questões eleitorais
Roberto Andrés, especial para a piauí 25 Ago 2026
18 min de leitura
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Em meio à confusão na disputa pelo governo de Minas Gerais, tenho recebido mensagens de amigos de outros estados pedindo para explicar a situação. Minha resposta tem sido o envio de um quadrinho da Turma da Mônica em que figuram o Cascão, o Sr. Cebola (pai do Cebolinha) e o Floquinho (o cachorro verde cuja cabeça é indistinguível do rabo). Os personagens correm atônitos pelo gramado, enquanto o Sr. Cebola repete a pergunta “O que está acontecendo?”, e o Cascão repete a resposta “Eu não sei!”.
A imagem tornou-se um meme da internet, utilizado para retratar situações inusitadas. Ao enviar o quadrinho, acrescento uma mensagem: “o Floquinho representa o próprio Cleitinho, com duas cabeças que apontam para lados opostos.”
Há quem diga que as idas e vindas do senador do Republicanos em torno de sua candidatura ao governo são incompreensíveis até para ele mesmo. É difícil precisar o quanto há de confusão e o quanto há de método, mas talvez as duas coisas não sejam tão diferentes. Na economia da atenção, a confusão é o método. Desde o início do ano, Cleitinho aparece liderando as pesquisas para o Palácio Tiradentes, muito à frente dos demais candidatos. O senador, no entanto, se comportava de maneira vacilante. Num dia confirmava a candidatura, noutro negava. No final de julho, faltou à convenção que definiria a chapa do partido. A justificativa foi de que vivia um momento de luto, devido à morte recente de seu irmão Matheus Azevedo, em decorrência de uma leucemia. Após a convenção, o Republicanos soltou uma nota afirmando que não levaria adiante a candidatura. A partir daí, os zigue-zagues de Cleitinho foram colocados num acelerador de partículas.
Um dia após a negativa do partido, ele convocou uma coletiva de imprensa em que reafirmou que seria candidato ao governo. Posou de vítima do sistema, chamou os adversários de canalhas, e garantiu que cumpriria suas promessas – como tapar buracos das estradas e acabar com a apreensão de veículos pela falta de pagamento de IPVA. Disse que iria a Brasília para convencer a direção partidária a manter a candidatura. Qual o quê. Poucos dias depois, em 3 de agosto, apareceu em um vídeo ao lado de Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, e Euclydes Pettersen, presidente do partido em Minas Gerais, recentemente indiciado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, acusado de ter recebido 14,7 milhões de reais num esquema de fraudes em benefícios do INSS.
No vídeo, Pereira anuncia que Cleitinho tomou a decisão espontânea de desistir da candidatura ao governo de Minas. E, como quem coloca uma delicada faca no pescoço, pede ao senador que confirme a história. Com um choro meio canastrão, Cleitinho pede perdão ao povo mineiro pela desistência da candidatura, cuja razão era o luto que vivia: “Não adianta eu querer cuidar de vocês se não estou cuidando de mim”, afirmou o senador com a voz esganiçada. A questão parecia resolvida. Só que não.
Dez minutos após a gravação, um assessor de Cleitinho ligou para o presidente do partido dizendo que o senador queria gravar outro vídeo, afirmando que seria candidato, o que foi negado de forma veemente. Na manhã seguinte, Cleitinho discursou de improviso na convenção partidária sob os olhares incrédulos de Pereira e do presidente da Câmara, o deputado Hugo Motta (PB). Eles parecem perplexos quando o senador anuncia que desistiu de desistir da candidatura, depois de uma intervenção de sua família e do Espírito Santo, e pede que a decisão seja revista – “quem nunca foi e voltou?”, indaga. O gesto causou irritação. Marcos Pereira subiu o tom: “Eu seria irresponsável com o povo de Minas em colocar Minas nas mãos de uma pessoa que ora pensa uma coisa e, cinco minutos depois, pensa outra.”
Apesar do discurso aguerrido do senador, o posicionamento do partido parecia irreversível. Para alguns, tudo não passou de um grande teatro. Ficou a percepção de que a quase candidatura de Cleitinho foi um movimento para gerar alarde, e de que o personagem logo voltaria a sua confortável vida de senador antissistema. Com isso, a disputa pelo governo do estado ficaria um tanto aberta, sem nenhum candidato que se destacasse.
