09 Jul 2026
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Catalina é uma jovem bem-sucedida no auge da carreira. Na primeira cena de As correntes, ela está em Genebra recebendo um prêmio por seu trabalho como estilista. É aplaudida e cumprimentada por seus pares. Ao deixar a cerimônia, ela caminha sozinha pelas ruas, observa a paisagem, as vitrines de lojas – e se atira no Rio Ródano. Esse é o ponto de partida para a diretora argentina Milagros Mumenthaler contar o que se passa com a protagonista.
Depois de ser resgatada, Catalina (Isabel Aimé González Sola) volta a Buenos Aires para a vida confortável que divide com o marido e a filha pequena. Mas já não é mais a mesma. Ela mantém o episódio em segredo enquanto tenta lidar com um novo trauma: a aversão total à água. Já não consegue realizar atividades simples, como tomar banho ou lavar os cabelos.
Os diálogos são econômicos, e, na mão sensível de Mumenthaler, a história se desenrola por meio de silêncios e gestos que convidam o espectador a decifrar porque aquela vida aparentemente feliz está desmoronando. A direção atenta aos detalhes – sons, texturas e movimentos – proporciona uma experiência sensorial que aproxima o espectador da personagem. Dois exemplos disso são o barulho da água corrente nas torneiras e chuveiros, filmada de maneiras diferentes ao longo do filme, e as cenas em que a personagem penteia com os dedos seu cabelo oleoso e mal lavado, inaugurando uma nova relação com o próprio corpo. É o mais perto que se chega das emoções de Lina, interpretada de forma quase apática por González-Sola.
Aquela escuridão sedutora que a protagonista viu no fundo do rio ressurge várias vezes ao longo do filme, transformada em diferentes imagens e novos símbolos, mas com a mesma carga emocional. Para tentar seguir em frente, ela precisa voltar ao passado e reorganizar seus sentimentos e valores. Visita a mãe, com quem não fala há anos, e uma amiga que ainda mora no bairro pobre onde cresceram.
O filme não pretende fornecer uma resposta para o impulso suicida de Catalina. Os sentimentos mais íntimos da protagonista são explorados aos poucos, sempre pelas frestas e pelo que permanece não dito. A atmosfera é sufocante, com a personagem vivendo uma confusão emocional que não se traduz em palavras.