questões audiovisuais
Por Manoel Magalhães, do Rio de Janeiro 08 Jul 2026
14 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Na madrugada do dia 22 de fevereiro de 2016, Mr. Catra se apresentou no Mosaico Night Club, um espaço de prostituição localizado na Praça da Bandeira, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Vindo direto de São Paulo, onde havia feito uma participação no Superpop, programa da RedeTV! que à época era apresentado por Luciana Gimenez, o artista subiu ao palco com uma camiseta regata azul, boné preto e cordão de ouro no pescoço. O show daquela noite, no entanto, não era embalado pela batida do funk, gênero que o consagrou, mas por solos de guitarra. O funkeiro apresentava o projeto Mr. Catra e Os Templários, fruto do álbum que lançara no ano anterior com canções de rock pesado. “Ele foi simpático e fez questão de cumprimentar um a um na plateia. Todas as meninas queriam falar com ele. No final do show, [Mr. Catra] pegou uma garrafa de uísque, um charuto e subiu para o quarto com duas”, disse o carioca Fábio Fernandes, de 52 anos.
A fase metaleira, que se deu dois anos antes de sua morte, não teve grande repercussão. Ainda assim, é curioso ver o artista cantando rock. O registro da exibição na Mosaico foi feito por Fernandes e está disponível em seu canal no YouTube, onde utiliza o pseudônimo Donnie Darko (donniedarko73). O canal tem quase 20 mil inscritos e 22 mil vídeos de shows publicados – o nome da página é uma referência ao filme de estreia do cineasta Richard Kelly, no qual um adolescente tem visões surreais com um homem vestido de coelho que aparece e desaparece dos lugares rapidamente. Na cena musical underground do Rio, Fernandes é conhecido por surgir, às vezes no mesmo dia, em apresentações diferentes.
Fábio vai a shows desde 1989, quando tinha 15 anos. Sua primeira lembrança é de assistir ao Terra Molhada, grupo cover dos Beatles, em uma apresentação na inauguração do Madureira Shopping. Começou a gravar em 2006, com uma câmera cybershot da Kodak. “O YouTube tinha um ano, já existiam pessoas gravando shows, mas me agoniava o fato de que os vídeos eram muito curtos, em torno de 10 segundos de uma música. Nunca havia a canção completa: na melhor parte, cortavam o refrão, o solo de guitarra. Eu comprei a câmera e comecei a gravar algumas músicas completas.” Desde então, são duas décadas documentando o cenário cultural do Rio de Janeiro. A antiga cybershot ficou no passado: atualmente, usa uma câmera mais moderna, da marca Canon, com um zoom que aumenta em até 40 vezes a proximidade da imagem.
Fernandes afirma que escolhe o que vai assistir – e gravar – baseado em dois critérios principais: a vontade de criar um registro de determinado artista e de acordo com o interesse do público. Ele perambula por espaços variados, às vezes inusitados. Prostíbulos, hotéis, igrejas e camelódromos. Só no ano passado ele filmou 188 shows no Rio, entre artistas independentes e consagrados. Desde 2007, em parceria com o amigo Otaner LC, ele mantém o La Cumbuca, site com a agenda musical do Rio de Janeiro.
Os vídeos de maior sucesso no canal de Fernandes no YouTube costumam ser os de cantoras pop, como Luísa Sonza e Pabllo Vittar. Marina Sena é a atual bola da vez, e suas aparições no Rio geram muitas visualizações e comentários. Ele diz que “pega muitos artistas na planta”. Há, por exemplo, imagens de Anitta se apresentando em sua primeira turnê, Show das Poderosas, em 2013. Nos últimos anos, acompanhou o surgimento de Duda Beat, Silva, Jaloo e Mãeana antes da fama. “Gravei a Sabrina Carpenter em 2023 na abertura do festival Mita, no Jockey Club Brasileiro. Tava um sol forte, eram umas 14 horas, achei o show chato. Corta pra poucos anos depois: a garota deu uma repaginada, virou uma das maiores cantoras da atualidade.”
Os registros de Fernandes ajudam a contar a história de parte da movimentação cultural do Rio, sobretudo a independente, com coletivos e bandas que apareceram e minguaram com a mesma rapidez. Seus vídeos também arquivam a história de casas de show que não existem mais – ele mantém registros de 95 shows no Oi Futuro Ipanema e outros 35 no Studio RJ, ambos extintos.
