anais do capitalismo tardio

SORRIA! A VIDA NÃO PRESTA

Vivemos uma epidemia de livros de autoajuda que nos ensinam a esperar menos do mundo. Será que esse realmente é um caminho para a felicidade?
Aparentemente, existe hoje um consenso de que a tarefa primordial da filosofia é ajudar as pessoas a aceitar a imperfeição e a sua própria insignificância - Crédito: Emma Kumer
Aparentemente, existe hoje um consenso de que a tarefa primordial da filosofia é ajudar as pessoas a aceitar a imperfeição e a sua própria insignificância - Crédito: Emma Kumer

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Artigo publicado originalmente na revista The Drift.

Tradução: Isa Mara Lando

Os feitos de Donald Trump na política e no mundo empresarial acabam ofuscando suas contribuições como filósofo da futilidade humana. “Nós estamos aqui, vivemos nossos 60, 70, 80 anos, e depois vamos embora”, ele ponderou numa entrevista à Playboy, em 1990. “A gente vence, vence, vence, e no fim isso não significa grande coisa”, prosseguiu. As vitórias que vieram depois, pelo visto, não abalaram sua convicção. “Nada importa”, disse o magnata em 2004, numa entrevista a Larry King. “Você grava programas, faz isso, faz aquilo, aí acontece um terremoto na Índia e morrem 400 mil pessoas. De verdade, não importa.” Durante a campanha eleitoral de 2020, encarando o abismo por um breve instante, Trump manifestou o desejo de “pular” na caminhonete de um de seus apoiadores e “pegar a estrada, sair por aí”. Disse o então presidente: “Eu adoraria fazer isso. Dar o fora daqui. Só me mandar, sair disso aqui.”

Quem de nós não fantasia, de vez em quando, largar tudo para trás? Esse pequeno prazer anestesiante parece especialmente sedutor hoje em dia – graças, em grande parte, ao próprio Trump. Nos dez anos que se passaram desde que ele despontou na política, trazendo consigo o caos, a ideia de que nada importa foi se tornando popular. Como já notaram muitos cientistas sociais e pesquisas de opinião, cada vez mais os millennials e integrantes da geração Z demonstram um certo senso de fatalismo (“Entra aí, seu loser”, disse a revista Cosmopolitan aos seus leitores em 2024, depois da vitória de Trump. “Estamos indo para o abismo!”) A forma mais radical de lidar com a desesperança é dizer para si mesmo que, na verdade, a esperança foi um erro desde o início. Em Fodeu geral: um livro sobre esperança (2019), que lançou depois de A sutil arte de ligar o f*da-se (2016) – ambos publicados no Brasil pela Intrínseca –, o escritor americano Mark Manson, guru da autoajuda, diz de maneira concisa: “A esperança está fodida.”

O sucesso estrondoso de Manson nas livrarias de aeroporto, no entanto, indica que para a maioria das pessoas, diferentemente de Trump, não é fácil “ligar o foda-se”. Pelo contrário. No começo, você pode até sentir algum alívio aceitando que, como diz Manson, “a dor é a constante universal”, e que você nunca vai conseguir o que realmente deseja na vida. Não importa que as coisas continuem uma merda para sempre – é justamente por ter esperança que você acaba sofrendo com decepções e frustrações. Pronto, pensar assim não melhora tudo? Mas aí de repente você está no chuveiro, ou tentando dormir, e pensa em tudo aquilo que é importante pra você e em toda a dor da qual você nunca vai escapar. Seu peito se comprime, sua respiração acelera, e você corre para folhear o livro de Mark Manson e tentar lembrar como não se importar.

Se para você os livros de Manson parecem muito vulgares (no conteúdo e na forma), não se preocupe. Hoje, há uma quantidade aparentemente infinita de livros similares preenchendo as prateleiras por aí – livros que também prometem nos ajudar a aceitar que a decepção, a frustração e a agonia são sentimentos inescapáveis na vida. “Embora a dor seja inevitável, o sofrimento é opcional”, diz Joseph Nguyen aos leitores de seu best-seller, publicado em 2022, Don’t believe everything you think (Não acredite em tudo que você pensa, em tradução livre). O professor e influenciador fitness Michael Easter, em A crise do conforto (Intrínseca, 2023), explica que nossa vida é, na verdade, fácil demais, e que por isso devemos ser gratos pelos desafios que ainda existem. 

Vários desses livros fazem um uso bem-humorado de palavrões, o que ajuda a chamar atenção. Calm the fuck down (Acalme-se, porra, em tradução livre), de Sarah Knight, ensina “como controlar o que você pode controlar e aceitar o que não pode, para parar de surtar e tocar sua vida em frente”. Já Michael e Sarah Bennett, autores de Fuck feelings (Fodam-se os sentimentos, em tradução livre), prometem ensinar “como deixar de lado seus desejos irrealistas, parar de tentar mudar coisas que você não pode mudar e fazer o melhor possível com o que você pode controlar”.

