anais do crime
Allan de Abreu e Aldo Benítez, de Ciudad del Este 03 Ago 2026
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Esta reportagem foi produzida em parceria com o Projeto de Investigação sobre Crime Organizado e Corrupção (OCCRP, na sigla em inglês)
Na noite de 17 de abril deste ano, a farmacêutica Quimfa S.A. lotou um salão de eventos para anunciar o lançamento da nova estrela de seu catálogo: a Tirzec, remédio de emagrecimento que antes só era vendido em ampolas e agora estava disponível em formato de caneta. A Quimfa é uma empresa paraguaia, e o evento aconteceu em Ciudad del Este, no Paraguai. Ainda assim, no salão, ouvia-se muito mais português do que espanhol. Dos seiscentos presentes, a maioria eram brasileiros, entre eles influenciadores famosos como o médico Paulo Muzy, os fisiculturistas Gabriel Zancanelli e Diogo Basaglia, e as musas fitness Gracyanne Barbosa e Juju Salimeni. Foi uma badalação. Depois do jantar, para fechar a noite, uma banda embalou o público com músicas... brasileiras.
A princípio, parece um contrassenso: a Quimfa, assim como as outras quatro farmacêuticas paraguaias que produzem esse medicamento, não tem autorização para vendê-lo no Brasil. Mas, na prática, não há contrassenso algum. Mesmo sendo ilegais, os remédios paraguaios de emagrecimento estão se disseminando no país. Comercializados por contrabandistas, tornaram-se a nova dor de cabeça da Polícia Federal e da Receita. As empresas como a Quimfa não fazem apologia ao contrabando, mas estão faturando alto graças a ele.
Seus produtos fazem sucesso porque são baratos para o consumidor brasileiro. No Brasil, a tirzepatida – nome do remédio contido em grande parte das canetas emagrecedoras – é produzida apenas pela Eli Lilly, a farmacêutica americana que criou o Mounjaro. Uma caixa com quatro canetas de Mounjaro – suficiente para um mês de tratamento – custa entre 1,4 mil e 4 mil reais, a depender da dose. Já a tirzepatida produzida no Paraguai, que costuma ser vendida em ampolas, em vez de canetas, custa entre 400 e 500 reais.
Um estudo divulgado em junho deste ano pelo banco Itaú BBA* estimou que, nos doze meses anteriores, 3 milhões de caixas com ampolas de tirzepatida haviam sido canalizadas ilegalmente para o Brasil. É um volume tão grande que equivale a 90% de toda a produção desse remédio no Paraguai. Considerando o preço do produto, o estudo calculou que o faturamento bruto dos contrabandistas deve ter sido da ordem de 2,5 bilhões de reais.
Os dados da Receita Federal pintam um cenário ainda mais grave. Desde o começo do ano, os fiscais que atuam em Foz do Iguaçu apreenderam 100 mil ampolas e canetas de tirzepatida contrabandeadas na Ponte da Amizade, marco arquitetônico que conecta a cidade brasileira com Ciudad del Este. Foi um crescimento expressivo, considerando que no ano passado inteiro haviam sido apreendidas 7,4 mil. Mas essa é apenas uma fração do problema. A própria Receita estima que apenas 3% da tirzepatida que atravessa a fronteira acaba sendo apreendida, tamanho o volume de carros e pessoas que passam por ali. Se a conta estiver correta, em seis meses foram contrabandeadas 3 milhões de unidades.
A tirzepatida paraguaia é ilegal no Brasil porque não passou pelo crivo da Anvisa. E a agência tem motivos para desconfiar da qualidade do produto. O primeiro é que as exigências sanitárias do Paraguai, ao menos no que diz respeito a esse medicamento, são menos rígidas – e menos claras – que as brasileiras. A Direção Nacional de Vigilância Sanitária (Dinavisa), equivalente à Anvisa no Paraguai, não exige relatórios completos de estudos clínicos antes de liberar remédios. O segundo motivo é que há um alto risco de falsificação. Só em junho, a polícia paraguaia registrou quatro flagrantes de adulteração da tirzepatida. Num dos casos mais recentes, foram apreendidas 4 mil ampolas com rótulos da marca TG, a mais procurada por brasileiros. Dentro dos frascos, havia apenas soro fisiológico. “Essas quadrilhas importam os recipientes da China e colocam qualquer produto dentro”, diz Carlos Duré, comissário da Polícia Nacional do Paraguai.
