piauí recomenda
Nov 2025 14h40
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Em Bangkok, o escritor Tash Aw é confundido com um tailandês. No Nepal, com um gurung (grupo étnico tibetano de soldados e pastores de ovelhas). Na China, a pergunta que ouve com mais frequência é: “De onde você é?” Aw provoca dúvidas em relação às suas origens por onde passa por ter, segundo ele, “feições neutras” e “pouco pronunciadas”. Nascido em Taipei, capital de Taiwan, filho de pais malaios, o escritor cresceu em Kuala Lumpur, na Malásia. “Me pergunto se lá no fundo eu não gosto de ser confundido com um habitante local, apesar da frustração que sinto quando ninguém parece saber, ou mesmo se importar, de onde eu venho”, narra Aw no livro autobiográfico Estranhos no cais: retrato de uma família, o primeiro dele publicado no Brasil.
A obra aborda a linha tênue de pertencimento em uma sociedade e a busca por uma identidade. O livro parte da história da imigração dos avós de Tash Aw, que partiram de barco do Sul da China e se estabeleceram no interior da Malásia. A primeira parte da obra rememora o passado familiar de imigrantes na Malásia. Já a segunda parte é uma espécie de carta à avó materna para também falar da ida do escritor ao Reino Unido onde cursou a universidade – e das novas vivências enquanto imigrante, agora fora da Ásia.
Aw aborda sentimentos como a resignação de imigrantes diante de privações, a saudade de casa, a melancolia e a nostalgia. Ele também relata a discrição e o silêncio de asiáticos em relação ao passado. Assim como Annie Ernaux e Édouard Louis, Aw narra em sua obra a distância cultural criada entre as gerações mais novas, que tiveram acesso a estudos e ascenderam socialmente, e outros membros da família.
O livro também aborda a variedade geográfica e cultural da China, num capítulo que foi publicado na edição de setembro da piauí. Aw escreve: “A realidade é que a China, tal como o fato de ser chinês, implica uma variedade vertiginosa, muitas vezes até exaustiva; viajar pela China e pelos países chineses da Ásia Oriental significa dar os mesmos saltos culturais e linguísticos que estudantes universitários fazem naqueles mochilões de trem pela Europa.” A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie tem razão na afirmação estampada na capa da versão brasileira da obra, publicada pela editora Todavia e traduzida por Marcela Lanius. “Este livro,” escreve Adichie, “de tão sábio e tão bem escrito, me fez desejar que fosse muito mais longo do que é.”