piauí recomenda
Dez 2022 11h39
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Em 1702, um barão francês conhecido como Lahontan estava na pior. Depois de um tumultuado período servindo no exército francês em campanhas exploratórias no Canadá, ele fora condenado por insubordinação e obrigado a viver no exílio. Sem um tostão na algibeira, se virava fazendo frilas como espião de aluguel. Até que resolveu escrever uma série de memórias sobre suas aventuras nas distantes terras canadenses.
Um desses livros foi publicado em 1703 e mostrou quatro conversas que Lahontan teria mantido com o chefe ameríndio Kondiaronk – um líder político brilhante, excepcionalmente habilidoso e um dos estrategistas da Confederação Wendat, uma coalizão de quatro povos que viviam entre o Canadá e os Estados Unidos. Em suas memórias, Lahontan usa um personagem que chamou de Adario para transmitir as ideias que disse ter ouvido de Kondiaronk em várias ocasiões. Eram críticas duríssimas à sociedade europeia. O intelectual indígena espinafrava a falta de solidariedade e auxílio mútuo, a submissão cega às autoridades, a ideia de propriedade privada, o sistema legal punitivo baseado em lei e o dogmatismo do catolicismo que presenciara em suas viagens aos países europeus e em seus contatos com missionários jesuítas. O livro do barão empobrecido não só fez um megassucesso como espalhou pela Europa as críticas indígenas que, depois, teriam inspirado o Iluminismo francês – a fonte de toda a ideia de democracia ocidental. Os ideais de liberdade e igualdade, portanto, não saíram de cabeças coroadas como Montesquieu, Diderot, Chateaubriand, e Voltaire. Foram uma reação à maneira como os povos originários enxergaram os europeus.
Fascinante, surpreendente – e defendida de maneira eloquente –, essa narrativa aparece logo nos capítulos iniciais do livro O Despertar de Tudo, Uma Nova História da Humanidade. Escrita pelo antropólogo David Graeber (famoso por ser um dos organizadores do Occupy Wall Street, ele faleceu em 2020) e pelo arqueólogo David Wengrow, a obra virou best-seller. Assim que foi lançada, provocou também um fuzuê entre estudiosos justamente porque passa setecentas páginas levando adiante essa proposta inicial: demolir o modo como a linha do tempo da história humana foi organizada e contada ao longo dos séculos. De acordo com o livro dos dois Davids, quase tudo o que aprendemos até hoje nos livros de história é furado. Os humanos caçadores-coletores, por exemplo, não eram seres primitivos e igualitários que só seriam organizados em sociedades hierarquizadas, burocráticas e desiguais com a invenção repentina da agricultura, mas sim pessoas complexas que escolheram de maneira consciente testar várias formas de organização política ao longo dos tempos. As instituições democráticas não tiveram início em Atenas, mas estavam por aí milhares de anos antes, em lugares como Taljanky – uma cidade de 4 100 aC, localizada no território atual da Ucrânia (mas descoberta por arqueólogos apenas nos anos 1970). E a própria ideia de Estado não é inevitável – a prova disso seria a de que, durante milênios, enormes levas de humanos evitaram deliberadamente os sistemas fixos e abrangentes de autoridade. Os autores apresentam seus argumentos empilhando descobertas recentes da arqueologia, fontes alternativas e uma audácia sem fim. O Despertar de Tudo é um livraço, principalmente nos muitos momentos em que ilumina o seu ponto principal: o de defender a liberdade de transgredir, de ir e vir, e sobretudo de imaginar outras formas de existência social.