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A ESTÁTUA ANDARILHA

Como John Lennon foi parar em Brasília
Imagem A estátua andarilha

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Todos os dias, milhares de pessoas transitam pelas imediações do Restaurante Universitário da Universidade de Brasília (UnB). Estudantes, professores, funcionários e visitantes circulam entre vendedores ambulantes de artesanato, tabaco, doces, roupas e livros usados, quase sempre sem notar um ilustre habitante de bronze que parece caminhar por ali. Acanhado entre as árvores de um gramado elevado, ele fita o horizonte com um olhar sonhador sob os cabelos longos. A maioria dos passantes ignora se tratar de uma estátua representando John Lennon, que imaginou um mundo onde não haveria “nada por que matar ou morrer” e foi assassinado a tiros, em 1980.

A estátua criada pela artista Ivna Mendes de Moraes Duvivier perambulou muito antes de encontrar sua pousada em Brasília. “Eu adoro essa ideia de uma estátua andarilha. Ela tem um movimento, com um pé na frente do outro, como quem anda. Então, acho curiosa a sina da estátua”, diz o humorista Gregorio Duvivier, de 37 anos, neto da artista. Em 1995, Gregorio, então com 9 anos, esteve na inauguração do monumento na UnB com a avó, o pai Edgar, a irmã Barbara, o então reitor João Claudio Todorov e uma banda local que animou o evento.

Antes do Lennon de bronze desembarcar em Brasília, Ivna buscou lugar para a obra no Rio de Janeiro, cidade onde vivia. Uma placa ao pé da estátua sintetiza miticamente a história: “Ao inventar Brasília, Lucio Costa se antecipou a Imagine, e quando pediu para a sua cidade a estátua de John Lennon, falou: ‘Também sou um sonhador e quero ficar em boa companhia.’”

Ivna Duvivier sempre desafiou os paradigmas de sua época. Foi a única mulher na faculdade de sociologia, na qual se formou, nos anos 1930. Além de se dedicar às artes plásticas, foi escritora e compositora de marchinhas. Gregorio lembra que era uma mulher carismática, implacavelmente sincera. Tinha cabelos de fogo, ia à praia todos os dias e começou a fumar maconha aos 85 anos. Morreu em 2009, aos 93.

Em suas esculturas, gostava de retratar personalidades que, na sua visão, trabalhavam pela paz – figuras tão díspares quanto Mahatma Gandhi e Mikhail Gorbachev. Em 1992, quando o então presidente da União Soviética visitou o Rio, Ivna o presenteou com a estátua, na qual ele aparece caminhando, como Lennon. “Assim mostrei a imagem de guerreiro, homem que luta pela paz e é contrário a qualquer tipo de autoritarismo”, explicou a artista a um jornal.

A estátua de Lennon foi feita em 1982, dois anos depois da morte do músico. Ivna propôs instalá-la no Arpoador, no Rio, mas a oposição foi mais forte. Antônio do Amaral, gerente do supermercado Boulevard, da rede Disco, resolveu adotar a estátua e a colocou no pátio em frente à loja, em outubro de 1983. Lennon ficou lá somente um mês: moradores tradicionalistas de Vila Isabel consideraram uma afronta homenagear um hippie inglês em um bairro de grandes sambistas. O Boulevard, afinal, ficava no prédio onde antigamente funcionou a fábrica de tecidos Confiança, da canção Três apitos, de Noel Rosa.

Surgiram propostas de instalar a estátua no bairro carioca de São Conrado, no Circo Voador, no bairro da Lapa, e fizeram até um abaixo-assinado para recebê-la em uma praça da Tijuca. Mas os protestos dos moradores se repetiram. Um dos detratores afirmou que Lennon “não é brasileiro, era ateu, um drogado, um demônio disfarçado de anjo e não era tão pacifista assim”. Outro o acusou de alienígena. “Parece que a minha obra está encantada, pois até hoje, cinco anos depois de concluída, ainda não pode ser exposta”, queixou-se a autora na época. “Eu acho que quem não faz amor, prefere a guerra. Então ficaram putos com essa história”, diz Edgar Duvivier, que seguiu os passos da mãe como escultor. Ele é autor da estátua de Clarice Lispector, no Leme, entre outras efígies famosas nas ruas do Rio.

Foi o urbanista Lucio Costa, criador do Plano Piloto de Brasília, amigo e primo distante de Ivna, quem requisitou a estátua, prometendo se empenhar para instalá-la no campus da UnB. A cidade modernista, afinal, não havia aberto a modernidade brasileira dos anos 1960, a mesma década da beatlemania? Brasília acolheria muito bem um símbolo da contracultura.

A estátua foi instalada em 1995, no alto da escadaria do Teatro de Arena da UnB e atraiu discípulos fiéis, muitos dos quais adoravam fumar um baseado em boa companhia. Mas havia também os que achavam que “o sonho acabou”: vandalizaram Lennon e ainda lhe roubaram os óculos – e por isso quase ninguém reconhece o misterioso andarilho de bronze que espreita o refeitório.

A oposição patrioteira à estátua reapareceu: muitos consideravam injusto homenagear um gringo quando havia tantos heróis da cultura local. O mais inflamado inimigo da estátua foi o maranhense Teodoro Freire, funcionário da UnB, mestre da cultura popular e fundador do Boi de Seu Teodoro, grupo folclórico que encena o bumba meu boi em Brasília. A professora de artes Thérèse Hofmann, na época coordenadora da Diretoria de Esporte, Arte e Cultura da UnB, lembra que ouviu muitos protestos de Teodoro, que levou suas reivindicações à reitoria. “Ele era um funcionário superantigo e dedicado da universidade, muito arraigado nas tradições culturais e folclóricas do país, e ficou indignado com aquele estrangeiro no Teatro de Arena”, recorda-se Hofmann.

Teodoro Freire venceu: o Lennon andarilho foi de novo recolhido a um depósito.

Só muitos anos depois a estátua encontrou finalmente sua morada perto do Restaurante Universitário. Lá, voltou a sofrer atos de vandalismo – ou intervenções artísticas, dependendo da perspectiva. Em 2012, foi toda coberta de tinta rosa. Depois, pintaram os cabelos de loiro e picharam o “A” de anarquismo em seu peito, perto de onde está gravada a assinatura de Ivna Duvivier.

A despeito dos ataques, o John Lennon de bronze resiste: segue de pé, dando um passo em direção a não se sabe onde, fitando o horizonte de sua utopia – talvez um pouco embaçado, devido à falta dos óculos.


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