Jornalista de formação, ele divide o tempo entre as atividades do canal e trabalhos como freelancer. Alguns vídeos do canal são monetizados (ou seja, o YouTube lhe repassa um quinhão do dinheiro vindo de anúncios), mas Fábio diz que a receita não é alta. “A questão nunca foi o número de visualizações, a intenção foi sempre de compartilhar os shows. Tem vídeo a que cinco pessoas assistiram, e outros, 100 mil. Eu monetizo mais a opção shorts, de vídeos curtos, com potencial maior de viralizar, mas os valores são ínfimos. O YouTube já me deu uma placa honorária pelo trabalho, é mais esse tipo de reconhecimento.” Depois de tantos anos de atividade, ele passou a receber convites de credenciamento como imprensa para alguns shows, mas ainda paga ingresso em parte considerável dos shows que grava.
Fábio faz parte de um grupo de abnegados que se dedicam a documentar a produção musical das cidades onde vivem, um arquivista de cena local. Recentemente rodou o mundo a história de Aadam Jacobs, que gravou mais de 10 mil shows em Chicago, nos Estados Unidos, com seu gravador de bolso ao longo de quarenta anos em palcos de clubes como Metro e Schubas Tavern. O acervo de Aadam está passando por um processo de restauração e sendo disponibilizado, gratuitamente, aos poucos no site Internet Archive. O texto informativo a respeito da coleção resume bem o tipo de apaixonado que desenvolve esse trabalho: “uma vida dedicada a ouvir, amar, descobrir e arquivar música.”
Todo mês um voluntário viaja até a casa de Jacobs e volta com caixas de 50 a 100 fitas para digitalização. Até agora 5.500 fitas foram transcritas e quase 2.500 estão disponíveis online. O trabalho deve durar mais alguns anos. Além das bandas da cidade, como Tortoise e Uncle Tupelo, ele registrou o início de carreira de Nirvana, R.E.M, Pixies e Sonic Youth e de mais centenas de grupos que não chegaram a conquistar grande notoriedade.
Nos Estados Unidos, esse tipo de arquivista musical focado no registro apenas do áudio é conhecido como taper e já integra uma certa cultura consolidada em diversas cidades. Alguns são famosos internacionalmente. Dean Benedetti gravava apresentações de Charlie Parker nos anos 1940. Mike Millard, chamado de Mike The Mic, gravou shows em Los Angeles de 1973 a 1994. Stan Gutoski atuou na região de Seattle a partir da década de 1970, e Daniel Lynch criou um site que reúne gravações de tapers de Nova York desde 2007. Muitos desses registros acabam virando álbuns não oficiais dos artistas, conhecidos como bootlegs, e são vendidos em um mercado alternativo muito forte em países como Japão, Inglaterra e Itália. No segmento taper não é raro o uso de equipamento mais profissional e a preocupação com a qualidade das gravações. A comunidade já subiu cerca de 300 mil shows para a página Live Music dentro do repositório Internet Archive. A plataforma BitTorrent foi criada inicialmente para facilitar o compartilhamento de arquivos grandes, e os grupos de tapers foram um dos primeiros a utilizar a ferramenta.
Em Maceió, o historiador de 37 anos Dimas Marques é quem resolveu registrar a movimentação nos palcos da cidade. Ele criou em 2016 o canal Alagoas Musical no YouTube e começou a filmar shows. A vontade surgiu da constatação de que existiam poucos registros audiovisuais de bandas locais dos anos 1980 que ele gostaria de ter visto ao vivo, se pudesse. O primeiro evento gravado, ainda antes do canal, em setembro de 2016, foi o de celebração aos dezoito anos de uma banda de punk rock chamada Sinsenhor, curiosamente também a última apresentação do grupo até hoje. O canal tem mais de 9 mil inscritos e vídeos dos mais variados estilos de música autoral, do samba ao reggae, do forró ao metal. “Eu peguei uma câmera velha que eu tinha em casa anterior à fase HD (high definition). Já era USB, mas tinha uma imagem bem ruinzinha. Eu não tinha grana para investir em um equipamento grande, e também não queria investir.” A iniciativa, diz ele, gerou críticas de alguns artistas, que não viam qualidade em seu trabalho. “Muita gente da cena me criticou pelas costas.”
Mesmo com o equipamento incipiente e certa desconfiança, ele não desanimou. Na última década, acumulou um vasto repertório – 2 mil vídeos e 500 shows. Entre os mais importantes, cita o de lançamento do documentário Eu Quero Tudo, sobre a banda Mopho, um dos principais grupos do rock psicodélico de Alagoas. Foi o último encontro da formação clássica da banda. E destaca também a apresentação de aniversário de 80 anos de Wilma Miranda, cantora de jazz e música brasileira, conhecida por apresentar compositores locais. O vídeo com mais visualizações é do forrozeiro Edgar dos 8 Baixos, com o registro de um show na íntegra no evento São João 200 Anos, que tem quase 30 mil visualizações.