Os leitores que preferem uma autoajuda com verniz de erudição podem encontrar, cada vez mais, opções desse tipo nas prateleiras de filosofia. Recorrer à filosofia para aprender a viver não é novidade. Mas chama atenção o caráter explicitamente instrutivo de muitos livros que têm sido publicados sob esse rótulo, inclusive em editoras universitárias. Aparentemente, se criou um consenso de que a tarefa primordial da filosofia é ajudar as pessoas a aceitar a imperfeição e a sua própria insignificância.

Alguns desses livros focam numa escola filosófica específica, oferecendo aos leitores um “ismo” com o qual ele possa se identificar – existencialismo, budismo, taoísmo e, acima de todos eles, o estoicismo, que nos últimos anos praticamente virou um gênero em si mesmo. Outros livros fazem uma colagem eclética de ideias consagradas, formando análises menos coesas sobre como lidar com o fracasso e a desilusão.

A indústria da autoajuda abraçou essa concepção de “filosofia”, a tal ponto que às vezes é difícil distinguir se um livro é de filosofia ou de autoajuda. Na notinha biográfica que aparece em suas obras, Joseph Nguyen conta que tira “inspiração da filosofia”, entre outras fontes. Em The Let Them Theory (A teoria do “deixa eles para lá”, em tradução livre), um dos livros de autoajuda mais vendidos na Amazon, a ex-advogada e podcaster Mel Robbins diz que seu método – que consiste em libertar os leitores da crença de que “podemos nos proteger da dor, da decepção, da rejeição” – está enraizado “em filosofias antigas e conceitos psicológicos que orientam as pessoas há séculos”, incluindo o estoicismo e o budismo. Oliver Burkeman, autor da newsletter The Imperfectionist e de livros como Meditations for mortals (Meditações para mortais, em tradução livre), oferece aos leitores um conselho que, segundo ele, é baseado em “séculos de reflexão filosófica”: renunciem à tentativa de “dominar uma realidade que pode parecer ingovernável e esmagadora”. Ser filosófico, aparentemente, é aceitar nosso destino.

Dá para entender o apelo desse tipo de ideia. Como a maioria dos americanos, conheço bem a frustração que se sente na busca pela “autorrealização”. Fomos ensinados a olhar para dentro de nós e encontrar nosso destino, nossa vocação, nosso desejo mais profundo, e a acreditar que tudo isso pode ser alcançado se fizermos por onde. A popularidade da nova onda de autoajuda mostra que muitos de nós não acreditam mais nesse conto da carochinha. Fomos enganados – e agora esperamos que a mão firme de um filósofo estoico possa nos dar um tapa na cara e nos trazer de volta à realidade. O problema é que essa “filosofia” empacotada e vendida aos leitores oferece apenas uma correção superficial. Imaginar-se como um Sêneca moderno, um sábio liberto das preocupações que afligem as almas comuns, também é uma forma de autoindulgência. Renunciar à necessidade de se importar consigo mesmo nem sempre nos livra do nosso próprio ego. Pode até piorar a situação. Se você não acredita, olhe para Trump.



A “filosofia” de autoajuda costuma se apresentar como um antídoto – palavra que aparece no título de um dos livros de Oliver Burkeman – para as expectativas irreais e a positividade tóxica das correntes mais tradicionais da autoajuda. Esses autores têm razão quando dizem que a autoajuda há muito tempo vende uma noção quase delirante do que alguém é capaz de conquistar exercendo apenas sua liberdade individual. Em seu clássico de 2009, Bright-sided (O lado positivo, em tradução livre), Barbara Ehrenreich argumenta que o pensamento positivo – a ideia de que devemos sempre esperar o melhor e acreditar na nossa capacidade de realizar nossos sonhos – funciona, desde o século XIX, como a ideologia oficial americana. Basta conferir as atuais listas de best-sellers. “O segredo para obter resultados duradouros é nunca parar de fazer melhorias”, escreve James Clear em Hábitos atômicos (Alta Books), que vendeu mais de 25 milhões de exemplares em todo o mundo desde sua primeira publicação em 2018. “É impressionante o que você consegue construir quando simplesmente não para.”

