anais da realeza

AS PRINCESAS FUGITIVAS DE DUBAI

Enquanto o governante do emirado defende a igualdade de gênero, quatro mulheres arriscam suas vidas para fugir de seu controle
Imagem As princesas fugitivas de Dubai

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Tradução de Rogério Galindo

Em pleno Mar Arábico, durante uma noite de fevereiro de 2018, a princesa Latifa bint Mohammed al-Maktoum, filha fugitiva do emir de Dubai, olhava maravilhada para as estrelas. A viagem, iniciada poucos dias antes, tinha sido difícil. Usando um bote e um jet ski, ela fora atingida por ondas poderosas, que encharcaram seus pertences na mochila. Depois, subiu a bordo do iate escalado para ajudá-­la na fuga e passou dias devastada pela náusea, enquanto a embarcação balançava sobre as ondas. Mas, naquela noite, o mar estava mais calmo, e ela experimentava um sentimento novo. A princesa estava livre.

Latifa tinha 32 anos e era miúda, com um rabo de cavalo frouxo e intensos olhos escuros. Ao lado, estava sua amiga, a finlandesa Tiina Jauhiainen, sua instrutora de artes marciais que havia auxiliado na preparação da fuga. A noite estava fria e as duas usavam blusas de capuz para se aquecer, mas Latifa insistiu que a amiga dormisse com ela no relento do convés. Exausta, Jauhiainen disse que elas poderiam fazer isso numa outra hora: de agora em diante, haveria oportunidades de sobra para ver as estrelas.

Durante mais de metade de sua vida, Latifa vinha bolando planos para fugir do pai, o xeique Mohammed bin Rashid al-Maktoum, que governa Dubai e serve como vice-presidente, primeiro-ministro e ministro da Defesa dos Emirados Árabes Unidos. O xeique é um aliado dos governos ocidentais, celebrado por transformar Dubai em uma potência moderna. Publicamente, ele colocou a igualdade de gênero no centro de seu plano para elevar os Emirados ao topo da ordem econômica mundial e comprometeu-se a “acabar com todos os obstáculos enfrentados pelas mulheres”. Mas, para sua filha, Dubai era “uma prisão a céu aberto”, onde a desobediência era punida com brutalidade.

Na adolescência, Latifa era espancada ferozmente por desafiar o pai. Na vida adulta, foi proibida de deixar Dubai e mantida sob vigilância constante de guardas. Latifa sabia que uma fuga era um desafio de uma “imensidão insondável”. Ela escreveu: “Vai ser a melhor ou a última coisa que vou fazer. Jamais conheci a verdadeira liberdade. Para mim, é algo que vale correr risco de vida.” (Tive acesso a centenas de cartas, e-mails, mensagens de texto e áudio que Latifa mandou para amigos ao longo de uma década. Deste material, extraí os detalhes pessoais que aparecem nesta reportagem.)

Latifa manteve seu plano em segredo durante anos, enquanto preparava o terreno: treinou esportes radicais, obteve um passaporte falso, contrabandeou dinheiro vivo para uma rede de apoiadores. Na época em que revelou seus planos para Jauhiainen, ela já havia contratado um sujeito com um iate cuja missão seria recolhê-la na costa e levá-la até a Índia ou o Sri Lanka, de onde ela planejava tomar um avião para os Estados Unidos e pedir asilo. Ela só precisava de ajuda para chegar ao ponto de encontro com o capitão do iate, que a aguardaria a 26 km da costa, já em águas internacionais.

Jauhiainen é uma mulher robusta, direta, com maçãs do rosto altas e olhos de um azul frio. Ela se aproximou de Latifa quando lhe dava aulas de capoeira no palácio e decidiu ajudá-la a ver o mundo. “Eu estava tão empolgada”, me disse. “Finalmente, íamos poder fazer isso juntas.” Ela prometeu acompanhar Latifa durante toda a jornada até a liberdade.

Antes de partirem, Latifa foi às escondidas até o apartamento de Jauhiainen, onde haviam depositado equipamentos de mergulho, comunicadores via satélite e peças de bote. Ali, Latifa sentou-se diante de uma câmera de vídeo. Vestida com uma larga camiseta azul, gravou um depoimento de quase 40 minutos, que deveria ser divulgado caso fosse capturada. Seu pai, disse ela, era um “grande criminoso”, responsável pela tortura e prisão de inúmeras mulheres que o desobedeceram. Contou que, dezoito anos antes, sua irmã mais velha amargou muito sofrimento em cativeiro, sob sedação, depois de tentar escapar. E que sua tia havia sido morta por desobediência. Latifa estava fugindo em busca de uma vida “em que eu não seja silenciada”, uma vida em que pudesse acordar pela manhã e pensar: “Eu posso fazer o que quiser hoje, posso ir aonde quiser, tenho todas as escolhas do mundo.” (Os advogados do xeique Mohammed negaram qualquer conduta criminosa da parte de seu cliente, mas se recusaram a responder perguntas detalhadas.)

A bordo do iate, no Mar Arábico, Latifa enviou uma mensagem para uma amiga. “Eu realmente me sinto muito livre agora. Um alvo ambulante, é verdade, mas completamente livre.” Uma semana depois do início da viagem, porém, o capitão avistou outra embarcação, que aparentemente estava no rastro deles, além de um pequeno avião voando em círculos acima de seu iate. Os fugitivos estavam a cerca de 50 km da Costa da Índia, e o barco tinha pouco combustível. Em mensagem para um amigo, enviada no dia 3 de março, o capitão escreveu: “Vão matá-la.”

No dia seguinte, outro avião sobrevoou o iate. Quando a noite caiu, tudo estava calmo, mas, segundo Jauhiainen, Latifa fechou-se num silêncio impenetrável. Perto das 22 horas, as duas mulheres desceram para a cabine. Latifa escovou os dentes no banheiro minúsculo. Quando ela subiu, o ar explodiu numa série de explosões. Ouviu o som de botas pisando no convés. “Eles me acharam”, disse Latifa. As duas amigas se fecharam no banheiro e enviaram uma série de mensagens de socorro. Em pouco tempo, a fumaça das explosões invadia o banheiro pelas frestas de ventilação e pelos buracos das luminárias. Enquanto se debatiam em busca de ar, Latifa pediu desculpas, Jauhiainen lhe abraçou – e as duas desabaram no chão.

As miras laser de rifles de assalto cortavam a escuridão em todas as direções. Homens mascarados levaram as duas à força até o convés, onde o capitão e os tripulantes estavam amarrados. Antes, eles haviam sido espancados. Havia sangue espalhado pelo chão. Com as mãos amarradas às costas, Latifa foi jogada no convés, mas tentou resistir: chutou, gritou, agarrou-se às bordas da embarcação. Enquanto os homens a arrastavam, Jauhiainen ouviu a amiga berrar: “Me matem aqui! Não me levem de volta!” Depois, a princesa sumiu.

O Palácio Zabeel, onde fica o trono do xeique Mohammed bin Rashid al-Maktoum, é uma cidadela de colunas brancas em uma propriedade rodeada por palmeiras, chafarizes ornamentais e pavões que andam à solta. Quando foi construído, em meados dos anos 1960, o palácio ficava isolado no deserto, erguido sobre a areia. Agora, situado entre o turbilhão futurista do Centro de Dubai e os mercados da cidade velha, o palácio, tal como seus ocupantes, equilibra-se entre a modernidade e o passado. Quando recebe convidados, o xeique Mohammed gosta de lembrá-los como os prédios brotaram do chão. “Não tinha nada aqui em 2000”, disse ele para uma equipe de filmagem em 2007, ao gesticular em direção à cidade, como quem afasta a cortina de um segredo. “Mas veja agora.”

Ao nascer, em 1949, o xeique recebeu como herança um minúsculo porto, um dos sete emirados sob controle do Império Britânico. Sua família comandava o emirado a partir de um complexo feito de argila e corais. No verão, dormiam no telhado, borrifando água pelo corpo para se refrescar do calor sufocante. Em seu livro de memórias, My story, o xeique descreve uma infância com raízes na tradição dos beduínos. Aos 8 anos, ele caçava no deserto com cães e falcões. Uma foto dessa época mostra um menino diminuto, com orelhas de abano, fazendo carícias em uma imensa ave de rapina pousada em seu pulso. O livro apresenta sua mãe como uma figura mítica – “com uma postura majestosa que encantava a todos em seu entorno” –, mas também como uma mulher forte, que sabia atirar “melhor que muito homem” e cavalgava “como se tivesse nascido sobre uma sela”. Seu nome também era Latifa.

Quando tinha cerca de 10 anos, o xeique Mohammed acompanhou o pai, o xeique Rashid, em uma viagem a Londres. Ao pousar no Aeroporto de Heathrow, ele olhou a multidão de passageiros – um “símbolo da poderosa economia que o movimentava” – e teve um pressentimento: “Nós, em Dubai, temos potencial para sermos uma cidade global.” Mais tarde, em Downing Street, onde vive e trabalha o primeiro-ministro inglês, o garoto testemunhou seu pai dizendo que Dubai deveria construir seu próprio aeroporto internacional.

Em 1968, quando os britânicos anunciaram a saída do Golfo Pérsico, os Emirados Árabes Unidos, recém-formados, tornaram-se grandes exportadores de petróleo. O xeique Mohammed fez treinamento militar na Inglaterra e, quando voltou para seu país, assumiu um papel central no governo do pai. Meio século depois, ele é saudado como um gênio modernizador que transformou Dubai num próspero centro comercial, com um aeroporto que há muito tempo substituiu Heathrow como o hub internacional mais movimentado do planeta.

Quando o xeique Rashid morreu, em 1990, o costume determinava que seu filho mais velho, o tranquilo xeique Mak­toum, assumisse o governo, mas ninguém tinha dúvidas sobre quem, de fato, estava comandando o país. O xeique Mohammed abriu o espaço aéreo para receber viajantes do mundo todo e criou a empresa aérea dos Emirados. Com isenções alfandegárias e tributárias, criou um dos mais movimentados centros de transporte marítimo do mundo e atraiu empresas e bancos internacionais. Fez de Dubai o primeiro lugar no Golfo a permitir que estrangeiros tivessem propriedades. No boom imobiliário que se seguiu, ostentou as riquezas de Dubai com imponentes marcos arquitetônicos, como o Burj Al Arab (frequentemente citado como o hotel mais luxuoso do mundo) e o Burj Khalifa (o edifício mais alto do mundo). Ainda mais grandiosos são os vários arquipélagos artificiais, incluindo duas ilhas em formato de palmeiras e outra que representa o mapa-­múndi, todas tão extensas que podem ser vistas do espaço.

Em 2006, com a morte de seu irmão, o xeique Mohammed assumiu oficialmente o trono. Internamente, ele cultivava a imagem de um líder árabe tradicional, apresentando-se como um homem dedicado à família, prolífico autor de poesia Nabati e cavaleiro campeão em provas de enduro equestre. No exterior, ele se esmerava em cortejar o Ocidente.

Depois dos ataques de Onze de Setembro de 2001 em Nova York, os Emirados Árabes Unidos se tornaram um aliado crucial na guerra contra o terror. Dubai reprimiu o financiamento ao terrorismo por meio de seus bancos e se tornou o maior entreposto de navegação dos Estados Unidos no exterior. Enquanto isso, o governo dos Emirados e o xeique Mohammed acumularam uma imensa quantidade de bens espalhados em diversos pontos do planeta. Hoje, o xeique é um dos maiores proprietários de imóveis na Grã-Bretanha, com uma coleção de casas que inclui Dalham Hall, imponente residência neoclássica num terreno de mais de 13 km2, e uma mansão de 75 milhões de libras em Surrey, o equivalente a quase meio bilhão de reais. Por meio de seu haras Godolphin, em Newmarket, ele também é dono da maior rede mundial de corridas de cavalos puros-sangues – o que serviu de base para uma valiosa amizade com a rainha Elizabeth, que adorava corridas de cavalos.

À medida que sua estatura crescia, o xeique Mohammed buscou desfazer a percepção de que os Emirados Árabes Unidos eram uma autocracia repressiva. Seu governo aprovou uma lei garantindo igualdade de pagamento entre homens e mulheres e nomeou nove mulheres para cargos de primeiro escalão. Em 2022, em uma mensagem para celebrar o Dia das Mulheres dos Emirados, ele disse que as mulheres são “a alma e o espírito do país”.

Muitos especialistas desdenham as mudanças, dizendo que são insuficientes. “Há mulheres em posições de grande destaque, mas boa parte disso é uma farsa”, me disse Neil Quilliam, um estudioso de Oriente Médio no instituto Chatham, de Londres. “Espera-se que as mulheres se comportem dentro de limites muito estritos. Se elas extrapolam, estarão provocando a desonra de suas famílias.” As mulheres emiradenses continuam a viver sob a guarda de homens, dos quais precisam obter permissão para trabalhar, casar ou separar. Os homens são livres para casar com múltiplas mulheres e delas se divorciarem unilateralmente. Aqueles que matam mulheres podem ser perdoados pela família da vítima, o que leva à impunidade de muitos assassinatos, já que, em vários casos, vítima e homicida pertencem à mesma família.