Na pandemia, Marques começou a digitalizar e publicar o próprio acervo de discos e fitas K7 de bandas locais que não estavam na internet. O canal tem algumas playlists com materiais raros da cena alagoana, como gravações que nunca foram lançadas, discos com pequena tiragem e bootlegs em fita K7. Uma das playlists apresenta a série de gravações Arquivos Implacáveis, que o médico Raimundo Campos realizava de artistas alagoanos em sua casa, cobrindo um período entre 1964 e 1979. É um exemplo de taper brasileiro. Ele conta que também recebeu material de outras pessoas que gravaram shows nos anos 1990 e queriam compartilhar. Só de entrevistas com artistas locais ele publicou mais de cem até agora, com destaque para conversas com Carlos Moura, um dos principais cantores de MPB do estado, e Dinho Oliveira, técnico de som da gravadora Gogó da Ema Discos e Fitas. Os dois já faleceram.
Em Porto Alegre, Reinaldo Portanova, de 58 anos, mantém no YouTube o canal Relicário do Rock Gaúcho, atualmente com 3 mil inscritos. A iniciativa surgiu em 2008, fruto do material que ele tinha guardado dos tempos que foi operador de áudio nos anos 1980, na rádio Ipanema, conhecida por divulgar a cena roqueira gaúcha. Um dos primeiros materiais que publicou foi um show do grupo DeFalla. Edu K, o vocalista, viu o vídeo e doou a Portanova o acervo que a própria mãe mantinha da banda. “Ela veio aqui em casa, olhou e viu que estava tudo organizadinho e doou o material.”
A partir da doação da dona Syrlei Dorneles e do incentivo de figuras como o finado produtor Carlos Eduardo Miranda, o projeto ganhou relevância local, sobretudo por não armazenar apenas vídeos de shows. O acervo do Relicário do Rock Gaúcho tem 2 mil discos, mil fitas K7, incontáveis itens de memorabilia, como cartazes e ingressos, e ainda um extenso conjunto de fotografias, recortes de jornais e gravações de programas de rádio e shows. Entre as raridades, constam a fita caseira em que Flávio Basso, o artista conhecido como Júpiter Maçã, registrou as primeiras gravações das canções que integram o álbum A Sétima Efervescência, de 1997, eleito pela revista Rolling Stone um dos cem maiores discos da música brasileira.
Para organizar o material, Portanova tem a ajuda do bibliotecário Samarone Silveira e do engenheiro de redes Darlan Porto, que além de ter realizado uma grande doação de itens, é o curador responsável por organizar todo o material recebido. Os três trabalham no Relicário voluntariamente. Eles sonham em transformar o espaço em museu do rock gaúcho.
A pesquisadora Giselle Beiguelman, professora da Universidade de São Paulo que estuda a preservação de acervos artísticos digitais, diz que a junção entre novas abordagens tecnológicas comunitárias e a estrutura de instituições podem ser um caminho mais profícuo para a continuidade desse material cultural do que necessariamente os espaços tradicionais de salvaguarda. “Ter essa quantidade de horas de shows já disponíveis no Internet Archive é um marco. Não de legalidade ou de institucionalidade, mas um marco de toda uma cultura social [...] Espaços fluídos, mais híbridos, como o Internet Archive, acabam apontando um caminho possível entre a institucionalidade, que obriga os documentos a se encaixarem nos protocolos que já foram definidos, e essa saudável anarquia, que dá voz a coisas que não cabem nos metadados tradicionais.”
Em 2025, o Internet Archive ganhou status de biblioteca depositária federal dos Estados Unidos. A ferramenta mais difundida do site é a Wayback Machine, que vem registrando páginas de boa parte da internet em diferentes datas desde 1996 (é possível, por exemplo, conferir a homepage do New York Times no dia 11 de setembro de 2001). Giselle aponta no Brasil a Brasiliana Museus, iniciativa do Instituto Brasileiro de Museus que reúne acervos de diversas regiões em uma plataforma online, como uma alternativa interessante. “Ela permite que micromuseus produzam essa documentação e sejam agregados em um espaço comum”, afirma a professora.
Os acervos de Fábio Fernandes, Dimas Marques e Reinaldo Portanova já resultaram em usos diversos. Eles contam que colaboram bastante com os artistas fornecendo material para a produção de documentários, DVDs, programas de televisão e outros projetos especiais. Os vídeos de Fernandes foram usados na série Por trás da canção, exibida pelo Canal Bis, em episódios sobre as cantoras Gaby Amarantos, Gal Costa e Fernanda Abreu, em um programa especial de Letícia Novaes (mais conhecida por Letrux) na TV Futura e no videoclipe Pra qualquer bicho, da banda Pato Fu com a participação do cantor Ritchie. Portanova colaborou com material para documentários sobre ícones do rock gaúcho como Júlio Reny e Júpiter Maçã e para a série que conta a história do Bar Vortex, epicentro do punk em Porto Alegre nos anos 1980.
