UM NOVO OLHAR

O documentário Paul McCartney: Homem em fuga é um retrato sóbrio do ex-Beatle
Imagem Um novo olhar

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Ao lado dos filmes de super-herói, dos filmes de tubarão e dos spinoffs de Harry Potter, poucas coisas oferecem um retorno financeiro tão garantido para a indústria do cinema quanto filmes sobre os Beatles. Por isso vemos todo ano uma dezena deles. Com poucas exceções notáveis, como o espetacular The Beatles: Get Back (2021), de Peter Jackson, a maioria é decepcionante. Depoimentos previsíveis de músicos e fãs, discussões superficiais sobre arte – tudo permeado pelo inescapável tom ufanista sobre a banda mais famosa da história.

O problema mais comum é o enquadramento. Quantos diretores já não tentaram contar a história dos Beatles, condensando em duas horas, de forma precária, os dez anos de atividade da banda, seu processo criativo, seus conflitos internos, seu impacto cultural sísmico? Escapar dessa ambição talvez seja o primeiro passo para tentar um bom filme, e foi o que fez Morgan Neville com seu documentário Paul McCartney: Homem em fuga, disponível no Amazon Prime Video.

O longa, que estreou em fevereiro no Brasil, é centrado em Paul McCartney, mas especificamente no Paul McCartney que viveu de 1970 a 1980. É um personagem entre dois traumas: o fim da banda que moldou a sua vida e a morte brutal de seu melhor amigo. Tudo enquanto era execrado por boa parte da crítica musical, que, com alguma razão, achava seus discos conservadores. Parte disso tinha um fundo político: em contraste com John Lennon, líder espiritual da juventude daqueles anos, Paul transmitia a imagem de um rapaz alienado. Gravava canções amenas e filmes alegres e pitorescos enquanto, do lado de fora, a polícia batia de cassetete em manifestantes contrários à Guerra do Vietnã.

O filme não o redime, mas o explica. Ouvimos um ex-integrante da banda Paul McCartney & Wings reclamar da breguice de seu ex-patrão (depoimento raro em filmes do gênero, quase sempre elogiosos), mas ouvimos, sobretudo, o próprio Paul. Seu relato – narrado em voice-over, como todos os demais depoimentos – é a única constante. Morgan Neville parece ser um bom entrevistador, porque tirou de Paul histórias pouco óbvias e reflexões sinceras. Repetiu, com isso, o feito de Paul Muldoon, apresentador do excelente podcast McCartney: a Life in Lyrics. A verdade é que o ex-Beatle, de uns anos para cá, parece ter se tornado um melhor entrevistado. Soa menos treinado nas respostas, expõe fragilidades. Talvez porque tenha finalmente saído da defensiva.

O documentário é um retrato sóbrio. Fica a impressão de que esse é o primeiro filme a realmente ouvir a versão de Paul sobre aquela década sem, com isso, derrapar na complacência. Alguns episódios são contados de forma um pouco apressada, é verdade, mas outros – como a semana que Paul passou preso no Japão, por porte de maconha, em 1980 – recebem atenção rara. Uma boa contribuição para a filmografia dos Beatles.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.