No clã que governa Dubai, as mulheres exercem um papel dolorosamente duplo: são exaltadas como emblemas do avanço feminino e, ao mesmo tempo, em privado, são obrigadas a “portar a honra” da dinastia. O xeique Mohammed se casou com pelo menos seis mulheres, que deram à luz dezenas de filhos. De acordo com Hussein Ibish, professor no Instituto dos Estados Árabes do Golfo em Washington, a desobediência de uma mulher no círculo do emir provoca uma pergunta “politicamente perigosa” entre os súditos: como você pode nos dizer o que fazer se não controla nem mesmo a sua família? A lógica do poder absoluto exige que eventuais rebeliões dentro da família sejam esmagadas com rapidez e publicamente. “É o patriarcado performativo”, diz Ibish. “Vocês querem ver como eu controlo minha família? Então vejam só isso.”

Latifa passou a primeira década de sua vida sem saber que tinha duas irmãs. Sua mãe, Houria Lamara, era uma beldade argelina que se casou com o xeique Mohammed e teve quatro filhos. Mas Latifa não cresceu com sua família biológica. Ela e seu irmão mais novo foram dados como presentes, ainda bebês, para a irmã de seu pai, que não tinha filhos.

A vida no palácio da tia era “terrivelmente sufocante”, lembraria Latifa mais tarde. Criada por governantas, junto com dezenas de outras crianças, Latifa era obrigada a memorizar o Alcorão. As crianças só raramente eram autorizadas a deixar seus quartos. A tia fazia visitas esporádicas e, quando aparecia, agia com crueldade. Numa ocasião, segundo a lembrança de Latifa, a tia entrou bruscamente em um quarto e espancou as crianças até que seus corpos ficassem cobertos por vergões. (O governo de Dubai se recusou a fazer qualquer comentário sobre esse incidente.)

“Eu me lembro, quando era criança, de estar sempre na janela olhando as pessoas lá fora”, escreveu Latifa. De tempos em tempos, fotógrafos apareciam e a faziam se vestir “como uma boneca, com joias, vestidos e maquiagem”, dizia ela. Os fotógrafos lhe davam filhotes de animais para brincar e aproveitavam para tirar fotos que eram então enviadas para sua mãe, segundo ela ficou sabendo mais tarde. Quando a sessão de fotos acabava, os objetos eram levados embora e Latifa voltava para seu quarto. À noite, ela sonhava que estava empinando uma pipa tão grande, que a levava junto para o céu.

Uma vez por ano, Latifa era levada para visitar Houria e suas outras filhas, Shamsa e Maitha, mas lhe diziam que a mãe era sua tia e as irmãs, naturalmente, eram suas primas. Shamsa, quatro anos mais velha, chamava a atenção. Ela era “cheia de vida e de aventuras”, escreveu Latifa. Era uma “menina que estava sempre atrás de emoções, mas também era uma pessoa cheia de compaixão”. Quando tinha cerca de 10 anos, Latifa descobriu a verdade sobre sua filiação. Shamsa entrou no palácio da sua tia e exigiu que sua irmã e seu irmão mais novos fossem mandados para casa. “Shamsa foi a única que lutou por nós, que nos queria”, escreveu Latifa. “Para mim, ela era uma figura maternal e minha melhor amiga.”

Os irmãos foram então devolvidos para a mãe e o xeique Mohammed os visitava de tempos em tempos. Um funcionário descreve o xeique como “um pai amoroso”, que enchia as filhas de abraços e beijos. Mas ficava furioso com qualquer desafio à sua autoridade. Latifa disse a amigos que, certa vez, testemunhou seu pai dando vários socos na cabeça de Shamsa por tê-lo interrompido. (Os advogados do xeique Mohammed negam que ele tenha sido violento com as filhas.)

À medida que amadurecia, Shamsa começou a se irritar com os limites impostos às mulheres da realeza. Ela queria dirigir, viajar e estudar, e detestava se cobrir com a tradicional abaya. “Shamsa era rebelde e eu também”, escreveu Latifa. “Mas Shamsa tinha o pavio mais curto.” Quando foi proibida de cursar uma faculdade, Shamsa e seu pai entraram em rota de colisão. “Ele nem me perguntou qual era meu interesse”, Shamsa escreveu para um primo. Na época, ela pensou em se matar, mas recuperou sua determinação. “Quero ser completamente autossuficiente”, escreveu. “A única coisa que me assusta é me imaginar velha e me arrepender de não ter tentado quando eu tinha 18 anos.” No início do ano 2000, logo depois de enviar a carta, Shamsa apareceu na porta do quarto de Latifa e disse que estava indo embora. “Quer vir comigo?” perguntou.

Latifa ficou arrasada. Ela tinha 14 anos e Shamsa era seu principal ponto de apoio. Um silêncio pairou entre as duas.

“Deixa pra lá”, disse Shamsa. Ela deu as costas e foi embora.

“Aquele momento ficou gravado na minha memória”, escreveu Latifa. “Porque se eu tivesse dito sim, talvez o resultado fosse outro.”

Longcross Estate é uma mansão imensa na zona rural de Surrey, a uma hora de carro de Londres. Quando comprou a propriedade, o xeique Mohammed tornou-se dono de uma paisagem que o encantara na infância. Em My story, ele relembra andar de carro pelo interior da Inglaterra com seu pai. “Nada poderia ter me preparado para a beleza dessa terra”, escreveu. “Havia colinas verdejantes que se estendiam pelo horizonte como ondas no mar.”

Durante o verão, quando o calor em Dubai se tornava opressivo, o xeique Mohammed levava suas esposas e filhos favoritos para a Inglaterra. Em 2000, apesar da rebeldia de Shamsa, ela teve permissão para ir a Longcross. Shamsa adorava a Inglaterra e chegou a comentar com Latifa que era seu lugar preferido. Ela também tinha uma queda por um dos seguranças britânicos do seu pai: um ex-policial e ex-oficial do Exército de 40 e poucos anos chamado Grant Osborne. Shamsa tentou se aproximar de Osborne, de acordo com um amigo com quem ela conversou diversas vezes naquele verão, mas ele a evitou.

A segurança em Longcross era pesada: a propriedade era monitorada por um circuito interno de câmeras e os guardas faziam a ronda. Mas, em uma noite de junho, quando a casa estava quieta, Shamsa se esgueirou pela escuridão e entrou em uma Range Rover preta, que alguém deixara ali perto. Embora nunca tivesse recebido permissão para dirigir, ela conseguiu dar partida no carro e saiu guiando pelo terreno. Quando chegou ao muro externo, abandonou o carro e saiu a pé por um portão. Na manhã seguinte, quando o carro abandonado foi descoberto, o xeique Mohammed saiu de helicóptero de sua base equestre para liderar a caçada.

Empregados se espalharam pela área em carros e a cavalo, mas a única coisa que encontraram foi o celular de Shamsa, caído do lado de fora do portão. Ninguém em Longcross tinha a menor ideia do seu paradeiro – mas, em Dubai, Latifa teve notícias da irmã. Ela estava hospedada em um hostel no sudeste de Londres e tinha conseguido um novo celular. Estava pensando no que devia fazer.

No dia 21 de junho, Shamsa entrou em um escritório modesto numa ruazinha do West End de Londres. Foi recebida por um sujeito de olhos azul-­claros e queixo pouco definido: era um advogado chamado Paul Simon, cujo nome ela achou nas Páginas amarelas. Shamsa contou que fugira da família real de Dubai e queria pedir asilo. Simon não estava habituado a lidar com aquele tipo de coisa. Em geral, seu escritório tratava de casos rotineiros de imigração, obtenção de vistos de trabalho e pedidos de cidadania. Mas ele alertou Shamsa que seu pedido quase certamente seria negado “tendo em vista a relação amigável” entre o Reino Unido e os Emirados Árabes Unidos.

Shamsa se encontrou por mais duas vezes com Simon nas semanas seguintes. Agora, ela estava hospedada na casa de um amigo australiano em Elephant and Castle, no Sul de Londres, numa área de ruas sujas e conjuntos habitacionais populares. Em conversa com Simon, ela contou que estava com receio de que seu pai a localizasse e a forçasse a voltar para Dubai, mas o advogado disse que não tinha condições de ajudá-­la, a não ser que ela apresentasse seu passaporte. O documento, porém, estava de posse da família.

Shamsa estava ficando sem opções. Ela contou para Latifa que o pai visitara um amigo dela nos Emirados e ofereceu ao rapaz um Rolex, caso ele conseguisse encontrá-la. A essa altura, Shamsa desconfiava que o telefone do amigo estava grampeado, mas, mesmo assim, continuou ligando para ele. Latifa ficou chocada com a imprudência da irmã, porém pensou: “Ela não tem mais ninguém com quem falar.”

No fim daquele verão do Hemisfério Norte, Shamsa procurou Osborne, o segurança, e implorou por ajuda. Dessa vez, ele respondeu de modo mais amistoso e ofereceu-se para levá-la a Cambridge, onde ele reservou duas noites no University Arms, o hotel mais antigo e imponente da cidade. (Osborne disse que esse relato continha “informações incorretas e falsas”, mas se recusou a apontar problemas específicos.)

Em 19 de agosto, Shamsa e Osborne foram flagrados em um circuito interno de câmeras saindo do hotel e entrando em um carro. Ela estava bêbada. Osborne assumiu o volante. Ele levou Shamsa até uma ponte ali perto, parou o carro abruptamente e saiu do veículo. Era uma emboscada. Quatro homens dos Emirados entraram no carro e saíram em disparada. Shamsa foi levada para a propriedade de seu pai em Suffolk, perto de Newmarket. Passou uma noite desoladora na mansão Dalham Hall. Quando o dia raiou, foi retirada às pressas do país e levada para Dubai.

No dia 1º de setembro, uma mulher de Surrey chamada Jane-Marie Allen chegou de uma viagem e encontrou uma mensagem estranha na sua secretária eletrônica, deixada por alguém cujo nome soava como “Shansa”. A voz disse que tinha sido “levada de volta para Dubai contra a sua vontade”, e pedia que seu advogado, Paul Simon, fosse avisado. Jane-Marie Allen não conhecia a mulher – devia ser um engano, presumiu –, mas era nítido que aquela pessoa estava com problemas. Então, ligou para a polícia.

Autoridades de Surrey entraram em contato com Paul Simon e ficaram sabendo de seus encontros com Shamsa. Quando souberam que se tratava de um membro da família real de Dubai, repassaram o caso para a Unidade Especial, a divisão da polícia britânica que lida com questões de segurança, terrorismo e visita de líderes estrangeiros ao país. As autoridades entraram em contato com representantes da família que, de acordo com os registros policiais, insistiram “não ter conhecimento do nome nem do referido incidente”. Não se sabe se os policiais acreditaram na mentira, mas concluíram – depois de consultar Simon – que Shamsa tinha acesso a um telefone e poderia ligar para a polícia se julgasse necessário. O caso foi então encerrado sem registro de qualquer crime. (Simon não aceitou dar entrevista, alegando confidencialidade entre advogado e cliente.)

Seis meses depois de ter sido levada de volta para Dubai, Shamsa enviou um e-mail para Paul Simon. “Estou sendo vigiada o tempo todo, por isso vou direto ao ponto. Eu fui pega”, escreveu ela. “Paul, eu sei quem são essas pessoas, elas têm muito dinheiro, muito poder, e acham que podem fazer qualquer coisa.” Shamsa estava sendo mantida no palácio, em Dubai, e dizia que os guardas de seu pai estavam tentando “me apavorar e me subjugar”. Mas Shamsa tinha encontrado um meio de mandar mensagens para fora do palácio ao convencer uma funcionária a esconder bilhetes nos cabelos, entregando as mensagens para Latifa e outras pessoas que a apoiavam. Em um dos bilhetes, Shamsa instruía Simon a envolver as autoridades britânicas no seu caso “imediatamente”.

Simon voltou à polícia e transmitiu o recado de Shamsa: ela tinha sido retirada do país contra a sua vontade, numa infração às leis do Reino Unido. (Os advogados do xeique Mohammed negam isso.) Quando prestou depoimento às autoridades, Simon disse tudo que sabia, mas afirmou que sua “falta de competência e de expertise” fora do campo da lei da imigração significava que ele não podia mais atuar em nome de Shamsa. Seu relato tramitou lentamente pela burocracia britânica. Da polícia de Surrey, voltou para os escalões sigilosos da Unidade Especial, antes de chegar à mesa de um graduado detetive em Cambridgeshire, cujo escritório, por acaso, ficava em frente ao hotel University Arms, o último lugar em que Shamsa tinha sido vista.

Numa manhã em fevereiro de 2001, o inspetor-chefe David Beck bebia uma xícara de café enquanto examinava a estatística mensal de crimes no momento em que um integrante do Grupo Especial lhe entregou uma pasta. Ele leu os papéis e, à medida que avançava na leitura, crescia seu espanto. Um policial menos graduado foi enviado ao University Arms para checar o circuito interno de câmeras e trouxe de volta uma cópia de imagens. Nelas, Shamsa e Osborne apareciam saindo juntos do hotel. David Beck tinha duas filhas mais ou menos da idade de Sham­sa e, segundo me disse, sabia que adolescentes podiam criar “dificuldades” para suas famílias. Olhando as imagens das câmeras de segurança, ele se perguntou: “Será que você só está tentando criar problemas para o seu pai? Ou você está falando sério?”