Livros desse tipo costumam recorrer à linguagem científica – caso de Mindset: A nova psicologia do sucesso (2006), da psicóloga Carol Dweck – ou à retórica cristã – como na obra de John C. Maxwell, pastor de uma megaigreja evangélica e autor de Success is a choice (O sucesso é uma escolha, em tradução livre), de 2020. São livros que reafirmam a nossa capacidade de domar a realidade, e por isso podem ser considerados herdeiros de O poder do pensamento positivo (Vozes), best-seller de 1952 em que Norman Vincent Peale alternava entre o sermão cristão e a psicologia pop. Pioneiro, o livro de Peale é imitado até hoje. (O autor, aliás, celebrou o primeiro casamento de Trump e parece ter moldado o pensamento do presidente – isto é, ao menos nos momentos em que ele não está muito ocupado pensando no vazio da existência.)

Peale, por sua vez, tirou inspiração de um conjunto de crenças e práticas espirituais conhecido como New Thought, popular na Era Dourada dos Estados Unidos, entre 1870 e 1900. Esse Novo Pensamento ensinava que os obstáculos materiais para os nossos desejos são basicamente ilusórios, consequências de um erro mental. Por meio do foco e da oração, qualquer problema pode ser resolvido, desde doenças até o desemprego. Como diz um panfleto do Novo Pensamento de 1903, a sabedoria convencional ensinava as pessoas a seguir em frente “sob as circunstâncias”, mas já era hora de os americanos se perguntarem como “superar as circunstâncias”. Esse tipo de pensamento sobreviveu ao século XXI. Um exemplo claro disso é o livro O segredo (Sextante), um misto de manifesto e manual que ficou famoso pelas mãos de Oprah Winfrey.

Mas embora o Novo Pensamento continue influente, outras visões de mundo foram se consolidando ao longo do século XX, propagando uma visão de vida um tanto mais conformista. Nos anos 1940, Theodor Adorno, exilado da Alemanha nazista, observava o fascínio crescente dos americanos pelo ocultismo – da astrologia à quiromancia. Na visão dele, aquilo funcionava como um mecanismo de adaptação a um mundo que parecia impossível de ser controlado. “Se, para os vivos, a realidade objetiva parece surda como nunca antes”, escreveu Adorno, “eles tentam extrair dela um significado dizendo abracadabra.” O Novo Pensamento, é verdade, também ensinava seus leitores a recitar fórmulas mágicas. “Todos os dias, em todos os sentidos, estou melhorando cada vez mais”, dizia uma frase popular na época. Mas o objetivo desse ocultismo descrito por Adorno não era convencer as pessoas de que elas estavam no controle. Pelo contrário, a ideia era mostrar que o mundo era governado por forças misteriosas e poderosas: os planetas, os espíritos, o inconsciente coletivo junguiano, os pilotos de discos voadores que os americanos começaram a ver por toda parte a partir de 1947. Na melhor das hipóteses, você podia aprender as regras do jogo. Não comandá-lo.

A sensação de que o mundo é incontrolável ganhou força à medida que os Estados Unidos do pós-Segunda Guerra passaram a conviver com ameaças existenciais, como a crise ambiental, o risco de um apocalipse nuclear e, nos anos 1970, a estagnação econômica. Não foi obra do acaso que tenham surgido nessa época práticas da contracultura valorizando a vida comunitária, as drogas psicodélicas, o amor livre. Tudo isso pode ser compreendido como uma tentativa de focar nos prazeres simples e imediatos da vida, já que todo o resto – se casar, constituir família, ter filhos, alcançar um alto cargo executivo – havia deixado de fazer sentido. Qual a importância disso quando o rio Cuyahoga está em chamas e uma bomba atômica pode explodir a qualquer momento?

Herbert Marcuse, que foi colega de Adorno na Escola de Frankfurt, afirmou em O homem unidimensional (Edipro), de 1964, que os americanos cada vez mais estavam abraçando as buscas “espirituais, metafísicas e boêmias”, trocando projetos de transformação social por estilos de vida como “zen budismo, existencialismo, beatnik, etc.”. Essas tentativas de encontrar propósito em projetos pessoais ou espirituais, segundo ele, eram “logo digeridas pelo status quo como parte da sua dieta saudável”.

Essa onda de experimentação espiritual se refletiu no mercado editorial, que passou a publicar livros mesclando autoajuda e filosofia. Depois de passar duas décadas no ostracismo, o autoproclamado “entertainer filosófico” Alan Watts virou celebridade nos anos 1950, vendendo livros que ao mesmo tempo serviam de introdução a algumas filosofias do Leste Asiático e ofereciam conselhos práticos sobre como viver. Zen e a arte da manutenção de motocicletas (WMF Martins Fontes, 1974), de Robert Pirsig, e O Tao do Pooh (Triom, 1995), de Benjamin Hoff, também entraram para as listas dos mais vendidos, combinando sabedorias “orientais” e “ocidentais” de um jeito que muita gente considerou útil para os problemas banais da vida. Até hoje, essa tradição continua firme. De uns anos para cá, o “zen” reapareceu nas livrarias embalado numa linguagem filosófica mais secular, caso dos best-sellers do monge sul-coreano Haemin Sunim. Martelando a necessidade aceitar o nosso destino e o mundo como ele é, Haemin ajudará você a cultivar o Amor pelas coisas imperfeitas (Sextante, 2016) e a aprender o que fazer Quando as coisas não saem como você espera (Sextante, 2024). “Somos infelizes porque não conseguimos fazer as pazes com aquilo que é”, ele diz. “Desejamos que as coisas sejam diferentes do que estão acontecendo naquele momento.”

