baixios das altas finanças

UM BRINDE AO MACALLAN

Personagens-chave de todos os cantos do caso Master beberam do mesmo alambique do desfortúnio
Ilustração: André Dahmer
Ilustração: André Dahmer

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E pensar que tudo isso deve ter começado com uma turma cafona tomando whisky Macallan.
Passados vinte meses da primeira reportagem de Consuelo Dieguez sobre o Banco Master na piauí, o futuro do país parece depender cada vez mais da responsabilização (ou não) de uma corja delinquente.

O dedo podre do Master está em todo lugar. Como ouvimos da Ana Clara Costa no Foro de Teresina, parte da derrota da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal tem as digitais de Alexandre de Moraes, tentando enfraquecer André Mendonça, aliado de Messias e relator do Caso Master no STF.

O Master também está no centro da trombada mais cinematográfica do ano, que arrisca tirar da pista a candidatura de Flávio Bolsonaro. Os cineastas vibraram. A Lei Rouanet está salva. A rachadinha está em outro lugar. Diante do Festival de Bocadas que Assola o País (FeBoAPá), tem gente dizendo que o Ciro Nogueira conseguiria do Vorcaro até o reconhecimento de união estável (“morava em apartamento do Vorcaro, tinha o cartão de crédito pago pelo Vorcaro, viajava por conta do Vorcaro e ainda tinha mesada”, escreveu um tuiteiro).

Se tudo isso não der em nada, em breve nos restará apenas culpar Trancoso. Tudo seria engraçado se não estivéssemos mais uma vez flertando com o rompimento democrático.

Para o desenrolar desse filme – que será um thriller e talvez também uma tragédia –, estamos nas mãos de André Mendonça, da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal. Lembrando que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, assim como Paulo Gonet, procurador-geral da República, estavam presentes no convescote Macallan em Londres, um “XandãoPalooza” pago pelo Master em libras esterlinas. Estes três personagens serão fundamentais em definir como o Brasil sairá dessa, que é a maior fraude da história do sistema financeiro brasileiro.

O Banco Nacional foi a maior falência do sistema financeiro no Brasil; o Bamerindus foi o maior prejuízo ao Fundo Garantidor de Crédito; mas o Master é por desenho, desde o início, um esquema de pirâmide e ciranda financeira, viabilizado somente através da corrupção de agentes públicos. Captura do Estado como modelo de negócio.

Enquanto o Brasil arrisca – agora um pouco menos – eleger Flávio Bolsonaro, é um perigo estarmos com um judiciário de joelhos e sem crédito na praça. Mais uma vez o Master é protagonista aqui e é fundamental não esquecer: há fortes indícios de corrupção contra dois juízes do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Mas o problema da Justiça não para aí.

Está no judiciário como um todo, que não é apenas ruim de serviço (por exemplo, o Brasil está no 111º lugar, entre 143 países, no quesito justiça criminal). Ainda por cima, e apesar de tamanha incompetência, o Brasil paga os maiores salários do mundo para as carreiras jurídicas segundo estudo de Sérgio Guedes-Reis. E tem sido uma luta trazer razoabilidade a este debate. Estamos incentivando errado, as pessoas erradas.

O caso mais emblemático é o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), que em 2025 concentrou 15 dos 20 maiores supersalários do país. É o órgão que não denuncia à Justiça 77% dos homicídios do estado. O crime mais famoso é o de Marielle Franco, cujos assassinos só foram denunciados com a entrada da Polícia Federal no caso, cinco anos depois.

Em março passado, o STF resolveu, de maneira insatisfatória, limitar os penduricalhos. Mesmo mirrada, a decisão foi logo desobedecida pelo CNJ e pelo CNMP. Contra a opinião de 83% da população, segundo o Datafolha, parte das carreiras jurídicas brasileiras não quer rever os supersalários, reafirmando seu compromisso com um status quo locupletante.

Essas são as pessoas que deveriam resistir ao impulso autoritário que pode vir por aí. (Ainda há um candidato de extrema direita com chances de vitória.) É razoável pensar que parte das carreiras jurídicas será mais facilmente cooptada por um regime autoritário, em troca de ainda mais privilégios, criando o ambiente ideal para a ascensão de um governo central violento.

Um cenário de ganha-ganha entre um judiciário corrompido e uma extrema direita no poder é algo que deveríamos debater seriamente, enquanto o fantasma do autoritarismo ainda nos ronda. Este é um tema incontornável, pois está no cerne do bom funcionamento do Estado, seu corrompimento e possível rompimento democrático.

Tudo isso não é apenas uma tremenda falta de sorte. A PGR e o relator do julgamento do golpe, Alexandre de Moraes, erraram ao acusar e condenar o núcleo golpista por dois crimes, que, para muitos, são sinônimos: golpe de Estado e abolição violenta do estado democrático de direito. A essas críticas somaram-se a percepção popular de que foram excessivas as penas dadas aos vândalos e golpistas de 8 de janeiro de 2023.

O Brasil ser o país da meia-entrada também para as sentenças de Justiça não justifica os excessos cometidos pelo Supremo. E nada ajudaram os risos e brincadeiras da Primeira Turma do STF ao definirem as penas dos réus golpistas. Para o mais importante julgamento da história brasileira, mais pareceu coisa de mané.

Claro que a manezice não começou e nem parou aí. Um mês depois de um ex-presidente da República ser preso por golpe de Estado, algo inédito e histórico, o relator do caso se revela comprometido com um esquema bandido, de um playboy, e que não tinha chance de não implodir. Isso sim que é plot twist. Depois falam mal dos roteiristas brasileiros...

