questões sociais
Carolina Tarrio, de São Paulo 17 Jun 2026
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Escolas particulares da classe alta em São Paulo, nas quais é comum os professores discorrerem sobre humanismo, direitos de minorias e consciência social, têm sido palco de comportamentos cada vez mais violentos e misóginos por parte dos estudantes. Em uma das escolas, ao final de uma aula de artes, dois alunos imobilizaram um colega sobre uma mesa, enquanto outro abria suas pernas e gritava para a turma toda ouvir: “Agora, eu vou ensinar como se estupra.” Em outra escola foi descoberto um grupo de WhatsApp intitulado Amigos do Epstein (em referência ao abusador americano Jeffrey Epstein), no qual circulava uma lista de “meninas estupráveis”. Nos dois casos, os envolvidos eram todos menores de idade, entre 13 e 15 anos. Uma terceira escola, com mensalidades que ultrapassam os 5 mil reais, expulsou no início do ano nove alunos acusados de agredir sexualmente um colega de 14 anos durante uma viagem.
A crescente violência não atinge apenas os colégios da elite. Em uma escola pública na Zona Norte de São Paulo, a polícia civil investiga uma denúncia de estupro coletivo cometido contra um menino de 12 anos no banheiro da instituição. Quatro estudantes, do sétimo ao nono ano, são apontados como suspeitos. Em outra escola pública, também em São Paulo, adolescentes do ensino médio montaram um grupo de WhatsApp para uma competição: quem beijava mais meninas. Definiram uma pontuação para diferentes perfis, segundo a qual garotas “gordas e feias” subtraíam pontos na disputa. Para comprovar os beijos, fotos eram compartilhadas no grupo. Um dos estudantes disse que também foram publicados vídeos de sexo, o que levava a uma pontuação maior. Se algum participante manifestava desconforto com a situação, era ofendido pelo grupo ou excluído dele. Aqueles que não queriam participar da iniciativa tinham sua masculinidade questionada.
O aumento das agressões caminha em paralelo com o sofrimento emocional de crianças e adolescentes. São alarmantes os números trazidos pela Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (pense), divulgada em abril passado pelo IBGE: três em cada dez alunos dizem se sentir tristes sempre ou em boa parte do tempo. Chega a 42,9% a quantidade dos que se sentem “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa”. Para 18,5%, sempre ou na maioria das vezes ocorre o pensamento de que “a vida não vale a pena ser vivida”. Realizada com 118.099 estudantes de 13 a 17 anos, em 4.167 escolas públicas e privadas de todas as regiões do país, a pesquisa inclui também dados sobre a relação dos alunos com a família e a comunidade. Pouco mais de um terço acha que os pais ou responsáveis não entendem seus problemas e preocupações, e 20% contam que foram agredidos fisicamente pelo pai, a mãe ou o responsável pelo menos uma vez nos doze meses anteriores à pesquisa. Para 26,1% dos adolescentes, ninguém está preocupado com eles.
A esse estado emocional, acrescentam-se as dificuldades de relacionamento, sobretudo com o gênero oposto, como aponta o médico pediatra Daniel Becker. “A realidade de crianças e adolescentes hoje é cada vez mais de isolamento, no quarto, com horas e horas de computador e celular, em redes sociais desenhadas para viciar e reter a atenção, com conteúdos cada vez mais radicais.” Segundo Becker, a falta de perspectivas diante do futuro, a pressão por uma boa performance escolar e social e a valorização extremamente narcisista da individualidade são agravadas pelo ambiente das redes, onde todos de algum modo se expõem e se vigiam.
É também nas redes que proliferam mensagens misóginas, propagadas por grupos masculinistas, que cresceram mais de seiscentas vezes entre 2019 e 2025, de acordo com um estudo recém-divulgado pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getulio Vargas. Intitulado A machosfera é política: construção ideológica e ataques a políticas de gênero, o estudo identificou mais de 220 mil usuários ativos, em 85 comunidades mapeadas, espaços que servem não apenas para fazer ataques às mulheres, mas como ambientes de doutrinação ideológica radical.
