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A METAMORFOSE DA ONÇA

A mulher do general Villas Bôas, que há quatro anos bradava “Selva!” em acampamentos golpistas, agora tenta se eleger na democracia
No auge das mobilizações contra a posse de Lula, Cida Villas Bôas chegou a pôr o marido na traseira de uma van, preso à cadeira de rodas, e saudar os manifestantes - Crédito: Reprodução
No auge das mobilizações contra a posse de Lula, Cida Villas Bôas chegou a pôr o marido na traseira de uma van, preso à cadeira de rodas, e saudar os manifestantes - Crédito: Reprodução

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Depois de se entusiasmar e bater palmas para os golpistas que acamparam durante cerca de setenta dias em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, esperando o momento de serem convocados a marchar contra o regime democrático, Aparecida Villas Bôas resolveu combater por dentro o regime que queria derrubar nas ruas em 2022. Filiou-se ao partido Novo e, aos 74 anos, vai disputar em outubro uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Cida, como é conhecida a mulher do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, não é estranha ao poder. Enquanto o marido comandava militares fardados nos quartéis, ela dava ordens às mulheres deles – que, em sua maioria, ficavam em casa, cuidando dos filhos. Como estão sempre mudando de cidade com os maridos, as esposas de militares têm dificuldades em seguir carreira profissional. Muitas se organizam em torno de atividades beneficentes, e, quando estão entre si, espelham a hierarquia das Forças Armadas, de modo que a mulher do comandante tem ascendência sobre as demais. Cida sempre foi participativa, em casa e na caserna. Por sugestão sua, o Exército instituiu em 2016 o Dia da Família Militar, uma data comemorada em 18 de setembro para homenagear os parentes desses profissionais.

Cida e Eduardo se casaram jovens. Ambos são do interior gaúcho: ele, de Cruz Alta; ela, de Entre Ijuís, cidade com menos de 10 mil habitantes. Tiveram três filhos. Cida, que sempre foi muito presente no convívio com os militares, teve que se recolher quando o marido foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença rara que afeta o sistema nervoso, paralisando de forma gradativa e irreversível todos os movimentos do corpo, inclusive a fala e a respiração. Cida se tornou onipresente na vida do general. “Ela sempre foi a esposa do militar perfeita”, ele costumava dizer.

Reservada, ela não se manifestava publicamente sobre assuntos políticos. Seu marido, tampouco, até que em 2018 publicou no Twitter (hoje X) uma ameaça velada ao Supremo Tribunal Federal, às vésperas de um julgamento que poderia resultar na soltura de Lula. “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.” Lula não foi solto, e Bolsonaro acabou eleito presidente.

Tão logo tomou posse, o ex-capitão – que, em seu tempo de Exército, fora um militar insubordinado – agradeceu o apoio do veterano. “Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O que nós já conversamos morrerá entre nós”, disse Bolsonaro em 2 de janeiro de 2019, ao entregar ao general Fernando Azevedo o cargo de ministro da Defesa, numa cerimônia abarrotada de militares. Villas Bôas ainda comandava o Exército, apesar de muito debilitado e se movimentando apenas com cadeira de rodas. Dez dias depois, deixou o cargo, mas não ficou ao relento. Naquele mesmo mês, foi nomeado assessor especial no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo também general Augusto Heleno – que hoje está em prisão domiciliar, condenado a 21 anos de reclusão por envolvimento na tentativa de golpe de Estado.

Assessores que trabalhavam no GSI naquela época dizem que a nomeação de Villas Bôas foi um “mimo” de Bolsonaro. Na verdade, foi um pedido de Cida. Preocupada com as despesas médicas que só cresciam, ela procurou o então presidente e lembrou como seu marido havia sido decisivo para sua vitória – não só por causa do tuíte, mas também por seu diálogo com ministros do STF. Como mostrou a piauí, Villas Bôas se reuniu em agosto de 2018 com o então presidente do tribunal, Dias Toffoli, e recebeu dele garantias de que Lula não receberia nenhum benefício jurídico até a eleição. 

Depois de relembrar esses fatos a Bolsonaro, Cida argumentou, segundo testemunhas da conversa, que não era justo deixar Villas Bôas ao “Deus dará”. O presidente concordou, e logo o general estava empregado no GSI, com salário de 13,6 mil reais. Foi exonerado em junho de 2022, dias depois de a piauí perguntar ao órgão se, apesar de suas condições de saúde, ele cumpria a jornada prevista de 40 horas semanais. A justificativa oficial apresentada pelo GSI foi de que o próprio Villas Bôas pediu a exoneração, para cuidar da saúde.