Brincadeiras à parte, como Moraes pôde achar que milhões de reais gastos numa noitada em Londres, regada a Macallan, iriam acabar bem? Afinal de contas, ele foi o primeiro colocado no concurso de ingresso ao Ministério Público do Estado de São Paulo. Virou um exemplo de que os exames decoreba para o topo do serviço público brasileiro, além de beneficiar quem tem dinheiro para fazer cursinho, não recrutam por vocação, integridade e, pelo visto, também não por inteligência.

Tá duro. Deveríamos tomar é um Dreher.

A possível instrumentalização da PF pelo governo, com o vazamento do “investimento” do Master no filme Dark Horse – quando Tarcísio de Freitas já não era elegível para o Planalto – coloca a candidatura de Flávio Bolsonaro sob risco, apesar de 88% de seus apoiadores ainda o quererem candidato, segundo o Datafolha.

No entanto, se a extrema direita dobrar a aposta e conseguir eleger Flávio Bolsonaro, este poderá partir desabridamente para indultos, com vista grossa do Congresso – pois se vencer, terá aumentado sua base legislativa. Então, gente que planejou um golpe de Estado – incluindo assassinatos – será bem-vinda no Palácio do Planalto. Aí, é batata. O filho poderá apontar para o rompimento institucional que pai tentou – e pelo qual está preso.

Pois no Brasil República, os casos de golpes de Estado bem-sucedidos tiveram o envolvimento de pessoas anistiadas por tentativas anteriores de golpe. Se olharmos por aí, esse padrão parece querer se repetir. Foi recentemente aprovada a redução de penas do núcleo golpistas e de mais de quatrocentos participantes do 8 de janeiro de 2023.

Paralelamente, se a PF e André Mendonça não responsabilizarem membros do Centrão envolvidos no escândalo Master, uma maioria bolsonarista de dois terços no Senado poderá cassar juízes da Suprema Corte – ou fazê-los capitular. (E, ainda, o próximo presidente da República poderá indicar entre três e cinco juízes em quatro anos.)

Obviamente, não apenas o Centrão deve ser investigado. Provavelmente para enfraquecer André Mendonça com a rejeição de Messias ao STF, um vazamento de áudio da TV Senado nos leva a especular sobre uma possível traição de Jaques Wagner ao governo que ele próprio lidera no Senado.

Como lemos na piauí, Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico do governo de Rui Costa, na Bahia, onde começou o fraudulento esquema do Credcesta – um cartão de crédito para servidores públicos e aposentados. Mais uma mutreta de Vorcaro e Augusto Lima. Como em todo roteiro Master, só se sustenta com a corrupção de agentes públicos.

No pior – e ainda possível – cenário, uma aliança entre um presidente de extrema direita, como Flávio Bolsonaro, o Supremo e o Congresso, só erros muito crassos do presidente poderiam reverter a onda autoritária que os radicais aguardam para surfar. Se os Estados Unidos servirem de exemplo, foi o que aconteceu no primeiro ano do segundo governo Trump. A este alinhamento, uma parte significativa do empresariado não hesitará em aderir. O primeiro ano do segundo governo Trump também nos serve de alerta.

Só que aqui, como vimos em 2022 e 2023 na disposição da “turma” poderíamos caminhar para restrição das liberdades individuais, tortura, assassinatos políticos e péssimas decisões em política pública. O Master e a deslegitimação do Supremo e do Congresso não poderiam acontecer num momento pior.

Não há um salvador para o Brasil. Mas temos que salvar o sistema de Justiça brasileiro punindo exemplarmente o caso Master, no Congresso, no STF, na PGR, na PF, onde for. Em seguida, reorganizar os salários públicos, pois este é um passo para a maior profissionalização do Estado, que por sua vez é a chave para superar a corrupção como o padrão de operação de parte da iniciativa privada em relação ao Estado brasileiro.

Às vezes, bater no fundo do poço da roubalheira serve como mola para o redesenho institucional de um país. Foi assim na Suécia na segunda metade do século XIX e nos Estados Unidos de Theodore Roosevelt.

Para isso, talvez, teremos que ir às ruas. Um bom exemplo recente foi a reação popular à PEC da Blindagem. Naquele caso o Brasil ganhou ainda, de lambuja, a isenção do IR até 5 mil reais. Uma boa política econômica, pois trouxe um imposto mínimo para os muito ricos, reduzindo a regressividade do sistema tributário brasileiro.

Temos que empurrar para, em breve, assistir ao Mauro César, o personagem “gestor de crise” de Fábio Porchat, falando no “Vorcarito” como a solução para a crise de confiança que abala o nosso país. Os tais oito celulares de Vorcaro e seus contratos que documentam a corrupção brasileira de maneira inédita dão ao Brasil uma oportunidade histórica para uma limpa na política, emendando numa verdadeira transformação do setor público.

Quem sabe saímos dessa com senadores e juízes ladrões sendo presos e, na rebarba, um Plano Nacional do Serviço Público? É o mapa do caminho para denunciarmos muito mais do que apenas 36% dos homicídios no país; mas também para educar muito melhor os 80% das crianças que estão em escolas públicas; e cuidar bem de 76% da população que depende integralmente do SUS.

Esse filme já se viu: em países que se viram rendidos e decidiram reagir. Um brinde a isso.


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é cineasta e empreendedor social, fundador da Matizar Filmes, República.org e MaisProgresso.Org