questões editoriais
Thomás Daniel Vieira, especial para a piauí 13 Out 2026
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Nos últimos meses estive envolvido em pesquisas vinculadas ao mercado editorial brasileiro, sobretudo a respeito de editores independentes. Ainda que existam boas pesquisas de mercado em nível nacional e regional, minha curiosidade não foi saciada e fiquei com algumas perguntas não respondidas. Talvez devido à minha formação em ciência da computação, desconfiei que poderia obter informações interessantes na base de dados de ISBNs do Brasil, centralizada e mantida exclusivamente pela Agência Brasileira do ISBN, que é gerenciada desde 2020 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Antes, a responsável por esse serviço era a Biblioteca Nacional. O ISBN (sigla de International Standard Book Number) é um código numérico de treze dígitos que serve para identificá-los, como uma espécie de carteira de identidade de cada edição de uma obra. O ISBN aparece na ficha catalográfica, geralmente incluída na página de créditos dos livros, e também na contracapa junto de um código de barras. É muito útil para controlar a comercialização, a distribuição e o estoque.
Uma lei federal de 2003 define que para todo livro publicado no Brasil “é obrigatória a adoção do Número Internacional Padronizado, bem como a ficha de catalogação para publicação”. Como a CBL é a única instituição autorizada a emitir registros de ISBN, concluí que o banco de dados mantido por eles deve conter o registro quase integral dos livros publicados no Brasil (há poucas exceções, como zines e livros que não são distribuídos). Ou seja: é o contexto ideal para extrair informações precisas sobre o mercado editorial.
No entanto, dados que não podem ser acessados são inúteis. Até poucos meses atrás, o site da Biblioteca Nacional ainda indicava que o site oficial da Agência Brasileira do ISBN está em isbn.bn.br/website, mas essa página já está fora do ar. Todas as informações disponibilizadas institucionalmente estão no endereço eletrônico cblservicos.org.br/isbn/. Nesse site, porém, a ferramenta de pesquisa[1] não permite acesso completo aos dados. Entrei em contato com a CBL por e-mail e fui informado de que a única forma de consultar os dados é, de fato, dessa maneira. A da Agência Argentina (em isbn.org.ar), por exemplo, é muito mais completa.
Esse tipo de interface é importante, pois facilita pesquisas mais simples e qualquer pessoa pode usar. A da CBL permite buscas por autor, título, selo editorial ou ISBN. No entanto, é limitada e insuficiente. Por exemplo, a busca pelo autor Pedro H. G. Ferreira de Souza, sociólogo e vencedor do Prêmio Jabuti Livro do Ano de 2019, apresenta mais de 48 mil resultados. Embora o livro escrito por ele – Uma História da Desigualdade: a Concentração de Renda entre os Ricos no Brasil – 1926-2013 – apareça na busca, não é fácil encontrá-lo em meio a tantos resultados aleatórios, como Machado de Assis e Associação Brasileira de Normas Técnicas. Parece que o filtro buscou todos os nomes que continham alguma dessas palavras: “Pedro”, “Ferreira”, “de”, “Souza”. A pesquisa só funcionou quando inseri o nome do autor entre aspas. Também notei que, na busca, apareceram misturados os nomes de tradutores, capistas e outros profissionais que trabalharam no livro. A seguir, é possível visualizar o resultado dessa pesquisa que descrevi:

O recurso de colocar as aspas no nome resolve parcialmente o problema da busca por autoria, mas ainda existe muita informação inacessível devido à limitação dessa ferramenta. Com isso, o recurso demonstra-se muito ineficaz para aqueles que querem pesquisar mais profundamente, em âmbito acadêmico ou de mercado. Como saber quantos livros físicos são publicados anualmente no país, quantos deles são traduções, quantos foram escritos por mulheres, quantos livros uma dada editora publica anualmente etc.?
Como é praxe na gestão de dados públicos, instituições como o IBGE e o Conselho Nacional de Justiça oferecem APIs abertas para consulta a grandes conjuntos de dados (ver, por exemplo, dados.gov.br). Essa estrutura padronizada de acesso é denominada tecnicamente de API (Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicações). Enquanto o formulário de busca do site da CBL destina-se a consulta simples do público em geral, uma API é construída para profissionais da área, cientistas de dados, engenheiros de software e outros interessados em pesquisas mais complexas, como era o meu caso.
Desse modo, procurei por esse recurso, mas não encontrei. Questionei a CBL, por e-mail, sobre a existência de uma API para consulta aos dados do ISBN, e a resposta foi de que não existe. Contudo, não me dei por convencido. Explico: mesmo parcialmente os dados “viajam” do banco de dados centralizado até serem exibidos na ferramenta de busca do site da CBL. Essa comunicação entre um servidor de banco de dados e um site se dá, na maioria dos casos, através de uma API. Isso não é coincidência, mas sim um padrão de funcionamento bastante utilizado pela maioria dos sites da internet. Então, deduzi que ao menos deveria existir nos bastidores do site esse recurso responsável por buscar os dados no banco de dados e fornecê-los à interface de consulta. Bingo. Utilizando as ferramentas de desenvolvedor do navegador, investiguei e identifiquei esse mecanismo e as tecnologias utilizadas. Assim, pude chegar ao sistema de indexação da CBL diretamente nessa estrutura de bastidores, o que me permitiu acessar os dados em sua totalidade. Para acessar esse recurso, porém, é necessário que a pessoa tenha alguns conhecimentos de computação.
