questões políticas

FERNANDO HADDAD EXAMINA O PASSADO E O FUTURO DO SOCIALISMO

No livro Capitalismo superindustrial, ministro da Fazenda revisa pontos da teoria marxista tradicional
Imagem Fernando Haddad examina o passado e o futuro do socialismo

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Em um livro que lança neste mês, Capitalismo superindustrial (Zahar), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem três objetivos, segundo Celso Rocha de Barros, que analisa a obra na piauí deste mês. O primeiro é demonstrar que há vários caminhos possíveis para a modernidade capitalista e que o trajeto de entrada de cada país no capitalismo tem consequências para seu desenvolvimento posterior. O segundo é apresentar, com base nessa ideia, uma caracterização do que foram as experiências socialistas do século XX na União Soviética e nos países que nela se inspiraram. O terceiro objetivo é oferecer uma explicação do capitalismo contemporâneo (o “superindustrial”) que revisa pontos da teoria marxista tradicional e ajuda a explicar os conflitos atuais.

Boa parte do livro de Haddad foi extraída de seus trabalhos acadêmicos: o trabalho de mestrado em economia, em que ele discutiu a natureza das sociedades de tipo soviético, e sua tese de doutorado em filosofia, em que propôs um debate entre as teorias de Karl Marx e Jürgen Habermas. Há também capítulos escritos especialmente para a edição que ajudam a atualizar a discussão e contextualizar os argumentos.

Haddad faz parte de uma geração de marxistas que estava amadurecendo intelectualmente quando o socialismo real começou a desmoronar, a partir de 1989. “Para muita gente dessa turma, a reflexão sobre a experiência soviética era a questão mais urgente”, escreve Rocha de Barros. “O que se podia salvar da herança socialista? Qual era o socialismo possível? Quanto da bagagem do marxismo soviético deveria ser simplesmente abandonado? O marxismo, como teoria, ainda merecia ser levado a sério, depois da queda de regimes autoritários que o utilizavam como ideologia de Estado?”

Rocha de Barros diz que a década de 1990 foi uma época muito ruim para movimentos políticos marxistas, mas excelentes para quem quisesse pensar com o marxismo. Não havia mais burocracias partidárias prendendo ninguém às ortodoxias do passado e o ambiente entre os marxistas era mais caótico, mas também mais livre. Haddad parece ter sido um dos intelectuais que souberam aproveitar essa brecha.

No meio da década, os debates sobre o sistema soviético já pareciam antiquados, um pouco como as discussões sobre o Império Austro-Húngaro. Isso teve um preço. “Quando a extrema direita ressuscitou a bandeira do anticomunismo, a ignorância histórica já era tão grande que no balaio dos ‘comunistas’ entrou todo mundo que não fosse fascista”, escreve Rocha de Barros. “Eu sinceramente gostaria de ver a cara de Lênin ouvindo que ideologia de gênero é comunismo. Imagino que ele responderia: ‘Camarada, calma, eu só quero estatizar os meios de produção!’”

Por outro lado, a rica história da reflexão marxista crítica do regime soviético não foi transmitida às gerações posteriores de militantes de esquerda. “Hoje temos jovens esquerdistas obviamente inteligentes e valorosos repetindo coisas sobre a experiência comunista que, sem exagero, nenhum militante do PCB teria coragem de dizer depois dos anos 1960”, observa. “A primeira vez que vi alguém sem problemas mentais óbvios defender o regime da Coreia do Norte faz cerca de cinco anos.”

Por esse motivo, Rocha de Barros considera “valioso” o trabalho teórico realizado por Fernando Haddad em Capitalismo superindustrial. “Pode-se, é claro, discordar de suas teses”, ele escreve. “Mas o debate sobre o socialismo depende do resgate dessa herança crítica.” 

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