anais da truculência
Juliana Faddul, do Rio de Janeiro 16 Jun 2026
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Munido apenas do celular, Maykon Sardinha percorreu as ruas do Complexo da Maré fotografando tudo o que via pela frente. Na manhã daquela terça-feira, 27 de outubro de 2020, policiais civis tinham entrado de manhã cedo na comunidade, na Zona Norte do Rio de Janeiro, com a justificativa de prender foragidos da Justiça. A operação policial terminou com uma moradora grávida atingida por uma bala perdida. Depois que ela já havia sido socorrida, Sardinha entrou em sua casa e não pensou duas vezes: começou a tirar fotos. De diferentes ângulos, usou a câmera do celular para registrar a marca que o projétil havia deixado na parede depois de atravessar a moradora, assim como os respingos de sangue.
“Tinha muitas pessoas na hora. Ouvi os depoimentos e tirei umas seis ou sete fotos”, ele relembra. Seu objetivo não era compartilhar as imagens em redes sociais ou com a imprensa. Ele estava ali para colher provas. Nascido e criado na comunidade, Sardinha tem 30 anos e coordena o Maré por Justiça, projeto que apoia vítimas de violência do Estado e colabora com investigações para descobrir os responsáveis. “Através de uma única imagem é possível contar uma história.” A história, nesse caso, terminou em tragédia. O bebê, que estava no quarto mês de gestação, morreu. A mãe, Maiara Oliveira, tinha apenas 19 anos. Ela sobreviveu, mas perdeu parte dos movimentos de um dos braços e ficou com cicatrizes.
Embora tenha acontecido há mais de cinco anos, o episódio até hoje não foi esclarecido pelo poder público. A investigação que apura quem foi o responsável pela morte do bebê está emperrada na 21ª Delegacia de Polícia, no bairro de Bonsucesso. É a mesma unidade de onde saíram os policiais que realizaram a operação. Na época, a Polícia Civil se eximiu de responsabilidade. Afirmou que os agentes sofreram uma emboscada de traficantes do Comando Vermelho, momento em que Oliveira foi “ferida pelos disparos dos criminosos”.
Os moradores da Maré nunca acreditaram nessa versão. Em 2024, finalmente, puderam pô-la à prova. Foi quando a Redes da Maré, uma organização da sociedade civil que representa moradores da comunidade, se uniu a pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) para criar um projeto pioneiro de arquitetura forense – um tipo de perícia que mistura conhecimentos de arquitetura e urbanismo com tecnologias de análise espacial para reconstruir casos de violência, desastres e violações de direitos humanos. O objetivo é produzir análises técnicas capazes de esclarecer fatos e apoiar investigações judiciais ou humanitárias. A iniciativa recebe apoio financeiro do Ministério da Igualdade Racial.
O caso de Maiara Oliveira foi o primeiro a ser analisado, e as fotos de Sardinha foram a peça central da investigação. Formado por arquitetos, designers, programadores, cineastas e jornalistas, o grupo levantou ainda imagens de satélite e mediu a dimensão das casas, vias e calçadas no entorno do local onde Oliveira foi baleada. Essas informações foram cruzadas com documentos da operação policial e os testemunhos de quem estava lá. Em seguida, os pesquisadores usaram softwares de modelagem BIM – que lembram um pouco o jogo The Sims – para criar modelos 3D navegáveis. Assim, puderam simular diferentes versões do que aconteceu no dia da operação e aferir quais eram as possíveis trajetórias da bala perdida.
