Montagem: Pedro Moro/Reprodução
Montagem: Pedro Moro/Reprodução

vultos do voto

MISSÃO: ATENÇÃO A QUALQUER CUSTO

O MBL opera a campanha de Renan Santos (online e offline) como um apelativo perfil de TikTok

11 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

“Jovens estão lucrando mais de R$ 3.000 por mês produzindo cortes virais com esse método.” A frase parece saída de um dos tantos golpes que proliferam na internet, mas não é bem o caso: ela apareceu no site da Valete, uma revista produzida pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Como revelou o Intercept Brasil, tratava-se de um anúncio do curso Máquina de Cortes, que prometia ensinar qualquer um a virar “um “engenheiro de narrativas” e ganhar dinheiro editando cenas curtinhas para redes sociais, cortadas de cenas maiores, como sabatinas e podcasts. Um dos garotos-propaganda era Renan Santos, fundador do MBL e hoje candidato à Presidência da República pelo partido Missão, cuja estratégia de campanha se baseia primordialmente em produzir cortes e fazer com que outros perfis façam cortes em que ele apareça como bambambã. “O nosso objetivo aqui é montar uma espécie de faculdade que te garanta um emprego tão logo você se forme, para você aprender a fazer cortes, construí-los e trabalhar conosco divulgando o nosso conteúdo”, disse ele, em um vídeo.

O curso espelha a estratégia de influenciadores como Pablo Marçal e Virgínia Fonseca, que já estimularam seus seguidores a editar e divulgar trechos de vídeos seus – oferecendo, sempre, uma contrapartida. No caso de Fonseca, os editores eram agraciados com likes da influenciadora e, eventualmente, produtos cosméticos. Com Marçal, o pagamento era em dinheiro mesmo, prática vetada pela Justiça Eleitoral e que resultou em sua inelegibilidade, em 2024. O MBL, por sua vez, não fazia nem uma coisa nem outra: apenas prometia que, ao aprender as técnicas do curso, os “engenheiros de narrativa” poderiam faturar alto com o TikTok e o YouTube, que remuneram vídeos com muitas visualizações.

Depois da revelação do Intercept, há duas semanas, a página com o anúncio saiu do ar, sem que o MBL explicasse o motivo. Mas nem por isso os cortes perderam protagonismo na campanha de Santos, que desde o início do ano tem cobrado a militância a produzi-los. “Clipador, você quer ganhar a eleição? Tem que voltar a fazer corte. Tem que fazer clipe. Tem que fazer material. É guerra”, disse o presidenciável em fevereiro, em um podcast do MBL. “Se eu abrir o Instagram de todos os candidatos, [eles] têm cinco conteúdos por dia. Se eu faço de quatro a cinco [por dia], vocês têm que fazer também. A gente tem que acelerar nossa produção”, reforçou no começo de agosto, ao discursar para apoiadores durante um evento em Curitiba, no qual a piauí esteve presente. “Vocês me deem a droga do teu trabalho que eu dou pra vocês a porra da Presidência da República!”

A estratégia ganhou um impulso no mês passado, quando o Missão lançou um aplicativo próprio. Nele, os militantes são apresentados a uma lista diária de tarefas, como assistir a um documentário biográfico de Santos e repostar conteúdos nas redes. Essas “missões” lhes conferem “XP”, como diz o app, pegando emprestado o linguajar dos videogames. Os militantes mais produtivos são ranqueados a nível municipal, estadual e nacional. Se quiserem, podem acessar uma aba onde são compilados cortes de Santos sobre qualquer assunto que se possa imaginar. Eles são catalogados por tema, região do Brasil e palavras-chave. “Encontre em segundos o argumento certo para qualquer conversa”, diz a descrição do aplicativo, apresentado nas lojas virtuais como “o arsenal da militância”.

Não é a invenção da roda. Hoje, todas as grandes campanhas tentam, com maior ou menor intensidade, transformar vídeos triunfantes em virais no YouTube, no TikTok e no Instagram. No caso de Santos, porém, essa estratégia não guia apenas a forma, mas também o conteúdo da campanha.



