vultos do octógono
Felippe Aníbal, de Curitiba 25 Mai 2026
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No dia em que completou 28 anos, em 5 de agosto de 2025, o curitibano Yabna Ferreira N’Tchalá pisou em solo africano pela primeira vez. Ele conta que estremeceu ao desembarcar em Joanesburgo, maior cidade da África do Sul. “Quando eu desci do avião, foi a sensação de uma força ancestral me acolhendo.” Dali a quatro dias, N’Tchalá começaria sua saga no PFL Africa, um torneio de artes marciais mistas (MMA, na sigla em inglês) promovido pela Professional Fighters League (PFL), considerada a segunda maior organização mundial do esporte. Filho de um guineense com uma brasileira, ele lutou na categoria meio-médio – de atletas que pesam até 77kg –, representando a Guiné-Bissau.
Em seu combate de estreia, o Pantera Negra – nome de guerra de N’Tchalá – venceu Sanon Sadeck, de Burkina Faso, por decisão unânime dos juízes. A segunda luta só aconteceu dali a dois meses, em Ruanda. Nova viagem, nova vitória: dessa vez o Pantera derrotou o camaronês Emilios Dassi e se classificou para a final do PFL Africa. A parada, no entanto, seria duríssima: ele disputaria o cinturão com Shido Boris Esperança, angolano que tinha atropelado os rivais e chegava como favorito. “Era o show do cara. Eu era só o lutador que ia perder, que ia ser finalizado no primeiro round”, relembra N’Tchalá.
O brasileiro, no entanto, tentou não se abalar. Sabia que o cinturão era fundamental para que pudesse alcançar o sonho de, um dia, viver exclusivamente do esporte. Sua viagem, incluindo hospedagem e alimentação, foi paga pelos organizadores do evento, mas todo o treinamento que antecede uma competição como essa foi custeado pelo próprio N’Tchalá. Embora já seja conhecido no Brasil, o lutador curitibano ainda não conseguiu atrair patrocinadores. Intercalou a rotina pesada de treinos com bicos como segurança e bartender em Curitiba. Contra todos os prognósticos, pousou confiante no Benim, em dezembro, para a luta decisiva. Na tradicional encarada que os lutadores se dão antes do combate, N’Tchalá disse ao adversário angolano: “Eu vou te frustrar. Eu vou ser o campeão.”
Conhecido como A Máquina, Shido Esperança dominou o primeiro round, castigando o Pantera Negra do início ao fim, como já tinha feito com os outros oponentes. Com a cabeça no lugar, o brasileiro equilibrou o segundo assalto. A virada veio no terceiro. Percebendo que o angolano estava à beira da exaustão, N’Tchalá passou a combinar golpes – joelhadas e socos – no flanco do adversário, recorrendo a técnicas de jiu-jítsu e luta no chão. O brasileiro foi tão superior desse ponto em diante que o angolano mal conseguiu voltar para o seu corner. Extenuado, sentado no banquinho, ouviu atônito os apelos de sua equipe, que tentava reanimá-lo. Mas foi em vão. Esperança desistiu, e N’Tchalá venceu por nocaute técnico.
O cinturão trouxe visibilidade para o lutador. De volta ao Brasil, N’Tchalá começou a se preparar para a nova edição do PFL Africa e recebeu atenção da imprensa esportiva, que não deixou de notar um fato curioso: a capital do Paraná, nas últimas décadas, se tornou um celeiro de lutadores. Antes do Pantera, saíram de Curitiba figuras como Anderson Silva, Wanderlei Silva, Maurício “Shogun” Rua, Murilo Ninja e Cris Cyborg, que fizeram fama internacional.
Parte da minoria de pessoas pretas de Curitiba (cerca de 4%, segundo os dados mais recentes do IBGE), N’Tchalá acredita que o racismo explica, em parte, a pouca atenção que recebeu até hoje do poder público e de patrocinadores. Ele conta que, apesar de ter vencido um título continental, até hoje não foi procurado por um prefeito, vereador, deputado, senador, secretário ou governador. Também não recebeu qualquer aceno de fornecedoras de material esportivo. “Nós estamos acostumados a não precisar”, ele lamenta. “A não esperar favor.”