Durante todo o mandato de Bolsonaro, sempre que necessário, Cida subia ao terceiro andar do Palácio do Planalto e resolvia o assunto com quem, de fato, mandava. Em 2019, a família criou o Instituto General Villas Bôas, que passou a promover palestras e debates sobre assuntos como desenvolvimento nacional e a administração da Amazônia. Por ter servido na região, o general dizia conhecê-la como a palma da mão. Em junho deste ano, lançou pela editora Lumina o livro Coração da selva: Memórias de uma vida na Amazônia, com um convescote na biblioteca do Senado.



Foi o desembargador aposentado Sebastião Coelho, filiado ao Novo, quem convidou Cida a concorrer pelo partido este ano. O magistrado deixou o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios em 2022, fazendo críticas públicas ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes. Durante o julgamento da tentativa de golpe, advogou para Filipe Martins, ex-assessor de Bolsonaro, e precisou ser contido por policiais judiciais depois de gritar contra Moraes em uma sessão. Seu cliente foi condenado a 21 anos de prisão. Pouco depois, Coelho se filiou ao Novo. Pretende se candidatar ao Senado.

O convite a Cida não foi uma surpresa. A mulher do general, depois de muitos anos à paisana, ganhou notoriedade durante as manifestações golpistas que se seguiram à vitória de Lula, em 2022. De acordo com alguns dos acampados, Cida sempre fez de tudo para estimular o movimento. Certa vez, pôs Villas Bôas na traseira de uma van, preso à cadeira de rodas, e passeou pelo acampamento. Sentada no banco da frente, acenou para os manifestantes enquanto apontava para o marido, que foi ovacionado. Outra vez, se permitiu ser tietada por um acampado, que gravou a cena. No vídeo, em que é apresentada como “esposa de uma celebridade”, Cida sorri e diz: “Selva!” Quando o golpe frustrado virou assunto de polícia, ela chegou a ser investigada sob suspeita de ter participado de uma das reuniões em que se arquitetou a intentona, mas a apuração não chegou a nenhuma conclusão sobre seu envolvimento.

Coelho, porém, diz que a plataforma de Cida, agora que ela é pré-candidata, não tem nada de antidemocrática. “Ela pretende trabalhar no Parlamento com duas propostas principais: o resgate da estima das Forças Armadas, reconectando-as com a sociedade, e o auxílio para pessoas com necessidades especiais”, disse à piauí. Nos materiais de campanha, Cida adotou o apelido Dona Onça, que lhe foi dado pelo marido. Declarou ao Tribunal Superior Eleitoral um patrimônio de 5,8 milhões de reais, a maior parte alocada em imóveis: três casas, duas kitnets, um apartamento e uma sala comercial.

“Sim, eu sou a esposa do general”, diz uma postagem recente em seu Instagram, onde soma 11,7 mil seguidores. “Casal que atravessou décadas junto, cruzando o Brasil inteiro em transferências, criando filhos e servindo a este país, não se forma por acaso. Não somos opostos que se atraem. Somos semelhantes.” Seus apoiadores batem na mesma tecla: Cida é Eduardo. Seguindo essa toada, um militar que se apresenta como Coronel Amaro escreveu no X: “O general Villas Bôas impediu que o PT desse um golpe de Estado durante o impeachment de Dilma. Impediu que o STF desse um golpe, negando a prisão de Lula. A doença impede que continue lutando pelo Brasil. Sua esposa, Cida Villas Bôas, é candidata a deputada federal por Brasília.”

Embora esteja concorrendo à Câmara, diz Sebastião Coelho, a mulher do general vai ajudar a engrossar o coro bolsonarista no Senado, casa que tem a prerrogativa de afastar ministros do STF. O desembargador também conta com Cida para defender a anistia a Bolsonaro e a todos os presos do 8 de janeiro. “Junto com esta ação vamos tirar aquela gente do Senado. Xandão, Flávio Dino e os outros que se preparem porque a coisa não vai ficar boa pro lado deles.” Cida não quis falar com a piauí.


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Jornalista, é colaboradora do Valor Econômico e foi repórter de política do Globo em Brasília