Do lado de fora do Arena Hall Curitiba, no sábado, 8 de agosto, o dia era dos mais calmos. Chovia e fazia frio. Uma fila de jovens rapazes tomava a Rua Jorge Felipe Daher Filho, onde acontecia a primeira convenção do Missão em solo paranaense. Do lado de dentro, o evento pegava fogo. Passar pelos portões do Arena Hall era como mergulhar de corpo inteiro num feed infinito do TikTok, com o som e o brilho no máximo, no qual conteúdos aleatórios se intercalam conforme o usuário desliza o dedo sobre a tela.

De um lado, onças de pelúcia estampadas com a frase “Prendeu, matou”. Você piscava e via jovens vestindo fraques, como em casamentos à moda antiga. Piscava de novo: os alto-falantes tocavam Apesar de você, de Chico Buarque. Piscava: nas cabeças, bonés em inglês pedindo “uma teocracia feudalista, tecnocrática e militarista, governada por um CEO-monarca”. Piscava: num estande montado de improviso, exemplares da revista Valete estavam à venda por 100 reais cada um.

Era uma roda-viva aleatória emulando códigos que iam do esquerdista ao reacionário em meio segundo.

O Missão tem feito uma ação maciça de engajamento desde o começo do ano, na tentativa de furar a polarização entre os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro e se impor como uma novidade. Nessa estratégia, o partido põe fichas em uma variedade enorme de casas para tentar pegar o eleitor por alguma veia, e também para chamar a atenção, a qualquer custo, com um discurso que é tudo, menos anódino.

Na convenção viam-se poucas mulheres e muitos garotos, quase todos brancos. Políticos e militantes do Missão se sucediam no palco – entre eles uma única mulher, a vereadora paulistana Amanda Vettorazzo (União). No palco, adversários como Lula, Sergio Moro e Flávio Bolsonaro eram descritos em termos como “rato”, “virgem no puteiro”, “espinha de geleia”, “bosta”, “burro”, e “maldito”. É o tipo de expressão que também costuma aparecer em prévias de vídeos no YouTube e nas redes, para atrair e estimular o clique. Passar despercebido, jamais. Ao ouvi-las ao vivo, o público reagia com gargalhadas e gritos.

Nas redes, vez ou outra o Missão apela para os rage baits (iscas de raiva), uma estratégia meio kamikaze na qual um vídeo começa com alguém dizendo algo que causará raiva, choque ou irritação no espectador, para fazê-lo continuar no vídeo e depois mostrar que não é bem assim. Um exemplo: Santos é abordado por um rapaz que lhe pergunta se existe alguma mulher que ele admira. O candidato fica sem palavras por alguns segundos, fazendo de propósito o papel de um machista que só sabe valorizar homens. Em seguida, dá uma aula detalhando as qualidades da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Nessa autopegadinha, Santos faz o público se manter no vídeo pela raiva, para depois ser surpreendido com seu discurso (nesse caso, de admirador de uma mulher forte).

O tom exagerado das redes está em tudo, a começar pelo programa de governo. Recentemente, o candidato disse querer construir “o maior presídio do mundo” no Ceará. Outro dia, falou em recriar o estado da Guanabara. Contra criminosos, prometeu um “banho de sangue”. Quer “desfavelizar” o Brasil, reduzir o número de municípios de 5,7 mil para apenas 1,6 mil e extinguir as cotas universitárias. Ao chocar com suas propostas, Santos tem dupla vantagem: atrai simpatizantes, e coloca os antipatizantes para comentar em seus posts, ampliando o engajamento de seu discurso.

Por vezes, os contra-ataques vêm na mesma chave. Alguns usuários viralizaram ao apontar que Santos, quando está com o cabelo desgrenhado e a barba por fazer, parece o personagem João Canabrava, um bêbado interpretado pelo humorista Tom Cavalcante (“Gêmeos”, “separados por uma latinha de Pitú”, diz o perfil Esquerda Sexy, na rede Threads).