N’Tchalá cresceu no Tatuquara, um bairro periférico na região sul de Curitiba, na divisa com o município de Araucária. Quando era criança, aquele era um lugar ermo, que tinha começado a se estruturar poucos anos antes, no início da década de 1990, com a implantação de conjuntos habitacionais destinados a famílias pobres. “Tinha muito terreno baldio, muitas ruas de terra e era quase sem asfalto”, lembra o lutador, que teve uma infância livre, com muitas brincadeiras na rua. Sua mãe, Claudia Maria Ferreira, era professora do ensino fundamental na rede pública. Seu pai, Francisco N’Tchalá, migrou para o Brasil nos anos 1990 para estudar economia, mas, para manter a família, vendia sandálias e pulseiras que ele mesmo fabricava.
O casal teve quatro filhos. Yabna N’Tchalá foi o terceiro a nascer. Com os irmãos, aprendeu cedo sobre o racismo. O pai, Francisco, fazia parte do Movimento Negro Unificado (MNU), uma organização criada durante a ditadura com o objetivo de combater o racismo estrutural e as desigualdades sociais. Mas o aprendizado em casa não impediu o menino de sofrer com o preconceito. Negro retinto, ele conta que ouvia ofensas racistas de colegas com frequência, sempre com a leniência de professores e diretores. Na oitava série, quando estudou no Instituto de Educação do Paraná (IEP) Prof. Erasmo Pilotto, N’Tchalá era o único aluno preto da sala. Ele lembra que sua reação inicial foi se isolar dos amigos. Tornou-se quieto e introspectivo. Como o bullying continuou, ele adotou a única reação que considerou possível.
“Eu não conseguia chegar lá e falar: ‘Ó, pô, não tá legal.’ Eu ia lá e batia [nos colegas]”, diz N’Tchalá, que desde a infância aprimora suas técnicas de combate. “Isso é desde que eu me entendo por gente”, ele diz. “No começo, você fica com aquela adrenalina que não é boa, você sente medo, vem um turbilhão de sentimentos… Mas aí você acaba se adaptando a isso.”
A adolescência foi um período “quente”, em suas palavras. Morando em um bairro periférico e violento de Curitiba, N’Tchalá viu muitos jovens da vizinhança serem cooptados pela criminalidade, sobretudo o tráfico de drogas. “A grande maioria foi para esse caminho”, ele diz, enumerando três amigos que acabaram sendo mortos ou por traficantes ou em tentativas de assalto. N’Tchalá escapou, mas canalizou sua energia para outra atividade que, hoje, ele considera equivocada: as brigas de torcida. Por um ano, ao longo de 2013, juntou-se à Fanáticos, maior torcida organizada do Club Athletico Paranaense, e se envolveu em várias pancadarias coletivas com rivais de outros times. “Não era aquilo que eu queria, ainda”, diz.
Foi então que, em 2014, na transição dos 16 para os 17 anos, N’Tchalá descobriu as artes marciais. Deu-se tão bem com o esporte que, logo na primeira aula de muay-thai, o mestre Sidmar Carlos, conhecido como Fenômeno, disse que ele poderia se tornar um atleta profissional caso se dedicasse. Com apenas três meses de treinamento, N’Tchalá subiu aos ringues pela primeira vez – e venceu. Na época, trabalhava como atendente em uma loja da rede Burger King e tinha que enfrentar o cansaço para treinar todas as noites. “Aí, eu comecei a ter a influência de atletas profissionais”, diz o lutador. Foi quando tudo começou a mudar.
Em fevereiro de 2018, estreou nos cinemas a produção hollywoodiana Pantera Negra. Com elenco majoritariamente negro e referências culturais africanas em abundância, o filme conta a trajetória do príncipe T’Challa (interpretado por Chadwick Boseman), que, após a morte do pai, retorna ao reino fictício de Wakanda para assumir o torno. N’Tchalá foi ao cinema na estreia e ficou maravilhado com o que viu. Ele conta que, no dia seguinte, venceu um oponente por nocaute numa luta de muay-thai e instintivamente cruzou os braços em frente ao peito, como o príncipe. Os amigos e parentes começaram a chamá-lo de Pantera Negra. O apelido pegou, e N’Tchalá passou a usar uma máscara como a do personagem antes e depois das lutas.
