questões urbanísticas

OS MASCARADOS DE KINSHASA

Desempregados e sem apoio do governo, jovens disfarçados coletam o lixo que se acumula nas ruas da capital da República Democrática do Congo
O jovem Shadrach é um dos coletores de lixo em Kinshasa - Pedro Borges
O jovem Shadrach é um dos coletores de lixo em Kinshasa - Pedro Borges

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Rios forrados por garrafas pet, cheiro de plástico queimado e ruas cobertas de poeira. Esse é o cenário predominante em alguns bairros de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. A maior cidade do país, com 21,8 milhões de habitantes, enfrenta um problema grave de recolhimento e manutenção das 4 milhões de toneladas de lixo produzidas anualmente. 

Kinshasa é a terceira maior cidade do continente africano – atrás de Lagos, a capital nigeriana, com cerca de 22 milhões de habitantes, e do Cairo, no Egito, com 26 milhões de pessoas. A capital congolesa tem passado por um processo acelerado de crescimento que se reflete em problemas estruturais relacionados não só à coleta e tratamento do lixo, mas também à falta de saneamento básico e moradia adequada. 

“O lixo é um grande desafio para Kinshasa”, afirma Gode Bola, professor na Escola Regional de Águas da Universidade de Kinshasa e pesquisador do Centro Regional de Estudos Nucleares da mesma instituição. “O governo precisa contribuir com a criação de uma estrutura, como a construção de estradas e cestos de lixo.”

O serviço público de coleta de lixo não existe mais e o sistema de saneamento básico não alcança todos os habitantes. Até 2019, Kinshasa tinha caminhões públicos que coletavam o lixo e o despejavam no bairro de Maluku, uma das 24 comunas da capital. A região, descrita como semiurbana, é conhecida por ser uma das áreas mais extensas e menos habitadas de Kinshasa. De aspecto rural, concentra grande atividade pesqueira, já que está às margens do Rio Congo, o segundo maior do continente.

A saída de André Kimbuta do cargo de governador de Kinshasa em 2019 marcou o fim do serviço de coleta pública de lixo, que já naquela época se mostrava insuficiente para a demanda da capital. Depois, outras iniciativas foram criadas, sempre com ações pontuais, como a instalação de cestos de lixo em grandes avenidas. Todas aquém dos desafios da metrópole e nenhuma com a mesma popularidade da iniciativa de Kimbuta. Atualmente, Kinshasa é governada por Daniel Bumba Lubaki. 

Para tentar amenizar o problema, a população tem feito a coleta do lixo por conta própria. É comum ver na cidade homens de todas as idades – jovens de 17 anos a senhores de 60 – puxando charretes abarrotadas de detritos. Carregam não só garrafas, papelão, fios e pedaços de metal, mas também dejetos humanos que eles retiram das casas e despejam na rua ou em bairros periféricos, onde vive a população mais pobre. 

Alguns dos coletores cobrem a cara com máscaras de super-heróis, outros com caixas de papelão. As variações são muitas. “Eu não quero ser reconhecido", afirmou Shadrach, jovem congolês que tampava o rosto com uma touca preta feita de pequenos cortes nos olhos e na boca. Ele aparentava timidez e dava respostas curtas, sempre em lingala, o idioma falado nas ruas do país – o francês é a língua oficial. Ele disse receber 15 mil francos congoleses (equivalente a 34 reais) por dia de trabalho. Shadrach e os outros coletores de lixo trabalham entre 9 horas e 12 horas por dia e reclamam da falta de apoio do governo, como a inexistência de um ponto público para despejar o lixo ou mesmo qualquer remuneração fixa pelo serviço. A contratação, assim como o pagamento, são feitos pelos cidadãos diretamente aos coletores. Eles não sabem, por exemplo, a quantidade de lixo que carregam por dia de trabalho. Não há balanças de precisão ou qualquer controle sobre o que fazem. 

Conversei com Shadrach em Gombe, uma comuna ao Norte de Kinshasa que concentra a elite financeira e política do país, a pequena classe média congolesa, estrangeiros de ONGs, empresários internacionais e diplomatas. O bairro é diferente daquilo que se vê em boa parte das comunas. As ruas têm pouco lixo, com policiais, homens armados à paisana e até mesmo militares. Ali não é permitido jogar lixo no chão. O risco é de ser preso.