No dia 16 de agosto, quando teve início a campanha eleitoral, o candidato promoveu um ato no Largo São Francisco, em São Paulo – lugar símbolo da luta pela democracia, e não por uma teocracia feudalista e militarista. Estudantes da USP e sindicalistas se manifestaram contra o ato, o que serviu de combustível para que Santos gravasse um vídeo debochando e dizendo ser perseguido. Para piorar, sua assessoria de imprensa divulgou de antemão que ele faria uma performance musical “em estilo Bob Dylan” – símbolo da contracultura que a direita sempre combateu com unhas e dentes. Existe aí uma boa dose de rage bait – ou desaforo mesmo.

Santos tem 42 anos e nunca ocupou cargo público. Inexperiente na política e desconhecido da maior parte da população, tenta fazer o máximo de barulho possível para se descolar dos demais postulantes da direita. Nas redes, a estratégia tem dado certo. Entre os presidenciáveis da direita, ele foi o único que, em alguns momentos dos últimos três meses, ultrapassou o engajamento de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Instagram. Foi também o que mais cresceu, saltando de 6 milhões de interações entre fevereiro e maio para 31 milhões entre maio e agosto, segundo a plataforma Semrush. 

Na vida real, ele não conseguiu decolar. Na última pesquisa Datafolha, divulgada em 21 de agosto, apareceu com 4% das intenções de voto no primeiro turno, enroscado na margem de erro com os governadores Ronaldo Caiado (5%) e Romeu Zema (4%).

O Missão não informa quantas pessoas trabalham na campanha digital de Santos. O partido, que tem direito a cerca de 3 milhões de reais do fundo eleitoral, diz que abriu mão da verba pública.

Em vez disso, está angariando doações de apoiadores – até agora, declarou ter recebido 2,2 milhões de reais, nas prestações de contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É provável que a vaquinha engorde nas próximas semanas, já que Santos tem se enturmado com pesos pesados da Faria Lima. José Olympio Pereira, banqueiro de 64 anos que até o começo do ano presidia o banco Safra, compareceu ao lançamento de sua candidatura e o apresentou a outros empresários. João Landau, filho da economista Elena Landau e sócio-fundador da Vista Capital, também é um apoiador entusiasmado de Santos.

Candidato a deputado federal pelo Missão, Pedro Deyrot, um curitibano de 42 anos, se orgulha de ter ajudado a construir o estilo de comunicação do partido. Há pouco mais de dez anos, era um dos integrantes do Bonde do Rolê, grupo musical que ganhou notoriedade por suas letras debochadas e uma mistura de funk, indie e eletrônico. 

Um dia ele conheceu Alexandre Santos, um estudante de cinema que trabalhava com campanhas publicitárias e videoclipes. Por tabela, conheceu também o irmão de Alexandre, o agora presidenciável Renan Santos. Na época, Renan estava engajado na campanha de um candidato a deputado, e Deyrot, junto com Alexandre, passou a produzir materiais para ajudá-lo.

“Resolvi aplicar algumas das ideias que eu tinha desenvolvido trabalhando com bandas”, diz Deyrot. E foi essa decisão, segundo ele, que deu origem ao modo MBL de se comunicar, um modo calcado numa mistura de humor com virulência. O candidato para quem eles trabalhavam, chamado Paulo Batista, foi amplamente “memeficado” na campanha. Suas peças publicitárias retratavam-no como um super-herói que combatia o comunismo e disparava um raio privatizador. Um de seus vídeos trazia um cigarro de maconha falante. O discurso tinha a mesma agressividade de hoje. Um programa de assistência social pensado para ajudar dependentes químicos era chamado por Batista de “Bolsa Crack do PT”.