A conclusão foi de que a versão da polícia era altamente improvável. A evidência que embasa essa informação é a foto tirada por Sardinha que mostra os respingos de sangue na parede da casa de Oliveira. Considerando a posição da jovem no momento do disparo e a direção em que o sangue espirrou, os pesquisadores concluíram que o tiro não pode ter saído do local onde estavam, em tese, os traficantes. Ela foi baleada de frente, e os traficantes estavam atrás dela, segundo as informações divulgadas pela polícia. Restaram apenas três possibilidades: que o tiro tivesse partido de um criminoso que se encontrava atrás da polícia (uma hipótese que a própria Polícia Civil não ventilou), ou de um policial no nível do chão, ou de um policial situado numa laje. A primeira possibilidade, no entanto, logo foi descartada, já que não havia espaço para que um criminoso se posicionasse atrás da polícia. As outras duas hipóteses foram consideradas plausíveis – ambas apontando um policial como autor do disparo.
A análise resultou num vídeo que foi enviado, em setembro de 2025, ao procurador Fernando Cury, titular da 1ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Territorial da área da Ilha do Governador e Bonsucesso, bairros próximos à Maré. Por nunca ter sido utilizada em uma investigação oficial no Rio de Janeiro, a técnica de arquitetura forense teve de ser submetida a uma validação de peritos do Ministério Público. A avaliação até hoje não foi concluída. Está nas mãos da Dedit – a Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia do MPRJ, a quem caberá dar a palavra final sobre o vídeo e, possivelmente, incluí-lo no inquérito policial.
O conceito de arquitetura forense nasceu de uma inquietude de Eyal Weizman, um arquiteto britânico-israelense. Desde 2006, ele estuda e publica artigos acadêmicos defendendo a “arquitetura como ferramenta de investigação política”. Em 2010, Weizman fundou a Forensic Architecture, um grupo de pesquisa sediado na Universidade de Londres, onde ele leciona. Naquele ano, sua tese foi posta em prática pela primeira vez. O grupo foi convidado por ativistas de direitos humanos de Israel a investigar a morte de Bassem Abu Rahma, um palestino morto em 2009 durante uma manifestação pacífica na Cisjordânia. Ele foi atingido no peito com uma granada de gás lacrimogêneo disparada por militares israelenses.
As Forças de Defesa de Israel alegaram, na época, que o disparo havia sido feito em “ângulo parabólico” (quando o projétil sai do chão, sobe e volta em direção ao chão), como manda o protocolo. Vídeos gravados por outros manifestantes, porém, davam uma impressão diferente do ocorrido. Com base neles, a equipe de Weizman criou uma modelagem 3D e, combinando-a com uma análise arquitetônica do local, conseguiu reconstituir o episódio.
O caso teve grande repercussão e foi um dos retratados no filme Cinco câmeras quebradas, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2013 (o título é uma referência ao fato de que, durante a gravação do filme, o diretor perdeu cinco câmeras em protestos e quebradeiras). Apesar da comoção, a Justiça israelense considerou não haver provas suficientes e encerrou o inquérito sem apontar culpados pela morte de Abu Rahma. Reconheceu apenas que houve negligência na condução da investigação, inclusive com o desaparecimento de partes do processo. Para a Forensic Architecture, porém, foi um primeiro passo importante.
Desde então, o grupo de pesquisa ganhou notoriedade e participou de outras grandes investigações, muitas delas em parceria com jornalistas. Em 2018, colaborou com o New York Times para elucidar a morte de uma enfermeira de 20 anos em Gaza. Em 2023, ajudou o The Guardian numa investigação visual que mostrou como, em junho de 2020, durante os protestos pelo assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, as forças policiais usaram uma quantidade sem precedentes de gás lacrimogêneo para reprimir os manifestantes.
No Brasil, a Forensic Architecture atuou em 2022 numa investigação sobre o avanço da mineração e a destruição de terras indígenas na Amazônia. O projeto foi feito em parceria com pesquisadores da UnB e do Instituto Socioambiental (ISA). Dois anos depois, os pesquisadores ingleses receberam o primeiro contato da Redes da Maré. Entusiasmaram-se, porque há tempos já cogitavam aplicar a tecnologia forense em uma favela brasileira.