Esse tipo de conselho, divulgado em formas e idiomas variados, está no cerne da “filosofia” de autoajuda, e os autores desse gênero estão convencidos de que se trata de uma ideia subversiva, afrontosa. O filósofo Costica Bradatan, por exemplo, disse certa vez que a mensagem de seu livro Elogio do fracasso: Desafiando a cultura do sucesso (Vozes, 2024) “pode parecer surpreendente”, pois “ao que parece, não há nada pior no nosso mundo do que fracassar”. O leitor assíduo da filosofia de autoajuda, porém, não encontrará nada muito novo nas instruções de Bradatan – em suma, o que ele nos diz é para vermos “as coisas como elas são, e não como gostaríamos que fossem”.

Em Meditações para mortais, Burkeman cita o teórico alemão Hartmut Rosa para atacar “a ideia, a esperança e o desejo de que possamos tornar o mundo controlável”. Essa ideia, segundo ele, é “a força motriz cultural dessa forma de vida que chamamos de ‘moderna’”. Burkeman diz que suas meditações ajudam a resistir a essa força e a aceitar que a maior parte das coisas está fora do nosso controle. “Não é preciso refletir muito sobre a limitação humana”, segundo ele, “para perceber que a existência de problemas simplesmente decorre, inevitavelmente, dos fatos da finitude”. É uma verdade óbvia, e por isso esse insight não é tão revolucionário quanto defende seu autor. Se esses conselhos realmente vão na contramão do mundo moderno, o fato de serem tão populares e tão lucrativos há tanto tempo é no mínimo curioso. Talvez essa corrente seja menos um antídoto para a autoajuda tradicional, como quer crer, e mais a sua faceta de Jano, o deus grego, olhando para trás e contemplando as esperanças que a sociedade nos ensinou a ter – e depois esmagou.



Embora os primeiros autores da filosofia de autoajuda enfatizassem a sabedoria esotérica e “oriental”, a doutrina que de fato conseguiu criar uma subindústria própria nas últimas décadas foi o estoicismo – corrente filosófica que surgiu na Grécia Antiga, no século III a.C., e se manteve viva nos primeiros séculos do Império Romano.

Os antigos estoicos viam o universo como a personificação da razão, um logos semelhante ao destino, e se esforçavam para desvendar os seus princípios. Já os admiradores contemporâneos do estoicismo tendem a vê-lo como “uma estrutura para viver a vida da melhor maneira possível”, nas palavras do divulgador estoico Massimo Pigliucci. Eles se interessam menos pelas categorias lógicas e argumentos racionais e mais pela busca da felicidade. As práticas recomendadas pelo estoicismo pop são, basicamente, “manter em mente o que está sob nosso controle e o que não está, concentrando nossos esforços na primeira categoria e não os desperdiçando na segunda”, como diz Pigliucci em How to be a stoic (Como ser um estoico), de 2017. É um pensamento que segue fielmente o dogma da autoajuda filosófica: nos frustramos porque nos preocupamos com coisas que não podemos mudar e que, no fundo, não importam tanto assim. Faça o que você acredita que é correto, aceite o resultado que vier e, assim, você poderá ser feliz – mesmo nas circunstâncias mais calamitosas.

Em um artigo publicado em 2020, a jornalista Hettie O’Brien chamou atenção para a atração que o estoicismo estava exercendo sobre as pessoas durante a pandemia. No texto, ela conta como essa antiga filosofia ganhou terreno nos anos 1980 e atingiu seu ápice nos anos 1990, uma década que ficou associada, erroneamente, a um tipo de otimismo complacente. Na verdade, o fim da história foi, como previu o próprio Francis Fukuyama, “uma época muito triste”. Com o desaparecimento da alternativa socialista representada pela União Soviética e o triunfo da globalização capitalista, as forças que moldam a nossa realidade se tornaram ainda mais impessoais, incompreensíveis. Se alguns Prometeus do Vale do Silício, surfando o boom da internet, passaram a se sentir deuses na sua capacidade de manipular o mundo, muitos americanos na era Clinton se viram à mercê do destino e encontraram algum consolo na grandiosa filosofia do amor fati – o amor ao destino (expressão popularizada por Friedrich Nietzsche, mas que hoje é reivindicada pelos entusiastas do estoicismo). 