A estratégia rendeu milhões de visualizações e muitas reportagens na imprensa – inclusive no New York Times, que observou a tendência crescente de políticos brasileiros se comportando como comediantes. “O MBL veio como consequência do desenvolvimento e da consolidação desse primeiro experimento de uma nova linguagem política”, diz Deyrot. Mas nem todos os créditos são do MBL. Na mesma época, já despontavam nas redes sociais perfis de direita e extrema direita muito hábeis no uso do humor. Uma parte da popularidade de Jair Bolsonaro, por exemplo, se deve a páginas que desde aquela época o retratavam como “mito” – uma figura cujo discurso violento era legitimado pela graça.

Os jovens, sobretudo, são receptivos a esse tipo de comunicação. Isso provavelmente explica por que, na pesquisa Genial/Quaest divulgada este mês, Renan Santos – que, aos 42 anos, já não pode ser chamado de jovem – foi bem entre os eleitores de 16 a 34 anos. Concentrou 10% das intenções de voto no primeiro turno nesse segmento, muito mais do que suas intenções de voto no eleitorado como um todo. Zema e Caiado marcaram 3% entre os mais jovens.

Na convenção, em Curitiba, quase não se via pessoas com mais de 30 anos. Uma exceção de cabelos brancos era Aroldo Medina, tenente-coronel da reserva que apoiou os acampamentos golpistas em 2022 e hoje é candidato a vice de Santos. No palco, vestindo luvas brancas, entregou ao companheiro de chapa o Espadim de Tiradentes, uma peça simbólica que costuma ser oferecida a cadetes da PM em seu curso de formação. Santos, também com luvas brancas, recebeu e exibiu, solenemente, a pequena arma empunhada.

A cena cumpriu sua função: surpreendeu, virou controvérsia, assunto na imprensa, piada na esquerda. Foi apenas mais uma no feed infinito de Santos. Dias depois da convenção, quando foi publicada a pesquisa Quaest, ele gravou um vídeo em que, nos primeiros segundos, dispara rapidamente, como uma metralhadora: “Eu acabo de passar o Lula no segundo turno, é real, o Lula foi ultrapassado e isso significa o fim do petismo.” A isca, totalmente falsa, já que ele se referia apenas ao desempenho entre os mais jovens, fisgou 1,9 milhão de visualizações no Instagram e 1,3 milhão no TikTok. A explicação sobre o resultado da pesquisa só aparece no meio do vídeo, quando o usuário já foi tragado.

No debate presidencial na Band, no último domingo (23), Santos foi o mais profícuo divulgador de cortes – embora a concorrência, é verdade, fosse pouca, já que além dele compareceram apenas Caiado e Augusto Cury (Avante). Às nove da manhã do dia seguinte, passadas menos de doze horas do fim do debate, o candidato do Missão já exibia em suas redes onze vídeos da contenda. Todos curtos, a maioria em tom histriônico. Chamava Lula e Flávio Bolsonaro de “canalhas”, mostrava fraldas com o nome dos dois – insinuando que eles faltaram ao debate por medo –, debochava de Janja, se referia a Dilma Rousseff como a “mulher que estocava vento”, dizia que a TV Record havia se comportado como “moleque” ao exibir uma entrevista com o presidente no horário do debate, e muito mais. Àquela hora, três dos seus onze vídeos já tinham mais de 2 milhões de visualizações no Instagram. Caiado e Cury não o igualaram nem em quantidade de cortes nem em engajamento.

Deyrot, admirado com o desempenho do colega, diz que pretende lançar depois da eleição um livro tratando de “uma possível ontologia memética”. Hoje tem mais tempo do que antigamente: saiu de São Paulo e se mudou para a “roça”, onde tem lido as obras de C. S. Lewis, Santo Agostinho e Kierkegaard. Pai de duas filhas, não deixa que elas tenham acesso a telas, já que existe um “efeito documentado sobre os receptores cerebrais de dopamina” – e a exposição a esse tipo de conteúdo, diz ele, pode ser bastante nociva.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É repórter da piauí