18 Mai 2026
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Cecília é uma médica pediatra despudorada que não tem vergonha de dizer que não gosta de crianças. Não que isso a atrapalhe nos atendimentos. Até certo ponto, ela sabe separar bem sua vida profissional de sua vida pessoal. Como não morre de amores por nenhuma criança e prefere se distanciar delas depois de certa idade, renova com frequência sua clientela. Mas tudo muda quando, na festa de um amigo em comum, conhece Celso, um pai de família. Cecília parece pouco interessada no que ele diz, mas se sente muito atraída.
Celso comenta que está prestes a ser pai, ao que rapidamente Cecília responde que cuida da criançada. Ela não tem nada além de um apartamento, e sua única companhia é a empregada doméstica que trata com certa condescendência. O homem cai, então, como uma luva. Nessa mesma noite, os dois transam e Celso parte para casa, numa cidade vizinha, decidido a convencer sua esposa de que deveriam tratar os últimos meses da gestação e a criança com a médica que ele conheceu em condições escusas.
Como uma grande novela, a peça, baseada no romance homônimo escrito por Andréa del Fuego, oferece drama, suspense e humor ácido. Não há mocinha aqui, a protagonista é a própria vilã – e com o desenrolar da história, vemos que ela não é tão vilanesca assim. É uma mulher solitária e infeliz num emprego que consome seus dias. Para completar, seus métodos estão envelhecendo: com a chegada de um pediatra que vende partos humanizados, as mães passam a preteri-la em detrimento da abordagem mais moderninha.
Em meio a essas crises, de solidão e profissional, Cecília passa a sentir uma vontade de ser mãe, e a nutrir certa obsessão pelo amante. Ela nota: Bruninho, filho de Celso, tem todas as características mais marcantes do pai, mas nada da mãe. Se não tem nada da mãe, qualquer mulher poderia ser mãe do menininho. O affair passa a ser, então, uma ponte para que ela comece a confundir as duas rotinas. O garoto passa as tardes, depois da escola, no apartamento de Cecília, já que a segunda gestação da esposa de Celso é de risco – a simpática pediatra acaba como uma espécie de babá.
O texto dirigido por Inez Viana e interpretado por Débora Lamm e Luis Antônio Fortes soa como um bom dramalhão de tevê, aqueles filmes a que assistimos pelo prazer de ver o personagem maldoso se estatelando no fim. Mas nem o cafajeste e nem a despudorada são apenas isso. Os dois compõem uma importante reflexão sobre o papel da mulher, a maternidade e a ideia de cuidado.