O lixo produzido nas comunas mais abastadas – além de Gombe, há também Ngaliema e Mont Ngafula – precisa ser descartado em algum lugar. Assim, trabalhadores como Shadrach andam cerca de 3 horas por dia para despejarem o lixo em comunas como Matete e Masina, onde moram congoleses mais pobres que a média do país. Não há nenhum tipo de aterro sanitário instituído pelo governo nacional para descarte do lixo. 

Gode Bola, pesquisador da Universidade de Kinshasa, explica que os coletores contam com a demanda das pessoas e não são reconhecidos pela administração congolesa. “Eles são pessoas normais procurando emprego e um dos trabalhos que eles têm é o de coletar lixo de casa em casa. Mesmo que eles não sejam reconhecidos, eles conseguem se organizar com os moradores.” O serviço prestado pelos coletores se tornou um dos mais importantes para a saúde pública de Kinshasa, pois evita a proliferação de doenças como tifo e a febre tifoide, todas originadas a partir do contato com fezes e a urina. “Em termos de saúde pública, é um grande problema. As pessoas se auto organizam, porque é realmente um risco para elas”, ponderou Gode Bola.


Jérémy Benkanga trabalha na coleta de lixo em Gombe desde 2016 e é formado em ciências comerciais pela Universidade Livre de Kinshasa. Quando conversamos, em julho do ano passado, ele utilizava um boné e uma bandana que cobria o nariz e a boca. De perto, era possível ver a cor dos olhos, um castanho escuro, mas com poucas pistas sobre os demais detalhes do rosto. “Eu utilizo a máscara por proteção contra algumas doenças, como a febre tifoide. E também por causa do cheiro do lixo”, disse ele, em francês.

Mesmo com uma formação acadêmica, Benkanga não consegue trabalhar na área e, por isso, segue na coleta do lixo. Dos 30 mil francos congoleses que ganha em média por dia (60 reais), gasta 5 mil (10 reais) para pagar a diária da charrete que utiliza. Conhecido no bairro, ele faz uma espécie de contrato informal com as famílias. Passa em dias e horários combinados para recolher o lixo e recebe um valor pré-estipulado. 

Ele e os demais coletores chegam à região logo cedo, por volta das 7 horas da manhã e ficam lá até as 15 horas, quando partem para despejar o que recolheram. Alguns dos clientes pagam por dia coletado, outros pedem para ele passar três vezes por semana e o pagam ao final do mês. Ele tem aproximadamente dez contratantes mensais e cada um paga em média 50 mil francos congoleses, em torno de 2,4 mil reais mensais. “Eu venho para Gombe porque aqui estão os ricos. Eles pagam melhor.”

Ao sair de Gombe, Benkanga segue para Kingabwa, distante 7 km do Centro de Kinshasa. Quem chega à comuna encontra pilhas de lixo por todo lado. O contraste com o lado mais rico da capital é percebido rapidamente não só pela paisagem, mas também pelo forte odor causado pela decomposição de restos de alimentos. 

Em Kingabwa, o lixo coletado por Benkanga nos bairros ricos tem dois destinos: uma parte é incinerada, afetando o ar que se respira, e a outra vira proteção contra enchentes – em mais uma camada de desigualdade social que assola o país. As garrafas pet são um dos itens mais valiosos, pois são utilizadas para a construção de barreiras contra as inundações provocadas pela subida das águas do Rio Congo. Ele diz vender os detritos por até 5 mil francos congoleses para quem deseja proteger sua casa – durante o período de chuvas, entre outubro e dezembro e entre março e abril, o Rio Congo chega a subir em mais de 2,5 m o nível da água.

Sem condições de viver nos melhores bairros e longe das enchentes, moradores de Kingabwa têm duas escolhas: ou abandonam suas casas em busca de segurança ou montam barreiras com lixo tentando proteger aquilo que possuem. Gode Bola, da Universidade Kinshasa, afirma que essas pessoas sabem do risco de permanecer em suas casas durante as enchentes e que utilizar o lixo como proteção é igualmente perigoso, mas não há outra opção. “Elas fazem isso porque não tem dinheiro.” Uma alternativa ao lixo seriam os caminhões de areia, mas o valor de 100 dólares por caminhão tornou-a impraticável.

