A ativista Andrée Blouin: “Traidores organizavam-se por toda parte. Queixei-me a Patrice Lumumba, que disse: 'Paciência, minha irmã. Sei que é difícil" - CRÉDITO: TERENCE SPENCER_1960_POPPERFOTO VIA GETTY IMAGES
A ativista Andrée Blouin: “Traidores organizavam-se por toda parte. Queixei-me a Patrice Lumumba, que disse: 'Paciência, minha irmã. Sei que é difícil" - CRÉDITO: TERENCE SPENCER_1960_POPPERFOTO VIA GETTY IMAGES

memórias decoloniais

O NASCIMENTO DO CONGO

Patrice Lumumba e o difícil começo de um país no relato de uma ativista africana

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O fardo assumido por Patrice Lumumba, primeiro-ministro da República do Congo, era imenso.[1] Em seus ombros jovens e estreitos – ele tinha então 34 anos –, depositava-se o peso de um país de seis províncias, com 14 milhões de almas, que falavam três línguas principais – lingala, suaíli e quicongo – e inúmeros dialetos.

Ele herdou o cenário montado para um desastre. Funcionários do governo e do comércio se demitiam. Profissionais partiam em massa. Os belgas não tinham treinado substitutos. Em todas as áreas, eram poucas as pessoas capazes de assumir responsabilidades. A força de trabalho compunha-se apenas de escriturários, trabalhadores braçais e sem qualificação. A maioria dos serviços básicos começava a ruir, atendendo às esperanças dos belgas.

Em Léopoldville,[2] às vésperas da independência, de uma população de 350 mil pessoas, havia pelo menos 100 mil desempregados. Esse número aumentaria “milagrosamente” com a proclamação da independência, e o povo exigia “trabalho e bons salários” imediatamente. Como poderia o novo governo agitar uma varinha mágica e, dois dias depois da proclamação, encontrar uma solução para a catástrofe que os belgas vinham preparando havia oitenta anos?

Antes de 30 de junho, o Congo já estava mortalmente ferido. Primeiro, houve as rivalidades pessoais e políticas, depois os conflitos tribais e as manifestações dos desempregados. Por fim, em 5 de julho, foi a vez de o Exército contribuir para as calamidades do país. Os soldados congoleses recusavam-se a continuar obedecendo aos comandos dos oficiais belgas. Eles se amotinaram.

A fonte principal de sua rebelião foi a regra segundo a qual a mais alta patente que um congolês poderia alcançar no Exército, na época, após quinze anos de serviço, era a de sargento, ou primeiro-sargento. Alguns meses antes, na mesa-redonda belga, Patrice Lumumba levantara o “grave problema” da africanização dos escalões superiores do Exército.

Um belga, general [Émile] Janssens, era particularmente detestado por suas tropas congolesas. Desdenhosamente, ele anunciara que tinha “descartado a independência”. Disse que “aquilo era para os civilizados”.

Com uma selvageria que refletia exatamente o que fora aprendido com os belgas, o Exército se revoltou. Sangue congolês se espalhou quando os homens se voltaram contra seus oficiais. As represálias dos belgas assemelhavam-se em muito às técnicas dos nazistas, por quem tinham sido treinados. Patrice Lumumba tentou interromper os tumultos, fazendo apelos pessoais, aos dois lados, à calma e à razão.

O barco do Estado fazia água perigosamente, e más notícias continuavam se acumulando.

No dia 4 de julho, em Conacri,[3] recebi um telegrama do primeiro-ministro pedindo que eu voltasse para o Congo. No dia 8 de julho, estava de volta a Léopoldville, para me juntar a meus amigos.

No aeroporto, a polícia belga ainda estava a postos. Quando cheguei, o homem que examinou meu passaporte disse, em tom agressivo: “Você foi expulsa do Congo. Não pode voltar.”

Georges Grenfell, ministro de Estado e membro do Movimento Nacional Congolês (MNC) de Lumumba, estava comigo. Fora enviado a Gana para participar das comemorações locais da Proclamação da República. Sentamos juntos no avião, depois de seu embarque em Acra, e na hora ele intercedeu por mim.

“Vocês ainda estão tentando fazer a lei aqui? Onde pensa que está? Na Bélgica? Esta é a República Independente do Congo. In-de-pen-den-te, está entendendo? Sim, esta mulher foi expulsa, mas o novo governo do Congo trouxe-a de volta. Isso não lhe agrada? Dê-me o telefone.”

O policial belga hesitou, ganhando tempo. “Para quem deseja telefonar?”

“Para o primeiro-ministro, Patrice Lumumba.”

“Qual é seu nome?”

“Ministro de Estado Grenfell.”

O policial ficou perplexo. “Ninguém veio buscá-lo?”

“Talvez sim. Mas o avião atrasou oito horas.”

