questões eleitorais

PARA ALÉM DA DESOLAÇÃO

A noite do primeiro turno das eleições não deixou dúvida do nosso estado de desgosto e da grandeza de nossa responsabilidade
Apoiadores de Marcel Van Hattem (Novo) celebram sua eleição ao Senado - Evandro Leal/Agencia Enquadrar/Folhapress
Apoiadores de Marcel Van Hattem (Novo) celebram sua eleição ao Senado - Evandro Leal/Agencia Enquadrar/Folhapress

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Alguns pensamentos a quente, numa noite que condensa muito de nossa desolação e expõe de forma inequívoca nossa responsabilidade com o futuro:

  1. Nos últimos dez anos, a extrema direita conseguiu realizar no Brasil uma revolução cultural radical; simultaneamente, o Centrão (ou a direita fisiológica) foi capaz de implementar uma série de reformas políticas que alteraram de forma definitiva as regras do arranjo político e institucional estabelecidas pela Constituição de 1988.

  2. Esses dois vetores se somaram numa aliança de força descomunal, um colosso político capaz de produzir transformações sociais como poucas vezes vimos em nossa história. Essa convergência se deu num contexto internacional e num ambiente tecnológico-comunicacional que garantiu envergadura histórica e forneceu insumos valiosos a esses movimentos internos.

  3. No plano cultural, a direita desenvolveu uma estética, um amplo domínio da comunicação de massa, tecnologias sociais e afetivas de formação de comunidade, um profundo diálogo com a espiritualidade popular e uma utopia convincente do individualismo como caminho de transformação da vida. Uma verdadeira revolução gramsciana em torno de imagens e valores pautados pela fé, pela família e pela prosperidade individual. 

  4. Essa é uma visão sedutora e de amplo alcance, a despeito de seus elementos de cinismo, sua conivência com as formas mais brutais de espoliação, seu apelo à violência, do retrocesso no plano dos direitos e seu reforço à perpetuação da desigualdade. Ao mesmo tempo, é um equívoco deixar de enxergar como essa concepção de mundo dialoga com a vida real da maioria da população e fornece alguma esperança, alguma utopia do possível e alguns instrumentos para lidar com os percalços da vida.

  5. O individualismo do cada um por si e a concepção da vida como uma guerra em que vence o mais forte, promovidos por esse amálgama reacionário, dão novos contornos à nossa história de violência social e de devastação ambiental. O que se observou nos últimos anos no Brasil foi a ampliação metastática de uma espécie de "capitalismo de garimpo”, uma mistura de “ética-Vorcaro” com lógica da milícia, com ampla penetração nas instituições públicas. As "bets", para citar apenas uma das faces dessa economia política e dessa lógica cultural, são também uma forma de garimpagem de vidas, apostas e da renda de famílias já economicamente dilapidadas.

  6. Enquanto as várias direitas promoviam essa revolução, nós, no campo progressista, perdemos a energia do novo. 

  7. A centro-esquerda dominante, seja em seus governos ou em seus discursos, praticamente só dispõe das memórias de políticas já rotinizadas, muitas delas implementadas há cerca de vinte anos, ou de propostas que só alteram marginalmente o estado de coisas. Isso se deve, em parte, ao próprio sucesso de conquistas como o Bolsa Família, o aumento do salário mínimo e a expansão da rede de ensino superior — políticas públicas cruciais, mas que hoje são vistas pela maioria da população como já garantidas, “políticas de Estado”, ou como medidas insuficientes. E é fundamental reconhecer que elas são, de fato, absolutamente insuficientes.

  8. Após as investidas golpistas do governo Bolsonaro e os ataques do Oito de Janeiro de 2023, a única arma política de grande calibre que se somou à disputa democrática foi a consolidação de um Supremo agressivo e hiperpersonalista —  uma estratégia que era notoriamente contraditória desde o início, e que agora se revelou um fardo impossível de carregar.

  9. As novidades no campo progressista, por mais fundamentais e justas que sejam (o fortalecimento do movimento feminista, a ampliação do repertório de luta antirracista e LGBT+), não têm sido capazes de produzir maiorias políticas e de popularizar imagens de futuro que organizem a relação entre a vida privada dos cidadãos e a vida coletiva. Elas são forças indispensáveis, o que exige uma avaliação de suas conquistas, seus limites, suas táticas, seus repertórios e sua eficácia de mobilização. 

  10. A reversão desse cenário deve passar pela criação de alternativas à altura da revolução político-cultural implementada com impressionante êxito pelo campo adversário. Uma visão de futuro radicalmente nova, convincente, dotada de ossos e carne, de matéria da vida real e da energia dos sonhos.

  11. Isso requer a criação de novas lógicas culturais, novos discursos, novas apostas estéticas, novas lógicas de comunicação; tecer formas de solidariedade ainda não testadas e elaborar propostas políticas transformadoras. Nos desacostumamos com o que já está dado, o que exige uma nova disponibilidade para a escuta da maioria da população, em sua imensa diversidade, um desapego com nosso próprio vocabulário (não se pode ouvir se insistimos em impor nosso léxico), e a observação de iniciativas de invenção que já estão em curso em comunidades e movimentos, assim como em nichos intelectuais e artísticos menos visíveis. 

  12. Quanto à arte, já é mais do que hora de olharmos para além do pequeno palco onde sempre se repetem as velhas e jovens estrelas. O novo não virá daqueles artistas e as manifestações que servem ao repetido e previsível gosto da esquerda dominante, por maiores que tenham sido seus feitos nas últimas décadas e por melhores que sejam as intenções dos novos membros dessa trupe de escolhidos.

  13. Esse diagnóstico independe do resultado final das eleições presidenciais. Uma vitória de Lula no segundo turno pode evitar uma aceleração ainda maior dessa revolução em curso, e por isso ela é crucial e deve concentrar todas as energias do campo democrático nas próximas semanas. Contudo, por si só, ela não irá apontar as direções do novo e estabelecer seus alicerces. Talvez ganhemos algum tempo, mas as placas tectônicas da devastação social, do desmonte de direitos e da vulgaridade desavergonhada não deixarão de se mover.

  14. O futuro é uma ficção política que escrevemos hoje. Recorro a estas duas palavras: responsabilidade e coragem. A responsabilidade de investigar o passado recente e avaliar nossos avanços (não foram poucos), mas de pensar além das soluções existentes, das estratégias consolidadas, dos discursos aceitos e das políticas públicas já testadas. A coragem para admitir que tudo o que construímos no passado e o que estamos construindo no presente está aquém do que a história nos impõe como missão. 

  15. Esse posicionamento ético é, inclusive, uma manifestação de respeito às lutas e vitórias do passado, mas, sobretudo, um aceno às derrotas de outros tempos. Investir em um futuro de justiça e igualdade, contra todos os obstáculos, é uma forma de honrar nossos mortos e nossos derrotados de lutas passadas; essas companheiras e companheiros aguardam, no ritmo lento da história, o momento de sua redenção. 

  16. Se caminharmos nesse sentido, essa será uma construção que levará muitos anos, talvez décadas, e não será encabeçada por apenas um indivíduo, um partido, um movimento. Trata-se de uma tarefa que envolve amplos setores da sociedade, uma diversidade de saberes, experimentos, apostas, e exige a ousadia para fazer as mais duras disputas políticas, mesmo que isso imponha derrotas no curto prazo.

  17. Essa responsabilidade é imensa. Ela é a grande missão política de nossas vidas.

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Escritor, é doutor em sociologia pela Universidade de Michigan. Publicou O que é Meu e Geração Democracia (Fósforo)