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UM RETRATO DOS TEMPOS

Depois da caçada, de Luca Guadagnino, elabora um comentário pertinente sobre os movimentos identitários nos Estados Unidos
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No Festival de Veneza deste ano, alguns espectadores reconheceram semelhanças entre Depois da caçada, o filme mais recente do diretor italiano Luca Guadagnino, e os filmes de Woody Allen, acusado de crime sexual contra sua filha adotiva. Numa sala de imprensa, Guadagnino fez questão de admitir a inspiração. Foi o que bastou para desencadear uma campanha acalorada de cancelamento do diretor. Mas talvez elevar a tensão do debate e causar certa polêmica fosse uma intenção artística de Guadagnino: o filme em questão discute justamente os rumos do debate público acerca de temas delicados, como a violência de gênero.

Alma, a protagonista do longa, interpretada por Julia Roberts, é uma professora de meia-idade do Departamento de Filosofia de Yale. Uma intelectual clássica: fuma, tem opiniões fortes, arranja jantares com colegas e alunos em sua casa. Está a um passo de alcançar a titularidade onde leciona. Até que um episódio descamba em um feroz mal-estar.

Maggie (Ayo Edebiri), sua aluna pupila, acusa um colega de departamento de Alma, o professor Hank (Andrew Garfield), de assédio. Ao mesmo tempo, Hank está obstinado em descortinar um plágio cometido pela estudante. É no olho desse furacão que o filme se desenrola, todo da perspectiva de Alma – que não sabe bem quem apoiar. Aí é que moram as qualidades do filme, já que o longa explora essas contradições muito bem e elabora um comentário muito pertinente sobre a cultura woke (no Brasil, “movimentos identitários”), pejorativamente chamada assim nos Estados Unidos. A trama é contemporânea e conversa com acontecimentos da última década, como o #MeToo, de 2017, e a alvorada da juventude queer, dos coletivos negros e dos milhares de debates sobre feminismo – agora sob ataque do segundo governo Trump.

Parece precipitado tirar conclusões sobre o significado histórico desses movimentos, e isso o filme não faz. Só tenta (e consegue) dar um retrato panorâmico do que aconteceu de lá para cá. Guadagnino até inclui os recentes esforços do governo Trump – e de sua trupe do Vale do Silício – de cancelar políticas de diversidade e inclusão. Para quem gostou de filmes como Tár, do diretor Todd Field e com a atriz Cate Blanchett como protagonista, Depois da caçada é um prato cheio. O filme oferece perguntas instigantes e indelicadas sobre a relação que variados campos políticos têm estabelecido com eventos da última década que, pelo menos num primeiro momento, pareciam ter desestabilizado certezas arcaicas sobre raça e gênero.


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