vultos da música
Sergio Martins, de São Paulo 24 Out 2026
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Quando descobri que a única apresentação do Iron Maiden no Rock in Rio, em janeiro de 1985, aconteceria no dia do vestibular para a faculdade de Comunicação, decidi adiar por um ano o sonho de estudar jornalismo. Peguei um ônibus de Santos, minha cidade natal, em direção ao Rio de Janeiro. Me acomodei como pude e parti para a tal Cidade do Rock, na qual o quinteto inglês apresentou seu repertório de rock pesado, com letras sobre seres sobrenaturais, contos de bravura da Segunda Guerra Mundial, e obras de ficção científica. Com a alma roqueira (ou metaleira, a maneira jocosa que os repórteres cariocas se referiam aos fãs de rock pesado) saciada, não me importei com a bronca do meu pai, que dizia que o filho iria cursar “faculdade Rock in Rio, com especialização em Iron Maiden”.
Histórias como a descrita no parágrafo acima são atípicas para quem não conhece o universo do heavy metal, mas comuns aos admiradores e músicos de rock pesado, em especial do Iron Maiden. No Brasil, a horda de fãs do (hoje) sexteto inglês vai desde pessoas que batizam o filho de Bruce, em homenagem ao vocalista Bruce Dickinson, a corridas inspiradas nas canções do conjunto; de torcida de futebol que estampa sua bandeira com Eddie, a caveira/mascote da trupe, a músicos que transformaram um pedaço da baqueta do ex-baterista Nicko McBrain em amuleto da sorte. O amor por determinado cantor ou conjunto, em geral, faz parte do processo da passagem da adolescência para a vida adulta, onde o ídolo dá lugar a outras prioridades. Mas até nisso o Iron Maiden é diferente. “É comum se deparar com avós, pais e filhos assistindo juntos, como se fosse uma tradição que passa para todas as gerações”, afirma a executiva da Move Concerts Karen Pedroso, que costuma organizar a turnê do sexteto inglês em terras brasileiras.
O Iron Maiden, que já fez 46 shows no Brasil, desembarca por aqui neste final de semana pela 16ª vez, para duas apresentações em São Paulo e uma em Curitiba. A excursão faz parte da turnê Run for Your Lives, que revisita o repertório de cinquenta anos. Há desde canções como Murders in the Rue Morgue, da primeira fase do conjunto, a Infinite Dreams, composição de 1988, que eles raramente tocaram ao vivo, além dos sucessos The Number of the Beast, 2 Minutes to Midnight e Wasted Years. Os ingressos estão praticamente esgotados desde dezembro de 2025, quando a vinda do grupo foi anunciada.
A relação de amor do Iron Maiden com o país é antiga. Os brasileiros estão em segundo lugar entre os seguidores do sexteto no Instagram – 890 mil contra 918 mil dos Estados Unidos, campeões no ranking –, e São Paulo é a capital mundial que mais consome o repertório do conjunto no Spotify. São 279 mil streams mensais, praticamente o triplo de Londres, cidade natal da banda. Os ouvintes, então, passam dos 9 milhões por mês pelo mundo. Em setembro, talvez pela proximidade das performances em solo nacional, a quantidade de ouvintes pulou para 1,2 milhão.
“O Brasil ocupa um lugar especial em nossos corações, pois foi onde tudo começou e onde a banda ganhou impulso na América do Sul, quando o Rock in Rio foi transmitido pela televisão para a maior parte do continente”, diz Rod Smallwood, empresário da banda, em entrevista à piauí. “Em muitas partes do mundo, existe um certo esnobismo condescendente em relação ao heavy metal – algo extremamente clichê. Mas, nos países latinos, isso praticamente não existe. O gênero é encarado como o que realmente é: uma forma de rock apaixonada, inventiva e vigorosa, marcada pela criatividade e por uma execução complexa e talentosa. É uma maneira de extravasar frustrações – algo que, no cenário mundial atual, torna-se cada vez mais necessário.”
Mais do que um grupo, o Iron Maiden é um ato de teimosia de Steve Harris, baixista e líder da banda. Nascido há setenta anos em Leytonstone, bairro da Zona Leste de Londres, ele optou pela carreira musical quando percebeu que não iria muito longe como jogador do West Ham, seu time do coração (embora até hoje faça seus golzinhos em peladas organizadas pelos promotores de seus shows). A inspiração para o nome veio da adaptação cinematográfica de O Homem da Máscara de Ferro, romance do escritor francês Alexandre Dumas. A obstinação de Harris vinha do fato de ele insistir em tocar rock pesado, que na Inglaterra dos anos 1970 tinha perdido espaço para o punk rock. Eles, aliás, perderam a chance de assinar contrato com uma gravadora local porque se recusaram a cortar o cabelo e mudar o estilo musical. A insistência do baixista deu certo: o grupo se tornou ponta de lança da “new wave of british heavy metal”, movimento de novas e ótimas bandas dedicadas ao rock pesado e que ultrapassou em popularidade o punk. Em 1978, um mini LP contendo quatro canções do Iron Maiden atraiu a atenção do empresário Rod Smallwood, que passou a empresariar a trupe em uma parceria que se mantém até hoje.