Beck entrou em contato com Simon, que lhe contou que Shamsa agora tinha um celular. Latifa que, de vez em quando, mandava roupas e outros itens para a irmã, dera um jeito de lhe enviar também o telefone. Quando Beck ligou para o número, segundo anotou em um memorando, Shamsa falou do envolvimento de Osborne em sua captura e deu os nomes de três dos homens que, de acordo com ela, haviam participado da emboscada na ponte. Entre eles, estava o chefe do Serviço Aéreo de Dubai, que providenciava helicópteros e pilotos para o xeique. De acordo com Shamsa, ela fora levada para Dalham Hall, onde foi sedada à força. No dia seguinte, a colocaram num helicóptero com destino à França, onde encontrou um antigo empregado do seu pai – um britânico chamado David Walsh. Dali, foi posta num avião privado com destino a Dubai. (Walsh se recusou a comentar.)

As investigações confirmaram outros episódios da história de Shamsa. Na data em que foi raptada em Londres, um funcionário da alfândega contou ter recebido, perto da meia-noite, uma ligação de um piloto de helicóptero que trabalhava para o xeique Mohammed. O homem no telefone informou que, na manhã seguinte, um voo partiria de Dalham Hall com destino à França. De acordo com outro piloto, o mesmo homem confidenciou que aquela viagem precisava ser feita com toda a discrição porque a família “não queria que ninguém no Reino Unido fosse envolvido”.

Quando esteve em Dalham Hall para entrevistar os funcionários do xeique Mohammed, Beck foi recebido por um advogado que, educadamente, disse que ninguém estava pronto para falar com ele. “Aquilo foi o primeiro sinal para mim de que as coisas não seriam tão fáceis quanto eu tinha imaginado”, disse ele. A essa altura, Beck identificara um quarto suspeito do rapto de Shamsa: Mohammed al-Shaibani, um homem elegante e culto que comandava o escritório privado da família real de Dubai no Reino Unido. Pouco tempo depois, Al-Shaibani ligou cordialmente oferecendo ajuda. Quando Beck lhe disse que ele estava entre os suspeitos, Al-Shaibani rapidamente encerrou a ligação. (Al-Shaibani nega qualquer envolvimento no rapto. Também nega que tenham lhe dito que era suspeito.)

Nos bastidores, o escritório do xeique estava fazendo lobby junto ao governo inglês sobre o inquérito. Beck foi informado disso por Duncan Norman, um funcionário do Escritório de Assuntos Estrangeiros do governo do Reino Unido, que lhe pediu um relatório sobre o caso. O detetive estava com um pé atrás – ele me disse que nunca gostou do “mundo de apertos de mãos secretos” – e enviou apenas as informações principais. Norman quis mais detalhes. Em suas anotações, Beck escreveu: “Mais tarde ele me disse que o secretário de Relações Exteriores recebeu ordens de se manter informado sobre qualquer desdobramento.”

Norman, que mais tarde foi promovido e hoje é um diplomata graduado, me disse não se lembrar do caso de Shamsa. Sir William Patey, que na época era chefe do Departamento de Oriente Médio no Ministério de Relações Exteriores, também disse não ter memória de Shamsa, mas admitiu que o governo estava atento a tudo que pudesse contrariar a família real de Dubai. “Os Emirados Árabes Unidos são um grande parceiro comercial, um aliado estratégico”, disse. “Mohammed bin Rashid é um grande amigo de corridas de cavalo da nossa falecida rainha”, completou, emendando uma frase cheia de “aqui”. “Eles têm interesses aqui, queremos incentivar investimentos deles aqui e preferimos que as questões relativas à honra da família não sejam objetos de litígio aqui.”

No fim do ano, o jornal The Guardian obteve novidades sobre a investigação de Beck. A reportagem informava que Shamsa relatara aos detetives, por telefone, detalhes do seu rapto. Logo depois, Shamsa perdeu todo contato com o mundo exterior e foi colocada sob sedação pesada. “Foi um dia muito difícil para mim”, escreveu Latifa mais tarde.

Enquanto pensava no que fazer, Beck revisou suas anotações. Em um memorando, ele havia mencionado outro incidente que chamou a atenção do governo britânico no ano do desaparecimento de Shamsa. Em abril daquele ano, houve outro caso de risco de rapto no Reino Unido e também envolvia a realeza de Dubai.

A xeica Bouchra bint Mohammed al-Maktoum fez seu début em Londres no primeiro semestre de 2000. Marroquina, 27 anos, cabelos ruivos até a cintura, ela se casara ainda adolescente com o xeique Maktoum, irmão de Mohammed. O marido era trinta anos mais velho que ela. Com a maturidade, no entanto, a xeica passou a sentir uma frustração crescente com as limitações da vida em Dubai.

Em Londres, Bouchra se instalou com seus três filhos pequenos em uma mansão de estuque branco na Lowndes Square, na elegante região de Belgravia, e deu uma entrevista para a revista Hello!, na qual falou sobre sua missão: “Quero que as mulheres de meu país tenham a coragem de mostrar aquilo de que são capazes de fazer.” A entrevista foi publicada em sete páginas, com fotos em que Bouchra aparecia reclinada em almofadas douradas, usando calças jeans brancas e botas de couro envernizado.

Ela era pintora e contratou um relações públicas, Nick Hewer, para organizar uma grande exposição de seu trabalho, seguida de um leilão para arrecadar fundos para os Médicos Sem Fronteiras. Segundo ela, sua crescente fama no Ocidente poderia ajudar seu marido, que vinha sendo fustigado pelo poderoso irmão mais novo – “O Barba”, co­mo ela se referia ao xeique Mohammed. “Ele está empurrando meu marido para as sombras”, protestava.

Bouchra imaginou que a exposição reuniria uma multidão de homens ricos dos Emirados, dispostos a pagar preços generosos por suas telas. A peça central, que ela chamou de La nature, retratava uma paisagem por meio de joias: um córrego na montanha estava cravejado de topázios, águas-marinhas e granadas, debaixo de estrelas de diamante. Mas La nature foi vendida por apenas 9 mil libras esterlinas (cerca de 55 mil reais, em valores de hoje) – uma quantia que, aparentemente, Bouchra deu ao namorado de sua cabeleireira para estimular o aumento do valor dos lances. Nenhum dos convidados dos Emirados apareceu. Como Nick Hewer lembraria mais tarde, aquela cena foi um dos primeiros sinais de que Bouchra estava encrencada.

Depois do leilão, a xeica passou a se comportar de forma cada vez mais solta. Uma vez, convidou Hewer para sua mansão na Avenida Foch, em Paris, e apareceu vestindo um macacão prateado, colado no corpo, e levou-o à casa de shows Lido, carregando os três filhos pequenos a reboque. Ele ficou escandalizado quando dançarinas burlescas cercaram a mesa deles, usando tapa-sexo de strass e tapa-mamilos com borlas, enquanto os seguranças de Bouchra, vindos dos Emirados, desviavam o olhar. “Foi totalmente inapropriado”, disse He­wer. Bouchra parecia estar calibrando seu comportamento para chamar atenção. Quando Hewer a visitou em casa, achou-a “muito recatada, tranquila, graciosa”, com uma ternura sincera pelos meninos. Em público, porém, “ela fazia um showzinho”.

Num dia de abril, Hewer recebeu uma ligação desesperada do irmão mais novo de Bouchra, que estava visitando a irmã em Londres. “A xeica foi raptada!”, disse. Bouchra já estava no Aeroporto de Farnborough, nos arredores de Londres, dentro do avião particular do xeique Mohammed, e os guardas dos Emirados tinham ido à sua casa para buscar seus filhos. Ao fundo da ligação, segundo Hewer, dava para ouvir “todo tipo de tumulto”, enquanto a babá das crianças se debatia com os homens.

O incidente levou a um impasse no aeroporto. A babá chamou a polícia para relatar que os meninos tinham sido raptados. A Scotland Yard rastreou os garotos até a pista de decolagem e o avião foi mantido em solo. Patrick Nixon, embaixador do Reino Unido nos Emirados Árabes Unidos, me disse que recebeu uma ligação de um diplomata emiradense, exigindo que ele “entrasse em contato com a polícia e os mandasse deixar o avião partir”. Nixon se recusou a fazer isso, sugerindo que o diplomata levasse sua reclamação ao Ministério de Relações Exteriores. Logo depois, o avião recebeu permissão para decolar. De acordo com um ex-­servidor público, as autoridades do Ministério de Relações Exteriores viam incidentes desse tipo como “mais uma disputa de família em que os emiradenses estão se comportando de modo irresponsável”. Ele acrescentou que o rapto de Bouchra seria “uma notícia a ser esquecida em 48 horas” – um incômodo passageiro. Depois que o avião decolou, “a mulher ficaria incomunicável”, e portanto “não haveria muita pressão para se fazer alguma coisa”.

Quando o jornal The Daily Telegraph publicou uma reportagem sobre o impasse no aeroporto no dia seguinte, a Scotland Yard desdenhou da história, dizendo que era “basicamente um caso doméstico”. Um porta-voz afirmou que as autoridades “rapidamente confirmaram que as crianças estavam em segurança”, e o imbróglio não passava de “um mal-entendido entre parentes”. Mais tarde, porém, Nixon soube, por meio de seus contatos nos Emirados, que Bouchra fora “trancada numa casa em Dubai”. Uma fonte com acesso à família real confirmou: “Eles a transformaram numa prisioneira doméstica e ficavam dando tranquilizantes para dizer que ela era maluca.”

Em 2007, o ano seguinte à morte do marido de Bouchra e da ascensão do xeique Mohammed ao governo, espalharam-se rumores nos círculos palacianos de que ela havia morrido. Tinha 34 anos. Alguns diziam que Bouchra morrera dormindo. Mas, naquele vídeo que gravou antes de começar sua própria fuga, Latifa acusava o seu pai pela morte. “O comportamento dela era ultrajante demais”, disse ela. “Ele se sentiu ameaçado por ela e por isso a matou.” Ela repetiu a afirmação em várias cartas endereçadas a amigos. Em uma delas, Latifa disse que Bouchra foi espancada até a morte pelos guardas do seu pai.

Os advogados do xeique negam tudo, mas o relato de Latifa foi confirmado por duas fontes próximas à família real. “Eles não tiveram piedade”, disse um deles. “Mataram porque ela era um problema para eles. Ela era uma mulher forte que defendia seus direitos.” Um ex-funcionário do xeique me disse: “Ela foi assassinada. Viva num minuto, morta no minuto seguinte.”

Anos depois, Hewer recebeu uma mensagem de um número desconhecido em Dubai. A mensagem informava que um dos filhos de Bouchra ia se casar e o presente de casamento mais significativo para ele seria uma tela que sua mãe pintara. Hewer respondeu perguntando se sua ex-cliente estava viva. A resposta veio acompanhada de um coração partido e a seguinte mensagem: “Mama Bouchra faleceu em 2007. Que sua bela alma descanse em paz.” Hewer tinha ficado com La nature. Ele embrulhou a tela que ninguém quis e a mandou para quem queria.

No primeiro semestre de 2002, quase dois anos depois do rapto de Shamsa, David Beck finalmente recebeu uma declaração de Al-­Shaibani, que comandava o escritório privado da família real de Dubai no Reino Unido. Em inglês formal, Al­Shaibani confirmava que fora de carro até Dalham Hall na companhia dos três homens que Shamsa acusava como seus raptores, mas negava que ela estivesse no veículo. “O trajeto transcorreu sem incidentes”, ele escreveu. “Recordo de uma conversa genérica sobre falcões.” Pouco depois de chegarem a Dalham Hall, ele saiu para pegar uma refeição e, quando voltou, viu que “havia uma senhora presente”.

Al-Shaibani alegava não conhecer a mulher, mas escreveu que ela “parecia confiante, alegre e falava alto. Na verdade, vim a crer que ela havia bebido”. Na manhã seguinte, ele a viu partir de helicóptero. Se a mulher era de fato Shamsa, então “ela não foi levada de Dalham Hall contra a vontade”.

Beck decidiu que precisava falar com Shamsa pessoalmente e pediu autorização para viajar a Dubai. O Ministério Público (CPS, na sigla em inglês) informou que o pedido seria analisado pelo Ministério de Relações Exteriores. Várias semanas depois, Beck foi informado que seu pedido fora recusado. A notícia era exasperante, mas Beck me disse que já esperava uma negativa. “Quando você é rico e poderoso, pode infringir a lei que quiser neste país”, disse. Ben Gunn, chefe de polícia em Cambridgeshire na época, me disse que Beck havia obtido “provas claras” de que Shamsa fora “raptada na rua”, mas o caso não foi em frente. “A política interveio”, suspeitava ele.

O Ministério de Relações Exteriores, ao ser abordado, insistiu que não interfere na fiscalização da lei. Um porta-voz, no entanto, se recusou a responder perguntas detalhadas sobre o caso de Shamsa. Autoridades também se negaram a fornecer documentos relativos à investigação, alegando que “reduziria a capacidade do governo do Reino Unido de proteger e promover os interesses do Reino Unido”.

Raj Joshi, que comandava a divisão de crimes internacionais do CPS na época da solicitação de Beck, disse que seu trabalho era frequentemente impedido pelo Ministério de Relações Exteriores. Embora não tenha se envolvido no caso de Shamsa, Joshi considerou o encerramento da investigação de Beck “uma afronta à Justiça”. Disse ele: “De fato é irritante que nós deixemos que interesses econômicos e de outros tipos se sobreponham àquilo que é certo.”

Falei com Beck via Zoom em outubro de 2022. Aposentado há muito tempo, ele hoje vive com a esposa numa cidadezinha à beira-mar, em Yorkshire. “Forças fora de meu controle influenciaram o curso dos acontecimentos”, disse. No entanto, ele jamais tentou falar com dois dos suspeitos indicados por Shamsa: Grant Osborne e David Walsh, que viviam na Grã-Bretanha. E aceitou o resultado sem protestar. “Esse tipo de decisão acontece num nível hierárquico muito acima do meu”, disse, dando de ombros. “Você basicamente tem que aceitar.”