Embora competisse em outras modalidades, N’Tchalá começou a se interessar pelo MMA, que reúne diferentes técnicas de luta. Craque no muay-thai, acrescentou o boxe e o jiu-jítsu à rotina de treinamento. Três anos depois, em 2021, estreou nas artes marciais mistas com uma vitória avassaladora por nocaute contra João Nunes, lutador que também é de Curitiba. Até o fim de 2022, o Pantera Negra encaixou uma sequência, chegando a nove vitórias consecutivas, o que o colocou na condição de revelação. Pouco depois, veio o convite para o PFL Africa. N’Tchalá ostenta, hoje, um card de respeito no MMA: são catorze vitórias, um empate e duas derrotas. Apesar disso, o Pantera Negra precisa se desdobrar para manter o ritmo de treinos.
A participação no PFL Africa foi positiva do ponto de vista financeiro. Além do cinturão, Yabna N’Tchalá embolsou 100 mil dólares (sem considerar os impostos) como prêmio pela luta decisiva. Nos dois combates anteriores, somados, ela tinha faturado 13,5 mil dólares. “Eu nunca vi tanto dinheiro”, contra o lutador. Com essa premiação, ele pôde financiar uma casa no bairro São Braz, na região noroeste de Curitiba, onde mora hoje com a companheira e com seus quatro filhos, que têm idades entre 3 e 12 anos. Não ter de pagar aluguel foi um alívio nas finanças do casal, já que, como ele diz, é preciso “matar muitos leões por dia” para treinar.
Multicampeão de MMA e hoje embaixador do Ultimate Fighting Championship (UFC), o brasileiro Rodrigo “Minotauro” Nogueira também já sentiu essa dificuldade na pele. Em 1998, se mudou aos Estados Unidos, pensando em trilhar carreira no octógono. Lá, abriu uma pequena academia que mal pagava as suas contas. Minotauro dormia na própria academia, e o dinheiro era tão curto que seu almoço costumava ser uma barra de proteína que ele dividia com um colega. “Tinha bastante carboidrato e dava pra segurar a onda.” Só no ano seguinte é que ele conseguiu seus primeiros patrocínios: uma academia e um restaurante brasileiro.
Minotauro diz que a dificuldade de conseguir um patrocinador não existe só para os brasileiros. Na avaliação do ex-atleta e hoje empresário, isso se deve ao fato de que o MMA é um esporte relativamente novo. Só passou a ser realmente conhecido na virada dos anos 1990 para os 2000, quando, nos Estados Unidos, houve uma padronização das regras das lutas mistas, principalmente a partir da compra da marca UFC por Dana White e seus sócios. “Essa é a realidade do mundo todo, não só do Brasil. Patrocínio no nosso esporte é muito difícil.”
Sensível a esse problema, Minotauro é reconhecido no meio por ter estendido a mão a inúmeros atletas em início de carreira. Ele pagou as primeiras bolsas a atletas como Anderson Silva, José Aldo, Rafael Feijão, Edson Barboza e Marlon Moraes, entre outros. Para Minotauro, o patrocínio pode ser o que separa uma jovem promessa de um cinturão. “Esses garotos precisam de algum incentivo no começo. É uma dificuldade, é uma realidade difícil, é difícil. Eu acho que a gente tem que mudar a cultura”, diz. “Mas tem que ser guerreiro”, acrescenta.
Um dos primeiros aprendizados de Minotauro nos Estados Unidos aconteceu numa entrevista de emprego em uma conceituada academia na Flórida. Ele conta que, depois de ministrar uma aula experimental, ouviu a seguinte observação do responsável pelo estabelecimento: “Você é bom de jiu-jítsu, mas seu inglês é ruim e seu quimono está sujo. Você não tem a cara de um professor que eu preciso aqui”. O lutador diz que, naquele momento, entendeu que um atleta não é só um atleta, mas também um “produto”. Hoje, quando orienta novatos, ele recomenda que criem uma marca própria, desenvolvam um personagem e sejam atentos ao visual.
