questões geográficas
Philip Yang, especial para piauí 10 Jun 2026
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O conservadorismo contemporâneo, em boa parte do Ocidente, parece ter encontrado na imigração uma de suas linguagens políticas mais eficazes. Não apenas como tema de política pública, mas como gramática emocional: a ideia de que a nação precisa se defender de corpos, línguas, religiões e hábitos vindos de fora. A promessa é antiga – proteger o “nós” contra o “eles” –, mas ganhou nova intensidade num mundo atravessado por envelhecimento demográfico, precarização do trabalho, crise urbana, deslocamentos climáticos e algoritmos que transformam inseguranças difusas em ressentimentos organizados.
As eleições que se aproximam nos Estados Unidos e no Brasil recolocam essa questão em planos distintos. Lá, a imigração tornou-se eixo explícito da disputa política. No Brasil, o tema ainda não ocupa a mesma centralidade emocional, mas aparece de modo indireto em debates sobre fronteiras, venezuelanos, haitianos, bolivianos, segurança, trabalho, cidades e identidade nacional. Em ambos os casos, a pergunta de fundo é parecida: que tipo de Estado se constrói quando sociedades formadas pelo movimento humano passam a tratar novos deslocamentos como ameaça?
A história da civilização humana é, em larga medida, a história dos grandes movimentos migratórios no planeta. Há algo de intrigante em ver sociedades formadas por deslocamentos sucessivos passarem a tratar a chegada de novos estrangeiros como anomalia, ameaça ou desvio da ordem natural. Olhada em escala adequada, a anomalia talvez seja de que povos, culturas e economias poderiam permanecer imóveis.
Não se trata de afirmar que tudo o que foi deve continuar sendo. A história não é receita, nem tribunal. Mas, quando um mesmo mecanismo – a incorporação de populações em movimento – reaparece por milênios como vetor de renovação técnica, econômica e cultural, ignorá-lo não é prudência; é esquecimento arriscado. O passado não obriga, apenas adverte.
A questão que se coloca, portanto, é política, estratégica e civilizacional. Estados nasceram, em boa medida, para proteger suas populações. Hoje, populações de grandes países ocidentais se sentem ameaçadas e votam em políticos que lhes prometem proteção contra imigrantes. Mas e se o estrangeiro não for a ameaça principal? E se o verdadeiro risco estiver na incapacidade dos Estados de organizar, integrar e transformar o movimento humano em força coletiva?
O ser humano talvez seja, antes de tudo, uma espécie que saiu caminhando. Antes de sermos sedentários, proprietários, nacionais ou patriotas, fomos nômades. Antes da bandeira, do passaporte e da alfândega, houve o corpo em movimento, a criança no colo, o pequeno grupo em busca de alimento, água, segurança ou salvação. A história humana começou muito antes das fronteiras que hoje julgamos eternas.
Há cerca de 2 milhões de anos, em números sempre provisórios – a paleoantropologia não se cansa de corrigir nossas certezas –, começava a grande jornada dos primeiros hominídeos para fora da África. Muito depois, populações de Homo sapiens avançariam pela Eurásia, alcançariam a Oceania, atravessariam geleiras, rios, desertos, mares e longas extensões de terra até ocupar todo o planeta. Desde então, a ocupação da Terra pelo movimento de populações se confunde com o avanço do conhecimento, da técnica, da linguagem, das formas de parentesco, da guerra, do comércio, das religiões e das cidades.
É evidente que nem todo movimento foi virtuoso. Migrações também produziram guerra, conquista, dominação, epidemias, escravidão e destruição. O argumento não depende de uma narrativa angelical da circulação humana, mas de uma hipótese mais simples: a permanência absoluta, se tivesse sido possível, teria sido esterilidade. Técnicas agrícolas, plantas e animais domesticados, línguas, instrumentos musicais, mitos, deuses, doenças, armas, alfabetos, modos de vestir, cozinhar e governar circularam. A humanidade aprendeu porque caminhou.
Povos indo-europeus difundiram línguas e formas de organização social. Mercadores árabes conectaram desertos, portos e continentes. Migrações turcomanas redesenharam impérios. Diásporas judaicas levaram comércio, erudição e memória por vastas geografias. Navegações europeias inauguraram um sistema planetário de trocas, frequentemente brutal e colonial, mas impossível de ignorar como força transformadora. A escravidão atlântica, a mais trágica das migrações forçadas, deslocou milhões de africanos e constituiu vetor decisivo das Américas modernas.