Ele nos deixou passar. Tomamos o ônibus da companhia aérea e chegamos a Léopoldville bem na hora do toque de recolher. Lumumba recebeu-me de braços abertos e com as palavras: “Está oito dias atrasada! Ouviu as notícias?”

“Que o Exército se revoltou? Sim, ouvi, em Dakar. De Modibo Keïta.[4] Diga... o que aconteceu?”

“A declaração do general Janssens foi o estopim. Os homens simplesmente não aguentavam mais. Estavam trabalhando por salários de fome. A ideia de continuarem sendo comandados pelos oficiais belgas era simplesmente insuportável.”

“E num momento como este!”

“Os homens tinham aprendido a atirar. Até contra seus próprios irmãos. Tinham armas e munição. Então se vingaram como foi possível. Atacando a população congolesa e os europeus. A revolta espalhou-se cegamente pela cidade, como uma doença. Foi terrível.”

“E agora? Como estão as coisas?”

“Quanto a hoje, estão um pouco melhores. Passei o dia falando com os soldados, junto com Kasavubu. Demos um jeito de acalmá-los. Camp Leopold[5] se aquietou desde então.”

Patrice parecia exausto. Ainda assim, tinha ânimo para rir ao falar comigo, aquela risada que era a marca registrada de sua esperança e de seu idealismo. Apesar de tudo, ele ria, desafiando o destino. “E você?”, perguntou. “Quais são as notícias?”

“Na Guiné, conversei com o presidente Sékou Touré e com Nkrumah.[6] Pedi que nos dessem ajuda técnica.”

A notícia da revolta era assustadora. Mas a imprensa belga tornava-a ainda pior do que era, agravando a situação como que para justificar o envio de paraquedistas pela Bélgica, para restabelecer a ordem. A primeira ação dessas tropas belgas foi desarmar os soldados congoleses.

Isso aconteceu na mesma noite em que Moïse Tshombe[7] anunciou a secessão de Katanga. Era pura e simplesmente uma reconquista.

Em Léopoldville, os paraquedistas, com roupas de combate, assumiam o controle por toda parte. Havia metralhadoras estacionadas nos cruzamentos. Jipes controlados por rádio bloqueavam as avenidas principais. O aeroporto de N’djili estava cercado pelos paraquedistas para garantir a evacuação dos europeus que, de bagagem na mão, fugiam para a Bélgica. O tráfego também era incrível à beira-­mar, onde barcos eram alugados pelos brancos em fuga para Brazzaville,[8] e com grande proveito de Youlou.[9] Era terrível assistir ao pânico naquele êxodo. Centenas de carros jaziam abandonados nas ruas, dando uma aparência terrivelmente triste à cidade, armada como uma fortaleza.

Se os congoleses maltratavam os belgas, muitas vezes era para impedir que deixassem o Congo. Não queriam que os brancos se fossem. Por todo o país desenrolava-se um espetáculo revoltante de violência e angústia de todo tipo.

Ódio cria ódio. A palavra macaque (macaco) era usada como alcunha para negros pelos europeus, até mesmo pelas crianças. E os congoleses achavam a palavra falamand, corruptela de flamand (flamengo), dita com terrível despeito, um supremo insulto.

No aeroporto de N’djili havia incidentes entre os negros que trabalhavam lá e os europeus que estavam em fuga. Muitos congoleses foram mortos. O general Janssens declarava: “Que isso sirva de lição aos que tiveram a sorte de escapar das nossas balas. Se não se calarem, estaremos prontos para retomar esse esporte.”

A Assembleia de Deputados tentava encontrar um meio de retomar o controle da cidade, mas via-se paralisada. Com a secessão de Katanga, o plano dos belgas de manterem o controle de seus interesses econômicos no Congo avançou com sucesso diabólico.

A ideia de Katanga como república separada era de fato uma caricatura vulgar de um mini-Estado de opereta. No entanto, os belgas a levaram a sério, pois viam na secessão um meio de escapar à nacionalização das ricas minas de Katanga. Acreditavam também que isso levaria à secessão outras províncias com aspirações tribais. Assim a Bélgica desistiria oficialmente do Congo, país cujas enormes necessidades e constante endividamento, agravados pela fuga de capital e pelo repatriamento do ouro e das reservas de crédito, fizeram permanecer no vermelho por muito tempo. Mas manteria o trunfo, Katanga, e a esperança, com sua secessão, de mais tarde conquistar igualmente as outras duas vantajosas províncias de Kasaï e Kivu.

Não posso falar de Katanga sem mencionar sua extraordinária reserva de minerais, até agora quase intocada: ouro, cobalto, cromo, platina, estanho, diamantes industriais, diamantes para joalheria, manganês, níquel, terras raras, urânio, amianto, chumbo, tungstênio e germânio. Além de tudo, Katanga produzia cobre, cerca de 350 mil toneladas por ano, de uma jazida de 300 km de largura do cobre mais puro jamais encontrado.