“O Fábio já nos ajudou muito. Em 2025 fizemos um revival para celebrar quinze anos de Letuce [duo em parceria com Lucas Vasconcellos] e tinha umas músicas que a gente não lembrava o tom, coisas que não eram só do disco. Ele tem várias coisas que quero para estudar, para lembrar como eu cantava uma versão da Rita Lee. É sempre ele que nos salva”, disse Letícia Novaes à piauí.
Algumas questões polêmicas perpassam o trabalho feito por Fábio Fernandes, Dimas Marques e Reinaldo Portanova. Eles costumam, vez por outra, receber críticas. Seja de artistas que pedem para retirar os vídeos do YouTube ou de quem afirma que eles deveriam conseguir autorização prévia dos detentores dos direitos autorais. É o caso da produtora cultural Gisella Gonçalves, sócia da Borandá Produções, que trabalha com artistas como Toninho Ferragutti e João Camarero e defende que a liberação dos autores é fundamental. “Tudo que se faz na vida, o princípio é a legalidade. Se não tem suporte legal, você não pode fazer. Tá errado. Caso contrário é um vale-tudo.”
Ela complementa: “Às vezes a pessoa não apresenta uma performance tão boa ou está passando por um momento difícil e não quer que aquilo vá ao ar. Uma coisa é você ir ao show, pegar um celular, captar um trechinho e colocar no Instagram. Isso faz parte da vida atualmente, todo mundo faz isso. Já colocar um show inteiro sem a autorização do artista é ilegal [...] O artista tem que ter o direito à opinião, poder dizer o que não quer que seja gravado ou publicado.”
Do ponto de vista da legislação brasileira, a produtora está correta. De acordo com o Artigo 29 da Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998), “depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, por quaisquer modalidades” e a distribuição do material por diversos meios, incluindo internet. A advogada Deborah Sztajnberg, especialista em direitos autorais, confirma que tanto quem grava quanto a plataforma que possibilita a publicação do material podem ser acionados juridicamente. “Exatamente por conta do artigo 29, você deveria realmente ter uma autorização para poder gravar. Tanto que em vários shows existe o aviso: é proibido gravar. Aí a pessoa grava, desautorizadamente, e publica no YouTube. A plataforma tem os termos de serviço que informa não ser responsável e que a responsabilidade é do autor, mas a justiça brasileira não aceita e manda derrubar o vídeo.”
Um desdobramento do tema é o strike do YouTube, a advertência oficial da plataforma exatamente por denúncia de violação de direitos autorais. Receber três reclamações no intervalo de noventa dias acarreta na exclusão do canal. Fábio já recebeu avisos por conta de eventos que nem eram exatamente oficiais, mas tinham os direitos atrelados a grandes conglomerados de mídia, como a passagem de som das cantoras Madonna e Lady Gaga, no megaevento Todo Mundo no Rio, realizado na praia de Copacabana.
“Quando recebo dois avisos já fico preocupado e tento resolver. Na Madonna eu fui na passagem de som e no show, coloquei os vídeos no YouTube e logo foram derrubados por questões de direitos autorais da transmissão. A passagem de som era curiosa, eu aleguei pra plataforma que era um show aberto, na praia, para 1 milhão de pessoas. Eles acabaram aceitando e liberando. Na Lady Gaga eu tentei ser mais esperto, postar só a passagem de som. Foi a mesma coisa, derrubaram os vídeos, eu contestei com o YouTube e liberaram. Os festivais maiores eu parei de gravar faz tempo para evitar problemas”, conta Fernandes.
Alguns jornalistas também realizam esse trabalho de registro local de shows no YouTube. Marcos Anubis, em Curitiba, e Alexandre Matias e Bruno Capelas, em São Paulo, filmam shows e acompanham o desenvolvimento de cenas importantes do país. Apesar dos problemas que rondam a atividade, Anubis acredita que o trabalho feito por seus pares ajuda a contar histórias da música que poderiam se perder. “Há alguns meses, o site Tenho Mais Discos Que Amigos produziu uma série de vídeos sobre a história da cena de Curitiba. Um dos entrevistados foi Kevan Gillies, que teve no final dos anos 1970 a banda Carne Podre, provavelmente o primeiro grupo punk do Brasil, antes de Inocentes e Ratos do Porão. Ele morreu dois meses depois de dar a entrevista. Felizmente, eu tinha os únicos registros de shows dele e pude contribuir com a série para preservar a memória de uma figura importante.”