A própria ideia de pureza cultural talvez seja uma ficção produzida por povos que esqueceram seus arquivos. Quase todas as sociedades que hoje se imaginam portadoras de identidades ancestrais estáveis nasceram de misturas, invasões, adaptações e longos processos de hibridização. Somos descendentes não apenas dos que ficaram, mas sobretudo dos que vieram, fugiram, atravessaram ou foram arrancados de suas terras.
Há nesse movimento migratório uma dimensão psicológica que costuma escapar às grandes narrativas estruturais. Migrar exige uma disposição específica diante do risco. Quem parte não carrega apenas malas, documentos, ferramentas ou memórias. Carrega uma aposta – voluntária ou desesperada, mas sempre aposta. Aposta de que o desconhecido poderá ser menos hostil do que a miséria conhecida; de que a língua estrangeira poderá ser aprendida; de que a humilhação inicial talvez se converta em ascensão futura; de que os filhos viverão melhor que os pais.
O psicólogo americano John Gartner levou essa intuição ao limite em The Hypomanic Edge: The Link Between (a Little) Craziness and (a Lot of) Success in America (sem tradução no Brasil). Para ele, parte da excepcionalidade americana decorreria de um gigantesco processo histórico de autosseleção psicológica. A América atraiu durante séculos, em sua visão, indivíduos inclinados ao risco, à ambição, à ruptura de convenções, à crença de que uma vida nova poderia começar do outro lado do oceano. Gartner identifica nesse processo uma espécie de hipomania social americana: energia incomum, otimismo, criatividade, disposição empreendedora e capacidade de ignorar, às vezes com resultados brilhantes e às vezes desastrosos, os sinais mais elementares de prudência.
A hipótese é ousada – e, precisamente por isso, fecunda. Não precisa ser lida como determinismo biológico, mas como constatação de que deslocamentos massivos funcionam também como mecanismos de seleção de temperamentos. Instituições, geografia, recursos naturais, violência, escravidão, guerra, capitalismo, tecnologia e acaso tiveram peso imenso na formação americana. Mas a autosseleção psicológica dos que chegaram faz parte dessa história.
A migração seleciona inquietos. Nem todos são gênios. Nem todos são empreendedores. Muitos apenas tentam sobreviver. Mas há no gesto de partir uma recusa mínima da resignação – e essa recusa, multiplicada por gerações e milhões de histórias individuais, produz uma cultura coletiva de inconformismo que nenhuma política de estímulo doméstico consegue fabricar por conta própria. Sociedades que absorvem sucessivas ondas migratórias renovam continuamente seu repertório de ambições. Recebem braços, sim; mas recebem também inquietações, técnicas, fome de reconhecimento, desejo de ascensão e, não raro, uma capacidade extraordinária de trabalhar mais que os já instalados.
Convém, no entanto, não romantizar nem a energia nem o sacrifício. A mesma disposição que dinamiza uma sociedade pode, se não encontra canais de integração, converter-se em pressão sobre salários, serviços e territórios. O inconformismo que empreende é parente próximo do inconformismo que aceita condições degradantes para sobreviver. A diferença não está apenas na psicologia do migrante, mas no tecido institucional que o recebe. Em sociedades com Estado capaz, escola acessível, mercado de trabalho minimamente regulado e política urbana, a energia tende a produzir ascensão. Onde essas condições faltam, produz tensão – e então o estrangeiro passa a ser culpado pela desordem que a fraqueza do Estado não soube prevenir.
Os Estados Unidos gostam de se descrever como uma nação de imigrantes. A definição é verdadeira, mas insuficiente. Foram menos uma nação de imigrantes do que uma máquina histórica de absorção de inconformados – e a distinção importa. Irlandeses fugindo da fome, italianos empobrecidos, judeus escapando de perseguições, chineses marginalizados, latino-americanos em busca de trabalho, cientistas europeus expulsos pelo nazismo, engenheiros indianos, programadores asiáticos, estudantes africanos, médicos formados em universidades distantes. A cada geração, o país foi reabastecido por populações que chegavam com pouco patrimônio e enorme apetite de futuro.