Esses e outros fatores estão criando uma juventude conservadora ou ultraconservadora, de acordo com uma pesquisa realizada com 23 mil jovens, em 29 países, pelo King’s College, de Londres. A enquete, divulgada em março, apontou que 61% dos rapazes da chamada Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012, ou seja, com idades entre 14 e 29 anos) acreditam que “a igualdade de direitos entre mulheres e homens foi longe demais”. Para 31% deles, “a mulher deve sempre obedecer ao marido”, sendo que 33% concordam que “o homem sempre deve ter a palavra final quando se trata de decisões importantes”. Entre os baby boomers (as pessoas nascidas entre 1946 e 1964, com idades entre 62 e 80 anos) apenas 13% e 17% estão de acordo com as duas últimas afirmações.
Outras respostas de jovens da Geração Z indicam que a própria construção do papel masculino passa por uma guinada: 43% acreditam que “os homens devem tentar ser fisicamente fortes, mesmo que não sejam naturalmente grandes”. Para 32%, “homens devem resolver seus problemas sozinhos, sem pedir ajuda a ninguém”, enquanto 30% pensam que “homens não deveriam dizer ‘eu te amo’ a seus amigos”.
A filósofa Simone de Beauvoir, em seu livro O segundo sexo (1949), defendeu que ser mulher (ou homem) é uma construção social, cultural e histórica, moldada pela educação e as expectativas, muito mais do que por um destino biológico. Na concepção de Beauvoir, não se nasce homem: torna-se homem. E tudo indica que a maneira como se constrói o papel masculino está mudando de forma rápida – e preocupante – tanto no Brasil como no mundo.
Uma série de motivos vêm sendo apontados para a radicalização masculinista e para a ampliação da misoginia nas escolas. “Um aspecto relevante é o acesso precoce à pornografia, muito facilitado já faz uns dez ou quinze anos”, diz Deborah Cardoso, psicanalista e ex-orientadora do Colégio Santa Cruz, em São Paulo. “Trata-se de uma pornografia com cenas de subjugação da mulher, de violência. São imagens que desumanizam e nas quais o desejo feminino não está em jogo.” Para Cardoso, “os meninos vêm tendo uma introdução à vida sexual por meio de representações muito distantes de um relacionamento, de uma linguagem de carinho e troca.”
Além do acesso fácil e descontrolado à pornografia desde muito cedo, a disseminação de mensagens misóginas, inclusive por figuras políticas, amplifica o problema. “Quando um político diz algo antes indizível – como fez Bolsonaro ao falar: ‘Eu não te estupro porque você não merece’ – e depois fica protegido pela imunidade parlamentar, esse já é um passo no sentido de tornar aquele ato realizável”, diz a antropóloga Isabela Venturoza, doutoranda na Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais de Diferença (Numa/usp). “O que era tabu passa a ser explicitado, repetido, e vai se normalizando. Essa foi a estratégia da extrema direita: ir testando limites e aumentando o volume. Da mesma forma que conteúdos na internet muitas vezes trataram do caso Jeffrey Epstein como meme.”
Coordenador do documentário O silêncio dos homens, sobre a construção social da masculinidade no Brasil, o jornalista e mestre em fotografia documental Ismael dos Anjos diz que a diferença entre o machismo e a misoginia do passado e as suas manifestações atuais é que o discurso agora está sendo estruturado e embalado como entretenimento para os jovens. “Os meninos nem sempre conseguem identificar esse conteúdo como misógino. E tem muita gente monetizando com isso”, diz Anjos, que também dá consultoria a escolas sobre gênero e raça. Ele ressalta que, enquanto as meninas vêm sendo ensinadas a agirem com cada vez mais independência, não há grande mudança no discurso dirigido aos meninos. “Muitos ainda escutam: ‘Seja homem!’ e percebem que esse ‘ser homem’ inclui relações baseadas na dominação, na competição com seus pares e em bloquear sensações e sentimentos que eles muitas vezes sequer aprendem a nomear. Como se a única linguagem aceita fosse a da raiva e da agressividade.”
Isabela Venturoza e Ismael dos Anjos coordenam grupos de reflexão – como são chamados pelos pesquisadores – com adolescentes, em escolas onde ocorreram casos de misoginia e violência. Nesses grupos, os participantes contam suas experiências, sem pré-julgamentos, com o objetivo de tentar compreender o que os levou a naturalizar certos comportamentos. “A mudança vai se dando a partir da formação de um vínculo com o grupo, até que cada um se sinta à vontade para falar de si, das agressões sofridas e praticadas, e de temas como o que é ser homem”, conta Venturoza. Entre quinze e vinte alunos participam em cada grupo, a depender da escola, incluindo diferentes estudantes, e não apenas os que cometeram as agressões.
