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A TARTARUGA E O COLONIALISMO

O enredo da peça Jonathan, em cartaz no Rio de Janeiro, entrega mais do que pode parecer
Imagem A tartaruga e o colonialismo

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No saguão do aeroporto de Congonhas, em uma manhã de outubro de 2017, o roteirista fluminense Rafael Souza-Ribeiro leu o título de uma pequena coluna de jornal que lhe chamou a atenção: “Tartaruga mais velha do mundo é homossexual.” A matéria contava a história do animal, à época com 186 anos, que morava na Ilha de Santa Helena, um território ultramarino britânico no meio do Oceano Atlântico, onde Napoleão Bonaparte foi exilado e morreu em 1821. O animal, hoje com 194 anos, tornou-se uma atração da ilha. “Isso dá uma peça!”, pensou Souza-Ribeiro. E de fato, deu.

Em uma noite de setembro passado, esse episódio no aeroporto foi relembrado pelo roteirista ao final do espetáculo Jonathan para alguns espectadores que o aguardavam na saída do Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio. Partindo da história da tartaruga centenária, a peça, que recebeu o mesmo nome dado ao bicho, é um monólogo interpretado pelo próprio Souza-Ribeiro. Ele representa um morador fictício da ilha, um jovem negro de 17 anos que herda, além do nome do animal, o trabalho do seu avô, que é cuidar de tartarugas.

As histórias dos Jonathans – a tartaruga e o rapaz – se misturam ao longo da peça. O jovem sonha com uma vida além de Santa Helena. “Não é porque você nasceu numa ilha que você nunca vai sair dela.” E a tartaruga, apesar de sua vida monótona, também vive situações que refletem os pensamentos conservadores da sociedade na qual está inserida. O palco intimista do Poeira e a energia cativante de Souza-Ribeiro se combinam para manter a imersão do espectador na narrativa e arrancar risadas da plateia.

Com direção de Dulce Penna, o espetáculo teve sua primeira exibição em maio de 2023, no Teatro Ipanema, quando recebeu duas indicações ao 34º Prêmio Shell de Teatro, nas categorias Dramaturgia e Direção. Embora o sensacionalismo em torno da sexualidade da tartaruga tenha provocado a curiosidade de Souza-Ribeiro em 2017, a peça não se prende a esse tema. “É sobre a opressão de uma mentalidade colonizadora que existe até hoje”, conta o ator e roteirista.

A peça traz à mente a canção Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, em que a personagem-título da música, assim como Jonathan, mora em uma cidade – repleta de preconceito e falso moralismo – que a objetifica e a explora. Os moradores da Ilha de Santa Helena, cerca de 4 mil, viram em Jonathan a oportunidade de gerar uma fonte de renda para o local. Hoje existem camisetas, bonés, moedas e canecas com a cara da tartaruga.

A peça está em cartaz no Teatro Poeira até o dia 22 de outubro, com sessões às terças e quartas, às 20 horas.


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