Fazia apenas quinze dias que o Congo conquistara sua soberania quando o presidente, Kasavubu, e o primeiro-­ministro, Lumumba, resolveram percorrer o país para acalmar o povo e encontrar uma solução para os inúmeros problemas que tinham atingido tão duramente a nação. Incansável, Lumumba subia ao palanque para falar com o povo. Muitas vezes, sua linguagem era demagógica. Mas era o menor dos males. Era uma corrida contra o relógio. Ele precisava deter a ruína em que o país mergulhava.

No fim da viagem, quando o avião presidencial chegou ao aeroporto de N’djili, perto de Léopoldville, o embaixador belga recusou-se a prestar as honras de boas-vindas a Lumumba e ao chefe de Estado, sob o pretexto de não querer provocar nenhum distúrbio entre os refugiados belgas que estavam no aeroporto esperando a hora da partida. Na verdade, houve uma cena escandalosa.

Um belga puxou a barba do primeiro-­ministro e lhe deu um tapa. “Presidente de macacos”, gritavam as mulheres europeias, a plenos pulmões. “Vamos voltar.” “Bastardo... assassino... filho da puta...” Outros lhe cuspiam na cara. Lumumba não perdeu a dignidade. Ele sempre foi e sempre seria digno.

Ao ficar sabendo do acontecimento lamentável, perguntei a mim mesma quem eram os selvagens naquele caso: vestiam a pele dos negros ou dos brancos?

Naquela noite, Lumumba telefonou para Antoine Gizenga[10] e pediu-­lhe que me levasse à sua casa.

O primeiro-ministro não queria mostrar, de modo algum, que a cena do aeroporto o havia afetado. Ágil e elegante, caminhava quase deslizando. Alguns amigos tinham ido visitá-lo, éramos cerca de uma dúzia ao todo. Mas então, contrastando com nossas outras reuniões mais intensamente políticas, a atmosfera transpirava uma paz e uma intimidade familiar. A amizade iluminava sua fisionomia sincera e leal.

Lumumba me disse: “Veja nosso pobre Congo, sra. Blouin! Tanto trabalho a se fazer.”

Falou sem paixão (algo raro nele) da viagem pela paz que fizera pelo Congo. Denunciou as crueldades que os congoleses infligiram aos europeus e reiterou seu desejo de que eles ficassem. Queria que os paraquedistas fossem embora para que a vida pudesse voltar ao normal. Acima de tudo, queria evitar um rompimento das relações diplomáticas com a Bélgica.

Falou longamente, sem interrupção. Ele mesmo nos servia martínis, conversando o tempo todo. Contou-­nos de outras afrontas que recebera durante a viagem. “Vejam só, quando estávamos indo para Luluabourg,[11] o piloto belga deu meia-volta no avião e retornou a Léopoldville, sem nos dizer nada! Alegou que estava sem gasolina suficiente. Quando perguntei por quê, uma vez que tínhamos abas­tecido em Stanleyville,[12] respondeu que ‘era segredo militar’. E em Katanga recusaram-se a nos deixar aterrissar. É inadmissível. I-nad-mis-sí-vel!”

Patrice estava calmo, descontraído, entretanto senti que havia algo prestes a acontecer – algo importante.

“Mas ainda vamos apanhá-los... com isto!” Triunfalmente, majestosamente, tirou do bolso de sua camisa branca a cópia de um telegrama. Estava datilografada e trazia duas assinaturas: a dele e a do presidente, Kasavubu. “É para Moscou”, falou. “Se quiserem dizer que, por causa disso, sou comunista, então o presidente também é!” Ele riu alegremente. “E enviamos o mesmo telegrama aos Estados Unidos. Estamos simplesmente solicitando que não seja permitido à Bélgica tirar com uma mão o que deu com a outra.” Brandindo o telegrama, declarou: “Isso vai dar resultado! Até Kasavubu está enxergando, agora, do que os belgas são capazes. Amanhã vou fazer um pronunciamento à nação pelo rádio e dizer o que estamos fazendo.”

Fui acusada de estar por trás de determinados atos do primeiro-ministro, e até havia jornalistas que se referiam ao trabalho da equipe “Lumum-Blouin”. Desde que eu havia humilhado o governo belga com a entrevista coletiva em Roma, vários rótulos me foram atribuídos. A mídia referia-se a mim como “vermelha”, “Pasionaria Negra”, “assessora secreta de Lumumba e Gizenga”, “eminência parda do primeiro-ministro” e “cortesã de todos os chefes de Estado africanos”. Isso nunca me incomodou. Afinal, é de se esperar que um adversário nos enxovalhe.

Houve quem pensasse que aqueles dois telegramas, que fariam tanta tinta correr na imprensa mundial, eram obra da sra. Blouin. Posso jurar que é mentira. Por outro lado, não nego que estava por trás de um apelo anterior ao governo dos Estados Unidos. O primeiro-ministro sabia que os Estados Unidos apoiavam as manobras sub-­reptícias da Bélgica no Congo. Mas resolvemos agir como se não soubéssemos, para expor à luz do dia a posição dos Estados Unidos.