No ano passado, Mariano[¹], hoje com 18 anos, morador de um bairro de classe alta em São Paulo, foi suspenso por duas semanas. Ele intimidou e humilhou colegas em um grupo de WhatsApp exclusivamente masculino, no qual circulavam mensagens misóginas e ameaças, como “vou tomar o dinheiro do seu lanche” e “vou te estuprar”. Ele e os demais participantes do grupo de WhatsApp foram obrigados a participar das reuniões coordenadas por Venturoza e Anjos. No grupo de reflexão, surgiu a conversa sobre pornografia. “Lembro que um professor ficou surpreso porque dissemos que muitos vídeos mostravam homens baixando a cabeça de mulheres para elas fazerem sexo oral neles. Para o professor, isso era meio bizarro, mas para nós é normal. Tanto que até para as meninas hoje é normal, sabe?”, conta o estudante.
Mariano ficou apreensivo, achando que seria repreendido no grupo de reflexão. “Me surpreendi”, ele afirma. “As pessoas falaram de coisas que nunca tinham contado para as outras, como as relações com a família e as pressões que sofriam dos amigos. Entendi que muitos de nós acabamos sofrendo e replicando violências ou nos fechando.” Ele diz que no Instagram e no TikTok circulam muitas mensagens misóginas e racistas. “Você não precisa curtir ou seguir um perfil. O conteúdo aparece no seu feed. E você às vezes olha e ri. Toda hora se faz piada disso nas redes, e mesmo que você ache bobo ou preconceituoso, acaba deixando passar. Acho que essa repetição vai te anestesiando, vai fazendo com que você normalize aquilo. Eu sei que é errado e meus amigos também, mas a gente faz”, conta. “É claro que as pessoas tinham total direito de se sentirem incomodadas com os absurdos que a gente estava dizendo e fazendo no grupo. Olhando hoje, vejo que isso fazia parte de um jeito meio perverso de se enturmar.”
Em 2020, o Instagram lançou oficialmente o formato Reels, com vídeos de 15 a 30 segundos, para competir com o aplicativo chinês TikTok. Foi o ano do início da pandemia, durante a qual meninos e adolescentes se viram obrigados a se relacionar utilizando a mediação de plataformas e telas, permanecendo muito mais tempo online. Justamente nesse período, quando estava com cerca de 13 anos, Silvio, que participou do mesmo grupo que Mariano, começou a se deparar frequentemente nas redes sociais com vídeos do influenciador Andrew Tate.
Ex-kickboxer britânico-americano, Tate é assumidamente misógino e hoje vive na Romênia, de onde está proibido de sair porque responde a acusações de estupro, tráfico de pessoas e formação de grupo criminoso para exploração sexual de mulheres. Como ele, há diversos influenciadores misóginos nas redes, que a partir de seus perfis incentivam os seguidores a participarem de grupos fechados no Telegram, com mensalidade paga, ou vendem aplicativos com “dicas e conselhos”, espalhando a ideia de que os homens vêm sendo oprimidos pelo feminismo e receitas para reagir a isso. O influenciador americano Myron Gaines já chegou a questionar direitos básicos, sugerindo que as mulheres não deveriam votar. Outros não perdem a oportunidade de disseminar frases como: “As mulheres têm o valor da beleza. Já os homens precisam criar valor para si mesmos, e isso se faz com músculos, dinheiro, sucesso e poder.”