Para o pesquisador, o governo congolês precisa ter uma postura mais proativa para resolver o problema. “O governo precisa assumir a responsabilidade”, disse. “A gestão pode destinar dinheiro. Mas é algo que diz respeito também à disposição. Nós temos dinheiro para outros setores, mas a gente não tem para cuidar da poeira ou do lixo.” 

Em maio, o governo congolês, presidido por Félix Tshisekedi, deu um passo para tentar resolver o problema. O Conselho de Ministros aprovou um projeto para tratar do lixo em Kinshasa por meio da geração de renda. Sem dinheiro em caixa, a estratégia foi recorrer ao financiamento internacional. O parceiro da vez foi o Banco Mundial, que disponibilizou 250 milhões de dólares para a iniciativa. O projeto será desenvolvido em três áreas: a criação de pontos de coleta de lixo na cidade, a limpeza do Rio Congo e o investimento para o transporte fluvial, e a geração de empregos em especial para jovens e mulheres. O plano, contudo, será restrito a algumas comunas, como Gombe e Ndjili (onde está o principal aeroporto do país) e não abrange toda Kinshasa.



O lixo acumulado em Kinshasa é reflexo de um contexto social mais amplo. Um dos principais motivos é a guerra civil na Região Leste do país entre o exército congolês e o grupo armado M23, uma milícia apoiada por Ruanda. O conflito armado, sobretudo em áreas rurais, tem feito com que milhares de pessoas deixem essas regiões para migrar rumo à capital em busca de trabalho e segurança. Há dez anos, Kinshasa tinha população estimada em 12 milhões de habitantes. Esse fluxo gerou um crescimento desordenado, perceptível nas ruas da cidade. Antes conhecida como “Kinshasa, la belle", hoje os moradores a chamam de “Kinshasa, la poubelle", um trocadilho com as palavras “bela” e “lata de lixo" em francês.

Ao longo dos anos, a capital se tornou irreconhecível. Prosper Dinganga, coordenador do coletivo A Voz do Congo, reside no Brasil desde 2013 fugindo de perseguição política. A sua família ainda tem uma casa no bairro de Mazal, próximo do Rio Congo, que na época era arborizado, com casas com quintais e pouca circulação de pessoas. Os vizinhos eram sobretudo militares e políticos congoleses, parte da elite do país. Dinganga retornou para Kinshasa em 2021 e se espantou com o que viu. “A cidade cresceu bastante. Havia muitas casas sendo construídas e muita gente na rua.” 

Somente em 2025 Kinshasa recebeu 1 milhão de pessoas, de acordo com a World Population Review. Ruas e avenidas da capital congolesa lembram a aglomeração da 25 de Março em São Paulo, um dos principais polos comerciais do Brasil. “Essa mobilidade forçada exerce maior pressão sobre áreas urbanas já saturadas, uma vez que as famílias deslocadas são frequentemente acomodadas em condições precárias. Paralelamente, a migração do campo para a cidade — impulsionada pela busca de oportunidades econômicas e acesso a serviços urbanos — alimenta um crescimento populacional rápido e desordenado”, diz o texto da World Population Review.

Um estudo da ONU de 2023 sobre moradia na República Democrática do Congo diz que o país tem um déficit habitacional de 4 milhões de casas e que, para suprir essa demanda, precisaria construir 265 mil unidades habitacionais por ano. Kinshasa concentra 54% deste déficit – ou seja, precisaria construir 143 mil casas. Esse é um problema que deve se acentuar nas próximas décadas, já que a previsão é de que até 2035 a cidade tenha 27 milhões de habitantes, segundo dados do Banco Mundial, e se tornaria a maior capital do continente, superando Cairo e Lagos.

O fim das guerras na República Democrática do Congo parece longe do fim, assim como a solução para o problema do lixo em Kinshasa. Ainda falta um projeto – e ação – para enfrentar todo o acúmulo de detritos na capital. Enquanto isso, homens mascarados vão seguir na função de coletar o lixo da capital do país, ao mesmo tempo em que tentam preservar sua dignidade em meio ao caos. 


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É jornalista investigativo na República Democrática do Congo.

é jornalista formado pela Unesp, confundador e editor da agência Alma Preta