Por sugestão minha, Lumumba telegrafou ao governo dos Estados Unidos pedindo que colaborasse solicitando ao governo belga a retirada de suas tropas do solo congolês. Ele sabia que o pedido seria recusado. Mas, ao fazê-lo, ganharia margem de manobra e também exporia, finalmente, as intenções do governo dos Estados Unidos com respeito ao Congo.

A resposta do embaixador estadunidense nem se fez de forma diplomática, normal. O telegrama foi dado como “não recebido”.

Foi então que Lumumba pediu ajuda à ONU.

Logo depois de 14 de julho, quando Patrice Lumumba pediu ajuda à ONU para estabilizar seu novo Estado, chegaram os capacetes-­azuis. Eram 20 mil.

A ONU também enviou “técnicos”. Trajados como homens de negócios, comportavam-se mais como conquistadores em busca de fortuna do que como profissionais encarregados de reconstruir um país.

Entre eles havia muitos haitianos. Por serem negros e falarem francês, integravam-se ao cenário com uma facilidade que alarmava pessoas como nós, que sabíamos o que representavam. O técnico branco era fácil de identificar logo que iniciava o trabalho. O etíope era um pouco menos identificável: era africano, quase preto. Os indianos eram característicos. Mas os haitianos pegavam os congoleses desprevenidos. Pareciam negros que tinham voltado à terra natal. Agiam de maneira tão fraterna! E estavam por toda parte, nas ruas e nos bulevares, nos bares e nas danceterias da Cité Congolaise,[13] vestindo suas camisas chamativas e multicoloridas produzidas em Miami. A pele negra era um salvo-conduto para irem a qualquer lugar, com aparência inofensiva. O povo congolês ficou muito sensibilizado com o fato de os “irmãos” haitianos terem atendido “espontaneamente” ao apelo de seu país. Mal sabiam os congoleses que eles vinham mandados por Papa Doc,[14] passando por Nova York, e o que isso significava.

E tudo acontecia acompanhado de uma canção bem conhecida, Indépendance cha cha![15]

O secretário-geral da ONU, Dag Hammarskjöld, foi ao Congo. Na noite de sua chegada, a Katanga separada lançou a própria moeda, cunhada na Suíça – na Suíça “neutra”! O primeiro-ministro não estava em Léopoldville. Tinha ido a Nova York para falar na ONU e, em seguida, partiu para visitar várias capitais europeias. Em sua ausência, foi Gizenga, vice-primeiro-­ministro, que recebeu o secretário-­geral. Gizenga fez um importante discurso, denunciando a política de laissez-faire do secretário-geral com respeito à secessão de Katanga.

No dia seguinte, a imprensa sensacionalista me atacou, como sempre, afirmando que eu tinha escrito o discurso e instigado a atitude provocadora do vice-primeiro-ministro. A imprensa também disse que eu havia brigado com Hammarskjöld num clube noturno.

O fato é que escrevi muito, para Gizenga e para o rádio, em contraposição a uma campanha insidiosa, que se autodescrevia como anticomunista, mas que, na verdade, destinava-se a subverter o regime de Lumumba. Assim, iniciei uma série de programas, chamada O rearmamento moral africano, para falar ao povo congolês da necessidade de unidade naquele período de crise.

Ao lado do meu trabalho para Gizenga e dos meus editoriais radiofônicos, eu assumira um novo cargo. No dia de sua partida para Nova York para falar na Assembleia da ONU, Lumumba me nomeara sua chefe de protocolo.

Ao mesmo tempo que mandou um telegrama para Conacri pedindo que eu voltasse para Léopoldville, Lumumba nomeou meu marido diretor de minas do Congo. Eu estava livre para partir imediatamente, mas André[16] precisou de mais tempo, pois tinha de notificar o Estado da Guiné. Cerca de um mês depois, ele chegou a Léopoldville com minha mãe e as crianças.

Quando viu as calúnias que me difamavam na imprensa, ficou furioso. A selvageria política chegara ao auge, e meus inimigos diziam qualquer coisa para me desacreditar. Cheguei do trabalho na hora do almoço e, em casa, encontrei André fora de si, de tanta raiva. Tivemos uma discussão acalorada, e André foi reclamar com Lumumba.

“Viu os jornais?”, ele perguntou.

“São uns jornalecos”, afirmou Lumumba, com desdém.

“E espera que eu aceite isso? Que deixe minha esposa ser tratada desse jeito?”

“Eu sei”, Lumumba concordou, compreensivo. “Nossos inimigos a atacam o tempo todo. Não pelo que ela fez, mas simplesmente porque se trata de uma mulher e está ali, no centro dos acontecimentos. Acredite.” Lumumba prosseguiu: “Ela não tem nada a ganhar com tudo isso. Está adoecendo de tanto trabalhar, de tanto se empenhar.”