Nos anos seguintes, as relações do governo britânico com Dubai ficaram ainda mais próximas. O xeique Mohammed colocou centenas de milhões de libras em corridas de cavalos no Reino Unido. Ele aparecia com frequência ao lado da rainha Elizabeth em Ascot, sentado no Camarote Real com a rainha e, inclusive, viajando para o evento na carruagem da rainha, liderando a procissão real. “O xeique Mohammed bin Rashid sempre teve a vida facilitada em razão de sua conexão em Newmarket, para dizer de modo simples”, disse Nixon, o ex-embaixador. “O dinheiro fala alto”, acrescentou. “Consegue o que quer.”

Num sábado em junho de 2001, o inspetor-chefe Colin Sutton estava em casa em Surrey quando recebeu uma ligação da central de monitoramento. Havia informações sobre um crime grave em Longcross Estate, a propriedade do xeique Mohammed: uma prostituta de 20 anos dizia ter sido levada por um motorista de Londres até a propriedade, onde fora mantida em cativeiro e repetidamente estuprada por um membro da família real de Dubai.

Sutton ia começar a investigar, mas, em seguida, recebeu uma segunda ligação, de um colega do Grupo Especial. Segundo ele, seu colega informou que a ocorrência já fora resolvida “entre os governos”. “O caso envolvia uma mulher que tinha sido finalmente libertada depois de dias sendo submetida a todo tipo de abuso e disseram para a gente mais ou menos assim: ‘Não se preocupem, ela foi paga pelo tempo dela e o esporte favorito de Sua Majestade pode continuar normalmente neste país’”, me disse Sutton.

A polícia de Surrey diz que enviou investigadores a Longcross Estate, que acessaram a propriedade com ajuda do Grupo Especial, mas não foi possível confirmar a identidade do suposto estuprador. Nenhuma queixa foi formalizada. Um porta-voz disse que a apuração foi rigorosa, sem indícios de intromissão do governo. Porém, vários membros graduados do Ministério de Relações Exteriores me disseram que as queixas criminais envolvendo membros da realeza de países do Golfo Pérsico costumam ser resolvidas longe dos olhos do público.

Três motoristas que trabalharam para a família real de Dubai por anos me disseram que costumavam receber ordens para pegar prostitutas em Londres e levá-las para Dalham Hall quando o xeique Mohammed e sua comitiva estavam na residência. Eles contaram que apanhavam as mulheres no hotel Carlton Tower de Londres, que também pertence ao monarca de Dubai. Algumas eram profissionais experientes, mas outras eram jovens no fim da adolescência ou com 20 e poucos anos, recrutadas por olheiros em boates, algumas das quais usavam o dinheiro para pagar seus estudos. As mulheres não sabiam para onde estavam sendo levadas, e os seguranças confiscavam seus celulares antes que entrassem na casa. Os motoristas não sabiam dizer exatamente o que acontecia lá dentro ou quem estava envolvido. Quando a sessão acabava, eles eram convocados para levar as mulheres de volta.

Um dos motoristas usa óculos e tem cara de inteligente, como uma coruja. Está na casa dos 70 anos e se chama Djuro Sinobad. Ele chegou à Inglaterra vindo da Sérvia e trabalhou como motorista em Newmarket durante dezessete anos, até o fim de 2020. Sinobad me disse que algumas das mulheres mais jovens que ele conduziu até a residência ficavam nervosas ao perceber o que estava à sua espera. Uma delas, lembrou ele, saiu correndo seminua pelo gramado de Dalham Hall e foi perseguida por um dos membros da equipe do xeique Mohammed, que a capturou em uns arbustos e a espancou com um porrete. “Ela estava em estado de choque”, disse ele. “Havia marcas nas costas dela.” Na volta para Londres, ela chorou durante todo o trajeto.

Em outra ocasião, Sinobad levou um grupo de mulheres de volta para o Carlton Tower no início da manhã. Todas desembarcaram, menos – “uma jovem e doce menina inglesa”. Quando a abordou para ver o que estava acontecendo, percebeu que a garota estava chorando e havia sangue no banco onde estava sentada. “Ela tremia, como alguém que chora, mas não chora alto”, descreveu ele. “Como um cachorro.”

Trevor Holtby, outro motorista que trabalhou por muito tempo na propriedade, me disse: “Algumas mulheres não gostavam do que estavam sendo forçadas a fazer.” Mas outro, Godwin Nim­rod, tinha impressão contrária. Disse que as mulheres pareciam contentes e bem pagas. “Os envelopes eram gordos”, lembrou ele. “Quando elas estavam no banco de trás, dava para ouvi-las brincando com as notas de 50 libras.” Um motorista do Carlton Tower me disse: “Eu ficava constrangido, mas ninguém forçava ninguém, elas não estavam sendo algemadas para entrar no quarto.”

O método não era aplicado apenas no Reino Unido. Um ex-guarda-costas que viajava com o xeique Mohammed disse que grupos de mulheres frequentavam as suítes do hotel onde o monarca se trancava com sua comitiva. Acontecia quase todas as noites, independentemente do país onde estivessem.

Em Dubai, uma fonte próxima à família real lembra de ter visto o xeique Mohammed em seus aposentos privados, no Palácio Zabeel, reclinado com cerca de vinte mulheres jovens. (Vários dos antigos funcionários com quem eu falei foram demitidos em condições que consideram injustas. Sinobad entrou com uma ação contra sua demissão. Os advogados do xeique Mohammed negam que ele tenha explorado prostitutas.)

No entanto, alguns consideravam que, em comparação com seu irmão mais velho, o xeique Mohammed tinha apetites moderados. Quando viajava para o Reino Unido em seu avião particular, o xeique Maktoum levava meninas menores de idade, segundo vários dos motoristas que entrevistei. Em Londres, elas eram alojadas em endereços em torno de Knightsbridge e recebiam dinheiro para pequenos gastos. Tanto Sinobad quanto Holtby me disseram que levaram meninas desses alojamentos para a residência do xeique Maktoum. Segundo eles, algumas levavam bonecas e ursinhos de pelúcia. Holtby se lembra de ter pegado meninas que faziam o trajeto em roupas de dormir.

Os dois disseram que ficavam enojados com o trabalho que faziam, mas não podiam se dar ao luxo de pedir demissão. Se reclamavam, eram excluídos da equipe do xeique Maktoum, mas continuavam vendo meninas chegando e indo embora. Nimrod disse: “Todos os motoristas sabiam que ele estava com essas meninas, e que elas eram menores de idade.”

Encontrei Nimrod e Sinobad num pub em Knightsbridge numa tarde gelada de janeiro. Nimrod, um homem pequeno, de óculos, usava um gorro de lã. Sinobad estava com uma blusa azul de tricô. Os dois motoristas tomavam conhaque e contavam memórias do xeique Mohammed. Diziam que o monarca os tratava bem e que, às vezes, depois de encerrar sua refeição, até os convidava para comer na sua mesa. “O xeique Mo é um cara bacana”, disse Nimrod. “Ele dava ‘oi’. Não te ignorava.” No começo, Sinobad concordou. Mas, à medida que Nimrod ia contando mais sobre os gestos de bondade do antigo patrão, Sinobad foi ficando agitado. “Isso tudo para esconder a parte repulsiva”, disse. “Eles não são bons, especialmente com as mulheres e as meninas.” Ele ficou melancólico por um tempo e então disse: “É duro ver as meninas chorando no banco de trás do carro.”

Numa noite de junho de 2002, Latifa pegou uma tesoura e cortou seu cabelo rente ao couro cabeludo. Cobriu suas roupas com uma abaya, colocou um par de tênis azul-acinzentado e encheu uma mala com dinheiro, água, alicates e uma faca com cabo em forma de soco inglês. Depois, saiu se esgueirando da casa da mãe e pulou o muro. Ela tinha 16 anos. Foi a primeira vez que saiu sozinha. Seu plano, segundo escreveu mais tarde, era “atravessar a fronteira com Omã sem ser notada” e “encontrar um advogado para ajudar minha irmã que era mantida como prisioneira”.

Latifa pegou um táxi até uma área perto da fronteira. No caminho, ela parou um ciclista que estava passando e o convenceu a lhe vender a bicicleta. Em seguida, enquanto o Sol subia sobre o deserto, pedalou até chegar a uma cerca e cortar o arame para passar para o outro lado. Quando um carro do Exército se aproximou, ela continuou andando, mas, antes que pudesse ir muito longe, homens camuflados saíram do carro e a colocaram no banco de trás.

Levada a uma delegacia de polícia, Latifa foi recebida por um sujeito “com cara de sapo” que trabalhava para o seu pai. O sujeito a levou para casa, onde, segundo ela mesma, foi espancada até seu nariz sangrar. A mãe assistiu à cena: “Ela estava bem-vestida e toda maquiada com batom lilás, porque estava esperando uma visita do meu pai.”

Quando a surra acabou, Latifa foi colocada num carro e levada para uma prisão localizada no deserto. Ao chegar numa cela, recebeu ordens de tirar os sapatos. Depois, um dos guardas a manteve estendida no chão, enquanto outro batia com uma ripa de madeira na sola dos seus pés. “Eles me bateram com toda a força”, ela escreveu, em um relato detalhado sobre sua prisão. A sessão de tortura durou cinco horas e, quando terminou, deixou-a sem poder andar. Ela precisou se arrastar pelo chão para tomar água de uma torneira perto do banheiro. Calçou um par de tênis, na esperança de que servissem como uma espécie de gesso de proteção, e adormeceu. Enquanto dormia, foi subitamente acordada por guardas que a arrastaram para fora da cela e lhe aplicaram outra surra. (Os advogados do xeique negam que ele tenha maltratado ou prendido Latifa.)

Latifa ficou presa por treze meses. Dormia num colchão fino, manchado de sangue, usando as mesmas roupas desde sua fuga. Não tinha sabonete nem escova de dentes. Às vezes, as luzes eram apagadas por dias a fio. Ela se movimentava no escuro. “Fui tratada pior do que qualquer bicho”, escreveu.

Num dia, em julho de 2003, ela foi tirada de sua cela e colocada num veículo. “Eu não me movia havia um ano e um mês, e o carro pareceu uma montanha-russa”, escreveu. Ela foi levada para casa, onde sua mãe a cumprimentou como se nada tivesse acontecido. Quando se viu no espelho, Latifa ficou horrorizada com seus olhos fundos e os ossos salientes do quadril. Durante uma semana, ela tomou cinco banhos por dia, se deliciando com sabonetes e toalhas novas. E então explodiu. “Eu estava tão triste, brava e inconsolável”, escreveu. Gritava várias vezes que queria ver Shamsa até que foi sedada com tranquilizantes e levada embora. Ficou presa por mais dois anos. Deixou a prisão em outubro de 2005, pouco antes de seu aniversário de 20 anos. Alguns meses antes, seu pai se tornara o governante oficial de Dubai.

Por anos, Latifa não confiou em ninguém. “Passei muito tempo com animais, com cavalos, com cachorros, com gatos, com passarinhos”, lembrou ela, em seu vídeo de fuga. Ela foi proibida de sair de Dubai e era acompanhada o tempo todo por guardas. Às vezes, era vigiada pelos mesmos homens que a torturaram na cadeia. “Se eu ouvisse o mínimo barulho, acordava assustada, me preparando para ser arrastada e apanhar”, ela escreveu.

Shamsa saiu da prisão três anos depois de Latifa. “Sobrou só a casca do que ela era, a tortura tirou-lhe toda a energia”, escreveu Latifa. Shamsa havia tentado o suicídio por três vezes: cortando os pulsos, tomando uma overdose e ateando fogo à própria cela. Foi solta depois de começar uma greve de fome. Agora, ela recebia tranquilizantes e antidepressivos que a deixavam “como um zumbi”. No começo, segundo Latifa, Shamsa sentia desconforto quando abria os olhos porque ficara muito tempo no escuro. Era preciso conduzi-la pela mão.

O reencontro das irmãs foi terrível. Latifa se esforçava para perdoar Shamsa pelos erros de julgamento que levaram à sua captura. “Eu quase morri e arruinei a minha vida por ela e continuo chateada por ela ter sido tão imprudente”, escreveu. “Mas, ao mesmo tempo ela não tem mais ninguém para lutar por ela.”

Latifa decidiu fazer uma última tentativa de salvar a si mesma e a irmã. “Preciso identificar todos os possíveis pontos falhos e bolar um plano para cada coisa que pode dar errado”, escreveu. “Se for pega eu não estou disposta a me submeter a mais anos de tortura, desumanização e falta de esperança”, disse. “Para mim é liberté ou mort, absolutamente nada, nada entre uma coisa e outra.”

Em novembro de 2010, Tiina Jau­hiainen estava trabalhando em uma escola de artes marciais em Dubai quando recebeu um e-mail de Latifa, querendo fazer aulas de capoeira. Jauhiainen foi orientada a ir ao Zabeel Club, um complexo recreativo privado ao lado do palácio do xeique Mohammed. Latifa chegou ao local acompanhada por guardas, que, antes que ela entrasse, vistoriaram o clube para ter certeza de que não havia homens presentes. Latifa passou a impressão de ser uma pessoa acanhada, que não gostava de fazer contato visual. Mas, assim que as duas ficaram sozinhas no clube, um espaço cercado por retratos do xeique Mohammed e de seus filhos preferidos, ela se jogou com tudo no treino.