James B. Stockdale, vice na chapa presidencial de Ross Perot em 1992 e vice-almirante da Marinha americana, escreveu um panfleto na década de 1990 explicando como usou os ensinamentos do filósofo estoico grego Epicteto para aceitar a inevitabilidade do sofrimento, da doença e da morte durante os anos em que ficou preso no Vietnã do Norte. “É impossível em um corpo como o nosso, isto é, neste universo que nos envolve”, diz Stockdale, citando Epicteto, “que tais coisas não aconteçam, algumas a um homem, outras a outro”. Em 1992, Bill Clinton disse ao jornalista Garry Wills que, depois da Bíblia, o livro que mais o influenciou na vida foi Meditações, de Marco Aurélio, imperador romano e um dos maiores expoentes do estoicismo.

Hoje em dia, se você fizer essa pergunta a um político ou a um CEO qualquer, é bem provável que ouça a mesma resposta. O estoicismo se tornou onipresente – em grande parte, graças ao trabalho incansável de divulgação feito por Ryan Holiday, ex-diretor de marketing da American Apparel, uma varejista de roupas. Holiday deu seus primeiros passos na autoajuda com seu livro de 2014, O obstáculo é o caminho: a arte de transformar provações em triunfo (Intrínseca). Depois do sucesso da obra – especialmente no mundo dos esportes –, ele lançou uma enxurrada de livros, sempre com frases de efeito: O ego é seu inimigo (2016), A quietude é a chave (2019) e Disciplina é destino: O poder do autocontrole (2022), todos publicados no Brasil pela editora Intrínseca. No processo, Holiday construiu também um pequeno império de mídia que inclui um podcast popular e um canal do YouTube com a marca Daily Stoic (O Estoico Diário).

Seu sucesso foi tamanho que o estoicismo se tornou praticamente incontornável no universo da autoajuda filosófica. Quem escreve nesse campo parece obrigado a tomar posição: ou embarca na onda ou tenta abrir um nicho alternativo. Mark Manson, por exemplo, já reclamou em seu blog de que, para algumas pessoas, A sutil arte de ligar o f*da-se “não passa de um estoicismo reciclado com algumas histórias legais e palavrões jogados no meio para dar graça”. Ele diz que, na verdade, suas principais influências ao escrever o livro foram “o budismo e o existencialismo”. Ainda assim, Manson participou do podcast Daily Stoic, de Ryan Holiday, para discutir “what you should actually give a fuck about” – isto é, com o que você realmente deveria se importar na vida.

Os críticos dessa corrente chamam atenção para o fato de que Holiday, além de ser adorado por empresários controversos do Vale do Silício, é popular em comunidades online onde proliferam a misoginia, o racismo ou ambos. A classicista Donna Zuckerberg – irmã do criador do Facebook – escreve sobre isso em seu livro de 2018, Not all dead white men (Nem todos os homens brancos mortos, em tradução livre). Ela relata que “os homens da ‘machosfera’ têm um profundo fascínio pela filosofia estoica”. Nos anos que se passaram desde a publicação do livro, essa tese se confirmou. Andrew Tate, influenciador de extrema direita acusado de tráfico de pessoas, já se autodenominou um apóstolo estoico. Holiday considera Tate “repulsivo”. A distância entre os dois, porém, não é tão grande quanto ele quer acreditar. Como observou Gregory Hays, classicista e tradutor das Meditações, o estoicismo foi popular entre os homens da elite romana, firmes defensores da necessidade de haver hierarquias sociais. Quando Holiday faz afirmações como “a obediência é o caminho para avançar”, não é difícil imaginar os desdobramentos sombrios que esse raciocínio pode ter. 

O estoicismo contemporâneo, porém, costuma ser mais banal do que sombrio. “A melhor vingança é tornar-se diferente daquele que te feriu”, diz Macrinus, personagem de Denzel Washington no filme Gladiador II (2024), citando as Meditações. Tal como muitas pérolas de sabedoria dos mestres da Antiguidade, essa observação é tão inexpressiva que seu efeito principal não é iluminar nem corromper, mas simplesmente entediar. O que dá alguma aparência de profundidade é o fato de ela ser atribuída a um grande filósofo credenciado. “Das coisas, algumas estão em nosso poder, outras não”, diz uma máxima de Epicteto que aparece em quase todos os tratados contemporâneos sobre o estoicismo. Em O pequeno manual estoico: sabedoria prática e filosófica para vivermos como eternos aprendizes (Somos, 2019), Jonas Salzgeber cita esse mesmo sábio grego, dizendo que devemos “fazer o melhor uso possível do que está em nosso poder, e aceitar o restante da maneira como vier”. Ah, sim. Quem poderia imaginar?