“Se eu soubesse que seria assim, com certeza não teria concordado em vir!”, André se exaltou.

“Mas, sr. Blouin”, Lumumba disse, calmamente, “estou surpreso com sua reação. Se a sra. Blouin está sendo perseguida pelos imperialistas, é porque está fazendo um bom trabalho. E eu? Não estão fazendo a mesma coisa comigo? Já viu o que escrevem a meu respeito?”

“Isso não é problema meu. É minha esposa que eles estão jogando na lama. E não vou tolerar isso.”

“Nesse caso, sr. Blouin, está entravando nosso trabalho. Vai prejudicar nossa causa.”

Antes de sairmos, Lumumba pôs as mãos no meu ombro e falou: “Coragem, minha irmã.”

Meu marido reconsiderou sua reação inicial, embora continuasse preocupado por eu me entregar tanto ao trabalho. Minha querida mãe, Joséphine, cuidava de Eve, que ainda era muito nova para ir à escola, e nossa vida familiar tornou-se o mais normal possível em meio aos desastres que nos cercavam.

Eu não havia pedido o cargo de chefe de protocolo, mas agradava-me a possibilidade de estar no centro das atividades, recebendo antecipadamente telegramas do mundo todo e encontrando pessoas importantes. Lumumba fazia questão de que eu as recebesse com ele e, como me tornei perita em organizar eventos – algo que tinha aprendido como dona de casa e anfitriã de grandes reuniões –, parecia uma função adequada para mim.

Um carro oficial levava-me para o trabalho todos os dias e, no caminho, deixava as crianças, Christiane e Patrick, na escola. A primeira coisa que eu tinha de fazer na minha escrivaninha, todas as manhãs, era verificar a agenda do dia de Lumumba e checar os nomes de pessoas importantes que chegariam ao aeroporto. Precisava mandar buscar essas pessoas, mas com frequência não conseguia alugar um carro. Deixar-me sem transporte era uma maneira de meus inimigos sabotarem meu trabalho. Os VIPs, exasperados pela espera longa e infrutífera, eram obrigados a tomar um táxi, para meu desgosto. Meu gabinete padeceu muitas vezes essa humilhação mesquinha.

Para chegar ao gabinete do primeiro-ministro eu tinha de contornar uma sebe de 10 metros de comprimento, paralela a uma cerca de madeira. Certa manhã, precisei levar umas pastas ao gabinete dele. Quase todo dia Lumumba dava uma entrevista coletiva, para a qual convidava diplomatas estrangeiros e a imprensa internacional. Naquele dia encontrei no caminho o embaixador soviético, sr. [Mikhail] Yakovlev. Cumprimentamo-nos com um aperto de mãos e ele perguntou se a entrevista aconteceria logo. Ao apertarmos as mãos para nos despedir, depois daquele encontro muito trivial, fomos ofuscados por um flash.

“Por que tirou essa foto?”, perguntei rispidamente ao fotógrafo, embora fosse fácil adivinhar quem o tinha enviado.

“Porque a senhora é bonita e elegante”, respondeu o imbecil ridículo. A foto seria utilizada como prova de que minhas roupas eram de grandes costureiros. Embora fosse verdade que eu sempre me empenhava em manter uma aparência primorosa e impecável, minhas roupas não eram de alta-costura. Houve um tempo em que eu vestia roupas de grandes costureiros, mas certamente não quando trabalhava no Congo. O fato é que naquela época eu vivia numa simplicidade que beirava a pobreza.

Os belgas tinham, deliberadamente, esvaziado os cofres do Estado antes de irem embora. Quando o governo de Lumumba assumiu, não havia fundos para pagar os funcionários. Alguns ministros conseguiam juntar uma parte das sobras para seu salário, no entanto, além de uma antecipação de 20 mil francos, eu não recebia nada pelo trabalho de chefe de protocolo. Meu marido, como diretor de minas, não recebia um centavo. Eu não suportava a ideia de acrescentar minhas queixas às dificuldades de Lumumba, então pedia ajuda a Roger,[17] que a enviava, e a Charles Greutz,[18] que também me deu dinheiro naquele período difícil.

No dia seguinte, a foto estava na primeira página dos jornais da capital, afirmando que aquela era a prova de que eu fora comprada por [Andrei] Gromyko, ministro das Relações Exteriores da União Soviética. Mal sabiam eles que os soviéticos também me detestavam, por minha maneira de agir independente e por meu cinismo a respeito do seu tipo peculiar de imperialismo. Eu vira suas ambições na Guiné e sabia muito bem o que eles queriam na África.