A Dinavisa admite que até recentemente não tinha qualquer controle sobre a produção de tirzepatida. Agora implementou um sistema de rastreamento, determinando que cada embalagem deve ter um código vinculado ao seu lote de fabricação ou importação. “A identidade unitária representa um primeiro passo regulatório importante para reforçar a segurança e a capacidade de detecção de medicamentos falsificados”, diz a assessoria da instituição. Ela também afirma que a fiscalização está se aprimorando, com “intervenções nos pontos críticos do território” em parceria com a Polícia Nacional e o Ministério Público.
O problema, porém, não são apenas os produtos falsificados. São também os originais. Uma pesquisa do Laboratório de Toxicologia Analítica da Unicamp, feita a pedido da Folha de S.Paulo, analisou a composição das cinco marcas de tirzepatida que têm autorização para serem comercializadas no Paraguai. Uma delas, a Gluconex, tinha uma concentração do princípio ativo 60% superior à descrita na embalagem. Variações de até 20% são toleradas na indústria farmacêutica. Quando passam dessa faixa, passam a ser perigosas. Uma dose exagerada de tirzepatida pode causar problemas como falência renal, hipoglicemia severa e arritmia cardíaca.
O produto contrabandeado, além disso, é muitas vezes ineficaz. Reunidos em Foz do Iguaçu, os lotes de tirzepatida costumam ser escondidos em carros e caminhões que os levam até seu destino final. Nesse processo, as ampolas nem sempre são acondicionadas como deveriam, em recipientes que as mantenham resfriadas numa temperatura entre 2º e 8º C. “Já encontramos ampolas dentro do motor [de um caminhão], a temperaturas altíssimas”, diz Neri Antonio Parcianello, assessor de comunicação da Receita Federal em Foz. A tirpezatida, exposta a um calor tão grande, perde completamente sua eficácia.
O boom da tirzepatida se reflete no crescimento do número de farmácias na fronteira. Em Ciudad del Este, elas dobraram em quantidade nos últimos dois anos: eram 1,5 mil, hoje são 3 mil, segundo Gerardo Rivalora, representante da Associação de Proprietários de Farmácias do Alto Paraná, departamento onde fica localizado o município. Como Ciudad del Este tem 326 mil habitantes, a proporção é de uma farmácia para cada 100 pessoas. Uma média altíssima se comparada à brasileira, de uma farmácia para cada 1,7 mil pessoas.
A piauí foi até uma dessas farmácias de Ciudad del Este em 18 de junho e se passou por um cliente interessado em adquirir tirzepatida. A loja era da rede paraguaia FarmaCon, e a atendente, uma brasileira. Ela informou os preços das cinco marcas vendidas no país, inclusive para compras em grandes quantidades (acima de mil unidades). No dia seguinte, a conversa seguiu por WhatsApp. A piauí perguntou se a farmácia vendia Retratutida e GHK-Cu Glow, peptídeos que não têm aprovação para uso em humanos em nenhum país do mundo. O primeiro, derivado da mesma substância que criou a tirzepatida, é usado para emagrecimento. O segundo, para regenerar a pele. “Amigo, não temos na farmácia, mas consigo pra você”, respondeu a atendente, e em seguida informou os preços: 96 dólares a caixa de retratutida, e 100 dólares a de Glow, sempre para compras acima de dez unidades.
A atendente – que não pareceu constrangida em oferecer um produto ilegal – repassou ainda o contato de um “freteiro de confiança”, que, segundo ela, estava habituado a cruzar a Ponte de Amizade com medicamentos. Contatado pela piauí, o homem se apresentou como Fernando – um brasileiro com número de telefone paraguaio. Ele pediu desculpas pela demora em responder a mensagem pelo WhatsApp, e se justificou: “Tem 3 mil TG [marca de tirzepatida] para passar [pela fronteira], estamos aí com 200 retas [retratutidas], tô com um carro no prego, um motorista doente, aí a gente tem que se virar aqui, sabe?”
O freteiro, que diz ter “uns mil clientes” no Brasil, cobra 10 reais por ampola. O produto é transportado em caminhões. “Entrega no Brasil inteiro, qualquer canto que você quiser”, ele disse. A mercadoria, explicou, é transportada junto com notas fiscais de empresas suas – uma precaução caso os veículos sejam parados pela polícia. As notas fazem referência a outros produtos, esses sim legalizados. Fernando promete enviar fotos dos medicamentos a cada etapa do transporte, como num rastreio informal, para provar que eles estão a caminho do comprador. Depois de atravessar a fronteira, segundo ele, o carregamento é sempre enviado para São Paulo, de onde é então distribuído para outras partes do país. O prazo de entrega é curto: até uma semana, a depender do destino. “Se houver perda, é pela polícia”, disse Fernando. “Eu perdi 970 mil [ampolas] tá com duas semanas, porque acharam maconha na carga e vistoriaram a carga todinha e eu perdi. Se não fosse a maconha, eu não tinha perdido.” Se a compra for pequena, o freteiro também oferece a possibilidade de envio pelo Mercado Livre ou Shopee, com prazo de até duas semanas.