Então veio mais um plot twist. Rapidamente iniciou-se uma articulação pela retomada da candidatura do líder nas pesquisas, conduzida por personagens que não são exatamente conhecidos pela lisura e pelo espírito republicano. Dentre eles, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, que teve o mandato cassado em 2016 e foi condenado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas por ter recebido propina de 5 milhões de dólares e escondido o dinheiro em contas secretas na Suíça. Cunha hoje batalha para retomar um mandato na Câmara. Para evitar competir com sua filha, Dani Cunha, que concorre pelo Rio de Janeiro, mudou seu título para Minas Gerais, estado com o qual não tem nenhuma relação, mas onde comprou rádios evangélicas e destinou, de forma irregular, emendas parlamentares por meio de deputados que servem de laranjas. Sua empreitada pelo estado foi descrita na reportagem O morto vivo, publicada na edição de agosto da piauí.
Um aliado local de Cunha foi chave nesse processo. O ex-deputado federal Marcelo Aro (PP) ocupou funções importantes no governo de Romeu Zema, como secretário-chefe da Casa Civil e secretário de Governo. Por sua mesa passaram nomeações para cargos nas diversas esferas de influência do governo e repasses para prefeituras. Hábil no manejo de esquemas, Aro serviu-se do poder para estabelecer relações com prefeitos, deputados e líderes partidários. No auge da novela Cleitinho, utilizou esse capital político para fazer articulações que envolveram dedo nos olhos, pernadas e chutes abaixo da cintura.
O primeiro movimento de Aro foi de pretensões grandiosas. Aproveitou-se da indefinição de Cleitinho para tentar trazer o Republicanos e o PL para sua própria candidatura de última hora ao governo, que seria lançada pela federação formada por União Brasil e PP. Com isso, unificaria os partidos de direita e isolaria Mateus Simões, de quem fora aliado até a noite anterior, e que apoiava sua postulação ao Senado. Ex-vice de Romeu Zema e governador do estado desde março deste ano, Simões concorre à reeleição pelo PSD, mas ainda não embalou nas pesquisas. A rasteira de Aro quase funcionou, mas o movimento começou a pegar mal com a base – a ideia de que Cleitinho fora arrancado do jogo fragilizava a candidatura, e os partidos recuaram.
Utilizando a força da máquina, Simões atraiu de volta a federação União-PP, e Marcelo Aro, o aliado de Cunha, teve de se contentar com a disputa ao Senado. A retaliação do governador veio em seguida: de um lado, Simões demitiu Aro e seus indicados no governo; de outro, articulou o lançamento de uma nova candidatura ao Senado, a de Marco Antônio Costa, um influenciador paulista que criou para si a alcunha de Superman, e que se mudou para Minas Gerais ano passado. O “forasteiro”, como é chamado por adversários, filiou-se ao Partido Novo e tem como principal agenda o impeachment de ministros do STF. Com isso, a direita terá cinco postulantes ao Senado em Minas, tornando a disputa mais árdua – além de Aro e Superman, estão no páreo o senador Carlos Viana (PSD), o juiz aposentado Ramon Moreira, do Democracia Cristã, e o ex-deputado federal Domingos Sávio, um quadro antigo do PSDB que recentemente migrou para o PL. Pela esquerda, concorrem a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), que lidera as pesquisas, e a ex-deputada federal Áurea Carolina (Psol).
Derrotados no primeiro round, Aro e Cunha rapidamente começaram a trabalhar pela ressurreição da candidatura de Cleitinho, que eles mesmos haviam contribuído para matar. Somando-se a uma mobilização de base realizada pelo senador, a empreitada foi bem-sucedida em dobrar a direção do Republicanos. Ao que parece, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas jogou a favor, com a perspectiva de aumentar a bancada do partido no Congresso. Marcos Pereira teve que engolir as palavras duras que proferira poucos dias antes.