Para adolescentes como Mariano e Silvio essas falas misóginas soam como “zoeira”, dada sua aparência de entretenimento, acompanhada de conselhos sobre como vencer na vida sem esforço. “Eu via muito desses conteúdos e piadas pesadas. Eles trazem um apelo de enriquecimento rápido. Alguns dizem: ‘Para que estudar? Vem aprender comigo a ganhar não sei quantos milhões em dois minutos’. Vendem um estilo de vida que parece ótimo: você vai ficar rico, vai ficar sarado, conseguir a mulher que quiser... São promessas vazias, mas você acaba assistindo porque são muito bons na forma: vídeos curtos, ágeis, engraçados”, diz Silvio. Segundo ele, o grupo de reflexão o ajudou a aprender a dizer “não” aos amigos. “Tem uma coisa de você estar no bar e não querer beber mais, mas os outros ficarem falando: ‘Bebe, bebe!’ E você bebe, para provar que é capaz. Aprendi que não preciso mais fazer isso”, afirma. “Não preciso me provar, seja como homem ou como pessoa. Hoje eu sei quem sou, sei quais são os meus limites e não cedo tanto quanto antes.” Ele conta que seu pai é uma pessoa ótima, mas que “está sempre certo e não escuta ninguém”. E vislumbra para si mesmo outra forma de paternidade. “Eu gostaria de ser mais aberto a escutar, quando tiver um filho.” Em um mundo de urros digitais e profetas do ódio, a disposição para ouvir talvez seja a mais radical das transformações.
A advogada Alessandra Borelli, que atua em casos de misoginia, conta sobre um episódio em que uma adolescente de 12 anos passou a ser alvo de mensagens com insinuações sexuais e comentários ofensivos. “O mais grave foi que outros alunos compartilharam, comentaram, riram, criando uma espécie de plateia que amplificou o dano. Tivemos de interromper a disseminação de conteúdo, colher evidências e exigir resposta institucional séria da escola”, diz. Segundo ela, quando isso ocorre, os familiares e responsáveis precisam agir rápido e com estratégia. Primeiro, acolher e proteger a vítima. Depois, preservar as evidências e não sair, no desespero, apagando tudo. Em seguida, acionar formalmente a escola, por escrito, e alinhar as providências a serem tomadas. “Se houver violência sexual, ameaça, exposição íntima, aí sem dúvida é caso de polícia, e o Ministério Público e o Judiciário também devem intervir. A escola não é mera espectadora. Mesmo que o caso não tenha ocorrido em suas dependências, ela precisa colaborar e apurar.”
As escolas têm optado por caminhos que vão da suspensão e expulsão de alunos ao acolhimento e promoção de grupos de reflexão ou formação. Muitas vezes, antes de o aluno ser expulso, os próprios familiares ou responsáveis optam por trocá-lo de escola. “As famílias estão muito, muito aflitas. Os jovens foram jogados aos leões, e as famílias também. Elas não foram versadas nessa linguagem de redes sociais”, diz Fernanda Haucke, professora da Arco, uma escola criada por docentes em regime de cooperativa, na qual as tarefas de cozinha, portaria e limpeza são assumidas por professores e alunos – e as decisões pedagógicas são tomadas pelo conjunto dos cooperados.
Haucke diz que, na Arco, cada turma tem sempre dois “adultos de referência”, que são acionados no caso de haver algum problema com estudantes, que são ouvidos individualmente. Só então se decide se o aluno deverá ser enviado imediatamente para sua casa ou se seus responsáveis serão chamados na escola. Depois disso, os “adultos de referência” conversam com os outros docentes e as turmas de alunos. “Se trata menos de procurar culpados e mais de entender o que houve, as consequências que a situação provocou, e permitir que esses adolescentes possam também trazer suas dores. É importante que eles sejam recebidos no grupo, trabalhem junto com quem pensa diferente, para que possam se transformar”, diz Danielle Maciel, professora de português e cooperada da Arco.
Embora haja uma demanda grande da parte de escolas e secretarias de Educação por informações e ferramentas para conter a violência contra meninas e mulheres, há também muita resistência quando se pronuncia a palavra “gênero” – tanto no ambiente escolar quanto nas famílias, principalmente por convicções religiosas e valores morais. “Os casos de violência sexual cometidos dentro de casa recaem sobre as escolas. É ali que as meninas buscam ajuda. Mas, quando os abusos são cometidos no ambiente escolar por alunos, professores ou funcionários, há mais resistência a encarar os fatos”, diz Amanda Sadalla, mestre em políticas públicas pela Universidade de Oxford e diretora executiva da ong Serenas, que trabalha com iniciativas de prevenção à violência de gênero, apoiando secretarias de Educação.
