piauí recomenda
Nov 2024 15h58
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Chorar a perda da mãe é lamentar a “infância e a juventude” perdidas. Recordando estas palavras de Albert Cohen em O Livro De Minha Mãe (Record), o sociólogo francês Didier Eribon reconhece que algo mudou nele após a morte da própria mãe: “Eu era um filho e agora já não sou.” É essa ruptura radical com a sua filiação que Eribon trata em Vida, velhice e morte de uma mulher do povo, recém-publicado no Brasil pela editora Âyiné. A história começa com a saga do escritor para encontrar uma casa de repouso para a mãe. Ele avalia os detalhes do serviço oferecido por muitas empresas, sem saber que isso pouco importaria: logo que fosse internada, essa mulher que trabalhou como operária e empregada doméstica não teria mais forças para levantar da cama. O isolamento a deprimiu e, em algumas semanas, a levou à morte.
Essa é a continuação de um projeto que Eribon iniciou em seu Retorno a Reims (Âyiné), livro escrito depois da perda do pai e que serviu de inspiração para outro autor francês mais jovem, Édouard Louis, se tornar escritor. Agora, Eribon analisa a tensão entre um apego e um afastamento da figura materna. Investiga as raízes do luto, sem mascarar a culpa. Pois, se foi um filho atento aos últimos momentos da vida da mãe no lar de idosos, ele nem sempre esteve ao lado dela, tendo escolhido, na juventude, uma “filiação político-intelectual” e uma “desfiliação sociofamiliar”. A partir da leitura de dois textos sobre a questão – A Velhice de Simone de Beauvoir e A Solidão dos Moribundos de Norbert Elias –, Eribon procura compreender por que os “velhos” não são considerados no campo das teorias políticas. Ao refletir sobre a possibilidade de lhes “dar voz”, contra “a conspiração do silêncio” que Beauvoir evocou, o autor opera num duplo movimento íntimo e reflexivo. Ao tentar compreender a vida e a morte da mãe, Eribon nos convida a construir um pensamento político e médico sobre o setor mais frágil de qualquer sociedade.