Há uma semana da data limite para registro das chapas, no início de agosto, Cleitinho voltava ao jogo, dessa vez de forma definitiva. Marcelo Aro seria seu candidato ao Senado, embora sem coligação formal. E Eduardo Cunha, que ano passado levou uma queixa-crime contra Cleitinho no STF por ter sido chamado de “canalha” e “vagabundo”, saía beneficiado: filiado ao Republicanos, suas chances de eleição cresciam com a candidatura forte ao governo e com um puxador de votos na chapa para a Câmara Federal – o irmão de Cleitinho, Gleidson Azevedo, de quem se espera ter uma votação expressiva que pode ajudar a eleger outros postulantes do partido.
Nos primeiros atos de campanha, Marcelo Aro ganhou destaque. Pousou ao lado de Cleitinho em coletivas de imprensa e em vídeos gravados para a internet. Mas, como a política adora a traição e odeia o traidor, a lua de mel não durou muito. Adversários que Aro coleciona no estado não demoraram a se mover para desfazer a parceria – pelo que se conta, figuras políticas com força na imprensa mineira pressionaram para que Cleitinho rompesse com o candidato ao Senado. O candidato do Republicanos concordou, ao menos por hora.
Cleitinho larga muito na frente na corrida para o Palácio Tiradentes. Líder com 35% das intenções de votos na última pesquisa Quaest, ele tornou-se ainda mais conhecido nas últimas semanas. Não há dúvidas de que os vaivéns na definição da chapa contribuíram para isso. Quando se olha pela ótica da política tradicional, entrar em contradição é um dos maiores erros que se pode cometer. Perde-se um ativo importante, que é a confiança do eleitorado. Para os políticos digitais, a coisa é diferente – atenção importa mais que coerência. A velha máxima “falem bem ou falem mal, mas falem de mim” assenta como uma luva na lógica de construção política das redes sociais, em que a atenção é disputada e a memória é curta.
Conquistar atenção demanda a produção de fatos controversos – e quanto mais controversos, mais magnéticos são os fatos. De outro lado, a própria dinâmica de consumo insano de informações nas redes faz com que, em pouco tempo, muitos esqueçam ou deem pouca importância aos fatos que geraram a atenção. Nos dias que antecederam a definição das chapas nas eleições, as buscas pelo nome Cleitinho no Google deram um salto, alcançando o maior patamar desde as eleições de 2022, quando ele foi eleito senador. No último mês, o interesse médio pelo candidato do Republicanos alcançou 21 pontos no Google Trends, enquanto seus adversários não passaram de um ponto. Na pré-campanha, Cleitinho levou de goleada.
Claro que pode haver quem se canse ou passe a desconfiar do personagem. Pessoas que acompanham pesquisas qualitativas relatam que começou a aparecer algum incômodo com as contradições do senador do Republicanos. Conversei com Felipe Nunes, diretor da Quaest, sobre os riscos de fragilização da imagem de Cleitinho. Na avaliação do cientista político, o senador soube construir a ideia de que é vítima do sistema, e de que as idas e vindas seriam resultado da luta por viabilizar a candidatura em um cenário adverso. A próxima pesquisa do instituto, que ocorrerá no final do mês, permitirá aferir qual foi o impacto da confusão na performance do senador. Mas um resultado é certo: o ex-vereador de Divinópolis foi capaz de nacionalizar seu nome, tornando-se um personagem debatido país afora.
O balanço a ser feito é se o ganho de alcance terá maior ou menor peso do que a eventual perda de confiança de parte do eleitorado. E se os adversários serão capazes de explorar essas contradições a ponto de enfraquecer o líder nas pesquisas, o que não é evidente. Fato é que os demais candidatos ao governo terão que pescar seus votos na lagoa de Cleitinho – ou não terão como crescer –, mas ninguém quer bater de frente com um personagem carismático, que reage aos ataques se vitimizando, e gerando identificação popular. Ao que parece, a estratégia dos rivais será comer pelas beiradas, ao estilo mineiro, tecendo algum elogio ao senador, mas pontuando sua pouca experiência administrativa e criticando seus aliados. Foi o que se viu no debate organizado pela TV Band, no dia 16 de agosto.