Na conversa com a piauí, Fernando disse trabalhar com a venda de tirzepatida e outros medicamentos análogos há cinco anos. Além de freteiro, é um atacadista de tirzepatida paraguaia no Brasil. Disse ter feito um investimento inicial de 100 mil reais na compra do medicamento, e que hoje adquire uma média de mil ampolas de TG por dia no Paraguai, sem contar outros produtos, como a retratutida. Fernando explicou, com satisfação, sua altíssima margem de lucro: ele relatou que compra a ampola por 500 reais no Paraguai e a revende por 1,2 mil reais no Brasil (em períodos promocionais, ele baixa o preço para 990 reais). “É cem por cento [de diferença], pô.” Descontando os custos operacionais, Fernando diz que o lucro líquido da operação é de cerca de 50%. “Melhor do que agiotagem, cara.”
Como no tráfico de drogas, o lucro é tão grande que uma eventual apreensão pela polícia ou pela Receita não faz cócegas no bolso do contrabandista. “Eu perdi mais 1,7 milhão [de reais] agora. E tô de boa. Tô tranquilo. Em um mês, a gente recupera o dinheiro e vamos para frente.” A piauí entrou em contato com a FarmaCcon, farmácia que ofereceu os produtos ilegais e o contato do freteiro. Em nota, a empresa afirmou que “não incentiva nem participa de atividades de contrabando nem envios irregulares de medicamentos, incluída a tirzepatida. As vendas se realizam somente com retirada em lojas físicas, e qualquer orientação de funcionários que contradigam essa política vai contra as normas da empresa.”
A Polícia Federal afirma não ter encontrado, até agora, indícios de que facções criminosas estejam atuando no contrabando de tirzepatida. “Temos identificado uma logística descentralizada, que já está posta há décadas na fronteira por meio do contrabando do cigarro, sem atores criminais de expressão”, disse à piauí Emerson Rodrigues, delegado da PF em Foz do Iguaçu. O Código Penal brasileiro favorece o contrabando no modelo “formiguinha” – isto é, feito por indivíduos isolados, e não por grupos de pessoas. Até 2021, a pena prevista para quem importasse medicamentos sem registro na Anvisa era de dez a quinze anos de prisão, superior inclusive à punição por homicídio simples ou tráfico de drogas. Naquele ano, porém, o Supremo Tribunal Federal ajustou a regra, baixando a pena para entre um e três anos de prisão. “De fato a pena era desproporcional, mas, ao corrigir essa distorção com uma pena irrisória, o STF abriu as portas para o contrabando de medicamentos”, diz o delegado da Polícia Federal Sérgio Luis Stinglin de Oliveira.
Entre janeiro e junho deste ano, a PF em Foz do Iguaçu fez 87 prisões em flagrante de pessoas com medicamentos ilegais trazidos do Paraguai. Um número expressivo, considerando que no ano passado, de janeiro a dezembro, houve 61 flagrantes desse tipo. Na maioria dos casos, o preso acaba sendo solto mediante o pagamento de fiança – ou, se for réu primário, assina um acordo de não persecução penal com o Ministério Público, em que ele confessa o delito e, em geral, paga uma multa ou presta serviços comunitários.
A polícia paraguaia, no entanto, desconfia que haja, sim, participação de facções criminosas no contrabando – mais especificamente, o PCC. Isso porque, no país vizinho, quadrilhas armadas com metralhadoras e fuzis têm protagonizado grandes assaltos a farmácias e distribuidoras. O calibre das armas e o grau de violência remete ao modus operandi da facção brasileira. Desde o começo do ano, houve pelo menos três episódios desse tipo. Em 23 de março, uma quadrilha roubou 1,1 mil ampolas de tirzepatida de uma distribuidora em Ciudad del Este – um carregamento que, se vendido no mercado brasileiro, pode render até 500 mil reais. Um segurança foi morto no assalto. “Duas horas depois, flagraram um rapaz menor de idade vendendo ampolas do lote roubado no Centro da cidade”, diz Gerardo Rivalora, representante da Associação de Proprietários de Farmácias do Alto Paraná. Num outro assalto similar, em junho, os criminosos usaram um veículo roubado no Brasil.
Segundo Carlos Duré, comissário da Polícia Nacional do Paraguai, casos assim vêm se tornando frequentes. Roubos ou furtos menores ficaram tão corriqueiros que já nem recebem atenção da imprensa paraguaia. “A média é de um caso por semana”, ele diz.
