esquina
Chico Felitti Fev 2016 16h52
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Quatro horas de uma terça quente na região da avenida Paulista. Protegida pelo ar-condicionado do consultório, a cinquentona de cabelos lisos platinados lançou um último olhar para o par de escarpins de verniz vermelho da Dior, que segurava com as mãos. Balançou a cabeça e colocou os sapatos num saco de lixo, sem se levantar da cadeira de plástico translúcido Ghost em que estava sentada (projeto de Philippe Starck). Em seguida, sacou de uma mala de couro um modelo idêntico, só que de cor preta, e repetiu o gesto.
“É que eu sou um pouco Imelda Marcos”, explicou, comparando-se à ex-primeira-dama filipina, que chegou a reunir 3 mil pares de sapatos em sua coleção. Diante dela estava um homem de meia-idade que guarda impressionante semelhança com o apresentador Fausto Silva depois da cirurgia bariátrica – tanto na pele abundante das bochechas sob os olhos saltados, quanto no relógio gigante que ostentava no pulso esquerdo. “Tenho um mau gosto horroroso para sapatos”, ele comentou, com voz grave, antes de abrir o sorriso.
O interlocutor era o ortopedista Túlio Diniz Fernandes, conhecido na alta sociedade paulistana como o “Doutor Sai do Salto” por incentivar o abandono de sapatos de salto alto no cotidiano e, assim, promover mudanças radicais no guarda-roupa das pacientes. O valor da consulta – 700 reais, sem abatimento para qualquer convênio médico – não chega aos pés do preço dos sapatos mais estrelados da clientela.
A frequência na sala de visitas minimalista vai de filha de banqueiro a senadora. O atendimento às Cinderelas às voltas com problemas de salto ocupa 90% da agenda de Fernandes – as demais horas se equilibram entre a Universidade de São Paulo, onde é professor livre-docente, e o Núcleo de Tornozelo e Pé do Hospital Sírio-Libanês, a dez segundos de caminhada do seu consultório. Seus pacientes são obrigados a caminhar por uma das ladeiras mais acentuadas daquela região da cidade, com inclinação que chega a 14 graus na altura do consultório de Fernandes.
O médico não pisa em ovos quando fala sobre o massacre diário que se impõe ao órgão de locomoção. “Quando se usa salto, o pé é submetido a esforços brutais no simples ato de andar”, ensinou o médico em tom grave, prensando as pontas dos dedos esquerdos contra as dos dedos direitos. “Você tem de se ajudar.”
Não é o que costuma acontecer, e as pessoas só visitam o consultório do doutor depois que aperta o calo – que ele prefere designar por termos técnicos mais específicos, como joanete ou fascite. “É sempre a dor que as traz aqui”, afirmou, olhando para um pé de resina dissecado, que deixa à mostra camadas de músculos, nervos e ossos. “É a dor que as motiva a mudar os hábitos.”
A mudança mais dolorosa é abandonar o arrojo de modelos de pisantes desenhados por sobrenomes como Prada e Versace, para adotar em seu lugar sapatos quadrados e com solas pouco flexíveis. “Vai contra a moda”, reconheceu o ortopedista, antes de começar a folhear um livro de capa dura sobre os sapatos mais notáveis das últimas décadas – nenhum deles é recomendado.
Num voo recente, o médico se viu entediado o suficiente para encarar um documentário de duas horas sobre Christian Louboutin, o estilista francês que assina suas meias-patas e saltos agulha pintando-lhes a sola de vermelho-escarlate. O detalhe serve como um alerta cromático de que um par não sairá por menos de 500 dólares. “Não é meu trabalho criar algo confortável”, diz o sapateiro no vídeo. Longe de o ortopedista desmenti-lo. “Salto é para ser bonito”, concordou Fernandes, antes de esclarecer: “Mas não para usar sempre. É uma questão de uso selecionado.”
Seja como for, se o sapato tiver um desenho anatômico e uma logomarca de elite, ambos os lados sofrem menos. “Minha vida ficou muito mais fácil depois que descobri que a Chanel faz tênis adequados”, suspirou o doutor, referindo-se aos calçados da marca, com um salto plataforma embutido. Fernandes começou a brincar com um pé de sapato que ele considera ideal, exemplar: tratava-se de um modelo preto de papete, sandália presa aos pés com tiras coladas por velcro no peito do pé e no tornozelo. “Uma senhora se recusou a usar por meses, até que encontrou uma solução”, contou o médico, mostrando no computador uma foto da sandália customizada pela paciente: tratava-se da mesma papete quadradona, agora com dois rubis sintéticos colados nas laterais.
Na pasta de seu computador denominada “SAPATOS” o ortopedista guarda fotos desordenadas de modelos que ele ocasionalmente sugere para suas pacientes. A galeria inclui desde tênis com salto plataforma, ideal para uma quarentona que começa a sofrer de joanete, até uma botinha americana de trekking, que ele recomenda para octogenárias com problemas de tendão. As fotos não bastam para as pacientes mais afobadas. “Elas trazem malas inteiras, cheias”, disse o médico. Outras adentram o consultório com sacos de lixo cheios de sapatos de grife, para que o doutor determine qual luxo irá para o lixo.
“Levei tudo o que tinha salto maior que 5 e pedi para ele dizer o que eu podia usar”, contou a dona de uma rede de restaurantes cuja idade está na casa dos 60, assim como o número de pares de sapato no closet. “Tirei da minha vida pelo menos quinze pares depois da segunda consulta.” Louboutins se misturaram com criações de Jimmy Choo e Sarah Chofakian sob o fino plástico preto. “Ia jogar fora na primeira lixeira, mas pensei bem e resolvi doar.”
Somados, os sapatos descartados pela paciente valem o preço de um carro popular. O ortopedista não se fez de rogado ao ser informado do destino que teriam. “Digo que pode dar, sim”, disse ele, abrindo um sorriso antes de finalizar a consulta. “Mas é para oferecer a seu pior inimigo.”