Uma pesquisa com mais de 1.300 professores realizada em 2025 pela ONG mostrou que, em cada 10 docentes, 7 presenciaram meninos sexualizando meninas ou dando cantadas indesejadas. Além disso, 42% disseram ter testemunhado situações em que meninos tocaram ou acariciaram o corpo de meninas de maneira desrespeitosa e/ou sem consentimento. “As pesquisas que realizamos, tanto as quantitativas quanto as qualitativas, mostram que há um aumento significativo da violência contra meninas. E também do sentimento de impunidade vivenciado por elas, já que muitas escolas não têm protocolos claros para lidar com isso, nem para sua prevenção”, diz Sadalla. “Os meninos estão em um dilema: ou eles promovem violência para tentar pertencer ao mundo masculino e seguir os padrões impostos de masculinidade, ou são vítimas de violência e exclusão quando não corroboram com o padrão.”
A juíza Vanessa de Oliveira Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, é responsável por julgar atos infracionais praticados por adolescentes, como um caso que chamou a atenção do país: uma menor de idade estuprada em Copacabana por quatro adultos de 18 e 19 anos e um adolescente de 17, no Rio de Janeiro, em janeiro passado. Depois de observar a trajetória de vida de dezenas de jovens que planejaram ou executaram ataques a escolas, bem como casos de bullying, violência de gênero e agressões físicas, Cavalieri elaborou um protocolo chamado Eu te vejo, que relaciona causas que permanecem ocultas por muito tempo na vida dos adolescentes e que podem levá-los a praticar um ato extremo de violência para serem notados.
Um dos alertas do protocolo diz respeito a meninos que se isolam da turma, seja por dificuldade para fazer amizades, seja por timidez. Diz o documento: “Aquele adolescente que não tem amigos, é excluído do grupo, está sofrendo intensamente, mas permanece invisível na escola e muitas vezes também dentro de casa, passa a frequentar, sozinho, o lugar mais perigoso a que uma criança ou um adolescente pode ir hoje em dia: as redes sociais. E, lá, ele finalmente encontra o que buscava: pertencimento.” Grupos masculinistas acabam por acolher esses meninos e jovens desesperançados, que se sentem vitimados, oferecendo-lhes uma comunidade.
Escolas, educadores e pesquisadores tentam encontrar uma saída para esse surto de misoginia e violência de gênero. Algumas iniciativas pretendem conscientizar as famílias sobre os malefícios do uso indiscriminado de telas, adiar ao máximo a entrega de celulares a crianças e adolescentes e incentivar a utilização de aplicativos de controle parental, que bloqueiam certos conteúdos e determinam o tempo de uso. Mas a responsabilidade não pode recair unicamente sobre a família ou focar em ações individuais. “Há todo um conjunto de atores que precisa participar dessa conversa sobre a construção da masculinidade: a mídia, as produções audiovisuais, a música, o futebol, os gamers etc.”, diz Isabela Venturoza.
Políticas como a proibição do uso de celulares nas escolas e a pressão social que levou à aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (eca Digital), legislação que regulamenta o acesso dos mais jovens às redes sociais, são apontadas como muito positivas. “Os pais são responsáveis por orientar os seus filhos sobre o que eles veem nas redes sociais, mas as plataformas têm um papel enorme nisso: são elas que definem como o ambiente funciona e que conteúdos ganham visibilidade”, afirma Alessandra Borelli. “Então, não dá para ter um sistema, como o das plataformas, que promove o risco o tempo todo e depois dizer que o cuidado deve estar dentro de casa. É injusto.”
Nesse sentido, vale lembrar a vitória judicial sem precedentes de uma jovem americana de 20 anos que processou o Google e a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), alegando que essas empresas a viciaram na internet e em redes sociais durante a infância e adolescência, prejudicando sua saúde mental. A decisão deve influenciar centenas de casos semelhantes que estão tramitando em tribunais dos Estados Unidos e também pode incentivar processos parecidos em diferentes partes do mundo.
“Se quisermos que as crianças e adolescentes saiam das telas, temos de oferecer a elas um mundo melhor”, diz o pediatra Daniel Becker. “As famílias precisam ter tempo para estar juntas e também contar com ruas arborizadas, praças e parques limpos e bem equipados à sua disposição. É uma solução que só gera benefícios e deve chegar a todos, não adianta só fazer parques nas zonas mais ricas”. Becker defende ainda uma medida estrutural: aprovar a equiparação da misoginia aos crimes de racismo e homofobia. Um projeto de lei nesse sentido foi aprovado no Senado em março, mas estacionou na Câmara.
