VIDA DE REPÓRTER

Documentário conta as venturas e desventuras do aclamado jornalista Seymour Hersh
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Em 16 de março de 1968, na aldeia de My Lai, no Vietnã, soldados americanos assassinaram, a sangue frio, centenas de civis desarmados. De acordo com estimativas distintas, entre 347 e 503 pessoas morreram naquele dia – entre elas, bebês, crianças, mulheres e idosos. Àquela altura, a guerra já virara uma carnificina, com milhares de mortes de vietnamitas, e também com muitas baixas entre os soldados americanos. Mas nos Estados Unidos, boa parte da população ainda acreditava na vitória americana e apoiava o presidente democrata Lyndon Johnson na sua cruzada para “salvar a democracia ocidental, derrotando o comunismo” no pequeno país asiático.

No dia 13 de novembro de 1969, essa imagem começou a derreter. Uma reportagem publicada pelo jornalista freelancer Seymour Hersh, no Chicago Sun-Times, descrevia em detalhes os horrores praticados pelos soldados americanos em My Lai. Os crimes eram dantescos. Bebês eram jogados para cima para caírem espetados sobre baionetas. Meninas de não mais que doze anos eram estupradas coletivamente e mortas em seguida. Mulheres, homens e crianças recebiam tiros pelas costas ou eram colocados em valas e metralhados. Para completar, a ordem para o massacre partira do comando das forças americanas, que determinou: “Façam a limpa na aldeia.”

Foi a primeira reportagem a abrir os olhos dos americanos para a dura realidade de que os seus soldados, em vez de esplêndidos, eram vis. Esta é apenas uma das histórias relatadas, em primeira pessoa, pelo agora famoso jornalista Seymour Hersh (mais conhecido na imprensa americana como Sy) – no documentário Seymour Hersh: em busca da verdade, lançado pela Netflix no fim de 2025.

O filme, dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus, conta as venturas e desventuras deste repórter de 89 anos que ainda está na ativa e teve como missão de toda sua carreira revelar as sujeiras e os crimes que sucessivos governos americanos tentaram encobrir. E foram muitos: do famoso caso Watergate, à participação da CIA no golpe que derrubou o presidente Salvador Allende, no Chile, em 1973, ao escândalo na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, em que Hersh foi um dos primeiros a denunciar torturas e assassinatos de detentos iraquianos cometidos pelo Exército americano e pela CIA durante a ocupação do país. Mais recentemente, após os ataques de Israel a Gaza que começaram em outubro de 2023, Hersh, que é judeu, tem chamado a atenção para crimes cometidos contra crianças palestinas naquela região.

No documentário, sobram críticas para todo mundo: dos governos à imprensa. Hersh diz que a imprensa americana se calou em todos esses episódios macabros “não por censura, mas por autocensura”. A sociedade americana, no caso do Vietnã, “não queria ouvir que éramos os vilões”. Ainda assim, ele destaca a importância do jornalismo para a sociedade: “Publicamos mesmo que comprometa a segurança nacional. Quando cremos que estamos diante de um caso grave de autoridades prevaricando de seus deveres legais, a imprensa deve ter total liberdade para publicar o que quiser.”


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