Os telefones do primeiro-ministro tocavam 24 horas por dia, com solicitações de audiências urgentes. Patrice tinha o hábito irritante de tentar satisfazer a todos que pediam para encontrá-lo. Isso prejudicava muito meu trabalho. Ficava indignada ao ver as pessoas acorrerem ao gabinete dele como se fosse uma estação ferroviária e me esforçava para estancar o tráfego. Por outro lado, a situação era oposta em relação ao presidente, Kasavubu. Ele passava os dias tranquilamente, numa torre de marfim, cercado por assessores belgas que encaminhavam todos os queixosos para o gabinete do primeiro-ministro. Sem dúvida era uma tática deliberada para afetar a eficiência de Lumumba, pois era conhecido seu esforço bem-intencionado de estar disponível para as pessoas.

A única vez que fui capaz de atuar de maneira realmente digna de aplauso foi por ocasião da visita de Dag Hammarskjöld. Oferecemos a ele uma recepção esplêndida. A imprensa, de fato, disse que parecia designada a envergonhar os belgas. Mas era apenas sua maneira vulgar de enxergá-la. A música, as flores e a comida, estava tudo excelente, foi realmente um lindo jantar.

Nem sempre eu estava ao lado de Patrice, conforme algumas pessoas esperavam. Na verdade, só o encontrava quando ele tinha alguma instrução específica a me dar a respeito do meu trabalho. Essa reserva desconcertava alguns inimigos meus, que presumiam que eu fosse uma aventureira e cortesã.

Um dia encontrei Patrice no pátio entre nossos dois prédios. Tomando minha mão, ele disse: “Sua reserva me comove, Andrée. Sei que você está sob ataque. Todos nós estamos. Mas tenha paciência. Os que estão contra nós se cansarão antes de nós.” Ele deu aquele seu sorriso maravilhoso. “Não hesite em falar comigo se tiver problemas!”

Problemas! Eram diários. Telegramas anunciando a visita de dignitários eram escondidos para sabotar meu trabalho. Pastas de documentos sumiam do meu gabinete. Aconteciam confusões estranhas que lançavam suspeitas sobre mim. Era uma guerra de nervos. Com Patrice, era pior ainda. Todos os dias criavam-se novas armadilhas para ele. Mãos se apertavam em torno de sua garganta. Entretanto ele mantinha a coragem e o otimismo. Continuava a trabalhar pelo Congo dos seus sonhos.

Às vezes, quando um gênio está vivo, sua bondade e simplicidade são mal interpretadas e só são reconhecidas depois de sua morte. Acho que Patrice era um desses gênios. Talvez não estivesse destinado a levar seu trabalho até o fim, mas a ser um apóstolo que abrisse o caminho.

“A bondade dele vai nos arruinar”, falava-me Gizenga, todos os dias. “Dizer a verdade não é apenas bondade, é ingenuidade. Ele é muito despreocupado.”

A contragosto, eu era obrigada a concordar. E também havia a questão das políticas flexíveis de Patrice.

“Sempre que o Conselho de Ministros toma uma posição sobre a reforma”, dizia Gizenga, “Patrice recusa-se a executá-la porque tem medo de contrariar o povo. Afirma que vão sabotar a economia. Ele tenta agradar a todos. Com seus métodos estamos caminhando para o desastre.”

Gizenga tinha razão. Aquele homem de ferro era um amigo leal, mas também enxergava a situação como ela era. Seu silêncio era seu trunfo. Ouvia e observava. No entanto ele era tenaz; nunca esquecia seu objetivo final.

Depois da ida à ONU, Lumumba fez uma série de visitas a países amigos. Considerei que ele cometeu um erro tático, num momento de tanto caos no nosso país. Pior ainda, levou junto várias pessoas não confiáveis politicamente. Pobre Patrice! Na verdade, quem tem mais boa-fé é, com frequência, quem se decepciona mais cruelmente.

Ao voltar, foi engolfado por pessoas que desejavam encontrá-lo. O gabinete do primeiro-ministro e sua residência tornaram-se uma verdadeira Torre de Babel, com vaivéns constantes e ruidosos de todos os tipos de gente. Uma séria preocupação nossa, na época, era o grande número de aviões de todas as nacionalidades trazendo enxames de pessoas que buscavam aproveitar-se do caos do país. Léopoldville era um centro intensamente movimentado, com quase nenhum controle de imigração. Oportunistas da Europa Ocidental e Oriental afluíam ao Congo. Banqueiros, especialistas em negócios, diplomatas e enviados especiais, sindicalistas, jornalistas, representantes disto e daquilo, observadores duvidosos de todas as nacionalidades – todos vinham ceifar o que pudessem da crise do Congo. Abarrotados de teorias, ambições e ideias prontas, cada um tinha alguma experiência a realizar no Congo-cobaia, fenômeno da época.

Naquela atmosfera frenética, inviável, era só Patrice Lumumba que todos queriam encontrar. Para mim, era quase impossível controlar suas visitas, por causa da entrevista coletiva que dava quase todos os dias. As pessoas que se apresentavam eram recebidas no jardim de sua casa, que ficava a apenas 20 metros do seu gabinete. Embora a entrevista fosse anunciada para 11 horas, na realidade Lumumba não falava com a imprensa antes de uma da tarde, o que dava à multidão duas horas para circular livremente por ali, consumindo os bolos e as bebidas que o primeiro-ministro mandava servir.