Latifa queria exercícios exaustivos todos os dias, disse Jauhiainen. Parecia muito determinada a ficar mais forte e mais ágil. No começo, seu orgulho a impedia de reconhecer quando estava exausta, mas, com o tempo, passou a reconhecer que não conseguia mais. Nesses momentos, as duas pediam uma comida e conversavam.

A vida de Latifa parecia cheia de privilégios, pulando de diversão em diversão. “Que maravilha”, pensava Jauhiainen. Em compensação, a princesa estava arrebatada por detalhes da vida cotidiana da instrutora. Ela gostava de oferecer frutas que Jauhiainen jamais havia provado, como fruta-do-conde e carambola, enquanto fazia perguntas.

Jauhiainen cresceu em uma fazenda de flores em um minúsculo vilarejo cercado por mais de uma centena de lagos, no Centro da Finlândia. Enquanto seus pais cuidavam das tulipas, ela cuidava dos irmãos mais novos. Saiu de casa assim que pôde. Estudou em Londres e, em 2001, se mudou para Dubai. A ausência de raízes do lugar era algo que lhe agradava. Morou em uma série de apartamentos mobiliados em arranha-­céus, feliz com a sensação de que poderia “tranquilamente colocar tudo em duas malas e ir embora” quando bem entendesse. No entanto, dez anos depois ela continuava lá.

A relação com Latifa preencheu a vida de Jauhiainen. Na verdade, ela trabalhava com vendas e apenas fazia um bico na academia de artes marciais. Mas, a pedido de Latifa, ela concordou em largar o emprego para que as duas pudessem treinar em tempo integral. Então, Latifa perguntou se elas podiam começar a fazer paraquedismo em queda livre. Na primeira aula, Latifa foi a única aluna a pular sozinha. “Ela saltou várias vezes, como louca”, disse Jauhiainen. Latifa começou a voar com traje planador, a saltar de balões de ar quente. E demonstrava a mesma paixão no mergulho com tanque de oxigênio, que praticou sem parar.

“Ela era a razão para eu ainda estar em Dubai”, me contou Jauhiainen. Mesmo assim, grande parte da vida de Latifa continuava sendo um mistério para a amiga. “Por que toda aquela intensidade?” ela se perguntava. Jauhiainen entendeu que a amiga tinha permissão para praticar aqueles treinos, mas que estava proibida de sair de Dubai ou de sair desacompanhada. Quando ela perguntava sobre essas restrições, Latifa mudava de assunto. Depois de alguns anos, Jauhiainen teve permissão para encontrar Latifa a sós, mas, mesmo então, não fazia ideia do papel para o qual estava sendo recrutada.

À medida que refinava seus planos, Latifa conseguiu um livro chamado Escape from Dubai (Fuga de Dubai), em que Hervé Jaubert descreve como escapara dos Emirados usando equipamentos de mergulho e um bote de borracha para chegar a um barco em águas internacionais. Ela leu o livro, localizou Jaubert e lhe mandou um e-mail pedindo ajuda. “Comecei a planejar minha emancipação muitos anos atrás”, escreveu, informando que não tinha medo de água, praticava esportes radicais e estava pronta a fazer qualquer treinamento que fosse necessário. Caso Jaubert concordasse em encontrá-la em alto-mar, ela já sabia que precisaria de ajuda para achar o ponto de encontro. “Vou achar alguém para ir comigo”, escreveu, garantindo para ele: “Não vai ser difícil.”

Jaubert, um engenheiro naval franco-americano e ex-oficial da Marinha de 50 e poucos anos, tinha fugido de Dubai para escapar de acusações de fraude, que insistia em dizer que eram falsas. Ele contava ter trabalhado no serviço secreto francês e cultivava um ar de mistério, com seus cabelos negros brilhantes, um cavanhaque vulgar e um forte sotaque francês. No começo, desconfiou da identidade de Latifa, mas, em uma série de e-mails, ela contou os detalhes de sua vida. Acabou concordando em ajudá-la, mas disse que ia cobrar pelo serviço.

Latifa e Jaubert se corresponderam por mais de sete anos. Ela calcula que, nesse tempo todo, mandou mais de 500 mil dólares para ele. Como não tinha permissão para manter uma conta bancária, Latifa poupava o dinheiro que recebia para seu dia a dia e, quando ia fazer compras, despistava seus guardas para mandar maços de dinheiro a Jaubert. Às vezes, as exigências dele pesavam bastante. “Estou realmente tendo dificuldades com isso e me sinto como um hamster numa roda”, escreveu ela, em carta endereçada a ele em 2014. Ela prometeu enviar uma joia que valia mais de 500 mil dólares, mas disse: “Você precisa me ajudar porque depois de te dar esse diamante eu não tenho mais nada.”

(Jaubert me disse que o dinheiro que recebeu de Latifa serviu somente para cobrir suas despesas. Era um “resgate humanitário” e, portanto, era importante que ele não parecesse ter tido lucro caso fossem pegos. “Ela ia me pagar depois.”)

Latifa imaginou vários roteiros de fu­ga ousados, usando hidroaviões, embarcações de combate, helicóptero, aviões particulares e scooters subaquáticas. Ela também estudou o que Jaubert chamava de “coisas de espião”: criptografia, contrainteligência, disfarces. Chegou até a conseguir um passaporte irlandês falso, que guardava com cuidado, debaixo de sua roupa impermeável, quando ia mergulhar.

Certa vez, torcendo para que a autorizassem a viajar para a Inglaterra na temporada de corrida de cavalos, Latifa enviou para Jaubert imagens da propriedade londrina de Longcross no Google Earth, de modo que pudessem estudar um ponto de fuga. O lugar, no entanto, parecia impenetrável. Os dois então planejaram simular um sequestro. Enquanto Latifa estivesse na rua fazendo compras, Jaubert a capturaria. Mas ela acabou não sendo incluída na comitiva que viajaria para ver as corridas.

No final, Latifa e Jaubert concordaram em fazer a mesma rota de fuga que o próprio Jaubert usara. Ele então comprou um iate com bandeira americana – chamado Nostromo –, além de jet skis e um conjunto de aparelhos para navegação por satélite. Ele identificou um ponto de encontro a 26 km da Costa de Omã. Latifa planejava atravessar a fronteira numa scooter aquática, usando um respirador, e depois pegaria um bote até o Nostromo. Dali, navegariam até a Índia ou o Sri Lanka. Em terra, ela usaria seu passaporte falso para voar rumo aos Estados Unidos.

Latifa ficava aflita pensando em como poderia levar Shamsa. “Eles davam sedativos e remédios psiquiátricos para ela todo dia”, ela disse para Jaubert. “A mente dela é frágil e não tenho como garantir que ela não vai surtar.” Então, sem aviso prévio, Shamsa tomou a iniciativa.

A essa altura, já fazia dezessete anos que Shamsa tinha fugido. Agora, ela estava com 36 anos. Esquivando-se da supervisão de seus guardas, conseguira outro celular secreto – e, no primeiro semestre de 2017, entrara em contato com a polícia de Cambridgeshire. Como David Beck, o inspetor-chefe, já havia se aposentado, outro investigador procurou o arquivo de Shamsa. Mas o superintendente Adam Gallop declarou que, apesar de algumas “novas linhas de investigação”, os indícios eram insuficientes para reabrir um “caso tão singularmente desafiador e complexo”. Logo depois, os aposentos de Shamsa foram vistoriados e o celular, confiscado. Ela foi colocada numa ala isolada da residência e aumentaram seus sedativos. Latifa achava que não tinha mais como esperar pela irmã. Em seu vídeo de fuga, disse: “O único modo para eu ajudar a mim mesma, ajudar Shamsa, ajudar muitas pessoas, é ir embora.”

Latifa então convidou Jauhiainen para almoçar num restaurante chamado Saladicious, a poucas quadras do mar. O lugar estava silencioso. Ela escolheu uma mesa no canto. Quando sentaram, Latifa contou à amiga tudo que tinha acontecido desde a primeira fuga de Shamsa. Quando ela terminou, as duas estavam em lágrimas. “Senti tanta raiva pelas pessoas que tinham feito aquilo com ela”, disse Jauhiainen. Por isso, quando Latifa finalmente contou sobre o plano de fuga, ela respondeu sem hesitar: “Estou pronta para ir.”

Num sábado em fevereiro de 2018, Latifa saiu da mansão da mãe ao nascer do Sol e mandou o motorista levá-la a uma cafeteria no Boulevard Xeique Mohammed bin Rashid, onde encontraria Jauhiainen. Quando a amiga pediu um café para levar, Latifa entrou no banheiro, tirou a abaya e jogou o celular no cesto de lixo. Em seguida, as duas saíram às pressas a bordo de um Audi Q7 emprestado. Foram direto para a fronteira.

Desde que aceitou ajudar Latifa, Jauhiainen vinha se encontrando com Jaubert em Manila, nas Filipinas, onde ele morava, para refinar o plano de fuga e entregar dinheiro para as despesas dele. Numa ocasião, entregou um conjunto de joias de diamante, que, segundo ela, Latifa pretendia vender quando chegasse aos Estados Unidos. Jauhiainen viajou para Indonésia, Sri Lanka, Estados Unidos e Cingapura a fim de cuidar dos preparativos e reunir os equipamentos necessários: um motor de bote, aparato de mergulho, navegadores por satélite Garmin e duas poderosas scooters subaquáticas. Mas, ao praticar nado subaquático na piscina da mãe, Latifa sentiu uma tontura perigosa e, em razão disso, Jauhiainen propôs um plano alternativo.

Em uma área tranquila perto de Omã, as duas estacionaram e abriram o porta-malas. Latifa escondeu-se no compartimento vazio destinado ao estepe. Jauhiainen colocou a cobertura e empilhou em cima diversas sacolas azuis, de plástico resistente, usadas pela Ikea, a multinacional sueca que vende utensílios domésticos. Na fronteira, vinte minutos adiante, elas passaram por uma série de pontos de inspeção antes de os guardas abrirem o porta-malas. O coração de Jauhiainen pulsou forte. Eles examinaram, fecharam o porta-malas e fizeram sinal para que ela continuasse a viagem.

Depois de passar a fronteira, Jauhiainen parou o carro e teve receio de encontrar a amiga de lábios roxos e sem vida, sufocada dentro do porta-malas. Mas Latifa saltou para fora, empolgadíssima. As duas fizeram selfies, sorrindo em seus moletons com capuz e usando óculos escuros. E seguiram rumo ao mar. Em um subúrbio de Mascate, a capital litorânea de Omã, elas encontraram outro cúmplice, Christian Elombo, que era o antigo professor de capoeira de Jauhiainen, um francês forte na casa dos 40 anos. Ele nunca tinha se encontrado com Latifa, mas quando Jauhiainen explicou a situação da amiga, Elombo pensou “dois segundos” antes de concordar em ajudar. “Minha consciência não ia me deixar em paz se eu deixasse de fazer algo que estivesse ao meu alcance”, disse.

Elombo tivera a ideia de esconder Latifa no compartimento do estepe e o Audi que as duas usaram era dele. Sua última tarefa na fuga era levar as duas até o Nostromo em um bote de borracha. Quando chegaram à praia, alguns pescadores tentaram convencê-lo a não entrar no mar. Uma tempestade estava chegando e ondas imensas quebravam na praia. Mas os três decidiram seguir em frente. Elombo assumiu o leme, enquanto Jauhiainen ficava como navegadora e enviava coordenadas para Jaubert. Latifa se segurava nas laterais do barco, que alagava e balançava violentamente.

O mar encapelado tornava o avanço lento. Quando ficou claro que o bote não chegaria ao iate antes do pôr do sol, Jaubert e outro membro da tripulação saíram de jet ski para ir direto até a embarcação. As duas mulheres foram jogadas repetidas vezes nas ondas enquanto tentavam subir nos jet skis. Depois que elas estavam em segurança, Elombo acenou. “Vejo vocês na próxima”, disse.

De volta à praia, Elombo saiu em busca de frutos do mar, enquanto já planejava como se livrar das provas e refugiar-se na Europa. Quando estava tentando se livrar do bote usado na fuga, no entanto, seu carro foi cercado por policiais armados. “Se você espirrar, eles atiram”, disse para si mesmo. Elombo foi detido e levado para a ala solitária da prisão de Omã, onde ficou por dois meses. Logo, chegaram homens para interrogá-lo.

Latifa e Jauhiainen alcançaram o Nostromo ao pôr do sol. Estavam exaustas e enjoadas demais para comemorar. Mesmo assim, Latifa escreveu um triunfante adeus para sua mãe e seus irmãos. Pouco depois, postou uma mensagem no Instagram declarando sua liberdade: “Fugi dos Emirados Árabes Unidos depois de ficar presa por dezoito anos.” Mas não demorou para que Latifa e Jauhiainen começassem a perder a fé em seu capitão. O barco estava imundo, segundo Jauhiainen, e os suprimentos estavam tomados por baratas. Elas passaram à base de mingau, batatas cozidas e feijão. Sobre Jaubert, Latifa escreveu: “Ele só pensava em dinheiro e lucro.”

Logo depois de partir, Jaubert entrou em contato com uma advogada na Flórida e pediu que esboçasse um “acordo de pagamento”, no qual exigia 300 milhões de dólares do xeique Mohammed em nome de Latifa. Como Latifa não tinha conta bancária, Jaubert escreveu que o dinheiro devia “ser transferido diretamente” para sua “conta nas Filipinas”. Ele prometeu que dividiria o dinheiro em partes iguais com Latifa e Jauhiainen.