Não é preciso idealizar essa história. A recepção foi frequentemente brutal – e registrar essa crueldade não enfraquece o argumento central. Cada um desses grupos, em seu tempo, foi tratado como ameaça moral, religiosa, sanitária, laboral ou racial. A cada nova onda, imigrantes anteriores descobriam razões para temer os seguintes. A xenofobia americana tem longa tradição. Mas a força americana residiu em absorver, ao longo do tempo, aqueles que inicialmente rejeitava.
Nova York, Chicago, Detroit, Los Angeles, Miami e o Vale do Silício não podem ser compreendidos sem essa sucessão de camadas humanas. A indústria, o cinema, a ciência, a música, o comércio, a informática e a economia digital foram permanentemente atravessados por estrangeiros e filhos de estrangeiros. Albert Einstein era alemão (cidadania renunciada posteriormente). Enrico Fermi era italiano. Sergey Brin nasceu na União Soviética. Muitos chegaram como nomes desconhecidos e tornaram-se constitutivos.
Nenhum sistema de imigração reconheceu, no momento da chegada, o talento que muitos desses estrangeiros ou seus filhos carregavam. E aqui reside um argumento central, frequentemente ignorado no debate contemporâneo: uma imigração relativamente aberta, acompanhada de capacidade social de absorção, é ela própria um mecanismo extraordinário de seleção de talentos. Qualquer filtro burocrático anterior ao processo social – por mais sofisticado que seja – é inferior ao próprio caldo, porque nenhum sistema de triagem consegue prever onde o talento vai emergir. A diversidade amplia as chances. O filtro excessivo as reduz.
Isso significa que o argumento moral e o argumento estratégico-geopolítico pela imigração não são apenas compatíveis. Em muitos casos, são o mesmo argumento. Abrir-se ao estrangeiro não é apenas gesto humanitário, mas também de inteligência coletiva de longo prazo. Fechá-lo não é apenas intolerância, pode ser também automutilação estratégica.
A pergunta, portanto, não é se a imigração ameaçou a América. A pergunta é se a América teria sido possível sem a imigração. E a resposta parece clara demais para ser confortável: não.
Por isso causa estranheza observar o lugar ocupado hoje pela imigração na política americana. O trumpismo transformou a fronteira em palco moral da nação. Mas o deslocamento não se limita à direita. Setores democratas, pressionados por insegurança social, crise de moradia, desordem administrativa e desgaste político, também endureceram sua linguagem. Em ano eleitoral, a imigração deixou de ser apenas questão humanitária, econômica ou jurídica. Tornou-se teatro da ansiedade nacional.
Há nisso uma ironia evidente. Netos e bisnetos de imigrantes votam em plataformas que prometem proteger o país contra recém-chegados. Os netos dos que chegaram sem convite passam a exigir convite formal dos novos. Os filhos da travessia tornam-se fiscais da fronteira.
A ironia não deve nos levar à caricatura. O temor da imigração não nasce no vácuo. Há cidades sobrecarregadas, serviços públicos insuficientes, salários comprimidos, mercados de habitação em colapso, escolas pressionadas, comunidades que percebem mudanças rápidas demais em seu entorno. Seria erro – e erro politicamente infantil – ignorar esses custos. A imigração precisa de Estado, planejamento, infraestrutura, integração e alguma noção de ritmo. Sem isso, a abertura produz ressentimento.
A América que hoje teme e caça o estrangeiro – tendo a agência federal ICE como cão de guarda – não é simplesmente a mesma América que o acolheu. Entre uma e outra houve décadas de desindustrialização, estagnação salarial para amplas camadas, declínio da mobilidade social e enfraquecimento de instituições integradoras – sindicatos, escolas públicas robustas, políticas de habitação, canais reconhecíveis de ascensão. A energia inconformada continuou chegando, mas os canais que antes a transformavam em promessa nacional foram se estreitando. O medo migratório, nesse sentido, é menos fadiga civilizacional abstrata do que a cicatriz de uma promessa de integração que deixou de ser cumprida.
