A IMAGINAÇÃO NOS TEMPOS DO ALGORITMO

A peça O funcionário que pede para não ser identificado discute a criatividade no século XXI
Imagem A imaginação nos tempos do algoritmo

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Quem diz o que vale a pena ser visto, lido, ouvido? Se essa pergunta fosse feita até certo tempo atrás, você responderia: a crítica. Mas a crítica, sabemos, anda hoje com auxílio de fortes bengalas e já não tem tanto poder sobre o circuito que leva uma obra até seu espectador. Quem, então, dita as tendências? Talvez o consumidor – que hoje parece substituir o leitor, o espectador e o ouvinte. Em 1977, Susan Sontag escreveu: “Quaisquer que sejam as reivindicações morais em favor da fotografia, seu principal efeito é converter o mundo numa loja de departamentos ou num museu sem paredes em que todo tema é degradado na forma de um artigo de consumo e promovido a um objeto de apreciação estética.”

Passados quase sessenta anos desde o lançamento de Sobre fotografia, obra na qual se encontra o trecho, dá para dizer que a hipótese se provou. As imagens inundaram a cultura. Vemos uma centena delas diariamente: imagens de violência, imagens pornográficas, imagens de gatinhos, imagens até de frutas humanoides em situações novelescas.

Para o poeta e escritor Michel Melamed, a criatividade parece também andar hoje com auxílio de fortes bengalas, embora todo mundo queira criar alguma coisa. Na peça O funcionário que pede para não ser identificado, a indústria tecnológica parece devorar todas as ideias já tidas e cospe de volta uma massa amorfa, composta por todas elas ao mesmo tempo. O Setor de Registro e Produção de Obras Artísticas é um departamento burocrático que aprova ou não uma ideia, e é nele que se desenrola toda a peça escrita e dirigida por Melamed. Suas poucas funcionárias compõem um quadro de censoras. Houve momentos na história em que o Estado dizia o que podia ou não ser executado. Hoje, é o algoritmo que dita o que vai ou não ter visibilidade. A peça parte dessa premissa para questionar o que entendemos hoje por criatividade.

Mas, talvez na contramão do que se possa esperar, a peça possui um tom sutilmente otimista: como toda configuração cria dissidências, parece não ser o fim do mundo que a Inteligência Artificial brinque um pouquinho de criar livros, músicas e filmes. De ter “ideias”. Tecnologias envelhecem, acabam se mostrando insustentáveis e, no fim, talvez a imaginação consiga resistir à erosão causada pelo capitalismo tardio.


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