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Dez 2024 16h38
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Desde 1975, um evento especial acontece em Salvador, na Bahia, na noite do sábado de Carnaval. Imprensa, militantes do movimento negro, intelectuais e artistas se preparam para acompanhar a saída do bloco Ilê Aiyê, visto como o mais africano e o mais puro de todos os blocos afro que saem nos dias de festa.
No universo das narrativas acadêmicas que cruzam história, cultura e identidade, Ilê Aiyê: a fábrica do mundo afro, de Michel Agier, é uma das leituras mais instigantes de 2024. Publicado no ano que marca o cinquentenário do Ilê Aiyê, o livro é um mergulho profundo nas raízes de um bloco que não permite a presença de pessoas brancas em seu corpo, e que é questionado por essa escolha.
O autor não é brasileiro, e tampouco é negro. Agier é um antropólogo francês, especialista em estudos africanos e pesquisador da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Conheceu a história do bloco em 1990, morou por sete anos em Salvador e dedicou anos de sua vida a estudar o Ilê, tendo um acesso importante aos fundadores e membros do grupo, o que dá base para todo o livro. Nele, Agier mostra como o movimento transcendeu o Carnaval e foi essencial para redefinir certos imaginários sobre a negritude no Brasil.
Ao antever o questionamento de sua condição racial diante de seu tema de pesquisa, o autor a aborda brevemente durante o livro e explica que nunca pretendeu contestar o princípio segundo o qual os brancos não podiam desfilar no Ilê Aiyê. “Acredito que a ‘ausência de mistura’ racial no ritual é a condição de existência do Ilê Aiyê, e a própria existência da polêmica a esse respeito na Bahia confirma sua eficácia.”
Ao voltar ao momento fundacional do movimento, em novembro de 1974, com o panfleto provocador e a declaração de que “Nós somos os africanos na Bahia”, Agier investiga como o bloco reconfigurou determinadas discussões de cultura e de raça. A frase, que coloca os integrantes do Ilê como africanos no Brasil, é o fio condutor de uma narrativa que questiona sentidos de pertencimento e de reinvenção.
Um dos grandes méritos do livro está na capacidade de conectar o local ao global. Agier não se limita a situar o Ilê Aiyê no contexto histórico-cultural da Bahia e do Brasil, mas traça também paralelos com as culturas diaspóricas ao redor do mundo e mostra como a experiência afro-brasileira dialoga com movimentos similares em outros continentes.
Traduzida por Mirella Botaro e Raquel Camargo, a obra conta ainda com 35 fotografias de Milton Guran, que a tornam, também, um relevante documento visual. É um livro essencial para quem deseja entender o que significa celebrar a África na Bahia.