Traidores organizavam-se por toda parte, até no gabinete de Lumumba. No escritório do vice-primeiro-ministro, dossiês sumiam da escrivaninha de Gizenga, assim como da minha. Eu percebia que minha escrivaninha era sistematicamente revistada, todos os dias. Quando trancava as gavetas à chave, elas eram friamente arrombadas. Queixei-me ao primeiro-ministro e solicitei uma investigação rigorosa. Lumumba replicou: “Paciência, minha irmã. Procure ter paciência. Sei que é difícil. Mas nossos opositores vão se cansar. A última palavra será nossa, você vai ver!”

Exausta, furiosa, baixei os olhos para evitar que Lumumba visse minha profunda frustração e angústia diante de seu raciocínio ingênuo. Não havia nada que eu pudesse fazer. Sabia que já era tarde demais. Tarde demais para o Congo, tarde demais para a África, tarde demais para o próprio primeiro-­ministro e para os amigos que acreditavam nele. Tarde demais para deter aquela máquina infernal, implacável, que fora acionada pela crise do Congo e que, de um modo ou de outro, significaria tragédia para cada um de nós.

Como o secretário-geral da ONU, com seus capacetes-azuis, não tinha feito nenhum esforço real para pôr fim à secessão de Katanga, Lumumba, desolado, enviou tropas congolesas para lá. Essas tropas estavam perto da vitória quando Hammarskjöld viu que o sucesso delas revelaria sua falta de empenho e o levaria a ser acusado de cumplicidade. Precisava agir, e rapidamente. Pediu a Kasavubu que detivesse imediatamente o avanço das tropas congolesas. Kasavubu obedeceu.

No dia 5 de setembro, o presidente Kasavubu destituiu o primeiro-ministro e solicitou a Iléo, presidente do Senado,[19] que formasse um novo gabinete. Sirenes quebraram o intenso silêncio que pesava sobre Léopoldville.

Lumumba reagiu imediatamente. Por sua vez, destituiu Kasavubu. A porta se abriu para o vazio, e o Congo mergulhou no abismo. Sozinha, à noite, corri como uma louca para a casa do primeiro-ministro, no Boulevard Lippens. Lá já se aglomerava uma densa multidão: ministros, membros do MNC, jornalistas e meros curiosos. A segurança tinha recebido ordens de só deixar entrar membros do governo. Fiz o que pude para entrar na residência, mas os guardas me impediram. Na verdade, era a primeira vez que respeitavam as ordens para manter a dignidade do lugar.

Com o coração apertado, fiquei por um longo tempo sentada dentro do carro, em frente da residência, aguardando os resultados. Tinha acontecido exatamente o que eu temia. Caí­ra como um relâmpago sobre a jovem república, destruindo sua nova vida. Finalmente, incapaz de continuar ali sentada, resolvi caminhar até a casa de Pierre Mulele, agora ministro da Educação, que ficava apenas a um quarteirão. Fiquei esperando com sua esposa, Clémentine, até cinco da manhã. Pierre chegou exaurido pela noite passada em claro.

“Tentei chegar até vocês”, afirmei. “Queria estar lá, para ajudar, se possível.”

“Sim, disseram que você estava no portão da frente. Pedi que permitissem sua entrada. Bomboko[20] recusou, com a desculpa de que você não era nem ministra nem deputada. Como chefe de protocolo, seria normal que você estivesse lá. Mas não era hora de discutir causas perdidas.”

“Conte”, implorei com veemência. “O que houve?”

“O governo, por unanimidade, rejeitou a destituição de Lumumba. Por lei, o primeiro-ministro não pode ser demitido sem a assinatura de dois ministros”, disse Mulele.

“Então quem são os dois ministros do lado de Kasavubu?”, perguntei.

“Nenhum. Nenhum membro do governo está contra Lumumba”, respondeu Mulele.

“Tem certeza?” Fiquei perplexa com aquela afirmação de Pierre, geralmente tão bem-informado e sensato.

“Sim, estamos unidos.”

Aquelas palavras me trespassaram. Tinha certeza de que ele estava errado. Imediatamente dois nomes me vieram à mente: Albert Delvaux[21] e Justin Bomboko. Eram bem capazes disso. Eles é que haviam chamado os paraquedistas belgas. Em várias ocasiões o primeiro-ministro pensara em destituí-los, porém, sempre generoso, voltara atrás, acreditando que mudariam de conduta.

Na Assembleia, era Bomboko que se referia a mim como “gênio mau” do governo. “Somos contra a presença dessa mulher”, dizia. “Somos contra todos os seus atos de provocação.” Constantemente espalhava-se o murmúrio: “O problema é... a sra. Blouin.” Lumumba repudiara essas acusações na Assembleia Nacional, lugar em que se acertavam os ressentimentos pessoais. Ele havia me defendido ardorosamente.