A confusão acabou por gerar uma eleição fragmentada, com três candidatos que disputam os votos da direita e da extrema direita. O mais radical, e com menos pontos nas pesquisas, é Flávio Roscoe, do PL, presidente licenciado da Federação das Indústrias de Minas Gerais, a Fiemg. Sem conseguir um acordo confiável com Cleitinho, o partido lançou o empresário na última hora para que Flávio Bolsonaro tivesse um palanque no estado. Roscoe é um bolsonarista estridente, que defende a perspectiva do empresariado a qualquer custo – no debate sobre mineração na Serra do Curral, um dos maiores patrimônios paisagísticos e ambientais do estado, ele foi um dos poucos a bancar publicamente a defesa, bastante impopular, das mineradoras. O candidato não agrega votos para Flávio Bolsonaro, mas tem a vantagem de acessar recursos para bancar a própria campanha. Roscoe é o mais abonado dos postulantes, com patrimônio declarado de 13,3 milhões de reais. Nas pesquisas, tem 2% das intenções de votos. A dúvida é se os líderes do PL embarcarão na candidatura. Nikolas Ferreira, que vê em Cleitinho um empecilho para seu projeto político, poderia tentar alavancar Roscoe, mas talvez não queira comprar o desgaste com o eleitorado.
Também à direita está Mateus Simões, o ex-vereador de Belo Horizonte pelo Partido Novo que Zema alçou a vice em seu segundo mandato. Ano passado Simões fez um movimento relevante ao migrar para o PSD, partido de estrutura incomparavelmente maior que a do Novo. Com isso, dificultou a potencial candidatura de Rodrigo Pacheco, que até então sairia pelo partido com o apoio de Lula. Embora patine nas pesquisas, Simões entra na eleição com a máquina do governo e com a maior coligação, concentrando cerca de 30% do tempo de propaganda eleitoral no rádio e televisão. O problema é que ele é um personagem insosso, pouco afeito a sorrisos e em quem os adversários tentam colar a pecha de arrogante. Com Zema desgastado e tocando uma candidatura presidencial melancólica, a equipe de marketing de Simões terá que se desdobrar.
À esquerda, depois de se frustrarem com a recusa de Rodrigo Pacheco e de Marília Campos, Lula e o PT lançaram mão de uma cartada habitual. Convocaram na última hora o deputado federal Patrus Ananias para assumir a candidatura ao Palácio Tiradentes. Ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, responsável por implantar o Bolsa Família no Brasil, Patrus é uma espécie de reserva moral do partido. Tem décadas de vida pública e sobre ele não pesam denúncias de malfeitos. Seu trabalho como ministro ou mesmo como prefeito ainda é lembrado de forma positiva por parte da população. Assim que foi anunciado, pontuou acima de 10% nas pesquisas, o que entusiasmou aliados. Mas, é preciso dizer, Patrus é um político de outro tempo. Emana um ar de padre franciscano e tem uma fala lenta, cuidadosa, que no mundo veloz das redes pode soar como burocrática e desinteressante. O desafio de atualização não é pequeno. Talvez a campanha consiga apresentá-lo como uma espécie de Mujica (assim como o ex-presidente uruguaio, ele leva uma vida modesta e foca sua atuação no combate à pobreza), mas a estrada para uma eventual vitória parece tortuosa.
Ao centro, estão duas figuras cujas histórias se entrelaçam: Alexandre Kalil e Gabriel Azevedo. Quando Kalil concorreu a prefeito de Belo Horizonte, em 2016, Azevedo atuava na coordenação de sua campanha, ao mesmo tempo em que disputava uma cadeira na Câmara de Vereadores. Ambos foram eleitos e não demoraram a romper. Kalil fez um bom mandato na prefeitura e foi reeleito com facilidade, mas depois conduziu uma candidatura confusa ao governo do estado em 2022. O ex-prefeito tem tido dificuldade de se posicionar politicamente, ora se aproximando da esquerda, ora da direita – neste ano, ele decidiu se aliar ao PSDB de Aécio Neves, político a quem já criticou de forma contundente. De todo modo, Kalil tem aparecido com cerca de 15% de intenções de votos nas pesquisas, liderando o pelotão dos desafiantes. Já Azevedo parece entrar na disputa com o objetivo de se tornar mais conhecido e fortalecer sua candidatura à prefeitura de Belo Horizonte em 2028. “A palavra dessa eleição [em Minas] é incerteza”, me disse Felipe Nunes.