O erro começa quando demandas materiais legítimas são convertidas em hostilidade identitária. O problema não é o medo social em si, mas sua captura por máquinas políticas e digitais que deixam de buscar soluções e passam a fabricar inimigos. Os algoritmos não criam esse ressentimento do nada. Eles amplificam e aceleram divisões já existentes, transformando tensões administráveis em fraturas aparentemente irreconciliáveis. O estrangeiro torna-se condensação perfeita de medos que têm causas mais amplas, como a desindustrialização, desigualdade, precarização, desconfiança nas instituições, solidão social, perda de horizonte. Em sociedades confiantes, o estrangeiro aparece como oportunidade. Em sociedades assustadas, aparece como invasor.
Sociedades assustadas nem sempre sabem diagnosticar o próprio medo. Combatem o sintoma e preservam a doença. Fecham a porta ao migrante, mas não resolvem a crise da moradia. Expulsam o trabalhador estrangeiro, mas não reconstroem a indústria. Criminalizam o refugiado, mas não recuperam a coesão social. A política migratória torna-se, assim, substituta torta da estratégia nacional. Onde faltam projeto, investimento e imaginação, sobem muros de fronteira.
Por que sociedades construídas por migrantes passam a temer migrantes? Talvez porque a abertura seja uma virtude mais fácil para quem ainda está em expansão do que para quem teme perder o que acumulou. Sociedades jovens, pobres ou em ascensão costumam precisar do estrangeiro. Sociedades ricas, envelhecidas e patrimonializadas passam a temê-lo. Quando o futuro parece maior que o presente, o recém-chegado é força. Quando o presente parece ameaçado pelo futuro, vira risco.
A Europa conhece bem esse dilema. Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Holanda, países nórdicos, em graus diferentes, dependem de trabalhadores estrangeiros, estudantes internacionais, médicos, cuidadores, pesquisadores, motoristas, técnicos, trabalhadores agrícolas, empregados de serviços. Ao mesmo tempo, todos vivem a pressão de movimentos políticos que transformam imigração em eixo de disputa identitária. AfD, Le Pen, Meloni, Farage e outros personagens dessa constelação não são aberrações isoladas. São sintomas de sociedades que envelhecem, perdem confiança no futuro e buscam no passado proteção imaginária.
O paradoxo é cruel. As mesmas economias que precisarão de mais gente para sustentar previdência, inovação, serviços e produtividade passam a desejar menos gente de fora. As mesmas sociedades que dependem de diversidade para renovar conhecimento fantasiam homogeneidade. As mesmas democracias que nasceram da pluralidade flertam com ideia estreita, defensiva e melancólica de povo.
Há ainda a dimensão demográfica que o debate raramente enfrenta com clareza. O bônus demográfico – período em que a população tem proporção elevada de adultos em idade ativa em relação a dependentes – está se esgotando em quase todas as economias desenvolvidas. Europa, Japão e China envelhecem. Os Estados Unidos, protegidos durante décadas por sua capacidade de atrair populações jovens, começam a sentir o mesmo processo. Nesse cenário, a imigração deixa de ser apenas questão humanitária ou identitária e torna-se variável estrutural, já que é uma das poucas políticas capazes de reequilibrar, no curto e médio prazo, a razão de dependência que pressiona a previdência, os mercados de trabalho e os orçamentos públicos. Fechar as fronteiras, nesse contexto, não é apenas xenofobia; é miopia fiscal.
O século XXI será marcado não apenas por disputa por petróleo, semicondutores, terras raras, inteligência artificial, alimentos, energia ou água. Será também, e talvez sobretudo, disputa por gente. Gente jovem, qualificada e disposta a ocupar funções que populações envelhecidas já não conseguem preencher, como pesquisar, construir, ensinar, operar máquinas, cuidar de idosos, abrir restaurantes, fundar empresas, pagar impostos e ter filhos.
Talvez o medo migratório seja menos medo do estrangeiro do que medo do tempo. O estrangeiro lembra que o mundo não parou, que identidades se transformam, línguas se misturam, bairros mudam, filhos se casam com pessoas inesperadas, a nação é menos imóvel do que seus hinos sugerem. Para sociedades cansadas, essa lembrança pode ser insuportável. E os algoritmos estão ali para confirmar, a cada scroll, que o cansaço parece ter razão.
Estados não nascem para promover felicidade. Nascem, antes de tudo, para reduzir o medo. Da tradição hobbesiana ao monopólio weberiano da violência legítima, sua promessa elementar é a de proteger contra a guerra externa, a violência interna e aquilo que ameaça a vida comum. Em troca de obediência, imposto e renúncia parcial à liberdade, cidadãos recebem a garantia de que alguém os defenderá.