Latifa disse para Jauhiainen que tinha aceitado seguir em frente com o plano só para satisfazer Jaubert, mas sabia que seu pai jamais pagaria aquele dinheiro. (Jaubert negou ter pressionado Latifa. Disse que o acordo foi uma ideia dela e que parte do dinheiro serviria como pagamento por ter ajudado na fuga.) Depois de uma semana no mar, a 50 km da costa indiana, o Nostromo estava com pouco combustível. Jaubert escreveu para um amigo que ficaria “sem combustível dentro de uns dias”.

(Jaubert disse que tinha combustível suficiente para chegar ao destino original, mas temia que fosse preciso mudar o trajeto. Ele também insistiu que seu barco era “imaculado” e que baratas são inevitáveis em viagens marítimas.)

Quando soube que Elombo tinha sido preso, Latifa pareceu congelar. “Tudo ficou tão tenso, tão estressante”, recordou Jauhiainen. “Não conversávamos mais, porque era, tipo, ninguém responde, nós não temos um plano, a gasolina está acabando.”

Por recomendação de Jaubert, Latifa recorreu a um grupo chamado Detidos em Dubai, implorando ajuda para divulgar o caso. “O relógio está correndo e minha cabeça está a prêmio”, escreveu ela. Dois ativistas dos direitos humanos que integravam a organização, David Haigh e Radha Stirling, começaram a verificar a identidade de Latifa. Então, numa noite no início de março, Stirling recebeu uma série de mensagens em tom de pânico: “Por favor, ajude. Por favor, tem homens lá fora.” Quando ela respondeu, só houve silêncio.

O xeique Mohammed não teve dificuldades para encontrar a filha fugitiva. As comunicações dela foram interceptadas e, a pedido dos Emirados Árabes Unidos, a Interpol emitiu alertas vermelhos para seus cúmplices, acusando-os de raptar a princesa. Quando o iate foi localizado, na Costa de Goa, o xeique Mohammed falou com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Em troca da captura de sua filha, concordou em extraditar um traficante de armas baseado em Dubai. O governo indiano enviou barcos, helicópteros e uma equipe de soldados armados para invadir o Nostromo e capturar Latifa.

Lamorna Cove fica na Cornualha. É um cantinho minúsculo nos confins da Inglaterra, onde ondas fortes arrebentam na praia. Na alta temporada, é destino turístico para veranistas. Na baixa, os poucos chalés de granito ficam basicamente vazios. Na noite de 4 de março de 2018, porém, as luzes de um chalé brilhavam sobre as águas.

Seu ocupante, David Haigh, era uma figura incompatível com a zona rural da Cornualha: alto e atlético, com 40 e poucos anos, um bronzeado permanente e cabelos louros esculpidos. Haigh trabalhou numa firma de investimentos sediada no Golfo, mas seus patrões o acusaram de fraude e calúnia. Ele passou quase dois anos em prisões de Dubai. Mais tarde, disse que foi espancado, estuprado e forçado a assinar um documento em árabe que parecia ser uma confissão, mas a sentença condenatória seguia sendo uma espada sobre sua cabeça – e ele ainda tentava desbloquear seus bens. Desde sua libertação, dois anos antes, Haigh se retirara para Lamorna. De lá, se inscreveu para auxiliar os Detidos em Dubai.

No telefone, Haigh e Radha Stirling tentavam compreender as mensagens de Latifa. “Ela está sendo mantida como refém”, disse Haigh. “O que a gente faz?” Eles registraram um boletim de desaparecimento na Scotland Yard e informaram a Guarda Costeira da Índia sobre a existência de uma embarcação de bandeira americana que tinha sumido. Mas, como nenhuma autoridade aceitava o caso, eles recorreram à polícia e a representantes do palácio em Dubai. Stirling me disse que esperavam mandar uma mensagem nos seguintes termos: “Nós sabemos que isso aconteceu, estamos de olho. Então, não comecem a executar todo mundo.”

Passaram-se dias sem qualquer notícia. Então, os voluntários dos Detidos em Dubai receberam um e-mail do advogado na Flórida, contendo o vídeo de fuga de Latifa e as instruções para divulgá-lo. “Se vocês estão vendo esse vídeo, não é uma coisa boa. Ou eu morri ou estou numa situação muito, muito, muito ruim”, diz Latifa para a câmera. “Do que eu falo? Falo dos assassinatos? Falo dos abusos que eu vi?”

Haigh ficou de queixo caído. “Merda, merda, merda, merda, merda”, disse. “Isso é uma bomba atômica.” Ele e Stirling soltaram clipes do vídeo para a imprensa e subiram o material no YouTube. Logo, vários jornais começaram a noticiar a história da princesa fugitiva de Dubai. O xeique Mohammed não fez nenhum comentário, mas os voluntários de direitos humanos receberam mensagens de Jauhiainen e Jaubert. O Nostromo tinha sido escoltado até os Emirados Árabes Unidos, onde os dois foram interrogados por mais de uma semana. Depois que o vídeo foi publicado, Jauhiainen e Jaubert foram soltos. Embarcaram para Londres, onde deram uma entrevista coletiva ao lado de Stirling e Haigh. “Estou aqui falando de minha amiga, porque precisamos que ela seja solta”, disse Jauhiainen aos jornalistas. “A comunidade internacional precisa agir.”

O chalé de frente para o mar de Haigh se transformou no centro de comando para a campanha de libertação de Latifa. O grupo informou as Nações Unidas sobre o rapto. Depois, entraram em contato com a BBC e começaram a fazer um documentário sobre a fuga. O documentário foi ao ar em dezembro de 2018, quando Latifa completou 33 anos. Por fim, o governo de Dubai publicou uma resposta, dizendo que Latifa não tinha tentado fugir. Na verdade, dizia a nota, ela fora raptada por Jaubert: “Sua Alteza a princesa Latifa agora se encontra a salvo em Dubai. Ela e sua família desejam celebrar seu aniversário hoje, com privacidade e em paz.”

Latifa passou seu aniversário em cativeiro. Depois de ser capturada no Nostromo, ela foi levada para uma embarcação indiana. Depois, embarcou em um helicóptero e, a seguir, em um jato privado. Recebeu tranquilizantes duas vezes, segundo ela lembraria em um relato escrito durante sua detenção. As drogas, no entanto, pareciam não surtir efeito. Quando um tenente dos Emirados Árabes tentou retirá-la do helicóptero, ela enfiou os dentes no braço dele. Só depois da terceira dose ela sentiu que estava perdendo a consciência.

“Quero que eles fiquem constrangidos por ter sido necessário usar a Marinha, vários navios de guerra, soldados armados, três injeções de tranquilizantes e uma luta de uma hora para colocar uma mulher pequena e desarmada dentro de um avião”, escreve Latifa. Ela recuperou a consciência em Dubai. “Eu me lembro de ter lágrimas escorrendo pelo rosto”, escreveu. “Era a pior sensação do mundo. Estar de volta ao inferno depois de chegar tão perto da liberdade.”

Latifa foi levada para uma prisão no deserto chamada Al-Awir. As janelas de sua cela estavam encobertas para evitar a entrada de luz. De início, os carcereiros eram insensíveis, mas, depois que o testemunho em vídeo foi divulgado, eles começaram a implorar para que ela se retratasse. Durante algum tempo, serviram a comida em pratos dourados. “Eles são extremamente ridículos”, escreveu ela.

À medida que a notícia da captura de Latifa se espalhava, aumentaram as dúvidas quanto à sua segurança. Depois que a BBC exibiu uma entrevista com Jauhiainen, em maio, duas policiais chegaram com uma roupa limpa para Latifa e, depois, a conduziram até o Zabeel Club, onde estava o xeique Mohammed. Os olhos de Latifa estavam inchados de chorar. Seu pai mandou que lavasse o rosto. “Espero que você consiga ver que você é valiosa para nós”, disse, segundo a lembrança de Latifa. Ele instruiu um atendente a fazer uma foto, mas Latifa baixou o rosto. “Por que você não está sorrindo?”, ele perguntou. Ela não respondeu, o xeique ficou irritado – e Latifa voltou à prisão.

Ainda naquele mês, a princesa foi levada para morar em uma casa. Quando chegou, ela notou “as paredes excepcionalmente altas e as câmeras” e descobriu que todas as janelas tinham grades. Cinco policiais patrulhavam a área externa. Duas policiais ficavam na casa. Do lado de dentro, ela encontrou Caroline Faraj, editora-chefe da CNN Árabe. Faraj pediu a Latifa que posasse para uma foto e aparecesse no vídeo. “Deixe o mundo saber que você está viva”, disse. Latifa se recusou, dizendo que era uma prisioneira. Faraj publicou uma reportagem, à qual a família respondeu dizendo que Latifa estava “recebendo cuidados em casa”, mas nada dizia sobre o encontro entre elas. (A CNN afirma que Faraj foi informada de que o encontro era em off, ou seja, não podia ser divulgado.)

Durante seis meses, Latifa não teve visitas. Em setembro, ela fez uma greve de fome de vinte dias, mas não provocou nenhuma resposta. Por fim, em 6 de dezembro, ela ouviu alguém bater na porta do seu quarto. Era a princesa Haya, a mais jovem das esposas do xeique Mohammed, cheia de presentes. Latifa estava pálida e parecia “vulnerável”, descreveu Haya mais tarde. “Ela abriu a porta, olhou para mim, me abraçou e começou a chorar.” Uma semana mais tarde, Haya apareceu novamente e a convidou para almoçar no dia seguinte. Latifa entendeu que, caso “se comportasse bem”, seria libertada.

Haya buscou Latifa na tarde do dia seguinte e a levou para um palácio. Lá dentro, Latifa foi apresentada a Mary Robinson, ex-comissária de Direitos Humanos da ONU e ex-presidente da Irlanda. Sem contar a Latifa, a princesa Haya, que também fora embaixadora da Boa Vontade da ONU, havia convidado Robinson para avaliar as condições em que Latifa se encontrava. Haya levara junto sua filha de 11 anos, Jalila, e ressaltou que a menina e Latifa tinham o mesmo gosto por esportes de aventura. “Deve estar no gene dos Al-Maktoum”, brincou Haya. Jalila levou Latifa até um canil cheio de cães pequenos e as duas fizeram carinho nos animais através das grades, enquanto Haya e Robinson observavam à distância.

Durante o almoço, Jalila foi questionada sobre o que ela queria ser quando crescesse, escreveu Latifa. “Ninguém falou comigo em particular nem me perguntou sobre a minha situação.” Sem ninguém ter perguntado, ela disse que sempre quis estudar medicina, mas não teve permissão para frequentar a faculdade, nem para deixar o país desde que completou 14 anos. Robinson “pareceu não estar interessada”, escreveu Latifa. “Ela simplesmente entrou na conversa e começou a contar suas próprias histórias.” Depois da refeição, pediram a Latifa que ela posasse para fotos. Ela recusou, mas Haya lhe falou: “É uma oportunidade que só acontece uma vez na vida.” Ela acabou concordando, mas fez questão de não sorrir porque “sabia que aquilo seria usado como propaganda”.

Logo depois, o governo dos Emirados Árabes enviou as fotos para a ONU, mostrando Latifa sentada perto de Robinson, parecendo confusa e pálida numa blusa com capuz escura. Dizia que as fotos eram a prova de que Latifa estava “recebendo os cuidados e o apoio necessários”. Na época, Robinson disse à BBC que Latifa era uma mulher “vulnerável”, que tinha sido envolvida em um plano que incluía “um pedido de 300 milhões de dólares”. Ela disse que Latifa estava “perturbada” e que “tinha feito um vídeo de que agora se arrependia”.

Quando ouviu o relato de Robinson sobre o encontro, Latifa ficou arrasada. “Passei dez dias chorando na cama”, escreveu. “Me senti usada.” (Anos mais tarde, Robinson disse numa entrevista que tinha sido “horrivelmente enganada”, levada a acreditar que Latifa sofria de transtorno bipolar. Disse que não fez perguntas sobre as circunstâncias dela porque “eu realmente não queria falar com ela e aumentar o trauma durante um almoço agradável”.) Haya fez gestos de conciliação: enviou cestas de presentes – joias, roupas, material para pintar telas, livros – e fez mais uma visita. Mas Latifa a recebeu com frieza, e Haya deixou de visitá-la.

Os ativistas de Lamorna Cove ficaram indignados com a intervenção de Mary Robinson. A tensão aumentou quando Haigh acusou Jaubert de tentar vender as joias que Latifa lhe deixara. Jaubert e sua mulher haviam falado em vender as peças – que continham 950 diamantes redondos, lapidados com cortes marquise e de pera – em uma série de e-mails enviados a possíveis compradores na Craigslist. “Já vendi o colar, estou com o anel, os brincos e o bracelete”, escreveu sua mulher, em um dos e-mails.

Haigh e Jauhiainen cortaram relações com Jaubert, mas Stirling ficou do lado dele. Ela acusou Haigh da “mais completa calúnia e assédio”. Jaubert afirma que Latifa lhe deu as joias como parte do pagamento. A maior parte, diz ele, foi roubada pelos soldados que tomaram o Nostromo de assalto. Ele nega que tenha vendido itens e alega que listou os objetos no Craigslist apenas para medir o tamanho de suas perdas.

