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Dez 2022 11h43
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Animais como pinguins, ratos ou marmotas – e até formigas, borboletas e outros insetos – têm formas de escrita próprias com a qual se comunicam, fazem poesia e organizam cosmologias. Suas narrativas são o objeto de estudo de uma disciplina científica independente, a therolinguística. Essa é a premissa de Autobiografia de um Polvo, uma das leituras mais surpreendentes do ano para quem se interessa por ciência e meio ambiente. A autora é a filósofa e psicóloga belga Vinciane Despret, professora da Universidade de Liège e estudiosa das relações entre humanos e outros animais.
Autobiografia de um Polvo se divide em três capítulos autônomos que mergulham nos estudos dos therolinguistas sobre a escrita de três espécies diferentes. No primeiro, o foco são as mensagens enviadas pelas aranhas por meio das vibrações de suas teias. O segundo se dedica aos vombates – marsupiais parecidos com pequenos ursos encontrados na Austrália – e à visão de mundo expressa nos muros que eles constroem com tijolos cúbicos feitos com suas próprias fezes. A última parte, que dá título ao volume, investiga a poesia manifesta nos jatos de tinta secretados pelos polvos e sua tradução para as linguagens humanas.
Os capítulos são construídos juntando relatórios científicos e e-mails trocados entre os estudiosos da linguagem animal. Os documentos são escritos no estilo referencial da prosa científica, mas são todos imaginários, como a própria therolinguística, que foi concebida originalmente pela escritora norte-americana de ficção científica Ursula Le Guin. Cada capítulo é uma “narrativa de antecipação”, conforme a definição do título.
À imagem do que fazia o argentino Jorge Luis Borges, Despret embaralha as fronteiras entre fantasia e realidade ao misturar referências a estudos e pensadores que de fato existem com a citação a obras e autores fictícios. O resultado fascinante é um livro inclassificável, escrito num registro único. Autobiografia de um polvo se deixa ler como uma fábula científica que denuncia nosso antropocentrismo e convida o leitor a se abrir ao que têm a nos dizer as criaturas não humanas que povoam o mundo.
Nesse aspecto, o pensamento de Despret se alinha com a obra de pensadores como a norte-americana Donna Haraway ou o francês Bruno Latour, morto em outubro aos 75 anos (os dois últimos livros do pensador, Onde Aterrar? e Onde Estou?, também saíram no Brasil pela editora Bazar do Tempo, a mesma de Autobiografia de um polvo).