Abr 2026 15h12
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Jocasta, uma escritora que está prestes a completar seus cinquenta anos, vive uma vida reclusa. Chamar seu estilo de vida de recluso, na verdade, pode soar como um eufemismo. Ela passa dias e noites trancafiada numa quitinete no Centro de São Paulo com seu gato Argos Panoptes, acendendo cigarros sem parar. O apartamento, cenário de boa parte de suas incursões depressivas, conta com um sofá-cama, uma máquina de escrever, um laptop e potes de geleia onde descarta as guimbas. Além de ter perdido a mãe aos 7 anos, Jocasta perdeu também sua querida tia Diana – que deixou para a sobrinha o cubículo onde vivia –, e o avô. Ela só pode contar com o gato. E com Jovana.
Jovana, que mora numa periferia afastada do Centro, é youtuber. Tem uma vida tranquila e mostra cada milímetro de sua rotina em vídeos publicados na internet. Filma-se varrendo a sala, limpando os vidros, colocando roupa para lavar. Reclama de muito pouco e acredita em Deus. Além do trabalho doméstico, também expõe sua relação com a filha, a pequena Duda. A escritora, do outro lado da cidade, de seu apartamento soturno, acompanha religiosamente essa vida sem grandes dificuldades, sem grandes tristezas, sem muito o que pensar. Por ter perdido a mãe, Jocasta dá bastante atenção às interações entre Jovana e sua filha. Ao mesmo tempo, a protagonista nutre sentimentos estranhíssimos pela influenciadora. Não se trata de inveja: é bem mais uma vontade de que aquela outra mulher sofra os impropérios da vida.
Essa é, em suma, a trama de Vida doçura, o novo romance de Natércia Pontes. O livro opera em três registros: 1. Uma narradora onisciente que descreve o cotidiano de Jocasta, espécie de alter ego da autora; 2. As descrições exaustivas dos vídeos de Jovana – descrições que quase sempre resultam em nada, como boa parte das coisas feitas pelos chamados criadores de conteúdo; e 3. Os trechos de alguns contos que a escritora prepara. Este último registro é o mais interessante da obra – nos pequenos contos, as memórias e o luto tardio que a protagonista vive se misturam com um mundo esquisito, de aparentes perfeições e crenças esperançosas.
Juntos, todos os registros formam um complexo de dor e fenomenais tristezas, resultando numa escrita punk que não barateia sentimentos. O romance é afetado com uma protagonista ainda mais afetada pela solidão. Há, em Vida doçura, um esforço de transfiguração do nosso tempo, apostando numa espécie de surrealismo das vidas contemporâneas: farmacológicas, estéreis, cor-de-rosa e tristíssimas.