Máximas desse tipo estão por toda parte no estoicismo pop. O holandês Mark Tuitert, medalha de ouro em patinação de velocidade, inicia cada capítulo de seu manual The Stoic Mindset: Living the ten principles of stoicism (A mentalidade estoica: vivendo os dez princípios do estoicismo, em tradução livre) com uma citação de um pensador do passado. Funciona como um prelúdio para as orientações que, em seguida, Tuitert oferece ao leitor. “Não procure fazer os eventos acontecerem tal como você deseja, mas deseje que aconteçam tal como de fato acontecem, e tudo estará bem com você”, nos diz Epicteto antes do capítulo Aceite seu destino (e o ame). Suponho, então, que, se os 8,6 milhões de pessoas que morrem todo ano por falta de atendimento médico desejassem seu próprio destino, elas não se frustrariam. Mas a verdade tautológica não é um bom material para quem está querendo transmitir profundidade filosófica.

Só que a paciência do leitor tem limite. Os neoestoicos, cientes disso, vêm demonstrando certa preocupação com uma possível exaustão do público. Donald J. Robertson, cujo livro de 2019 Pense como um imperador romano (Citadel) explorava as conexões entre o estoicismo e a terapia cognitivo-comportamental (TCC), voltou à cena em 2024 com um novo volume, How to think like Socrates (Como pensar como Sócrates, em tradução livre). A orelha do livro batiza o mestre ateniense de “padrinho dos estoicos”, o que é verdade apenas na medida em que Sócrates pode ser considerado o “padrinho” de toda a filosofia ocidental subsequente. Afinal, se você gostou de aprender sobre os estoicos, por que não ir direto à fonte? Robertson escreve que os defensores da TCC celebram a frase de Epicteto que diz: “As pessoas não são perturbadas pelos eventos, mas sim por suas opiniões sobre os eventos.” Em seguida, esclarece que “a mesma ideia pode ser encontrada quatro séculos antes, nos diálogos socráticos”.

Robertson diz que seu método socrático, ao enfatizar a investigação racional das nossas opiniões em vez de fornecer uma fórmula para consertar tudo, oferece “uma crítica ao que a autoajuda se tornou” (com exceção, suponho, de sua própria incursão no gênero, anos atrás). Por mais numerosos que sejam os livros de autoajuda filosófica nas estantes das livrarias, por mais populares que sejam os podcasts e medalhões vendidos por aí com a frase amor fati, o gênero precisa sempre se apresentar como subversivo, pregando uma sabedoria pretensamente desafiadora que apenas as grandes almas são capazes de compreender.

Se um livro publicado em janeiro de 2025 intitulado Beyond stoicism (Além do estoicismo) serve como termômetro, podemos dizer que o mercado editorial será perfeitamente capaz de reciclar a filosofia da Antiguidade caso o estoicismo saia de moda. Escrito a seis mãos por Pigliucci, Gregory Lopez (fundador do grupo New York City Stoics) e Meredith Alexander Kunz (blogueira conhecida como Mamãe Estoica), Além do estoicismo reúne uma equipe de estrelas para garantir aos leitores que, mesmo que eles não gostem muito do estoicismo, podem buscar consolo numa miscelânea de outras filosofias antigas, como o ceticismo, o epicurismo e o neoplatonismo. Apesar de suas diferenças doutrinárias, explicam os autores, esses credos foram todos “articulados para ajudar as pessoas a enfrentar um mundo em turbulência, e sobre o qual tinham pouco ou nenhum controle” – algo “muito parecido com nossa época turbulenta”. Chegamos, enfim, a um ponto em que não apenas a realidade social é reificada, mas o próprio ato de filosofar também, sendo reduzido a uma coisa, um objeto – um instrumento de enfrentamento da realidade que você pode escolher com base no seu gosto pessoal, como quem escolhe um sabor de sorvete.



Seria injusto, no entanto, reduzir todo o campo da filosofia de autoajuda às superficialidades do estoicismo pop. Desde meados de 2020, quando uma onda de indignação política emergiu em diferentes partes do mundo, até mesmo alguns defensores do revival estoico demonstraram ter repensado suas posições. Em Razões para não se preocupar: Como ser estoico em tempos caóticos (Rocco, 2022), a escritora australiana Brigid Delaney confessa que, quando começou a ler sobre essa filosofia, temeu que “a ênfase do estoicismo na responsabilidade pelo próprio caráter e o reconhecimento da pequenez da nossa esfera de influência significassem que a justiça social e a luta por mudanças na sociedade não tinham lugar na vida de um estoico praticante”. Mas ela relata que, no fim, passou a ver o estoicismo como um antídoto para os sentimentos de desespero e frustração que, na sua experiência, dificultam o engajamento em ações políticas. “Você teria mais chances de ser um agente eficaz da justiça e da mudança”, escreve Delaney, “se canalizasse as técnicas estoicas, incluindo controlar a raiva.” Isso provavelmente é verdade. Os ativistas que ficam furiosos quando as coisas saem do script provavelmente não conseguem durar muito tempo na política, que é inevitavelmente frustrante. Mesmo assim, é difícil imaginar alguém bem-sucedido que nunca tente mudar algo que, de início, pareça estar fora da sua “esfera de influência”.

