UM CLÁSSICO À BRASILEIRA

Releitura de O Deus da Carnificina é inventiva e mantém conexão com o texto original
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No texto original da peça O Deus da carnificina, da dramaturga francesa Yasmina Reza, a descrição do cenário é concisa e remete ao lar de um dos casais onde toda a trama se passa: “Deve-se de imediato sentir que a casa é dos Houllié... Uma mesa de centro coberta de livros de arte. Dois grandes buquês de tulipas nos vasos.”

Os dois casais se reúnem numa noite para tentar conciliar, com o máximo de polidez possível, um conflito entre suas crias: o filho dos Reille acertou com um bastão o rosto do filho dos Houllié. Os Reille reconhecem que o filho é um aprendiz de sociopata; os Houllié, por sua vez, querem que a violência seja reparada dentro das mais formais regras de boas maneiras. Os Reille são burgueses individualistas, grosseiros, materialistas e conscientes disso. Os Houllié são diferentes: apreciam arte e cultura, os bons modos e os direitos humanos, ou pelo menos desejam passar essa impressão.

A peça é um clássico contemporâneo, adaptado muitas vezes, e por isso é bastante surpreendente observar, no palco da Sala Adolpho Bloch, que estamos diante do cenário não de um apartamento, mas de uma praça, com grama no chão, uma poça de lama e um carrinho de sorvete. Os quatro atores – Karine Teles, Thelmo Fernandes, Ângelo Paes Leme e Anna Sophia Folch – entram em cena, vestidos com trajes que remetem à estética burguesa do século XIX. A montagem em cartaz no Teatro TotalEnergies, no bairro da Glória, acompanha o texto e a dramaturgia de Reza, mas a direção de Rodrigo Portella, que também assina a inventiva cenografia, e outros detalhes – o figurino de Karen Brusttolin, a trilha sonora –, enchem a obra de comentários cáusticos e camadas que deslocam a peça de sua ambiência contemporânea e dão a ela um caráter mais atemporal.

Aí está o grande trunfo da releitura criativa e mordaz de Portella: ao vestir os atores com trajes antigos, ele sugere que os valores sociais permanecem os mesmos. O cenário é ao mesmo tempo a praça e a casa. E a fusão entre praça pública e apartamento privado pode ser lida como um comentário sobre a fragilidade da separação entre civilização e barbárie, argumento que já está na peça original de Reza, mas que aqui aparece de forma ainda mais abrangente. O espaço público, social e coletivo mistura-se ludicamente ao apartamento, símbolo de controle, intimidade e racionalidade. A violência não está apenas lá fora, restrita às crianças ou ao espaço urbano, mas já habita o interior daquela sociabilidade burguesa. O lar deixa de ser um refúgio civilizado e torna-se continuação da arena pública de disputa, egocentrismo, humilhação, judicialização das relações de poder.

É uma leitura bastante coerente com o olhar de Reza sobre a civilidade contemporânea. Ao longo da encenação, os personagens vão se despindo dos trajes burgueses clássicos, arrastando-se na lama, vulgarizando-se. Os discursos hipócritas se desmontam, revelando as verdadeiras motivações e valores daqueles personagens. Nada mudou: a burguesia é violenta e está de ressaca.


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