No primeiro semestre de 2019, com o grupo dividido, Jauhiainen voltou para a fazenda de flores dos pais para descansar. Então, num fim de noite, o celular dela se iluminou ao receber mensagens de um novo cúmplice de Latifa. “Olá srta. tiina espero que vc responda”, escreveu a pessoa, “tenho medo de ajudar a srta. latifa mas ela é mto gentil comigo.” O cúmplice fez perguntas a Jauhiainen para confirmar sua identidade antes de enviar a foto de um bilhete escrito à mão por Latifa. No bilhete, havia um relato forte do seu rapto. Ao longo das quatro semanas seguintes, Latifa escreveu dezenas de outras cartas para Jauhiainen e Haigh, narrando sua experiência. “Não vou deixar que alguém apague quase meia década de tortura e prisão”, escreveu. “Eles me atacam com mentiras, vou me defender com verdades.”

Estudando o ângulo do nascer do Sol, Latifa descobriu a posição geográfica do Reino Unido e, às vezes, sentia certo conforto por saber que seus apoiadores estavam naquele ponto. Ela não se esquecera de ter pedido a Jauhiainen para dormir sob as estrelas no convés do Nostromo. “Devíamos fazer isso em águas mais amistosas em um barco bom e limpo”, escreveu.

Em abril, os ativistas tinham conseguido contrabandear um celular para dentro da casa. Latifa mantinha o aparelho escondido e só o usava dentro do banheiro, com a água escorrendo para abafar o som de sua voz. Trocaram milhares de mensagens de WhatsApp. Latifa gravou dezenas de mensagens de voz documentando seus tormentos. Fez uma série de vídeos, que deviam ser divulgados caso eles perdessem contato. As conversas do grupo ficaram cheias de memes, planos de viagens e discussões sobre filmes, livros e música. Latifa sonhava em visitar o Havaí. Tinha ouvido falar que no Havaí havia quatrocentos tipos diferentes de manga e “frutas que têm gosto de pudim de chocolate e sorvete de baunilha”. Haigh lhe passou uma senha da Netflix. Ela adorava filmes de horror. Uma vez ficou tão assustada que dormiu com as luzes acesas por várias noites. Quando ele mandou fotos do pôr do sol sobre o mar em Lamorna, ela ficou tão hipnotizada que pensou em comprar a praia inteira.

Como Haigh sofria de insônia, frequentemente ficava trocando mensagens com Latifa de madrugada. “O objetivo era manter a mente dela ocupada e não deixar que ela perdesse a esperança”, me disse ele. Haigh comprou ovos de galinha e chocou numa incubadora, mandando atualizações sobre o progresso deles – “é como ter um Tamagotchi”, disse. Ela ficou feliz que ele não desistiu da criação e acabou tendo mais de quarenta galinhas, patos e pavões. Haigh prometeu cuidar dos bichos para ela, até que estivesse livre. Por meio de um intermediário, Latifa presenteou Haigh com uma gata sem pelos e olhos verdes. A gata – chamada Sheikha, mas afetuosamente conhecida como Alien – se tornou uma mascote, uma “mini-­Latifa”, disse Haigh.

A essa altura, Latifa estava comandando a campanha dos bastidores. Ela revisava os documentos levados à ONU, desenhava logos e sonhava com estratégias cada vez mais ousadas. Segundo Haigh, ela estava “supermandona”. Em junho, Latifa se agarrou a uma nova esperança. Quando seu pai, o xeique Mohammed, viajou para o Reino Unido para ir a Ascot, ele foi fotografado com a rainha e o príncipe William – mas, pela primeira vez em muitos anos, a princesa Haya não estava de braços dados com o xeique. Começaram a surgir rumores de que a mulher mais jovem do monarca o havia abandonado. Latifa pensou: se Haya não estava mais sob controle do xeique Mohammed, talvez pudesse confirmar que sua enteada estava sendo mantida em cárcere privado. “Ela viu isso com os próprios olhos.”

Q

uando sua ausência em Ascot foi percebida, a princesa Haya estava foragida havia dois meses. Em abril de 2019, depois que seu marido descobriu que ela estava tendo um caso com o seu guarda-costas, Haya fugiu para Londres, se estabelecendo com os dois filhos em uma mansão neogeorgiana em Kensington Palace Gardens. Em julho, ela deu início a uma campanha jurídica contra o xeique Mohammed, tentando obter proteção do Judiciário para ela e seus filhos.

No processo judicial, Haya mencionou os abusos contra Shamsa e Latifa como provas da ameaça que o xeique representava. Disse que, de início, ela acreditara no seu marido dizendo que Latifa tinha sido resgatada de uma tentativa de extorsão. Mas, quando ela começou a fazer perguntas, depois de visitar Latifa, o xeique mandou que “parasse de interferir”. O monarca começou a publicar poemas que tinham referências mal veladas a Haya. “Meu espírito está curado de você, menina”, dizia um verso. “Quando teu rosto surge, não sinto prazer.” Bilhetes ameaçadores eram deixados pelo palácio. “Vamos pegar teu filho – a tua filha é nossa – tua vida acabou.” Mais de uma vez, ela encontrou uma pistola sobre seu travesseiro quando foi dormir.

Antes disso, em março, um dos helicópteros do xeique Mohammed pousara diante do palácio de Haya. O piloto disse ter ordens de levá-la para a prisão de Al-Awir. Seu filho de 7 anos agarrou-se na perna da mãe, apavorado. Não fosse por isso, Haya acredita que teria sido arrastada à força para a prisão. Mesmo em Londres, ela continuava com medo. O xeique tinha publicado mais poemas ameaçadores, incluindo um intitulado Você viveu e morreu. O monarca disse a Haya que ela e os filhos “jamais” estariam “em segurança na Inglaterra”.

A Suprema Corte respondeu determinando que seus filhos ficassem sob custódia da Justiça, impedindo que eles saíssem do país e determinando uma investigação para verificar as alegações de Haya. Em geral, processos judiciais ligados a questões de família na Grã-Bretanha correm em segredo e, portanto, as alegações de Haya não vinham a público. Agora, porém, seus advogados tinham um pretexto para chamar Shamsa e Latifa para depor num tribunal britânico.

Logo depois, Latifa mandou uma mensagem de voz para Haigh e Jauhiainen. Soava apavorada. “Meu pai quer me ver”, disse. Em mensagens subsequentes, ela descreveu ter sido levada ao escritório do xeique Mohammed no deserto, onde ele a encontrou numa sala de estar e anunciou que Shamsa agora estava livre. Quando ele saiu da sala, Shamsa entrou. Era difícil reconhecê-la. Estava feliz e cheia de energia, toda elogios para o pai e para Alá. Shamsa disse que o xeique Mohammed havia dado a ela um celular e dito que ela estava livre para viajar. Ela, no entanto, agora só queria ficar em casa e orar. Latifa ficou desconcertada, mas deixou que a irmã mais velha a abraçasse. Ela contou como tinha sido sua captura a bordo do Nostromo e começou a chorar. Shamsa alertou que a sala provavelmente tinha escutas. “Só seja cuidadosa, respeitosa”, sussurrou.

Mas Latifa tinha perdido a paciência. “Você tem 10 segundos”, gritou para Shamsa. “Me diga o que você quer! Porque eu fui para a prisão muitas vezes por causa de você. Eu quase morri por você.” Shamsa parecia perplexa. “Estou muito confusa”, disse ela. “Tenho a impressão de que quero fugir e depois quero ficar.”

Quando voltou à sala, o xeique Mohammed disse que Latifa era “preciosa” e que ele queria “virar a página”. Três dias depois, Shamsa e ela foram levadas até o pai de novo. Dessa vez, ele pediu que as duas dissessem aos advogados que não queriam ir à Inglaterra para prestar depoimento. Depois, ele saiu. Em seguida, entrou Mohammed Al-Shaibani, que agora era o diretor-geral administrativo do Tribunal do Governante de Dubai. Latifa disse que ele passou quatro horas pedindo a elas que rejeitassem a convocação: “Digam que é um assunto de família e estamos resolvendo isso dentro da família.”

A conduta de Shamsa tinha mudado dramaticamente desde o último encontro delas. A certa altura, Shamsa chorou e disse a Al-Shaibani: “Não me importo com o que aconteça comigo, mas não vou prejudicar a minha irmã. Portanto, vou fazer o que minha irmã quiser.” Latifa, pensando na brutalidade do confinamento de Shamsa, se arrependeu de ter gritado com ela. Mas disse que não iria cooperar enquanto fosse mantida incomunicável. Mais tarde, já de volta à sua casa, Latifa ouviu dizer que o celular de Shamsa fora confiscado.

O xeique Mohammed enviou uma declaração para a Suprema Corte, dizendo que ele havia oferecido às filhas a opção de ir ou não depor. “Tanto Shamsa quanto Latifa foram inflexíveis ao dizer que não queriam fazer isso”, escreveu. Ele negou ter raptado as filhas. “Até hoje eu vejo o retorno de Latifa para Dubai como uma missão de resgate.” Como argumento, ele apresentou uma declaração da irmã mais velha de ambas, Maitha, uma atleta de tae kwon do que esteve entre as primeiras mulheres dos Emirados Árabes Unidos a competir nas olimpíadas. “Minhas irmãs Shamsa e Latifa não estão presas em Dubai”, escreveu Maitha. “Shamsa mora com nossa mãe e comigo. Latifa mora em sua própria residência por uma escolha dela, que foi respeitada. Shamsa e eu regularmente passamos algum tempo com Latifa.”

Em sua casa, Latifa voltou a sofrer pressões para dar a impressão de que estava em liberdade. Guardas se ofereceram para levá-la para comprar livros, o que permitiria que ela fosse fotografada. Era uma tortura recusar essa oferta. “Eu morria de vontade de pegar ar fresco e ver a luz do Sol”, escreveu. Mas ela sabia que, se cooperasse, ia acabar com os argumentos de Haya.

Em fevereiro de 2020, o xeique Mohammed abriu o Fórum Global de Mulheres de Dubai com uma promessa: sua nação iria ter um papel de liderança no mundo na promoção do “crescimento e do progresso das mulheres”. Três mil participantes de mais de oitenta países se reuniram para ouvir oradores, entre eles Ivanka Trump, que elogiou o “compromisso firme” do xeique Mohammed com o progresso das mulheres, e a ex-primeira-ministra britânica Theresa May, que aceitou um cachê de 115 mil libras (cerca de 700 mil reais) para falar sobre igualdade de gênero. “É um circo”, escreveu Latifa, em comunicação com Haigh. O governo aprovou uma nova lei, permitindo que as mulheres obtenham medidas restritivas contra abusadores domésticos. Mas não criminalizou o estupro dentro do casamento e manteve o direito dos guardiões de castigar as mulheres sob sua guarda.

Ao mesmo tempo em que o monarca de Dubai cumprimentava os dignitários no Fórum, sua conduta privada estava sendo analisada na Suprema Corte, em Londres. Jauhiainen depusera a portas fechadas sobre o rapto violento de Latifa. Beck, o inspetor de polícia, descreveu como sua investigação sobre o sumiço de Shamsa fora encerrada. “Esse caso que não foi resolvido seguiu sendo um mistério e uma fonte de frustrações para mim durante dezoito anos”, disse. Na ausência de um depoimento direto de Latifa, o juiz aceitou seu vídeo de fuga como prova, ressaltando que o relato parecia “bastante verdadeiro”. As declarações de Haya sobre as condições da “casa-prisão” de Latifa também foram aceitas. (A princesa Haya se recusou a fazer comentários para esta reportagem.)

Em março, o tribunal publicou um relato detalhado de suas conclusões, observando que o xeique Mohammed lançara mão dos “grandes poderes que tinha à sua disposição para atingir seus fins específicos”: raptar e prender suas filhas, e sujeitar Haya a “uma campanha de medo e intimidação”. O xeique Mohammed alegou que as conclusões não eram imparciais, porque sua posição como chefe de Estado o impediu de participar do processo. O juiz afirmou que a declaração era “no mínimo hipócrita”, observando que o xeique escrevera duas declarações como testemunha.

Para Latifa, o julgamento foi uma vitória. E, no entanto, ela pareceu desapontada quando soube da notícia por Haigh. “Isso é muito bom para você”, disse ele. “O juiz afirmou que você e Shamsa foram raptadas.” “O.k.”, ela respondeu. “Tomara que com isso eu saia… vamos ver.” Ela parecia desatenta e disse que estava sentindo uma dor no pé. Parecia que sua coragem estava no fim. “Vivo num pesadelo perpétuo”, escreveu ela. Os guardas não deixavam nem mesmo que ela abrisse uma janela. Latifa escreveu que tinha a impressão de que estava “morrendo muito lentamente” sufocada. Então, informou ser visitada por um psiquiatra, que ia com os seguranças do pai para pressioná-la a fazer o que ele queria.

O xeique Mohammed também estava tentando uma abordagem mais suave. Um dia, um pacote chegou à sua casa: um exemplar das memórias dele, autografado por “seu pai, que sempre te ama”. Latifa desabou. “Quem sabe a guerra finalmente tenha acabado”, pensou ela. Haigh disse que Latifa começou a dizer que estava preocupada com a saúde do pai: “Ele está velho, eu devia cuidar dele.” Ela temia que revelar os abusos dele fosse uma traição. “Era tipo síndrome de Estocolmo”, me disse Haigh.