Alguns dos livros mais ponderados nessa interseção entre filosofia e autoajuda dão conselhos que os estoicos modernos certamente endossariam – como aceitar os limites do nosso controle, moderar expectativas, questionar o que realmente importa –, mas, ao mesmo tempo, dialogam com pensadores assumidamente de esquerda, até mesmo revolucionários. Kieran Setiya, filósofo do MIT, invoca o marxismo heterodoxo da Escola de Frankfurt no livro Life is hard: How philosophy can help us find our way (A vida é difícil: como a filosofia pode nos ajudar a encontrar nosso caminho, em tradução livre), publicado em 2022. Baseando-se em Adorno e seus colegas, Setiya escreve que “a ideologia distorce nossa percepção do que é humanamente possível” – o que, segundo ele, significa que a tentativa de “conceber um mundo ideal” ao qual devemos aspirar é uma armadilha que nos arrasta cada vez mais para as garras da ideologia. Essa talvez seja uma boa interpretação do que pensava Adorno em seus momentos mais pessimistas, mas não naqueles em que o alemão afirmou que “se as pessoas querem nos convencer de que a natureza condicional do homem impõe limites à utopia, isso simplesmente não é verdade”. Com esse recorte arbitrário, Setiya defende que, em vez de perguntar como podemos construir a sociedade perfeita, devemos reconhecer que “há valor em um único passo em direção à justiça, e um passo leva a outro”. Ele sugere que esse foi o mesmo raciocínio usado por Walter Benjamin quando caracterizou a política radical como um instrumento que “puxa o freio de emergência” do grande trem da história, em vez de embarcar nele e seguir em direção a uma nova era de progresso.

Na mesma toada, Avram Alpert argumenta em The Good-Enough Life (A vida suficientemente boa, em tradução livre) que reduzir nossas expectativas de “grandeza” pode nos ajudar a não nos envolver excessivamente na política – um problema que gera líderes egocêntricos ou, no mínimo, exaustos. Para Alpert, essa é uma das principais lições que podemos tirar do Movimento Negro pelos Direitos Civis. Enquanto os holofotes ficavam concentrados em figuras como Martin Luther King Jr., milhares de mulheres faziam diariamente o trabalho de formiguinha que foi fundamental para atrair pessoas à causa. Alpert também diz que moderar nossas expectativas em relação à nossa própria vida pode nos ajudar a superar nosso desejo por riqueza e poder. O lema de Mark Manson – “não dar a mínima” – é, segundo Alpert, um “conselho muito bom”, mas que deve ser acompanhado pelo compromisso de mudar as forças estruturais que “tornam tão difícil” segui-lo. Cada pessoa merece um padrão mínimo de segurança material, justamente para “ter mais tempo e lazer para apreciar os prazeres comuns e suficientes da existência” e abandonar a luta interminável por mais.

O livro que trata mais diretamente das implicações políticas da autoajuda é um pequeno volume chamado Anxiety: A philosophical guide (Ansiedade: Um guia filosófico, em tradução livre), publicado em 2024. Nele, o filósofo Samir Chopra conduz o leitor pelas formas como o budismo, a psicanálise e o existencialismo – não o estoicismo – tratam a ansiedade. Em cada um desses casos, ele explica como a tradição intelectual considera a ansiedade uma dimensão inescapável da experiência humana. A psicanálise, segundo Chopra, ensina que nossas chances de conviver confortavelmente com a ansiedade dependem da “nossa capacidade de não esperar” segurança do mundo – algo fácil de dizer se você tem a sua próxima refeição garantida. No final do livro, porém, Chopra me surpreendeu ao apresentar a crítica que Herbert Marcuse dirigiu a toda essa linha de pensamento. “Seria bem conveniente para os que estão no poder”, escreve Chopra, parafraseando Marcuse, “saber que aqueles que eles tornaram ansiosos e temerosos por meio dos seus arranjos políticos e sociais se contentam em chafurdar na sua ansiedade e não tomam nenhuma atitude para reformar as condições materiais que a causaram.” Chopra convida o leitor a refletir sobre o entrelaçamento de uma ansiedade existencial inevitável com o sofrimento causado pela estrutura da sociedade. A ansiedade socialmente produzida, argumenta ele, pode e deve ser transformada. “Combater e confrontar a ansiedade exige aceitação, ativismo e contemplação”, afirma o filósofo. “E uma combinação precisa desses elementos pode ser a receita salutar para se conviver com a ansiedade.”