O Brasil também caminha nessa direção. A piauí apurou que a Drogasil, uma das maiores redes de farmácias do país, estima que os roubos e desvios de canetas emagrecedores vêm lhe causando um prejuízo de 5 milhões de reais por mês. Não é de se espantar: uma rápida pesquisa no Google revela dezenas de casos assim noticiados nos últimos meses, em diferentes cidades. O episódio mais vultoso aconteceu em maio, quando dez criminosos assaltaram um caminhão na Marginal Tietê, em São Paulo, levando consigo insumos para a produção de medicamentos emagrecedores. A carga foi avaliada em 6 milhões de reais. Dois seguranças que vigiavam a carga ficaram feridos. Os criminosos escaparam.
De acordo com especialistas em segurança viária ouvidos pela piauí, a situação é pior do que parece. Há um alto índice de subnotificação desses assaltos, já que muitos deles visam produtos contrabandeados – e, nesses casos, o dono da carga ilegal não tem como acionar a polícia, já que também está infringindo a lei. Uma pesquisa feita pela Nstech, empresa de softwares especializada em logística viária, concluiu que o dano financeiro causado às transportadoras por roubo a carregamentos de remédios subiu drasticamente. No primeiro trimestre de 2025, esses crimes respondiam por 1,7% do prejuízo total causado pelo roubo de cargas no Brasil. Já no primeiro trimestre de 2026, a proporção chegou a 22,3%.
A Anvisa tem sido pressionada a aprovar a tirzepatida produzida no Paraguai. Essa pressão, por um lado, vem dos próprios consumidores. Alguns deles têm acionado a Justiça para pedir autorização de importar o medicamento paraguaio para uso pessoal – e, não raro, conseguem decisões favoráveis. Do outro lado, a pressão vem de parlamentares. A piauí contabilizou 25 medidas propostas por deputados federais e senadores em favor das marcas paraguaias. Esse número inclui projetos de lei e requerimentos enviados à Anvisa e ao Ministério da Saúde. Entre os projetos, há dois que propõem sustar a resolução da Anvisa que proibiu a entrada da tirzepatida paraguaia no Brasil. Os autores da proposta são os deputados Fausto Pinato (SP) e Diego Garcia (PR), ambos do União Brasil. Em junho, Garcia chegou a se reunir com o embaixador do Paraguai para tratar do assunto.
Ele diz que a iniciativa não tem nada de errado. “Defendo que o acesso ao medicamento aconteça de forma legal, segura, fiscalizada e mediante prescrição médica. Nunca defendi a entrada de produtos clandestinos, sem procedência ou adquiridos fora de estabelecimentos regulares”, afirmou o deputado à piauí. Também em nota, a assessoria de Fausto Pinato disse que o parlamentar “não defende, não incentiva e jamais se manifestou publicamente em favor do ingresso irregular de medicamentos no país, do comércio clandestino, da falsificação ou de qualquer conduta que burle os controles sanitários, aduaneiros e tributários brasileiros. Pinato defende exclusivamente a importação legal de medicamentos, dentro das normas e das leis brasileiras, para uso pessoal, mediante prescrição médica, documentação regular e em quantidade compatível com o tratamento indicado”.
As farmacêuticas paraguaias, enquanto isso, tentam fidelizar o público brasileiro. O evento realizado pela Quimfa foi um exemplo disso, mas não o único. Um caso curioso ocorreu em maio deste ano, quando o governo paraguaio fez uma nova edição do Buen Anfitrión, uma campanha que visa atrair turistas e consumidores brasileiros na fronteira. Chamou atenção o fato de que o evento, este ano, exibia propagandas da Lipoless, marca de tirzepatida do laboratório Eticos. Quem passasse por ali recebia brindes da farmacêutica, entregues por jovens mulheres. O patrocínio da empresa pegou tão mal que, dias depois, a chefe regional da Secretaria Nacional de Turismo do Paraguai, Katherine Gabriaguez, deixou o cargo.
Procurada pela piauí, a Cifarma, entidade que representa a indústria farmacêutica no Paraguai, não se manifestou. A Eli Lilly, único laboratório autorizado pela Anvisa a comercializar medicamentos à base de tirzepatida, disse que “segue buscando formas de ampliar a acessibilidade financeira” de seus produtos e que “o paciente não deve se deixar enganar por alternativas contrabandeadas, não testadas e não aprovadas”. A Anvisa, por sua vez, recomendou que os pacientes comprem esse tipo de produto “exclusivamente em farmácias e drogarias regularizadas, evitando a compra por canais informais, como redes sociais, aplicativos de mensagens ou sites sem comprovação de regularidade”.
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* A família do fundador da piauí é acionista integrante do bloco de controle do Itaú Unibanco.