Latifa comentou que fizera uma proposta para um dos seguranças de seu pai: se fosse libertada, “eu viverei normalmente e sossegada, e a campanha dos ativistas cessará”. Mas, depois de uma semana, ela não recebera nenhuma resposta. “Honestamente estou tão cansada e sem esperanças”, escreveu. Mais tarde, um dos guardas contou que ela ia ficar em cativeiro por mais um ano e deu a ela um cronômetro para contar o tempo. Latifa ficou apavorada com a ideia de “perder contato e ficar no escuro”. Em junho, seu celular começou a apresentar problemas. Ela tinha lido sobre o Pegasus, a ferramenta israelense de hackeamento que permite extrair dados de um equipamento-alvo remotamente. “Entrei em pânico”, escreveu. “Eu estava literalmente tremendo.”

Haigh ficou alarmado. “Ela realmente não está bem”, escreveu para um advogado envolvido no caso. “Cada vez tenho mais medo de que ela desista.” Latifa temia as consequências de divulgar mais provas sobre as ações de seu pai. Em meados de julho, ela mandou uma mensagem para Haigh dizendo que queria seguir em frente e completou: “Ainda que eu passe o resto da minha vida em Dubai.” “A coragem dela estava acabando”, me disse Haigh. Poucos dias depois, em 21 de julho de 2020, ela mandou uma mensagem mais decidida. “Só vou acreditar que sou livre quando estiver em solo britânico.” Mas, depois desse dia, ele nunca mais teve notícias dela.

Por meses, Haigh continuou escrevendo para Latifa, mas sem resposta. “Alien e eu sentimos a sua falta”, escreveu, no começo de 2021. “Todo mundo está fazendo o melhor que pode e nós não desistimos. Espero que um dia, de algum modo, você veja isso.” Depois que o canal de WhatsApp silenciou, Jauhiainen esteve com Haigh em Lamorna Cove para decidir o que fazer com o vídeo-denúncia que Latifa tinha gravado. No ano anterior, Latifa dissera aos dois: “Independentemente de qualquer coisa, lembrem que eu nunca vou desistir, nem me entregar. Então vamos combinar que vocês vão continuar presumindo que eu estou viva e presa contra a minha vontade.” No entanto, nos meses anteriores ao fim dos contatos, Latifa já vinha resistindo a qualquer publicidade.

Haigh não tinha dúvidas. “Ou mataram Latifa ou ela estava drogada e sofrendo em algum lugar”, disse. “Precisamos fazer algo grande e dramático para atrair os olhos do mundo.” Sete meses depois de perderem contato, eles mandaram as transcrições dos vídeos de Latifa para a ONU e autorizaram a BBC a divulgá-los. As imagens de Latifa, sussurrando para a câmera agachada com as costas na parede do banheiro, foram vistas no mundo todo. “Sou uma prisioneira. E essa casa foi transformada numa cela”, diz ela. A ONU exigiu que os Emirados Árabes Unidos provassem que Latifa estava viva. O governo britânico finalmente rompeu o silêncio. Boris Johnson, então primeiro-ministro, e Dominic Raab, das Relações Exteriores, expressaram preocupação com a segurança dela.

A pressão sobre o xeique Mohammed aumentou em maio de 2021, quando a Suprema Corte britânica publicou mais uma conclusão: o telefone de Haya, assim como os celulares dos advogados dela, dos seguranças e de um assistente, tinham sido grampeados com o Pegasus, e o xeique Mohammed, “mais do que qualquer outra pessoa no mundo”, era o provável culpado. Haigh descobriu que seu celular também estava grampeado e o número de Latifa apareceu numa lista vazada de aparentes alvos do Pegasus. (O xeique Mohammed negou envolvimento com qualquer grampo e os fabricantes do software contestam a lista.)

O tribunal acabou determinando que o xeique Mohammed pagasse a Haya mais de 550 milhões de libras (3,4 bilhões de reais), naquele que é tido como o mais caro acordo de divórcio na história britânica. Também o impediu de ver os filhos, por concluir que ele tinha usado “imenso poder” para submeter Haya a um “grau exorbitante” de abuso.

Naquele ano, veio à tona a notícia de que a rainha Elizabeth havia cancelado o convite para que o xeique Mohammed ficasse na sua companhia no Camarote Real, em Ascot. Finalmente, o clima político estava mudando. Haigh e Jauhiainen aproveitaram o momento e fizeram uma petição para que o governo britânico congelasse os bens do xeique em solo britânico e impusesse sanções de viagem, em função do “tratamento cruel, desumano e degradante” dado a Latifa.

E então, no dia 20 de maio, uma professora chamada Sioned Taylor postou uma foto no Instagram, com a legenda: “Linda noite.” A imagem mostrava três mulheres em uma mesa no shopping vazio. Ao lado de Taylor, inclinada para frente, inexpressiva, vestida de preto, estava a princesa Latifa.

O primeiro impulso de Haigh ao ver a foto da “linda noite” foi de alívio. Pelo menos, ele pensou, “ela está viva e tem uma certa liberdade”. No entanto, aquilo parecia exatamente o tipo de imagem encenada, coisa contra a qual Latifa sempre havia resistido. Jauhiainen conhecia Taylor: ela tinha sido uma das poucas mulheres com permissão para passar tempo com Latifa depois da primeira vez em que ela foi presa. O semblante de Latifa na foto era inescrutável.

No dia seguinte, os ativistas de Lamorna Cove receberam a primeira de uma série de cartas de Niri Shanmuganathan, uma parceira de um escritório internacional de advocacia chamado Taylor Wessing, dando ordens para que parassem a campanha por Latifa. Shanmuganathan informou que Latifa lhe dissera que “agora ela quer viver uma vida normal, com o maior grau de privacidade possível”. E acrescentou que a princesa ficara incomodada com a publicação de seus vídeos e não queria “nenhuma outra exposição”.

Haigh e Jauhiainen receberam uma solicitação para assinar um acordo em que se comprometiam a não falar em público sobre Latifa e apagar as provas que a princesa tivesse entregado a eles. Haigh se recusou a assinar, a não ser que o escritório tivesse como provar que Latifa não estava agindo sob coação. “Eu sei que não é só ela que está por trás dessas cartas”, me disse Haigh. “É o pai dela.” (Shanmuganathan se recusou a comentar.)

No dia seguinte, Sioned Taylor postou mais uma foto de Latifa, desta vez sentada em um restaurante à beira-mar em Dubai, com um sorriso discreto para a câmera. “Comida ótima no Bice Mare com Latifa hoje”, escreveu. No mês seguinte, surgiu outra foto de Taylor e Latifa, que vestia calças de moletom largas e uma camisa estampada amassada. Estavam, aparentemente, no aeroporto de Madri. Pouco depois, o escritório de advocacia Taylor Wessing emitiu uma declaração em nome de Latifa. “Recentemente visitei três países europeus numa viagem com minha amiga. Pedi que ela postasse algumas fotos na internet para provar aos ativistas que posso viajar para onde eu quiser”, dizia o texto. “Espero poder viver minha vida em paz agora.”

Mais ou menos na mesma época, os ativistas tiveram outro revés. Eles tinham sido ajudados por um primo de Latifa, Marcus Essabri, que havia rompido seus laços com a família real e agora morava na Inglaterra, em Gloucester, onde trabalhava como barbeiro e tinha uma loja de faláfel. Mas em agosto, depois de assinar o acordo oferecido pela Taylor Wessing, Essabri recebeu um convite para se encontrar com Latifa na Islândia, junto com Taylor e Shanmuganathan. “Tive um reencontro emocionante com minha prima”, escreveu ele, no Twitter. “Foi tranquilizador ver que ela está tão feliz.”

Jauhiainen estava furiosa. “Então ela pode simplesmente ir viver a vida dela tranquilamente e isso nunca aconteceu?”, disse. “Me desculpe. Isso aconteceu – e eu também fui raptada.” Mas ela e Haigh concordaram que era impossível continuar lutando pela libertação de Latifa. “O Marcus se encontrou com ela, estamos recebendo cartas de advogados mandando a gente parar, ela está aparecendo em vários lugares do mundo – e a gente vai continuar com uma campanha pela liberdade dela? Fica ridículo”, disse Haigh. “Ficou claro para mim que ela fez um acordo. Ela não estava mais aguentando.” Com relutância, ele e Jauhiainen anunciaram que a campanha estava encerrada.

Numa manhã de outubro de 2022, encontrei Haigh no Aeroporto Newquay, na Cornualha, e fomos até Lamorna. Em seu chalé, ele me levou até o escritório, onde uma pequena janela, manchada de sal, dava vista para o mar. Uma lâmpada nua brilhava acima das prateleiras com pastas de provas da campanha cuidadosamente etiquetadas. Alien, a gata sem pelos, se enrolava nos nossos pés enquanto conversávamos.

Haigh fez o login em seu computador e desceu o cursor pelas mensagens que tinha salvado do celular secreto de Latifa, em arquivos com codinomes como “Receitas de Pão de Canela” e “Donut com creme”. Ele e Jauhiainen dedicaram mais de três anos à causa de Latifa. Haigh estava furioso por ver que Dubai estava apagando o trabalho feito por eles. “Querem reescrever a história”, disse. “E estão fazendo isso.”

As fotos de Latifa pareciam reduzir os problemas criados para a reputação do xeique Mohammed. O ministro do Interior dos Emirados Árabes Unidos foi nomeado presidente da Interpol. O governo de Joe Biden aprovou um negócio multimilionário de armamentos e estava levando adiante um plano de colaboração de energia limpa de 100 bilhões de dólares com um “parceiro essencial dos Estados Unidos”. Líderes mundiais compareceram aos montes na Dubai Expo no primeiro semestre de 2022. O emirado fora escolhido como sede da cúpula de mudanças climáticas COP28.

Em 2022, a ONU revelou um desdobramento inusitado: Latifa tinha se encontrado com uma das sucessoras de Mary Robinson, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, em Paris. Na conta de Direitos Humanos da ONU no então Twitter, hoje X, aparece a seguinte mensagem: “Latifa disse à alta-comissária que estava bem & expressou o desejo que sua privacidade seja respeitada.” Uma foto mostrava Latifa ao lado de Bachelet à entrada de uma estação de metrô em Paris. Haigh se sentiu aliviado. Se Bachelet estava envolvida, então ele talvez pudesse deixar o caso de Latifa para trás.

Mas ele ainda se perguntava: se Latifa estava de fato livre, por que não tinha mandado uma única mensagem para ele ou Jauhiainen? Ela tinha insistido que se eles algum dia perdessem contato poderiam “estar certos de que eu estou presa e à espera”. A dissonância cognitiva era exaustiva e a ausência de Latifa deixava “uma grande lacuna”, disse Haigh. Ele perdeu sua companheira de fins de noite e a sensação de propósito que lutar ao lado dela dava. “É como se alguém tivesse morrido”, comentou. “E eu estou literalmente sentado no fim da terra, olhando para o mar.”

Encontrei Jauhiainen um mês depois em um café bem iluminado no Sul de Londres, perto da casa onde ela estava com um amigo. Ela também vinha tendo dificuldade para se reorientar depois de perder contato com Latifa. Não podia voltar para Dubai e a Finlândia não era mais seu lar. “A história não teve um fechamento”, disse. Logo depois de se encontrar comigo, Jauhiainen comprou uma passagem só de ida para a Tailândia, na intenção de continuar viajando sem destino até descobrir o que fazer em seguida.

Em abril, escrevi para Latifa, pedindo que falasse comigo. Recebi uma carta de um escritório de advocacia de Londres, recusando o pedido. Naquele mesmo dia, um novo post surgiu no Instagram no nome de Latifa Al-Maktoum. “Fiquei sabendo recentemente de uma reportagem que põe em dúvida a minha liberdade.” Junto com a mensagem, havia uma foto de Latifa na Áustria, na entrada do parque Mundo dos Cristais Swarovski, vestindo um casaco longo acolchoado e botas de neve. “Consigo entender isso da perspectiva externa de alguém que vê uma pessoa tão sincera sair de cena e tem outras pessoas falando em seu nome, especialmente depois de tudo que aconteceu, o que deixa a impressão de que eu estou sendo controlada. Estou totalmente livre e vivo uma vida independente.”

Uma enfermeira que trabalhou por dois anos na equipe de cuidadores de Shamsa me disse que Latifa está morando na própria casa e dirige sozinha por Dubai, sem usar uma abaya. “Acho que ela fez um acordo e agora cuida da própria vida, dentro de limites aceitáveis”, disse. Esses limites, segundo a suposição da enfermeira, incluíam “manter em discrição assuntos de família”. (A enfermeira, como muitas outras com quem eu falei, disse “não ter ideia” do que aconteceu com Shamsa.) Ela considerava Latifa “uma mulher brilhante”, mas sugeriu que ela tinha causado problemas para si mesma. “Em qualquer família, se você quebra as regras da sua cultura, não vai ser uma experiência ótima”, disse.

No entanto, durante anos, Latifa se recusou a cogitar que sua campanha pudesse acabar assim. “Nunca vai haver uma conclusão em que ‘Latifa está feliz com sua família dos Emirados Árabes Unidos’ NUNCA”, escreveu ela, logo depois de fazer contato com Haigh e Jauhiainen de sua casa. “Eu quero viver, existir e morrer como uma pessoa completamente livre. Minha alma só vai ser feliz assim. Eu preciso disso. É meu destino e a única conclusão que eu vou aceitar.”


Texto originalmente publicado na revista The New Yorker


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Jornalista inglesa, é colaboradora da revista The New Yorker