“Tem que falar inglês e ter uma mídia digital interessante. Além de postar os treinos, tem que ter interações com pessoas comuns, falar a língua da pessoa que não treina. Tem que se tornar uma pessoa interessante. Tem que começar pelos patrocínios locais para depois surgirem patrocínios nacionais. Você primeiro procura pessoas do seu ecossistema e sua localidade.”
É o que N’Tchalá tem tentado. Hoje, o Pantera Negra treina muay-thai, jiu-jítsu, boxe e MMA na academia de seu head coach, Gile Ribeiro. Não paga mensalidade, mas tem um acordo com ele: 10% dos prêmios que ganha vão para a academia. O lutador paga do próprio bolso a mensalidade de uma outra academia, onde faz musculação, e os serviços de personal trainer, sem contar os custos rotineiros de transporte. Recentemente, conseguiu uma parceria com o nutricionista Lucas Gössling, que não cobra para atendê-lo e acompanhar sua evolução.
Quando surgem bicos, N’Tchalá se vê obrigado a cumprir uma rotina hercúlea. Em meados de março, por exemplo, encarou uma sequência de “taxas” – como são conhecidos esses trabalhos pontuais em Curitiba. Numa quarta-feira, bateu ponto como segurança das sete da manhã às sete da noite. Em seguida, emendou um turno como vigia, das oito da noite às seis da manhã do dia seguinte. Na quinta-feira, repetiu a dose. Trabalhou ininterruptamente por quase 48 horas. No sábado daquela semana, foi chamado para atuar novamente como segurança em outro evento, das 13 às 22 horas. Mal teve tempo para descanso: às onze da noite, no mesmo dia, fez um bico desmontando e carregando equipamentos que haviam sido utilizados em um espetáculo no Teatro Guaíra. O leva e traz se estendeu madrugada adentro.
Além de prejudicar os treinamentos, esses trabalhos informais prejudicam a rotina de alimentação. Invariavelmente, N’Tchalá precisa improvisar. “Num dos eventos [em que fez controle de acesso], eu rachei uma pizza com um colega”, ele lamenta. Para compensar, consumiu também frutas e suplementos, como Whey Protein. Mas a situação estava longe de ser ideal, já que tudo isso aconteceu a menos de vinte dias de sua estreia na nova edição do PFL Africa, em 10 de abril. Na ocasião, N’Tchalá perdeu para o sul-africano Peace Nguphane por decisão unânime dos juízes. Com isso, foi eliminado da competição na primeira fase.
“Eu ainda tenho esperança de conseguir um patrocínio, mas tô mais focado em lutar”, diz o Pantera. “É como a ideologia de um samurai, de não se importar muito com essas coisas”, justifica, apesar de reconhecer que uma rede de apoiadores que pudesse mantê-lo concentrado nos treinamentos seria um fator decisivo. “No [esporte de] alto rendimento, só vai ter cara bom. Faria muita diferença, porque o que define a vitória é sempre um detalhe.”
Hoje, N’Tchalá está distante daquele garotinho que brigava por sofrer ofensas racistas. Com 1,82 metro e 77 kg, ele tem orgulho de sua cor, e o porte físico se impõe. A chave para se manter firme, no entanto, é de ordem psicológica. “Às vezes, eu não sou bem-visto. É um olhar diferente na rua… Mas hoje sou mais seguro. Já sou blindado”, ele diz. Aos filhos, martela “a tecla do empoderamento”. Diz que os ensina a serem “os melhores em tudo o que fazem”.
O Pantera Negra conta que seu primeiro nome, Yabna, foi escolhido pela mãe entre algumas opções apresentadas pelo pai. A família disse a ele que, na língua balanta (do povo balanta, um dos maiores grupos étnicos da Guiné-Bissau), Yabna significa descanso. Mas o lutador curitibano ainda não pretende descansar. Depois da derrota em sua segunda participação no torneio africano, ele está se preparando para novas competições. E sonha ter condições de visitar, pela primeira vez, o país onde nasceu seu pai.