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Angélica Santa Cruz Ago 2023 11h15
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Maíra Ferreira tem um assunto recorrente na terapia, um tema que se desenrola em sua cabeça como uma progressão de acordes. “Eu vivo o momento mais feliz da minha vida por causa da experiência mais triste da minha vida”, costuma repetir. Regente titular do Coral Paulistano, criado em 1936 por Mário de Andrade no período em que ele foi diretor do Departamento de Cultura e de Recreação da Prefeitura de São Paulo, Ferreira tem de manter seus 42 artistas coesos na busca da excelência musical e ainda lida com tarefas administrativas. Mas a mais difícil de suas missões é suceder seu grande ídolo, a famosa maestra Naomi Munakata.
Japonesa radicada no Brasil, Munakata fez história ao furar a hegemonia masculina em sua área de atuação com um nível técnico incontestável. Entre outros feitos, comandou por vinte anos o Coral da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, onde formou um público fiel que lotava as apresentações sob sua batuta.
Às 19 horas do dia 16 de março de 2020, Munakata telefonou para Ferreira de dentro do elevador do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Avisou que estava sendo internada na UTI. “Reza por mim, estou achando que é grave”, pediu. A ligação caiu e, horas depois, a regente foi entubada. Munakata morreu no dia 26 de março, aos 64 anos. Pela contagem oficial, esteve entre as 58 primeiras vítimas da Covid no estado de São Paulo. Os integrantes do Coral Paulistano entraram em choque: horas antes de Munakata, a Covid levara o maestro Martinho Lutero Galati de Oliveira, ex-regente do grupo e marido de uma das cantoras.
Coube a Ferreira, na época regente assistente do Coral Paulistano, avisar todos os cantores e, depois, garantir que se mantivessem na ativa durante o isolamento da pandemia, em ensaios online. Começou ali o desafio que a maestra, com seu jeito expansivo e eloquente, define como “para lá de psicanalítico”.
Nascida em Botucatu, no interior de São Paulo, Maíra Ferreira começou a estudar piano aos 9 anos, no Conservatório de Tatuí. Era uma rotina puxada: ela precisava almoçar no carro, entre as duas cidades, enquanto o pai dirigia. Aos 16 anos, entrou na Unicamp, onde fez graduação em piano e, depois, em regência. Achou que ser pianista seria um caminho solitário. Seguiu, então, para fazer um mestrado em regência na Universidade Butler em Indianápolis, nos Estados Unidos. Quando voltou para o Brasil, arrumou emprego na secretaria da Escola Municipal de Música, ligada à Fundação Theatro Municipal de São Paulo.
Não era, portanto, uma neófita no ramo quando entrou em transe ao descobrir que Munakata, de saída da Osesp, voltaria a dar aulas na escola. “Para mim, ela era inatingível”, diz.
A admiração vinha de um conjunto de predicados que enxergava na regente. Ficava besta, por exemplo, com os gestos plásticos, funcionais e expressivos de Munakata diante de um coral. Admirava a maneira como ela tirava dos cantores a sonoridade que queria, com instruções precisas. Pirava na maneira como a maestra, de compleição física miúda, se agigantava quando subia ao púlpito. E concordava quando ela dizia que a voz humana é o instrumento musical mais bonito do mundo. “Então, assim que ela chegou, eu me apresentei. Foi como conhecer a Madonna.”
Quando Munakata assumiu o Coral Paulistano, convidou a jovem fã para estrear um programa em que teria um regente assistente a cada três meses. Mas Maíra acabou ficando por quase quatro anos. Foi uma convivência intensa. Munakata podia ser implacável com a pupila. “Eu assistia aos ensaios dela e ela ficava para ver os meus, o que não é comum entre regentes titulares”, lembra. “Eu odiava, morria de medo, tinha dor no estômago, queria chorar.”
A regente titular às vezes interrompia o ensaio conduzido pela assistente para corrigi-la na frente do coral. Em outras ocasiões, já em sua sala, pedia para a assistente levantar e reger um concerto imaginário – só para ajustar um pequeno gesto. A dureza dos puxões de orelha técnicos era amenizada com presentes: uma mochila estampada, uma panela com moqueca, um creme caro para o rosto. Ferreira retribuía, providenciando cuidados invisíveis, como pedir para o coro inteiro elogiar os óculos novos da regente.
A relação foi se tornando simbiótica. Miúda, Munakata era cautelosa, mas não tinha problemas em expressar carinho fisicamente – beijava todo mundo do coral quando chegava. Achava que as demandas feministas não se aplicavam a ela e já havia aprendido a dizer não. Hoje com 36 anos, Ferreira é expansiva, mas não curte contato físico, ainda diz sim para tudo e integra com orgulho a militância de gênero. “Mas, como ela, não tenho filho, marido, cachorro. Minha vida é para a música”, diz.
Depois da morte de Munakata, Ferreira assumiu o posto de regente titular do Coral Paulistano. Sentiu-se péssima quando se sentou pela primeira vez à mesa onde a chefe e amiga colocava um pote com canetas marcadas com o seu nome. Levantou-se e só voltou meses depois. No pós-pandemia, quando retomou a regência presencial, ouvia ecos da mestra: “Conserta isso, Maíra.” E achava que era uma espécie de traição fazer as coisas do seu próprio jeito.
Até que, em março deste ano, veio a ópera-jazz Blue Monday, de George Gershwin, executada no Salão Nobre do Theatro Municipal de São Paulo junto com peças de pegada jazzística de outros compositores. “Ali fiz algo totalmente fora do escopo do que ela faria. Um repertório em que entre as músicas que a gente cantava estava justamente Let’s Misbehave, de Cole Porter, ou ‘Vamos nos comportar mal!’”, conta Ferreira. “Foi a primeira vez em que me senti confiante para fazer as minhas escolhas. E pensei: afinal foi para isso que ela me treinou.”
Dali em diante, Maíra Ferreira tirou as rodinhas de apoio de sua bicicleta. Adquiriu personalidade própria a partir do que refinou com a antecessora. “Uma das grandes especialidades da Naomi, por exemplo, era o canto a capela – que exige do cantor uma afinação muito precisa, porque não tem o acompanhamento de um instrumento. Maíra está sabendo trabalhar isso muito bem, e do jeito dela”, diz Rosana Civile, pianista do Coral Paulistano. “Este ano ela está conseguindo respirar um novo momento, na forma de lidar com o grupo, de passar conhecimento, de exigir interpretação, de colocar um novo repertório para o coral preparar. E ser maestra, jovem e mulher, não é fácil nesse meio”, afirma Márcio Bassous, tenor do Coral Paulistano que também trabalhou com Munakata durante dezesseis anos no Coro da Osesp.
Da porta para fora, Ferreira vem fazendo espetáculos com sucesso de público e de crítica – que foi particularmente elogiosa em apresentações como o concerto para a Páscoa Paixão Segundo São João, de Arvo Pärt, e a ópera O Machete, de André Mehmari, dessa vez regendo a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro. “Mas ainda não consigo parar de chorar pra caramba nos ensaios e, às vezes, nos concertos, imaginando o que a Naomi diria”, conta Ferreira – enxugando as lágrimas, bem entendido.