É justamente essa promessa que a política anti-imigração contemporânea mobiliza. Se populações de grandes países ocidentais se sentem ameaçadas, votam em políticos que lhes oferecem o Estado como muralha. Nesse contexto, o estrangeiro passa a ocupar, no imaginário político, o lugar do inimigo externo. Com uma diferença incômoda: muitas vezes ele já está dentro, trabalhando, pagando aluguel, limpando hospitais, cuidando de idosos, colhendo alimentos, entregando refeições, sustentando por baixo a economia que o discurso oficial gostaria de expulsar por cima.
Não é um deslocamento menor. Quando o Estado confunde proteção com exclusão, transforma maquinaria de defesa em dispositivo de medo. A fronteira entre a função legítima do Estado e a política do ressentimento tem, nesse ponto, exatamente a espessura do fio de uma navalha.
As ameaças reais estão em outras frentes. Nas mudanças climáticas que ampliarão deslocamentos humanos; no envelhecimento de países que desequilibrará pirâmides demográficas; na competição geopolítica por populações jovens e qualificadas; na precarização que torna o estrangeiro bode expiatório daquilo que o próprio Estado foi falho por deixar de organizar. O Estado anti-imigrante confunde sintoma com doença. E, ao fazê-lo, enfraquece o instrumento que afirma fortalecer.
A resposta adequada ao sentimento de ameaça não é, portanto, fechar fronteiras como reflexo. É construir instituições capazes de absorver o movimento humano e transformá-lo em energia coletiva. O Estado forte não é o que apenas expulsa. É o que integra. A diferença entre um e outro define, em boa medida, o destino das civilizações. A defesa da abertura não pode ser ingênua, mas acompanhada de política pública robusta de integração. Mas – e aqui está o equívoco de muitos governos – a resposta ao fracasso da integração não é fechar a porta. É construir a casa.
Isso significa tratar o imigrante não como problema administrativo a ser processado, mas como ativo humano a ser integrado. Significa escolas capazes de receber crianças em diferentes estágios linguísticos sem transformar a diferença em deficiência. Significa mecanismos de reconhecimento de diplomas e qualificações estrangeiras – porque o médico sírio que lava pratos em Berlim não é exemplo de integração malsucedida apenas; é desperdício civilizacional. Significa políticas urbanas que tratem bairros de alta concentração migratória não como zonas de risco, mas como laboratórios de inovação social que precisam de investimento, e não apenas de vigilância.
Significa, sobretudo, que Estados sejam honestos sobre o que querem. Um Estado que fecha vistos e ao mesmo tempo depende de trabalhadores indocumentados para colher frutas, limpar hospitais e construir estradas pratica uma hipocrisia que corrói a confiança nas instituições. A inconsistência entre discurso de fechamento e dependência econômica é uma das fontes do cinismo político contemporâneo.
Há, claro, uma dimensão de ritmo. Nenhuma sociedade absorve fluxos ilimitados sem tensão. Políticas de imigração precisam de calibração – não como concessão ao nativismo, mas como condição de sustentabilidade da própria abertura. A diferença entre uma política inteligente e portas escancaradas sem planejamento é a mesma que existe entre medicina preventiva e sala de emergência: ambas atendem, mas a segunda custa mais, produz piores resultados e gera mais ressentimento.
O ponto central, portanto, não é abertura irrestrita nem fechamento defensivo. É a capacidade estatal para transformar o fluxo humano em projeto coletivo. Países com Estados fracos podem construir o Estado ou encontrar um bode expiatório. A segunda opção é mais fácil, mais rápida e eleitoralmente mais rentável. Mas é a primeira que define destinos.
O Brasil talvez compreenda essa história melhor do que imagina. Nossa formação é inseparável de movimentos populacionais de natureza muito diversa: colonização portuguesa, escravidão africana, imigração italiana, alemã, japonesa, síria, libanesa, judaica, espanhola, migrações internas, deslocamentos indígenas, êxodos rurais, fugas, retornos e recomeços. Parte decisiva dessa história foi violenta.