Mais tarde ficamos sabendo que, de fato, Bomboko e Delvaux tinham assinado a ordem de destituição de Lumumba, emitida por Kasavubu. Mas sua traição não deu certo. As duas casas rejeitaram a destituição; o primeiro-ministro compareceu a uma sessão da Assembleia Nacional e refutou, uma a uma, as acusações de seus detratores. Ruidosamente aclamado por seus partidários, ele foi carregado em triunfo.

Eu ainda estava no meu gabinete quando ele entrou no pátio de sua residência. Corri ao encontro dele, com sua esposa Pauline, que se jogou em seus braços. Apertei-lhe a mão e disse: “Parabéns, sr. primeiro-ministro! Temos orgulho de você!”

Patrice pôs as mãos nos meus ombros e me beijou os dois lados da face. Nunca mais o vi.[22] 


Trecho do livro Meu país África: autobiografia da Pasionaria Negra, a ser lançado em junho pela editora Boitempo, em tradução de Monica Stahel.

[1] Em 30 de junho de 1960, a República Democrática do Congo declarou-se independente, depois de 75 anos de dominação da Bélgica. Patrice Lumumba (1925-61) foi escolhido primeiro-ministro do novo país, e Joseph Kasavubu (1915-69), presidente. (Todas as notas são da Redação.)

[2] Léopoldville foi o nome dado pelos colonizadores belgas à cidade que hoje é chamada Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.

[3] Capital da República da Guiné, país onde a autora também atuou pela independência.

[4] Modibo Keïta (1915-77), primeiro presidente do Mali, entre 1960 e 1968.

[5] Base militar (aqui uma metonímia das Forças Armadas).

[6] Ahmed Sékou Touré (1922-84), primeiro presidente da Guiné, governou de 1958 até 1984, e Kwame Nkrumah (1909-72), primeiro presidente de Gana, entre 1960 e 1966.

[7] Moïse Tshombe (1919-69), político da província de Katanga, comandou a ruptura dessa região com o movimento independentista, visando criar um país à parte, com o apoio dos belgas, como é contado por Andrée Blouin (1921-86). Tshombe seria um dos responsáveis pelo assassinato de Lumumba, em 1961, tramado com a participação da Bélgica e dos Estados Unidos.

[8] Capital da vizinha República do Congo, colonizada pela França, que também estava em processo de independência, declarada em 15 de agosto de 1960.

[9] Fulbert Youlou (1917-72), ex-padre e político, primeiro presidente da República do Congo.

[10] Antoine Gizenga (1925-2019), político, aliado de Lumumba e vice-primeiro-ministro da República Democrática do Congo.

[11] Cidade da República Democrática do Congo, hoje chamada Kananga.

[12] Cidade no mesmo país, hoje chamada Kisangani.

[13] Como era designado, na época colonial, a área habitada pela população africana.

[14] François Duvalier, chamado Papa Doc (1907-71), presidente do Haiti de 1957 a 1971.

[15] Canção congolesa que acabou se tornando um hino pan-africano das independências no continente.

[16]  André Blouin, engenheiro francês, com quem a autora se casou em 1952 e teve dois filhos.

[17] O aristocrata belga Roger Serruys, com quem a autora teve um relacionamento e uma filha, Rita.

[18] O francês Charles Greutz foi o primeiro marido da autora. O casal teve um filho, René, que morreu de malária aos 2 anos, depois de a administração francesa lhe negar o quinino que poderia ter salvado sua vida na República do Congo. A morte do menino foi um dos gatilhos para o engajamento político de Andrée Blouin.

[19] Joseph Iléo (1921-94), político, foi um dos fundadores do Movimento Nacional Congolês (MNC). Depois da destituição de Lumumba, tornou-se primeiro-ministro da República Democrática do Congo por um breve período.

[20] Justin Marie Bomboko (1928-2014), político da República Democrática do Congo. Em 5 de setembro de 1960, o presidente Kasavubu destituiu o governo Lumumba, e foi Bomboko, então ministro das Relações Exteriores, quem atestou a decisão, seguindo a lei vigente no país.

[21] Albert Delvaux, que mais tarde trocou o nome para Mafuta Kizola (1918-85), político da República Democrática do Congo e então ministro residente do país na Bélgica, atestou com Justin Marie Bomboko a destituição do governo Lumumba.

[22] Depois de um golpe liderado por Mobutu Sese Seko, apoiado por Bélgica e Estados Unidos, Lumumba foi preso, torturado e brutalmente executado em 17 de janeiro de 1961. Condenada à morte, Andrée Blouin exilou-se em Paris. Ela estava na Suíça quando soube do assassinato de Lumumba. Mobutu se manteve no poder até 1997.


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Nascida na República Centro-Africana e falecida em Paris, foi ativista política e escritora, autora de Meu país África: autobiografia da Pasionaria Negra (Boitempo)