A principal fonte de informações do mercado editorial brasileiro é a pesquisa anual de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, feita pela Nielsen BookData, sob a coordenação da CBL e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). Comparei os dados dessa pesquisa com os que obtive consultando diretamente o banco de dados nos bastidores do site da CBL, e encontrei uma grande discrepância.
De acordo com a Nielsen foram publicados 10.224 títulos no Brasil em 2024.[2] A minha consulta, porém, registrou um número muito maior: 126.640 livros, sendo 111.601 (ou 88%) registrados como primeira edição. A pesquisa da Nielsen não especifica quantos em primeira edição. Um dado importante: minha consulta levou menos de 1 segundo para ser processada. Outro exemplo: a pesquisa da Nielsen sobre o ano de 2025 apontou um registro um pouco superior ao ano anterior: 10.663 novos ISBNs.[3] Minha consulta no serviço por trás do site da CBL, porém, apresentou um resultado de quase 150 mil ISBNs de livros físicos em 2025.
A pesquisa da Nielsen é feita com base em questionários online preenchidos por um conjunto de editoras. Contudo, não informa quais são as editoras nem como é definida a lista de editoras consultadas.[4] Por que o resultado da pesquisa é tão diferente da quantidade registrada na base de dados do ISBN?
Como as informações nessa base de dados são preenchidas pelos próprios editores, pode haver inconsistências, e isso deve ser considerado. O livro Ángel Rama: literatura e cultura na América Latina (Edusp), por exemplo, está registrado como “Angel Roma”. Enviei um e-mail para a responsável pela pesquisa da Nielsen, disponibilizado no site da Snel, com minhas dúvidas e nunca obtive resposta.
Outro problema com as informações sobre o ISBN é que os dados do período em que a Biblioteca Nacional controlou o registro foram migrados em 2020 de forma incompleta para a CBL. Na maioria dos casos anteriores a 2020 só é possível encontrar o título do livro e o nome do autor. Sequer o ano de publicação e o nome da editora constam da ficha. Isso é uma falha grave. Esses dados foram perdidos? No site de pesquisa da CBL, por exemplo, são escassas as informações sobre o livro Vila Sapo, de José Falero (publicado em 2019), como se pode ver na imagem abaixo (não consta nem mesmo a data de publicação, ao passo que na consulta de bastidores os dados faltantes são indicados como “nulos/null”):

Nos registros mais recentes, contudo, o site da CBL exibe, além do título e do autor, o subtítulo, os nomes do capista, do tradutor e da editora, a quantidade de páginas, o tipo de encadernação, o local de publicação, a sinopse, o idioma, o país de origem etc.
Em meados dos anos 1960, durante uma conferência de editores e livreiros em Berlim, surgiram discussões sobre a necessidade e a viabilidade de um sistema universal de identificação de livros. Algum tempo depois, em 1967, no Reino Unido, foi criado o ISBN. No começo da década de 1970, a International Organization for Standardization (ISO) definiu o ISBN como padrão internacional para identificação de publicações. Uma mudança importante ocorreu a partir de 1º de janeiro de 2007, quando o ISBN passou a ser constituído por treze dígitos, em vez de dez, para dar conta das novas formas de livros que surgiam.
A estrutura do número e os detalhes técnicos de emissão e uso estão descritos didaticamente em um guia feito pela CBL.[5] Lendo esse manual descobri, estupefato, que softwares e álbuns de bebê também podem ter um ISBN próprio. Mas como isso não parece ser algo comum, não deve ser esse o motivo da discrepância na minha contagem e a da Nielson sobre o número de livros publicados no Brasil (embora não exista um campo na estrutura de dados indicando objetivamente se o registro feito refere-se a um livro ou a um álbum de bebê).
Segundo o manual da Agência Internacional do ISBN, “cada agência nacional é responsável por manter registros de ISBN e metadados associados, devendo torná-los disponíveis para outros usuários do sistema”.[6] Fiquei também surpreso ao notar que no site da agência existem versões do manual para os idiomas maltês, filipino, grego, esloveno, entre vários outros, mas não para o português. Achei curioso que haja uma forma bem estruturada de consulta aos códigos de editores, com site próprio[7] (onde pude encontrar o prefixo 85243 atribuído à editora Coragem, da qual sou editor), mas não existe o mesmo mecanismo para consulta dos dados dos livros. Isso mostra que o sistema internacional centraliza o cadastro de editoras, mas deixa às agências nacionais a tarefa de disponibilizar os dados dos livros, o que, no caso brasileiro, não acontece de forma adequada.
