01 Jul 2026
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É possível que José Roberto de Castro Neves tenha se inspirado no livro Quase memória, de Carlos Heitor Cony, para criar Onar ’82, seu novo romance lançado em maio, pela Intrínseca. Não apenas por ser uma história entre pai e filho, tema bastante recorrente em obras literárias – a semelhança vai um pouco além. Tanto na autobiografia mesclada de ficção de Cony quanto no livro de Neves, é a partir do luto e da descoberta de um manuscrito que se abre um portal no passado, desvendando lembranças da paternidade e afetos reprimidos.
Onar ’82 é narrado pelo personagem Samuel Janowitz, um jornalista esportivo, botafoguense, apaixonado por futebol que recebe a notícia da morte repentina de seu filho, Daniel, de quem já vivia afastado havia uns anos. Em meio ao luto, Samuel acha um livro de ficção escrito pelo filho, destinado ao pai, e passamos a uma experiência metalinguística de ler um livro dentro do livro. O universo fictício criado por Daniel rememora o ano de 1982, e acompanha a saga de jovens que fogem de casa e passam a morar no Morro de Ardenas, uma favela fictícia. Lá, vivem aventuras ao lado de personagens caricatos do morro enquanto as atenções das pessoas estavam voltadas para a seleção brasileira na Copa do Mundo da Espanha.
Na vida de Samuel, o ano de 1982 foi especialmente marcante: em razão de uma cirurgia, ficou impossibilitado de cobrir in loco a Copa e teve que ficar em casa com o filho, na época com 12 anos, estreitando um pouco os laços, já então corroídos. Passamos a acompanhar as duas histórias ao mesmo tempo: os capítulos do romance do filho intercalados com observações e sentimentos do pai, conforme avança na narrativa. “Lia com dor. As palavras do meu filho me libertaram, contudo, a dor era maior. Não se ganha liberdade sem algum sofrimento.” O desenrolar de alguns acontecimentos no Morro de Ardenas são gatilhos para Samuel evocar momentos com o filho. Uma peste de cães que assola a cidade na ficção o lembra de um outro cão que foi pivô de um atrito entre ele e o filho; as consequências da fuga dos adolescentes o faz pensar no período que Daniel saiu de casa sem avisar. A história traz elementos de misticismo: um elixir que apaixona e cura, um profeta que acerta os palpites da Copa com enigmas e o filho do diabo, personagem esotérico que dá pitacos.
A seleção de 1982 é considerada um dos melhores elencos da Canarinho de todos os tempos, e foi um choque a eliminação para a Itália por 3 x 2. Hoje vivemos o oposto, com um Brasil desacreditado pela torcida. Ainda assim, Onar ’82 é uma excelente companhia para, quem sabe, reforçar a esperança do hexa.