribunal de Justiça havia ratificado o arquivamento do inquérito sobre Morais. Indagada sobre as falhas nas investigações desse caso e a alta letalidade da Polícia Militar, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não respondeu à reportagem.

Em nota, a defesa do major Renyson Castanheira Silva, que participou da operação na chácara ao lado de Raiado, afirmou que a ausência de resíduos de pólvora nas mãos de Felipe Morais não indica necessariamente que ele não tenha atirado. “O laudo de local [feito na chácara] concluiu pela dinâmica típica de confronto com troca de tiros. O laudo de reprodução simulada concluiu que as versões convergem entre si e que os vestígios do local e o ponto de repouso dos corpos são compatíveis com o que foi narrado [pelos policiais]”, afirma o advogado Luís Alexandre Rassi. Nem Raiado nem Castanheira explicaram por que, então, as armas atribuídas a Morais e seus colegas estavam com munição máxima, como apontou a perícia feita na chácara logo depois da ocorrência.

O governador Ronaldo Caiado, em nota enviada à piauí, enalteceu a política de segurança do estado, sem responder sobre a alta letalidade de sua PM. Goiás, segundo ele, “tem hoje a melhor segurança pública do país e deixou de ser “a Disneylândia dos bandidos”.


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Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)