Mai 2026 12h57
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Em 2020, durante a pandemia de Covid, a documentarista carioca Carol Benjamin refugiou-se, com os dois filhos pequenos, em Nova Friburgo, na região serrana do estado do Rio. No contato com as mães dos colegas de suas crianças, no colégio, e em conversas com amigos que fez na cidade, ela tomou consciência de que o trauma com a tempestade que desabou sobre a cidade, em 2011, ainda não se desvanecera.
Na época de sua chegada, a tragédia – que, segundo fontes locais, fizera 442 vítimas - já tinha quase uma década, mas a destruição de centenas de construções e da economia local ainda reverberava. Era quase impossível encontrar pessoas que não tinham sido afetadas por um dos maiores desastres ambientais ocorridos no Brasil. Tocada por aqueles dramas, Benjamin decidiu que precisava fazer um documentário sobre aquela história dantesca. A questão era como fazer isso. Usar imagens da tragédia? Pessoas mortas e feridas? Cidade destruída? Quanto mais material ela recolhia, mais dificuldades ela tinha de desenvolver um projeto que não se assemelhasse às extensas reportagens que saíram na época do desastre.
Em 2024, enquanto se preparava para as filmagens, Benjamin foi apresentada ao líder comunitário e educador Tião Guerra, que vivera uma trágica história pessoal. Na madrugada de 11 para 12 de janeiro de 2011, quando a tempestade desabou sobre a cidade, Guerra perdeu a irmã, os sobrinhos e o cunhado, que estavam em férias em Nova Friburgo, instalados na casa vizinha à dele. Valendo-se de um tabuleiro forrado com areia, sobre o qual pousavam pequenas peças de madeira e gravetos, que faziam as vezes das casas e das pessoas envolvidas na história, Guerra começou a narrar os acontecimentos daquela madrugada fatídica. Era quase uma sessão de terapia junguiana. A certa altura, a diretora pegou um recipiente com café e o derramou sobre o tabuleiro, criando uma lama que foi encobrindo todos os pequenos pedaços de madeira. Com o desenrolar da conversa, Benjamin teve uma ideia ousada: contaria a tragédia através da fala de Guerra e da movimentação das peças no tabuleiro.
O resultado é que, nos dezenove minutos de duração do curta metragem Sobre ruínas, filmado em 2024 – e lançado no ano passado, infelizmente em circuito restrito –, a diretora e o entrevistado desenvolvem uma conversa intimista, delicada, triste e, por incrível que pareça, plena de superação e esperança. O método de Benjamin faz com que o espectador tenha a exata dimensão da dor, da perda, e do horror que foi aquela madrugada para a cidade e seus moradores.
O curta teve apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Nova Friburgo, através da Lei Paulo Gustavo. Além da delicada direção de Benjamin, a arte de Tati Bond e a montagem de Marília Moraes contribuíram muito para a beleza do trabalho, condensando o longo diálogo entre Benjamin e Guerra. O espectador pode assistir a esta pequena joia nas redes, gratuitamente, através do link.