Resta ainda a dúvida se os candidatos seriam capazes de desconstruir Cleitinho a ponto de tirá-lo do segundo turno. Há quem compare o senador do Republicanos com apresentadores de televisão que se candidatam de tempos em tempos repetindo o mesmo enredo: lideram as pesquisas no início, mas derretem na reta final. O exemplo mais conhecido é o de Celso Russomanno, que teve esse desempenho em disputas pela prefeitura de São Paulo, mas há outros – em 2024, o deputado estadual e apresentador de televisão Mauro Tramonte liderou a maior parte do tempo a corrida para a Prefeitura de Belo Horizonte, mas ao final ficou de fora do segundo turno. Cleitinho é diferente dessas figuras. Primeiro, porque é um fenômeno da internet, e não da tevê: sua alta intenção de voto não é apenas recall, mas também engajamento de uma base permanentemente mobilizada. Segundo, porque ele já foi eleito senador em 2022, e angariou 4,2 milhões de votos – para se ter uma ideia, Alexandre Kalil, que concorria ao governo, terminou aquele pleito em segundo lugar com 3,8 milhões de votos.
Fernando Pimentel foi o único petista a ocupar o Palácio Tiradentes – e o resultado foi ruim. Não que a empreitada fosse fácil: ele governou Minas durante o auge do antipetismo e uma forte crise econômica, entre 2015 e 2018. Segurou-se na cadeira de governador enquanto sua companheira de luta armada, Dilma Rousseff, era deposta da Presidência. Mas a verdade é que seu governo foi fraco, sem expressão. Atrasou salários dos servidores e deixou o estado com déficit superior a 11 bilhões de reais, repasses pendentes aos municípios, baixa disponibilidade de caixa e uma Previdência deficitária. Concorreu à reeleição em 2018 e não foi nem para o segundo turno. Tornou-se um espantalho da política – em 2022, quando disputava o governo contra Alexandre Kalil, Romeu Zema evocava hora sim outra também Fernando Pimentel e o PT para desqualificar a chapa do adversário. Naquele ano, Pimentel tentou uma vaga na Câmara, mas não conseguiu se eleger.
Quando Zema iniciou seu mandato, havia a expectativa de que saneasse as contas do estado, já que seu discurso era de austeridade e rigor fiscal. Isso passou longe de ocorrer. O governador conseguiu colocar os pagamentos mais elementares em dia, encerrando o parcelamento de salários e regularizando parte dos repasses aos municípios. Mas isso foi feito ao custo do aumento da dívida do estado, que quase dobrou durante o período, e hoje ultrapassa 200 bilhões de reais, segundo dados do Sindifisco mineiro. Os déficits orçamentários tampouco desapareceram. Em 2025, o governo voltou a contingenciar recursos, bloquear despesas e alertar para o risco de calamidade financeira. A Lei Orçamentária de 2026 prevê resultado negativo.
As renúncias fiscais agravam esse quadro. Os benefícios tributários subiram de cerca de 13 bilhões de reais em 2021 para aproximadamente 24,1 bilhões de reais em 2026. Entre 2017 e 2024, o acumulado de isenções chegou a 128,3 bilhões de reais, segundo dados analisados pelo TCE-MG. Trata-se de um montante significativo que o estado deixa de arrecadar para beneficiar empresas, dentre as quais algumas de aliados do governador, como o empresário Salim Mattar, dono da locadora de automóveis Localiza. Além disso, o governador apoiou e sancionou o projeto de lei que aumentou seu próprio salário em 300%. O resultado foi um crescimento em cadeia dos salários do alto escalão, enquanto a maior parte dos servidores teve a remuneração estagnada no período.
Tudo isso coloca um desafio para quem assumir o Palácio Tiradentes a partir de 2027: lidar com um estado falido, cuja trajetória da dívida segue ascendente. O desafio parece maior para Cleitinho, que tem prometido políticas que tendem a agravar o quadro. Em um dos primeiros vídeos depois de oficializar a candidatura, Cleitinho promete atender à reivindicação de aumento salarial de policiais. Seus discursos acenam também para outras categorias, como professores e bombeiros. No primeiro debate entre os candidatos, realizado na TV Band em 16 de agosto, o candidato começou a citar o endividamento do estado como empecilho para os aumentos salariais que propõe.