O Iron Maiden passou por diversas formações até se firmar, no final 1981, com Steve Harris, Dave Murray e Adrian Smith (guitarras), Clive Burr (bateria) e Bruce Dickinson (vocal). Este quinteto foi responsável por The Number of the Beast, de 1982, que exportou a sonoridade da banda para o resto do mundo. O disco atingiu o primeiro lugar na parada inglesa, a 33ª posição no ranking americano e estima-se que tenha vendido em torno de 20 milhões de cópias no mundo inteiro. “Number foi o primeiro disco deles a sair no Brasil e começou a maidenmania por aqui”, afirma Vitão Bonesso, radialista e apresentador do Backstage, programa de rádio sobre o rock pauleira há 38 anos no ar. O sucesso dos trabalhos posteriores, Piece of Mind (1983) e Powerslave (1984) – nos quais Burr foi substituído pelo carismático Nicko McBrain – credenciaram o Iron Maiden para se apresentar no Rock in Rio, em 1985, ao lado de atrações de alta patente como Queen, Scorpions, Yes, AC/DC, Whitesnake e Ozzy Osbourne.
“A plateia do Rio foi a maior para que me apresentei desde então e provavelmente será para sempre. Dava a impressão de se estender além do horizonte, além dos clarões difusos de cor e luz, escuridão adentro”, diz Bruce Dickinson em sua autobiografia (estima-se que o público da única noite em que tocaram no festival passou de 300 mil pessoas).
Smallwood complementa: “Não fazíamos ideia do que esperar, não sabíamos qual era a nossa dimensão no Brasil e ficamos impressionados com a reação do público. Muitas pessoas conheciam as músicas e cantavam junto; tudo aquilo transmitia a sensação de algo muito, muito especial. O Brasil sempre ocupou um lugar muito especial em nossos corações – basta observar a quantidade de vezes que tocamos aqui e o número de cidades que visitamos ao longo de todos esses anos. Além disso, três turnês realizadas com o Ed Force One – nosso Boeing, pilotado pelo próprio Bruce – nos levaram a lugares como Manaus, que, de outra forma, seriam muito difíceis de acessar.”
A performance no Rock in Rio consolidou, e a discografia do grupo até aquele momento consolidaram o Iron como o farol de uma nova maneira de tocar e representar o rock pesado. Musicalmente, é guiado pelo baixo galopante de Harris e o casamento das guitarras de Murray, Smith e de Janick Gers (que entrou no conjunto em 1990 no lugar de Smith), a bateria de golpes duros e firmes de McBrain e os vocais, digamos, operísticos, de Dickinson. Eles estimulam o lado lúdico dos fãs por causa de suas letras, muito diferentes do hedonismo de seus pares – falam até de personagens históricos, como Alexandre, o Grande – e da participação nos shows de Eddie, a caveira mascote, que do alto de seus mais de 2 metros interage com os músicos durante suas apresentações.
Outro ponto importante é a conexão com os fãs. “Eu tinha 15, 16 anos quando me apaixonei pelo Iron. Eles surgiram num momento em que me sentia muito desprotegida e aquelas letras me empoderavam”, diz a sambista Teresa Cristina, que era muito fã do cantor anterior do grupo, Paul Di’Anno. “Tinha uma melancolia na voz dele. Já o Bruce é mais energético.” Outro fã confesso, o baterista brasileiro Aquiles Priester, que trabalhou em bandas como Angra e W.A.S.P, chegou a disputar um artefato jogado por McBrain durante um show do conjunto em Porto Alegre, no ano de 1992. “Quando Nicko saiu da bateria, ele deu a baqueta na minha mão, mas outros dois caras pegaram ela também. Aí, os três ficaram que nem uns cachorros, um mordendo a mão do outro! Quando vimos que não tinha mais o que fazer, decidimos dividir a baqueta. Eu fiquei com a ponta”, disse em entrevista ao jornalista Noel Bielecki. Em Hello Boys and Girls!, sua autobiografia, que será lançada no Brasil no início de 2027 pela editora Belas Letras, Nicko McBrain confessa que indicou Aquiles como seu substituto quando se aposentou do Iron, em 2024, após um show em São Paulo.
O show para cerca de 45 mil pessoas é descrito com forte carga emocional por McBrain. “O Bruce fez a molecada berrar ‘FUCK OFF!’ – para ser justo, logo depois ele também puxou três vivas – e então o palco foi todo meu. Joguei algumas coisas minhas para o público, fiz uma reverência profunda e, enquanto estava ali, com a cabeça a poucos centímetros do chão e as mãos agarradas aos tornozelos, ouvindo dezenas de milhares de garotos gritarem meu nome, precisei de toda a força que tinha para não cair no choro. Cheguei até a dar uma força a mim mesmo: ‘Fica firme pela molecada, Nick. A gente não quer transformar isso numa ocasião triste. Levanta, se despede e sai de cena pela esquerda.’ E foi exatamente o que fiz”, escreve o baterista.