É verdade. A questão, então, é qual seria a combinação ideal. Comecei a ler todas essas obras de autoajuda no início de 2024, quando estava terminando de escrever um livro que trata, sobretudo, da história do Novo Pensamento e das principais correntes americanas de autoajuda inspiradas por ele. Achei interessante que, de repente, tinha surgido uma leva de textos que se posicionava, ao menos retoricamente, contra o pensamento positivo e a ideologia dominante do sucesso. Eu também esperava, meio secretamente, que esses textos me salvassem. Todos os dias eu acordava em desespero – diante da matança interminável em Gaza, diante da lenta destruição do ensino superior, área à qual dediquei toda a minha vida adulta, diante da ausência de qualquer força que possa fazer frente ao autoritarismo de extrema direita nos Estados Unidos e em todo o mundo. Os livros que li ofereciam, no mínimo, a prova de que eu não era o único a me sentir assim. Longe disso. Quase todos começavam recitando as crises aparentemente insuperáveis ​​que nos afligem hoje, mesmo que essas listas não fossem exatamente iguais à minha. E me garantiam que eu não precisava sentir a culpa que tantas vezes acompanhava meu desespero. “Sede perfeitos, assim como é perfeito vosso Pai celestial”, aprendi no Evangelho, durante minha educação católica. Nesses livros, em vez disso, li que abrir mão da perfeição era uma obrigação política por si só. Quando bem compreendida, essa era a lição de muitos dos pensadores que eu mais admirava.

A certa altura, porém, percebi que eu estava gastando mais tempo pensando no meu próprio desespero do que nos problemas externos que o causavam. E me pareceu que muitos conhecidos meus estavam fazendo o mesmo. Inúmeras conversas giravam em torno de como estávamos fazendo o melhor possível em circunstâncias difíceis. A participação em reuniões de cunho organizativo foi diminuindo. Minha própria frequência ficou menor. A vida é dura, dizíamos a nós mesmos. Descansar é resistir.

Embora um senso exagerado da própria importância seja uma receita para o desastre – tanto político quanto psicológico –, também é possível superestimar nossa insignificância. A aceitação facilmente se transforma em desculpa. Se nos tornamos mestres em tolerar a imperfeição, acabamos esquecendo daquilo que realmente queremos para a vida. Quando esses desejos incluem comprar uma casa de veraneio ou ganhar um Prêmio Nobel, pode ser saudável apenas deixar para lá – mas “deixar pra lá” é trágico quando se trata de impedir um genocídio ou resolver a situação das pessoas sem-teto. Se sentimos que é essa uma cobrança grande demais para fazermos a nós mesmos, é porque poucos de nós puderam testemunhar, nos últimos tempos, como o poder coletivo é capaz de expandir nossa capacidade de ação individual. Quando cada um está largado à própria sorte, as condições que moldam a nossa vida parecem estranhas e monolíticas, nos obrigando a escolher entre os dois polos da autoajuda: o otimismo ilusório do pensamento positivo e a aceitação estoica ensinada pela “filosofia”.

Mas render-se preventivamente, aceitando que nada vai mudar, não é sinal de sabedoria. Qualquer realidade criada pelos seres humanos pode ser refeita por eles. O preço desse poder é a obrigação de jamais nos eximirmos da responsabilidade. As coisas que podemos realizar juntos estão, por definição, dentro da nossa esfera de controle, mesmo que tenhamos que agir por meio de estruturas maiores do que qualquer um de nós pode alcançar sozinho. 

Por mais irritante que seja admitir, alguns dos clichês antiquados do pensamento positivo são verdadeiros – desde que usados na primeira pessoa do plural. Nós somos responsáveis pela maneira como nossas vidas se desenrolam; nós podemos fazer coisas que, a princípio, parecem impossíveis. Mas para aqueles de nós que vivem no coração do império americano, com nosso presidente levando alegremente nossa sociedade para o inferno, essa notícia está longe de ser reconfortante. O que fazemos com nossas vidas importa, sim – tanto quanto qualquer outra coisa. É isso que deveria nos tirar o sono.

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Artigo publicado originalmente na revista The Drift.


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É historiador na Universidade de Harvard e autor de Make your own job: How the entrepreneurial work ethics exhausted America ​​(Crie seu próprio emprego: como a ética do trabalho empreendedor exauriu os Estados Unidos, em tradução livre). É editor sênior da revista The Drift