O suporte técnico para a padronização do software de gerenciamento dos dados de ISBN que as agências nacionais utilizam na América Latina é feito pelo Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina y Caribe (Cerlalc), com sede em Bogotá e vinculado à Unesco. Anualmente, representantes das agências de cada país se reúnem para compartilhar e discutir melhorias no gerenciamento dos dados. O último encontro aconteceu, veja só, no Brasil, em 15 de setembro de 2025. Enviei algumas perguntas ao Cerlalc, que respondeu não estar autorizado a compartilhar informações. Somente as entidades nacionais podem falar a respeito.
No site do Cerlalc é possível acessar alguns levantamentos estatísticos, como os preços que cada agência nacional cobra pelo registro de novos ISBNs e serviços relacionados. Constatei que os preços cobrados no Brasil estão abaixo da média em comparação com os vizinhos sul-americanos, embora em alguns países, como Uruguai, Paraguai e Venezuela, não custe um centavo. O registro de ISBN na CBL custa 28,60 reais atualmente.
A propósito, a CBL também cobra atualmente 68,60 reais para não associados (e 34,60 reais para associados) pelo serviço de catalogação de um livro (a ficha que deveria conter os dados completos da obra, desde o número de páginas até o seu conteúdo) e pela geração do código de barras do número do ISBN, que deve ser inserido na contracapa dos livros (e custa 41,20 reais por título). Não entendo o motivo de cobrarem por este último serviço, já que existem várias opções de geradores gratuitos de códigos de barras disponíveis na internet.
A atribuição do ISBN e a elaboração da ficha catalográfica completa do livro são itens importantes, e não somente em razão de um capricho técnico. As publicações de uma editora pequena disputam espaço com milhares de outras obras e é difícil que sejam bem posicionadas, conforme seu conteúdo, nas prateleiras das livrarias e das bibliotecas, se não estiverem catalogadas de maneira completa. Não estando bem localizadas na vastidão das prateleiras, as obras ficarão ainda mais distantes do leitor ideal. Uma ficha catalográfica genérica, com poucos dados, agrava essa situação. O serviço de catalogação completa deveria ser prestado pela CBL no momento de registro do ISBN, uma vez que se paga por ele.
O manual da Agência Internacional do ISBN também determina que as agências nacionais têm a responsabilidade oficial de garantir que os dados não fiquem “escondidos”. Uma das funções obrigatórias dessas agências é “tornar o ISBN e os metadados associados disponíveis para outras agências de registro de ISBN e para usuários do sistema ISBN”, sendo lícito que cobrem taxas para o acesso às informações. Se a agência nacional não puder fornecer um serviço de listagem bibliográfica, deve, segundo o manual, colaborar com terceiros que garantam o acesso a esse serviço, ainda que mediante cobrança em alguns casos.
Ou seja: da parte da agência internacional de ISBN, não há uma diretriz de acesso irrestrito e universal aos dados, embora haja uma diretriz de transparência e acessibilidade. As agências nacionais devem garantir que os dados existam e possam ser consultados, mesmo que elas optem por cobrar para cobrir os custos operacionais de manutenção desses sistemas. A ferramenta de consulta disponibilizada pela CBL apresenta apenas a pontinha do iceberg que é a base de dados completa. Por que não disponibilizar acesso integral aos dados, acessível à maioria das pessoas, como fazem outras instituições de interesse público?
A CBL precisa melhorar a ferramenta de busca do site para que funcione melhor para o público geral e disponibilizar uma API pública para acesso de pesquisadores aos dados sobre os livros publicados no Brasil. Além disso, precisa explicar por que os dados históricos da Biblioteca Nacional não estão disponíveis (ou por que se perderam). Com base no que custava o registro do ISBN em 2025 (27,40 reais), multiplicado pela quantidade de registros de ISBN realizados no ano passado (247.467), a Agência Brasileira do ISBN – gerenciada pela CBL – arrecadou cerca de 6,8 milhões de reais apenas com esse serviço. Minha sugestão é que a entidade invista parte desse dinheiro na melhoria do acesso aos dados sob sua responsabilidade.
Os dados existem e podem ajudar a responder perguntas preciosas ao serem interpretados. Se nem os próprios editores, que fornecem esses dados, conseguem acessá-los para extrair informações, o que temos é um apagão sobre dados do mercado editorial que estão dispersos ou foram perdidos. Não seria um bom investimento criar uma forma mais completa de consulta às informações que pertencem a todos nós, brasileiros?
[1] A ferramenta de pesquisa é encontrada na página cblservicos.org.br/isbn/pesquisa/
[2] Ver Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, disponível em snel.org.br/pesquisas/
[3] Ver Produção e vendas do setor editorial brasileiro – Ano base 2025, disponível em https://cbl.org.br/2026/05/setor-editorial-avanca-em-2025-com-crescimento-nas-vendas-ao-mercado-e-fortalecimento-das-livrarias/
[4] Ver Pesquisa de Produção e vendas e Conteúdo Digital: questionários já estão disponíveis!, disponível em snel.org.br/2026/01/19/pesquisa-de-producao-e-vendas-e-conteudo-digital-questionarios-ja-estao-disponiveis/
[5] Disponível em cblservicos.org.br/isbn/manual/
[6] Este trecho está na página 23 do manual que se encontra em isbn-international.org/content/isbn-users-manual/29. A tradução é minha.
[7] grp.isbn-internacional.org