Enquanto se atua no legislativo, é fácil ser pedra. Já com o mandato de senador, Cleitinho chegou a publicar um vídeo em que estimula motoristas a utilizarem uma via clandestina para furar pedágio em uma rodovia estadual. Quando se ganha o governo, a pedra pode virar vidraça. Como conciliar o discurso crítico aos pedágios, a proposta de redução do IPVA e a de realizar melhorias nas estradas? Até quando Cleitinho seria capaz de ocupar o poder ao mesmo tempo em que se coloca como alguém de fora, impedido pelo sistema? Vimos, com Jair Bolsonaro, que é possível sustentar um governo sem entregas com uma narrativa de vitimização, mas o bolsonarismo tem um ecossistema digital de comunicação com uma capacidade enorme de controle de narrativa. Até onde a vista alcança, Cleitinho não tem estrutura semelhante.
Minas Gerais é conhecido por ser um estado-pêndulo das eleições brasileiras. O termo refere-se originalmente aos chamados swing states dos Estados Unidos, onde a disputa entre Republicanos e Democratas é acirrada, e que, pela dinâmica das eleições do país (o vencedor em um estado leva todo aquele colégio eleitoral), podem definir as eleições. No Brasil, Minas Gerais é o termômetro: desde a redemocratização, todos os candidatos à Presidência que venceram por lá ganharam também nacionalmente. Minas seria, por sua diversidade territorial e demográfica, uma síntese do Brasil: a região Norte do estado se assemelha ao Nordeste brasileiro; a região Sul tem proximidade com São Paulo; na Zona da Mata há torcedores do Flamengo, Botafogo, Fluminense e Vasco; enquanto no Triângulo Mineiro a identidade se aproxima da do Centro-Oeste. Em uma eleição presidencial que promete ser disputada na unha, a votação no estado, que é o segundo maior colégio eleitoral do país, pode ser definidora do resultado.
Nas eleições de 2026, é possível que o eleitor mineiro não dê tanta atenção aos palanques que os presidenciáveis construíram. É comum no estado um comportamento eleitoral em que os votos para governador e para presidente sejam divergentes. Em 2002 e 2006, os mineiros votaram majoritariamente em Lula, mas isso não significou vitória do candidato do PT, Nilmário Miranda, ao governo do estado. Nesses pleitos, venceu Aécio Neves, do PSDB, que se opunha nacionalmente ao PT. Em 2010, o mesmo ocorreu com a vitória no estado de Dilma Rousseff, do PT, e de Antonio Anastasia, do PSDB. A história se repetiu em 2022: Minas deu a maioria de seus votos para governador no Partido Novo e para presidente no PT.
Não será surpresa se neste ano a dobradinha extravagante do eleitorado mineiro tiver Cleitinho na composição. Flávio Bolsonaro já sinaliza dar pouca bola para Flávio Roscoe para não se indispor com o líder das pesquisas. E Lula tende a modular sua campanha para que o apoio a Patrus Ananias não afaste o eleitor de Cleitinho. Este vai na mesma linha: apresenta-se como uma figura independente e que vai dialogar com qualquer presidente que seja eleito. Embora se afirme de direita e tenha citado sua preferência por Flávio Bolsonaro, ele tem se colocado a favor do fim da escala 6x1, uma pauta da esquerda. Seus cálculos políticos são atentos ao sentimento popular.
A pergunta que já se começa a fazer em Minas é como seria um eventual governo Cleitinho – que forças teriam ascendência sobre o governador. Um jornalista que precisava convidar o candidato para um debate televisivo me disse que não tinha um ponto focal na campanha com quem conversar. Teve que falar com o irmão do senador, que disse que a família estava contra a ida dele aos debates. Ao final, ele compareceu. Além da família, têm força hoje sobre o candidato o seu vice, o ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios, Luís Eduardo Falcão; e as lideranças do Republicanos, como o presidente estadual Euclydes Pettersen, enrolado com o escândalo do INSS. Dado o nível dos aliados e o perfil do candidato, caso ele vença, é muito possível que a confusão vista na pré-campanha seja fichinha perto do que pode vir.