A presença africana no Brasil não resultou de imigração voluntária. A escravidão não foi apenas instituição econômica; foi uma engenharia social de desumanização, cujos efeitos ainda estruturam desigualdades, territórios e formas de reconhecimento. Dito isso, resta reconhecer que o Brasil foi, de modo talvez singular nas Américas, laboratório intenso de mistura. Em graus diferentes, desiguais e muitas vezes assimétricos, misturaram-se biológica, cultural, linguística, religiosa, culinária, musical e afetivamente.
Em outros países das Américas, grupos étnicos frequentemente compartilharam instituições. No Brasil, compartilharam também famílias. A ciência reforça essa diferença: estudos genéticos descrevem o Brasil como a maior população recentemente miscigenada do mundo, enquanto estudos demográficos comparativos situam os Estados Unidos, no caso das uniões negro-brancas, entre os países de menor intercasamento no universo analisado.[1]
Alemães e italianos transformaram padrões produtivos, agricultura, pequenas cidades, hábitos e paisagens. Japoneses redefiniram segmentos agrícolas e deixaram marcas profundas na cultura urbana. Sírios e libaneses ocuparam lugar decisivo no comércio, na vida política e na construção de redes sociais.
Mas talvez o maior monumento brasileiro à potência migratória esteja na própria cidade de São Paulo. Não apenas por europeus e asiáticos que chegaram pelo porto de Santos, mas por milhões de brasileiros vindos do Nordeste, de Minas, do interior paulista e de outras regiões. A grande metrópole foi erguida por pessoas que abandonaram a seca, a roça e a vida conhecida em busca de trabalho e ascensão.
Também sofreram preconceito. O nordestino em São Paulo foi muitas vezes tratado como estrangeiro interno, portador de atraso, ameaça urbana ou mão de obra descartável. A história migratória brasileira, portanto, não é mais virtuosa que a americana. Mas talvez tenha produzido uma sensibilidade particular, a de que o estranho de hoje pode ser o parente de amanhã.
O Brasil também irá às urnas em outubro. A imigração não ocupa entre nós a centralidade emocional que assumiu nos Estados Unidos ou na Europa. Nossos medos são outros: crime, desigualdade, corrupção, religião, costumes, antipetismo, antibolsonarismo, ressentimento social, precariedade urbana. Ainda assim, as mesmas máquinas digitais que aprofundam inseguranças já existentes e transformam a diferença em ameaça também operam aqui.
O fechamento identitário pode não assumir a forma clássica do anti-imigracionismo europeu ou americano, mas pode assumir formas próprias de apartação brasileira contra pobres, negros, nordestinos, indígenas, periféricos, venezuelanos, bolivianos, haitianos – ou simplesmente contra qualquer grupo convertido em bode expiatório do mal-estar coletivo. Não precisamos importar literalmente o tema migratório do Atlântico Norte para reproduzir a sua gramática emocional.
Um episódio recente ilumina o risco. Às vésperas das eleições, os Estados Unidos enquadraram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, e parte da nossa classe política recebeu a medida como troféu, não como ingerência. Facção criminosa não é imigrante, e o crime organizado é ameaça real, mas a categoria "terrorismo", elástica e eficiente para converter medo em mandato, é o tipo de gramática que se importa sem perceber. Hoje a moldura recai sobre as facções; a questão é sobre quem recairá amanhã.
Talvez por isso a eleição brasileira ofereça um gancho mais discreto, porém relevante. Que política externa e migratória corresponderia a um país que se pensa como mistura? Temos uma Lei de Migração mais avançada do que o velho Estatuto do Estrangeiro. Temos a experiência da Operação Acolhida, que, com todas as suas limitações, mostrou capacidade de receber, regularizar e interiorizar venezuelanos em situação de vulnerabilidade. Temos também uma presença crescente de haitianos, bolivianos, venezuelanos, argentinos, africanos e asiáticos nas nossas cidades. Mas ainda nos falta transformar esse conjunto de respostas fragmentadas em política de Estado.
A política migratória brasileira não deveria ser apenas humanitária, embora deva ser humanitária. Tampouco deveria ser apenas policial, embora precise de regras, documentos e controle. Deveria ser pensada como parte da política externa, da política urbana, da política de trabalho e da estratégia de desenvolvimento. Num século de deslocamentos climáticos, envelhecimento populacional e disputa por gente, acolher bem não é caridade. É inteligência nacional.
