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A DESPEDIDA

O fim alegre de um conjunto de refugiados cegos
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Apesar do mau tempo – fazia 13ºC e acabara de cair uma tempestade –, o angolano Jacob Cachinga, de 33 anos, estava radiante na tarde de 12 de agosto, sábado. Trajando um blazer risca de giz azul-marinho e calça social preta, ele foi o primeiro a chegar ao ensaio do conjunto vocal do qual faz parte. Enquanto esperava por seus colegas, parou para conversar com a regente argentina Patricia Fuks, no calçadão da Rua 15 de Novembro, em Curitiba. “Não é porque estamos em uma despedida que precisa ser triste”, disse Cachinga. “Vamos fazer como se fosse uma celebração.” O Vozes de Angola foi criado há mais duas décadas por refugiados do país africano, todos eles cegos.

O conjunto vocal se reuniu para o ensaio em uma sala no quarto andar de um prédio comercial. Pela primeira vez em muitos anos, participaram Camuaso Segundo, que hoje mora em São Paulo, e Victorino Enhama Mbala Elima, que vi­ve em Florianópolis. A regente de 64 anos não se encontrava com Elima desde 2007 e, ao vê-lo, se surpreendeu: “Você não mudou nada. Só está mais alto e com voz mais grave.” Fazendo piada com a própria condição visual, ele respondeu: “A senhora também está igualzinha.” Seus colegas caíram na risada.

Os sete cantores se perfilaram para cantar La Orquesta, do grupo chileno Los Cuatro Cuartos. Com a mão no queixo e olhando para o chão, a regente apurou a audição. Chamou sua atenção o baixo vocal que Elima, de 40 anos, fazia, com seu vozeirão grave. Outro integrante, Rui Kelson Fonseca, de 30 anos, explicou que o colega estava sustentando a canção à moda angolana. “O baixo brasileiro acompanha as modulações da primeira voz. O baixo angolano desce. É diferente”, explicou. Fuks elogiou Elima pelo toque africano que ele trouxe à interpretação.

Em seguida, o Vozes de Angola passou a Trem-Bala, de Ana Vilela, mostrando que consegue renovar as canções mais batidas. O grupo incorporou à música uma vocalização a partir da palavra muxima (“coração”, no idioma quimbundo). O ensaio teve ainda composições do angolano Wilson Madeira, como Eu Quero a Paz, África e Esperança – esta, a mais pedida nas apresentações. “Nossa ideia é levar ao público muito do que aprendemos aqui, mas também do que trouxemos da África. Somos a mistura disso”, explicou a cantora Isabella D’Leonn, de 31 anos.

Os angolanos chegaram ao Brasil em 2001, por intermédio da ONG africana Fundação Eduardo dos Santos. Eram 24 refugiados, com idades que iam de 7 a 14 anos. Todos tinham perdido a visão em decorrência do sarampo ou de traumas e ferimentos na guerra civil em Angola, que durou de 1975 a 2002. Ficaram por algumas semanas em uma instituição em Minas Gerais, até que surgiram denúncias de que sofriam maus-tratos e racismo. O grupo então se dividiu. Quinze refugiados aportaram em Curitiba, onde foram acolhidos no Instituto Paranaense de Cegos (IPC). Os outros nove foram para Florianópolis.

Poucos dias depois de sua chegada, os jovens radicados em Curitiba receberam o convite para um evento do Centro Israelita do Paraná. Lá, conheceram Fuks, que lhes ensinou Oseh Shalom, um hino hebraico de paz. No fim de semana seguinte, ela foi visitar o IPC e teve uma surpresa: os angolanos haviam formado um coral para interpretar Oseh Shalom. Emocionada, a regente decidiu lhes dar aulas de música. Nascia ali o conjunto, inicialmente chamado de Pequenos Cantores de Angola.

“Todos, principalmente as meninas, cantavam muito por causa da saudade. E choravam”, lembra Fuks. “Eram muito assustados, por tudo que sofreram, uma mistura de medo com apatia. Quem olha para eles hoje, assim, fortes e formados, nem imagina o que passaram.” Em 2005, o grupo se apresentou em Brasília diante do presidente Lula e do então ministro da Cultura, Gilberto Gil. Em maio deste ano, cantou para a atual ministra da pasta, Margareth Menezes, em Curitiba.

No IPC, os angolanos aprenderam a ter autonomia. Foram alfabetizados, tiveram aulas de esportes, de informática e de atividades da vida diária (AVD), disciplina que ensina deficientes visuais a executar tarefas cotidianas, como organizar a casa e cozinhar. Em 2015, o governo angolano cortou uma bolsa com o qual se mantinham – de 1 mil reais por pessoa – e ameaçou repatriá-los, pois o visto de cortesia concedido pelo Itamaraty venceria em abril daquele ano. Os refugiados acabaram conquistando um visto permanente. Sem a bolsa, no entanto, as dívidas se acumularam.

Da crise, surgiu uma oportunidade: o grupo foi convidado a participar do quadro “Agora ou Nunca”, do Caldeirão do Huck. Cantaram Mbube (The Lion Sleeps Tonight), canção sul-africana celebrizada pelo filme O Rei Leão – e ganharam o prêmio de 30 mil reais.

A vida dos refugiados vem tomando caminhos diferentes. Alguns deixaram Curitiba, como Maurício Dumbo (que integra a Seleção Paralímpica Brasileira de Futebol de Cinco) e Wilson Madeira (que voltou à Angola, onde abriu um instituto que atende cegos). A república se desfez e quase todos hoje moram sozinhos – exceto Cachinga, D’Leonn e Delfina Amarilis Américo, que dividem uma casa.

Formados em cursos superiores, fazendo pós-graduação ou trabalhando, eles têm planos que não se conciliam com as atividades de um coral. “O grupo está fechando um ciclo. Agora, cada um tem um objetivo”, diz D’Leonn, pós-graduanda em direito. “É uma pena. Cada um deles poderia ser profissional, viver de música”, lamenta Fuks.

As apresentações de despedida começam em 21 de setembro, no Guairinha – um anexo do Teatro Guaíra, em Curitiba. O Vozes de Angola também espera cantar em cidades do interior do Paraná e de outros estados. O show de despedida chama-se Twapandula, palavra que, no idioma umbundo, significa “gratidão”. “Nós queremos agradecer o povo brasileiro, que nos acolheu. Graças às pessoas, conseguimos algo na vida”, diz Cachinga, mestre em bioética.


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É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)