A professora Elaine Santos Andrade, que leciona no Centro de Excelência de Educação Profissional Governador Seixas Dória, em Sergipe, vem trabalhando o tema da violência contra mulheres com alunos do terceiro ano do ensino médio. Ela montou um projeto que incluiu um dia de conscientização, com debates e variadas atividades, além da criação de um vídeo sobre tipos de violência e relacionamentos abusivos, elaborado pelos próprios alunos. Os estudantes desenvolveram ainda uma cartilha com um passo a passo para acolher vítimas e promoveram rodas de conversa com estudantes do primeiro e segundo anos. “Sinto que os alunos estão se autorregulando mais, pensando sobre suas atitudes. Um estudante outro dia me disse: ‘Professora, acho que sou um homem abusivo, eu controlo demais minha namorada’. Outros falam que os pais fazem isso com as mães, e que eles reproduzem esse comportamento”, conta Andrade.
Nos bairros de Parelheiros e Grajaú, o projeto Masculinidade Quebrada, voltado para meninos entre 13 e 17 anos na periferia de São Paulo, recorreu a uma ferramenta ainda mais participativa. Criou um boneco de tecido marrom no tamanho real de um menino da mesma idade que os alunos, no qual eles projetavam características, apontando o que faltava para a figura se tornar um homem. As discussões foram mediadas pelos atores Rafael Cristiano e Belchior Divina Emídio, com a participação da psicóloga Elânia Francisca, professora da Universidade Nove de Julho (Uninove) e supervisora do projeto.
Depois de sugerir o que faltava ao boneco em termos materiais (um boné, uma tatuagem, uma casa), os meninos conversaram sobre questões afetivas. A primeira pessoa da família a ser citada era a mãe, seguida da avó, e só depois foram mencionados o pai e outras referências masculinas (sobre as quais vários dos meninos expressaram ter raiva). À medida que a identificação com o boneco ia acontecendo, surgiam outros temas, como a sexualidade. “Até o quarto encontro, a gente praticamente só ouvia os participantes. Depois, introduzimos dados de violência de gênero no Brasil. Muitas vezes, havia um grande silêncio, que precisávamos sustentar. Quando retomavam a fala, alguns diziam que o boneco que eles mesmos tinham projetado era um vacilão”, lembra Cristiano.
No final do ciclo, o boneco era reapresentado sem as roupas e as características conferidas a ele. O mediador então perguntava: “Se agora vocês pudessem criar um novo boneco, como ele seria?” Ao contrário da primeira versão, em que a figura retratada era de um homem hipermasculinizado, depois ele se parecia mais com os próprios estudantes: era um menino que ia à escola, frequentava a igreja e ajudava a mãe. “O primeiro boneco tinha arma, transava com prostitutas, era poderoso etc. O último boneco era uma figura confusa, pensando em como seguir com a vida. Os alunos conseguiam projetar nele as fragilidades que tinham.”
Segundo Cristiano, há uma adultização muito precoce de meninos da periferia. São adolescentes que muito cedo precisam se preocupar com ter comida na mesa e pagar as contas da casa. Muitos se veem no papel de provedores e sem uma figura masculina positiva por perto. “Vários não têm tempo suficiente para elaborar o que é ser homem, para se conhecer. Precisam amadurecer rápido e acabam reproduzindo os modelos disponíveis, como o do jogador de futebol ou do fodão do bairro.” Em um dos encontros, um menino disse, sobre sua figura paterna: “Parece um bumerangue. Acho que meu pai até tentou me dizer para ser diferente, mas ele mesmo não tinha conseguido mudar, então o jeito dele volta para mim. Eu fico me perguntando se vou conseguir.”
Essa reflexão dolorosa, em que apesar do desejo de mudança, a violência retorna como uma força que os jovens não sabem como controlar, reforça a premissa de que é urgente olhá-los de perto, acompanhá-los. “Eles muitas vezes são considerados casos perdidos, e deixados de lado. Mas o menino não é um homem, ele está em processo de desenvolvimento. E a construção de sua masculinidade precisa ser discutida, disputada no dia a dia, não apenas numa palestra. Tem que fazer parte da vida”, diz Cristiano. Quando isso ocorre, alguma mudança começa a acontecer.
[1] Alguns nomes citados nessa reportagem são fictícios para proteger a identidade dos entrevistados que praticaram agressões quando eram menores de idade.