A questão, portanto, não é saber se o Brasil repetirá exatamente o caminho do Ocidente rico. É saber se teremos inteligência para não importar seus ressentimentos como quem importa tecnologia atrasada. Se os Estados Unidos parecem hoje trair parte do segredo de sua própria grandeza, o Brasil talvez nunca tenha chegado a formular o seu com clareza. Nossa mistura foi mais vivida do que pensada, mais sofrida do que governada.
O Brasil acumulou, ao longo do século XX, um conjunto de narrativas sobre si mesmo que ora subestimam e ora superestimam a singularidade da sua mistura. A ideia de que o Brasil viveu uma “democracia racial” foi, durante décadas, usada para encobrir o racismo, negar o sofrimento concreto de populações negras e indígenas e transformar violência em idílio. Essa crítica é justa e necessária. Mas ela não implica – e não deveria implicar – a negação de fato distinto: o Brasil foi, de modo empiricamente verificável e comparativamente singular nas Américas, cenário de miscigenação de escala, profundidade e capilaridade raras.
Uma coisa é denunciar o uso ideológico do mito da harmonia racial. Outra é concluir que a mistura não aconteceu. Ela aconteceu – desigualmente, violentamente, contraditoriamente, mas de forma irrefutável e em proporções que distinguem o Brasil de outras experiências no conjunto das Américas, particularmente dos Estados Unidos. Lá, grupos étnicos conviveram e negociaram poder dentro das mesmas instituições, mas por séculos construíram mundos sociais paralelos, com bairros, igrejas, escolas e mercados matrimoniais próprios. No Brasil, as fronteiras foram mais porosas no nível mais íntimo: no corpo, na família, no nome, no sangue.
Talvez esteja aí a nossa possibilidade. Não temos doutrina consolidada como o confucionismo chinês, nem narrativa institucional tão poderosa quanto a república americana. Nosso ethos é jovem, instável, poroso, improvisado, muitas vezes irresponsável, mas dotado de plasticidade rara, que pode constituir matéria-prima de um projeto. É nessa direção que aponta Eduardo Giannetti no livro Trópicos Utópicos, ao propor que o Brasil tem condições de articular uma civilização com valores próprios nascidos da miscigenação, da abertura e de uma concepção menos predatória de bem-estar. A proposta é programaticamente utópica e por isso merece ser levada a sério. Utopias não descrevem o que existe; apostam no que pode existir.
O século XXI não pergunta se teremos imigração – o movimento humano continuará, legal ou ilegal, desejado ou clandestino. Pergunta se teremos lucidez de reconstruir, em novas condições, a velha equação que fez de tantas sociedades algo maior do que a soma de suas partes: instituições capazes de transformar o inconformismo que chega em energia que se espalha; Estados que não temem o estrangeiro porque têm projeto para todos; economias que não comprimem salários porque distribuem produtividade; culturas que não temem a mistura porque a governam com justiça. A fadiga civilizacional existe, mas não é o destino. É resultado de escolhas. E a escolha mais perigosa é acreditar que a porta fechada substitui a casa arrumada.
Quem sabe, então, a pergunta final não seja apenas o que os estrangeiros farão aos países a que chegam, mas o que os países farão consigo mesmos ao recusá-los. Os Estados Unidos, filhos de migrantes, parecem hoje tentados a trair parte do segredo de sua própria grandeza. O Brasil, também feito de chegadas, fugas, travessias e misturas, talvez ainda possa escolher outro caminho. Não por virtude inata. Não por inocência histórica. Mas porque, no fundo de sua formação irregular e inacabada, talvez exista uma lembrança que outras sociedades começam a perder: a de que ninguém chega puro ao futuro. Chega-se misturado.
[1] A afirmação se apoia em duas linhas de evidência: no plano genético, o estudo de Nunes et al. na Science descreve o Brasil como a maior população recentemente miscigenada do mundo; no plano demográfico-familiar, Telles, Esteve e Castro mostram, em Demographic Research, que o Brasil apresenta níveis muito mais elevados de interuniões negro-brancas do que os Estados Unidos. O Censo 2022 do IBGE reforça a centralidade social da mistura ao registrar os pardos como o maior grupo de cor/raça do país.