Em entrevista à piauí, McBrain relembrou sua apresentação derradeira em São Paulo e seu carinho pelos fãs brasileiros. “Meu último show foi no Brasil, país do qual guardo lembranças muito, muito queridas, que remontam ao início ou meados da década de 1980 – precisamente a 1985, quando participei do meu primeiro Rock in Rio”, afirmou. E complementou: “Vocês, fãs brasileiros, são incríveis: fiquei com a impressão de uma paixão imensa, de muita alegria, de uma energia solta e vibrante. Isso perdurou por todas as décadas – anos 1980, 1990, 2000 – até chegar ao show mais recente que fiz com a banda. Agradeço imensamente a todos vocês pela paixão, pelo amor e pela fé que depositam no Iron Maiden.”
As pessoas que trabalharam com o Iron Maiden são testemunhas da maneira cordial com a qual a banda trata o público brasileiro. Em 1998, durante uma turnê para promover o disco Virtual XI, os guitarristas Dave Murray e Janick Gers foram “encurralados” pelos fãs na rua de uma estação de rádio em São Paulo. Eles só deixaram o local depois de assinar todos os discos trazidos pela turba. Em março de 2009, a poucas horas de uma apresentação no autódromo de Interlagos, o empresário Rod Smallwood percebeu que o público estava tendo dificuldade para entrar no local. Foi para o lado de fora do lugar, se compadeceu da agonia dos fãs e disse que o Iron Maiden só pisaria no palco quando todo mundo estivesse dentro do autódromo. Na véspera, no Rio de Janeiro, durante a estreia mundial de Flight 666 no Cine Odeon, documentário sobre a turnê da banda, o mesmo Smallwood ficou extasiado ao perceber que o público do cinema cantava tão alto que não dava para escutar os diálogos. “É um absurdo como eles cantam tudo”, escreveu o inglês em seu diário de viagem, que está disponível no site da banda.
O apreço do Iron Maiden pelo futebol e dos brasileiros pelo heavy metal fez com que Eddie virasse mascote de torcida. A Força Jovem, torcida organizada do Vasco da Gama, estampa sua bandeira com a caveira metaleira. “Membros da torcida e diretoria da organizada na época, final dos anos 1980, gostavam do Iron Maiden e eram roqueiros e decidiram estampar Eddie em nossas camisas. O visual sombrio e imponente do personagem combinava com a postura e a atitude da Força Jovem, e por iniciativa de toda torcida ali adotamos a Eddie como nosso mascote permanente”, diz Ademir Junior, gerente de marketing da Força Jovem. “Os integrantes do Iron sabem da nossa existência, tanto que autorizam o uso da Eddie e até assistiram a jogos do Vasco”, prossegue o diretor da torcida.
A turnê 2026 do Iron Maiden foi precedida por duas ações voltadas para os fãs da banda. A primeira foi a Run for Your Lives, que reuniu 5 mil participantes – entre adultos e crianças – no Centro de São Paulo, que correram distâncias de 2,5 a 5 km. “Os participantes foram uma mescla entre corredor de rua e fã de Iron Maiden. Acho que a Run For Your Lives furou a bolha da corrida, porque trouxe muitas novas pessoas para a modalidade”, diz Gustavo Nogueira, sócio da Indice Sports Mkt, empresa organizadora do evento (e que adora correr ao som da rápida Flash of the Blade). “Esse ano vamos fazer uma nova etapa, já confirmada para 13 de dezembro, em Curitiba. E para o ano que vem estamos montando um circuito com algumas provas no Brasil e mirando o exterior.”
Além disso, o sexteto ganhou ainda uma loja temática, localizada no shopping West Plaza, ao lado do Nubank Parque, na Zona Oeste de São Paulo, onde serão realizadas as performances do grupo. A Eddie’s Emporium Experience Store traz, entre outros mimos, camisetas, relógios, apresentações de bandas cover e a tradicional The Trooper, cerveja criada pela cervejaria inglesa Robinsons em parceria com a banda. “Eles aprovaram cada detalhe da loja e nós treinamos os vendedores em Iron Maiden para que eles conseguissem conversar com os clientes”, anima-se Lena Vettoretti, CEO da Brand House, agência responsável pela iniciativa, junto das marcas BandUP! e Piticas.
O universo do Iron Maiden é realmente fascinante. Treze anos depois do dia que escapei do vestibular de jornalismo para ir ao Rock in Rio, jantei ao lado de Dave Murray e Janick Gers. Animado (e formado), contei a eles minha história. Murray, então, respondeu: “Eu já vi muita gente cometer loucuras em nome do Iron Maiden. Mas essa, certamente, está entre as campeãs.” Há coisas que só acontecem no universo dos fãs brasileiros do grupo.