“O caso da Maiara foi escolhido entre tantos outros que aconteceram na Maré por ela ser uma sobrevivente”, diz Flavia Palladino, uma das profissionais envolvidas no projeto da Redes da Maré. Ela é mestre em arquitetura forense pela Universidade de Londres. “Fiz o mestrado para trabalhar com casos de homicídio praticados por policiais no Rio. Os casos eram arquivados, as famílias tinham que investigar… entrei nisso e não consegui parar mais.” Para evitar confusão com a perícia feita pelos órgãos de Estado, a arquitetura forense usa termos próprios: em vez de peritos, os profissionais se intitulam analistas forenses, caso de Palladino; não fazem investigações nem reconstituições, mas análises e reconstruções.
É um cuidado pertinente, já que as duas atividades são diferentes, ainda que complementares. Um perito da polícia passa por concurso público e precisa ter diploma em graduações específicas, como física, química, biologia, engenharia, farmácia ou medicina. Seu objeto de análise é também a arquitetura, mas não apenas: peritos colhem impressões digitais, amostras de fluidos corporais e muitas outras evidências. A arquitetura forense, por sua vez, é feita por grupos heterogêneos, que reúnem de arquitetos a cineastas, de fotógrafos a designers.
Palladino ajudou a treinar jovens moradores da Maré que participaram do projeto em vídeo, recontando a história do que aconteceu naquele dia. “Além de ensinar os conceitos técnicos, nós passamos para eles alguns cuidados psicológicos. Nesse trabalho, a gente acaba vendo uma mesma cena de violência várias e várias vezes. Isso causa um dano invisível a nós”, ela diz. Os jovens foram orientados a, se possível, assistir aos vídeos sem som, em telas menores e em preto e branco, para diminuir o impacto das cenas chocantes.
Segundo Palladino, a tecnologia da arquitetura forense não deverá ser usada em todos os casos, mas apenas pontualmente. O objetivo principal é chamar a atenção do poder público para a violência policial e a impunidade. Em 2025, segundo os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), a polícia matou 797 pessoas no estado do Rio. Historicamente, poucas dessas mortes são investigadas ou resultam em punição. Entre 2011 e 2021, de acordo com a ONG Fórum Justiça, 91% dos inquéritos no Ministério Público do Rio de Janeiro sobre mortes causadas pela polícia foram arquivados por falta de evidências ou porque concluiu-se que o agente agiu em legítima defesa – o chamado excludente de ilicitude.
“A nossa perspectiva não é ter 50 mil Redes da Maré espalhadas pelo Brasil, mas que possam ser criadas soluções em cada território. Queremos acabar com esse formato de política pública criada por pessoas que sequer pisaram numa favela”, diz Tainá Alvarenga, coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça do Redes da Maré.
Em junho de 2020 – portanto, quatro meses antes de ser disparado o tiro que atingiu Maiara Oliveira –, o ministro Edson Fachin, do STF, proibiu operações em favelas do Rio salvo em casos “absolutamente excepcionais”. A decisão se deu no contexto da pandemia, que exigia medidas de isolamento social, mas foi também uma resposta à alta letalidade dessas operações. Semanas antes, dois jovens haviam sido mortos em operações policiais no Morro do Salgueiro, em São Gonçalo, e no Morro da Providência, no Centro. Um deles, João Pedro, de 14 anos, foi atingido por um tiro de fuzil nas costas enquanto estava dentro de casa.
A proibição, porém, nunca foi totalmente respeitada. E, com o fim da pandemia, tudo voltou a ser como era, embora ainda hoje o STF cobre do governo do Rio uma maior transparência e fiscalização das operações. Segundo o Ministério Público, somente entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025 ocorreram 1.354 operações policiais em favelas da cidade do Rio, a maioria conduzida pela PM. Na Maré, foram 42, segundo um levantamento da Redes da Maré.
