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Jul 2025 16h22
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Desde que começou a escrever sobre a própria vida, no início da década de 1970, a escritora francesa Annie Ernaux evitou tratar de um evento que marcou a sua juventude. Ela costumava mencionar a “menina de 58” em diários e projetos de livros, mas sempre encontrou algum pretexto para se dedicar ao relato de outras memórias. Mas, depois do aniversário de 74 anos, a escritora percebeu que teria pouco tempo de vida pela frente. “A ideia de que eu poderia morrer sem ter escrito sobre ela, que muito cedo chamei de ‘a menina de 58’, me assombra”, confessou, em 2014. Tal assombro a levou a escrever Memória de menina, seu livro mais recente publicado no Brasil pela editora Fósforo.
Em 1958, aos 18 anos, Ernaux recebe a proposta de trabalhar por um mês como monitora num acampamento de férias na Normandia. É a primeira vez que ela fica longe dos pais. Seu primeiro contato com a liberdade. Confrontada pelo comportamento das pessoas de classe média que frequentam o lugar, Ernaux passa a agir diferente, o que faz dela uma figura desajeitada. Os abastados a veem como alguém sem modos. Tudo piora quando ela perde a virgindade com um homem mais velho e fica tachada de garota vulgar. Tanto os colegas quanto os superiores a tratam com desprezo. A vergonha que sentiu por ser exposta e rejeitada — “a vergonha dos meus desejos” — crava o verão de 1958 na memória de Ernaux.
Ela demorou quase seis décadas para desvendar o evento por causa da sua complexidade. Se tivesse sido um estupro, Ernaux poderia ter elaborado antes. Mas, para esse livro, ela precisou se aprofundar nas áreas cinzentas do consentimento sexual, numa época em que esse conceito não era ensinado nem discutido. Ernaux narra o romance em uma mistura de primeira e terceira pessoa, a mulher de 2014 e a menina de 1958 se alternando, enquanto tenta reconstituir os sentimentos de vergonha e humilhação que permearam a sua iniciação sexual.