Abr 2026 15h07
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O animal mais perigoso para o ser humano não é a onça, o jacaré nem o tubarão: é o mosquito, capaz de provocar um estrago inversamente proporcional ao seu tamanho diminuto. O gênero mais letal do inseto é o Anopheles, que engloba mosquitos capazes de nos transmitir o plasmódio, o parasita causador da malária. Eles foram os responsáveis indiretos pela morte de centenas de milhões de pessoas só no século XX. A cloroquina – que muitos médicos e um ex-presidente defenderam ser eficaz contra a Covid, na contramão das evidências – serve para tratar a malária, mas ainda assim a doença continua matando mais de 600 mil indivíduos por ano.
Foi justamente um mosquito que a escritora alemã Carmen Stephan escolheu como narrador para Malária: um romance, que foi lançado em 2012 e acaba de ganhar uma edição brasileira, traduzida por Claudia Abeling. Mais precisamente, uma mosquita, já que são as fêmeas que se alimentam do sangue humano, de onde tiram os nutrientes para sustentar seus ovos. Graças a essa escolha, o livro oferece uma perspectiva inusitada para contar a história de uma alemã que contrai a doença numa viagem à Amazônia (a trama é inspirada na experiência da autora, uma jornalista radicada na Bahia).
Cada capítulo do romance corresponde a um dia da infecção e narra a progressão do quadro clínico da paciente, das primeiras dores de cabeça lancinantes à fraqueza extrema e aos delírios febris provocados pela multiplicação dos parasitas em seu sangue. Para sustentar o pacto narrativo com o leitor, a autora permite à narradora acompanhar sua vítima por aviões, hotéis, ambulâncias e hospitais em suas tentativas frustradas de diagnosticar e tratar a doença. A alemã contraiu malária em meio a uma epidemia de dengue, o que levou os primeiros médicos que a atenderam a avaliar que ela estava com essa virose – cujo vetor é um outro mosquito, o Aedes aegypti –, prescrevendo tratamentos que acabaram por piorar seu quadro.
A narradora manifesta uma inesperada empatia pela mulher que picou, uma vez que ambas são vítimas do plasmódio, que se vale do organismo do mosquito como hospedeiro a partir do qual alcança o sangue humano onde completa seu ciclo de vida. A narrativa da piora da paciente é entremeada com a explicação dos mecanismos da doença e com a história de como os humanos lidaram com ela desde a Antiguidade e de como custaram a descobrir o papel do parasita e do mosquito em seu ciclo. Com isso, Stephan – uma das autoras convidadas para a Flip deste ano – flerta com a divulgação científica e assina um romance que pode agradar tanto aos leitores de ficção contemporânea quanto aos interessados pela história da medicina.