Liliane Santos, articuladora institucional da Redes da Maré, conta que, de uns anos para cá, a ONG passou a fazer um registro detalhado dessas operações, colhendo informações como o horário de chegada da polícia, os mandados judiciais que justificaram a ação, e os relatos de violência. As operações são divididas em três categorias: as planejadas, as emergenciais e as “pontuais”, quando se trata apenas de cumprir um mandado de prisão ou uma busca. A Redes da Maré também criou estatísticas próprias que nunca foram disponibilizadas pelo poder público, como o número de moradores submetidos a cárcere privado durante operações da polícia e a quantidade de helicópteros usada numa determinada ação. A coleta desses dados resultou na criação do relatório De Olho na Maré, publicado anualmente desde 2016.
Naquele ano, a Defensoria Pública do Estado do Rio, em articulação com a Redes da Maré, ingressou com uma ação civil pública na Justiça pedindo uma série de medidas para reduzir a letalidade e os danos materiais causados pelas operações na comunidade. Em junho de 2017, o Tribunal de Justiça do Rio concedeu uma liminar em favor dos moradores, impondo uma série de restrições às operações da polícia. Proibiu o cumprimento de mandados judiciais à noite e determinou a instalação de câmeras, equipamento de áudio e sistemas GPS nas viaturas, assim como a disponibilização de ambulâncias em dias de operação. A decisão também obrigava o governo do estado a apresentar um plano para a contenção da violência. Novamente, como no caso do STF, a ordem judicial teve pouco ou nenhum impacto.
“O Ministério Público tem a prerrogativa de fazer investigações autônomas, independentes da polícia, mas isso não acontece por falta de ferramentas do próprio Ministério Público”, diz Maykon Sardinha. A advogada e pesquisadora Marcela Cardoso explica que a arquitetura forense é uma forma de tentar preencher esse vácuo, oferecendo uma versão dos fatos alternativa à da polícia. Ela diz que o inquérito sobre o tiro que atingiu Maiara se resumiu a apenas doze depoimentos, sendo oito deles de policiais (a piauí procurou a Polícia Civil para confirmar essa informação, mas não obteve resposta). “Com a arquitetura forense, nós pudemos trazer mais elementos para que o promotor tenha uma leitura do que de fato aconteceu, já que não havia elemento algum nesse inquérito”, completa a advogada.
Em 2020, o Ministério Público do Rio exigiu que a Polícia Civil incluísse no inquérito um laudo complementar do exame do corpo de delito de Maiara e pediu que ela fosse à Corregedoria da Polícia, acompanhada de um promotor, para fazer o reconhecimento dos agentes envolvidos na operação. Em dezembro, a piauí perguntou ao Ministério Público em que fase estava o inquérito. O órgão respondeu que faltava anexar aos autos o laudo complementar do exame de corpo de delito e o reconhecimento dos policiais pela vítima. Disse ter pedido à polícia “prioridade nas investigações”. Até agora, elas não foram concluídas. A piauí perguntou novamente ao MP, em maio, o status do inquérito e se havia uma previsão de quando seria finalizada a análise do vídeo de arquitetura forense. Não houve resposta. A Secretaria de Polícia Civil, por sua vez, enviou uma nota à piauí reforçando a alegação de que o tiro que atingiu Maiara partiu de criminosos. Disse que “de acordo com a perícia técnica [feita pela polícia], o projétil foi disparado de uma direção oposta ao deslocamento da vítima no momento dos fatos, posição na qual não havia atuação de agentes de segurança pública”.
Maiara, hoje com 25 anos, processou o estado do Rio na Justiça pedindo indenização por danos morais e estéticos. Além de perder o filho, ela ficou internada em estado grave durante quarenta dias no Hospital Municipal Evandro Freire, na Ilha do Governador. Conta que até hoje sente fortes dores abdominais e perdeu parte dos movimentos de um dos braços. Ficou também com a cicatriz do tiro no abdômen. O pedido de indenização ainda não foi julgado.