10 Ago 2026
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A Frestas – Trienal de artes, realizada pelo Sesc em sua unidade da cidade de Sorocaba, a 100 km da capital paulista, é uma exposição com várias ramificações. Com curadoria de Luciara Ribeiro, Khadyg Fares e Naine Terena, a mostra conta com a participação de 102 artistas, muitos deles carregando ligações antigas com a cidade ou, em suas obras, estabelecendo diálogo com a história do município.
Entre as obras, vale destacar 3x4: memória do trabalho negro (2025), de Guilherme Bretas. Ele apresenta, em projeções de vídeo e animação, retratos de operários negros que trabalharam em fábricas de Sorocaba e da vizinha Votorantim em 1922. É instigante como o artista pensa a apresentação das figuras. Elas parecem fitar o espectador ao fazer uma rotação com a cabeça e o pescoço, graças ao recurso da animação. Algumas encaram o público, outras hesitam. Bretas se retira do pedestal da profissão do artista, e se coloca também entre essas figuras. Pena é que, dependendo do horário da visita, a luz que entra pela porta dificulta a visualização da obra.
O trabalho de Bretas se divide em capítulos espalhados por diferentes partes da exposição. A mesma coisa acontece com o de Moisés Patrício. A parte principal deste último artista está na Capela João de Camargo, assim denominada em homenagem a um importante líder religioso da cidade. Em Sete cantos para pai João de Camargo (2026), Patrício interpreta a história deste líder recorrendo a cânticos, cujas letras estão impressas em tecidos semitransparentes pendurados como cartazes na exposição.
O principal espaço da mostra está em uma garagem desativada. Lá aparecem enfileiradas esculturas de navios negreiros, de autoria de variados artistas, como Nhô Caboclo e Adriano Jordão de Souza. Também chama a atenção a instalação 9 mantos sagrados para imperatrizes das encruzilhadas, da artista e estilista cearense Silvania de Deus. Os mantos foram criados para um grupo de Pastoras do Rosário, um coletivo do bairro da Penha que promove congadas e sambas de roda. As referências às culturas negras e indígenas, no trabalho de Silvânia e das Pastoras, em tom de engenhosidade e pompa, inebria o visitante.
Por último, vale ir à passarela que liga os dois blocos principais do Sesc Sorocaba para contemplar a cruz dependurada pelo artista paulista No Martins em que ele dá novos sentidos à repetida advertência da religiosidade popular: “Deus tá vendo.”