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ATÉ MAIS, AMOR

Uma reconstituição dos últimos dias de Elza Soares

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No palco do Theatro Municipal de São Paulo, Elza Soares se queixou em voz baixa que as duas faixas de elastano de seu macacão de seda branca, bem coladinho, estavam apertando a cintura e parte dos quadris. Rapidamente, Pedro Loureiro, o empresário da cantora, arrumou uma tesoura. Enquanto cortava com cuidado os elásticos, ela disparou, rindo: “Gentem, o Pedro vai me deixar pelada!”

Elza Soares não ficou menos elegante, apesar dos ajustes feitos às pressas. Por cima do macaquinho branco, ela vestia uma capa, também de seda branca. Parecia um manto real a cobri-la do tronco aos pés, na elegante cadeira de acrílico branca – modelo Louis Ghost Chair, do designer francês Philippe Starck – em que estava sentada. A longa capa se estendia sobre duas caixas de som, instaladas sobre um praticável retangular, em cima do qual foi colocada a cadeira. Desde que começou a se apresentar sentada, no início dos anos 2000, seus shows ocorriam sobre essa espécie de palquinho em cima do palco, para que ela não ficasse numa altura inferior à dos músicos da banda, ao seu redor.

O figurino da cantora era composto também por um “costeiro” de ombreiras bufantes, que de longe pareciam asas recolhidas. O diretor de arte Allex Colontonio conta que a armação da peça, que ele classifica como afrofuturista, foi feita com tela de galinheiro revestida com a mesma seda usada na capa. Arrematava o conjunto um turbante de cor branca de 70 cm de altura. Dependendo do ângulo das câmeras que registravam o show, o item se agigantava mais ainda, pois se fundia visualmente com uma enorme estrutura cenográfica, igualmente de seda branca, disposta bem no centro do palco.

Essa peça de 6 metros de comprimento, suspensa por cabos de aço e afixada nas varas cênicas, no alto do palco, descia até bem perto da cantora, na forma de um fino e comprido triângulo, cujo vértice terminava numa localização precisa: 40 cm atrás da cantora e 40 cm acima do seu turbante. Vista da plateia, Elza Soares parecia, devido a esse efeito cenográfico, imantada por uma força vinda do alto que se espalhava pelo palco através dela, como se a artista, aos 91 anos, fosse um elo entre o Céu e o teatro. Havia poesia no cenário, mas Elza, ao se deparar pela primeira vez com a imensa instalação, perguntou em tom espirituoso a Colontonio: “Meu filho, isso não vai cair na minha cabeça, né?”

Todo esse aparato foi para as filmagens, em 17 de janeiro passado, de Elza ao Vivo no Municipal, um álbum visual em que ela interpretou quinze músicas que sintetizam a sua carreira de mais de setenta anos. A ideia inicial era filmar no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, o show do álbum Planeta Fome, lançado em 2019. Mas a pandemia impediu a execução desse projeto, e outro foi criado dois anos depois. A nova locação escolhida foi o Theatro Municipal de São Paulo, cidade onde a cantora carioca passou algumas temporadas: no início da carreira na década de 1950, quando se apresentou em casas noturnas, nos anos 1960, já com Garrincha, quando ele jogou no Corinthians e na Portuguesa Santista, e nos anos 1980.

As filmagens no Municipal continuaram no dia seguinte, com um pocket show aberto a uma pequena audiência. Foi a última apresentação pública da cantora, que morreu dois dias depois, em 20 de janeiro, no Rio de Janeiro.

A preparação da viagem a São Paulo começou no sábado anterior, dia 15, no apartamento de Vanessa Soares, neta mais velha da cantora e sua diretora de produção. Elza morava com ela desde agosto de 2019, quando deixou o apartamento que alugava na Avenida Atlântica, em Copacabana, levando para a nova casa, no Recreio dos Bandeirantes, apenas a cama, as roupas e alguns poucos objetos. No fim da tarde do sábado, o personal stylist e maquiador da cantora, Wesley Pachu, carioca de 29 anos, chegou ao apartamento para iniciar os preparativos e dormiu lá, de modo a facilitar as coisas no dia seguinte.

No domingo, logo depois do café da manhã, Pachu foi ao quarto da artista para escolher as roupas que ela usaria no voo de ida a São Paulo. Optou por peças confortáveis: calça jeans, tênis e uma camiseta do Flamengo, time do coração de Elza, que gostava de ver os jogos bebendo champanhe. A camiseta na cor preta era uma edição especial, lançada em 2021 para celebrar o Dia da Consciência Negra.

O empresário Carlos Eduardo Gomes de Souza, marido de Vanessa, dirigiu o BMW de Elza Soares até o Aeroporto Santos Dumont no início da tarde. A cantora foi no banco de trás, ao lado de Pachu, que além de ser seu maquiador era também seu confidente. A neta sentou-se ao lado do marido. Em Copacabana, eles pararam e apanharam o empresário Pedro Loureiro, que, logo ao entrar no carro, entregou o presente que tinha comprado para Elza: uma barra de chocolate. “Era um Alpino diferente”, conta Loureiro.

A cantora preferia não comer doces, pois levava com muita disciplina a sua alimentação balanceada – ela também havia praticado musculação por décadas, com afinco. Mas gostou tanto do chocolate que, para surpresa geral, devorou antes de chegar ao aeroporto. “Amor, isso tá muito gostoso”, disse ela a Loureiro. Dentre os vários vocativos carinhosos que ela usava, “amor” era o predileto. Garrincha usava o mesmo chamamento, como contou Vanderléa de Oliveira Vieira, última companheira do jogador, na série Elza e Mané – Amor em Linhas Tortas, de Caroline Zilberman.

No voo comercial, Elza sentou-se na primeira fileira. Em São Paulo, ela, Vanessa, Loureiro e Pachu foram do Aeroporto de Congonhas diretamente para o Hotel InterContinental, o cinco estrelas no bairro Jardim Paulista onde ela costumava se hospedar. A cantora foi recebida com um bilhete carinhoso: “Senhora Elza Soares, é sempre uma honra tê-la conosco. Tenha uma ótima estada. Equipe InterContinental de São Paulo.”

Elza dividiu o quarto com Vanessa, para a despesa caber no orçamento da produção do álbum visual. A cantora ficou com a cama de casal king-size, enquanto a neta se acomodou em uma cama de solteiro. Foi bem diferente das outras vezes em que se hospedaram no hotel: elas ocupavam dormitórios diferentes, interligados por uma porta. As duas eram tão próximas que Elza muitas vezes chamava a neta de “filha”. Amigos contam que a artista vibrou ao ganhar o Grammy Latino 2016, mas ficou mais feliz ainda quando Vanessa conseguiu controlar a diabete. “Por favor, me ajuda, ela precisa se curar, eu não posso ficar sem ela”, pediu Elza a Loureiro. A neta retribuía o cuidado, sempre atenta à rotina de alimentação e remédios da avó.

Na segunda-feira, dia 17, Elza Soares chegou ao Theatro Municipal por volta das 10 horas. Como ela se locomovia de cadeira de rodas, o bombeiro Francisco Leandro da Silva levou para a equipe uma espécie de minirrampa que ajudou na entrada pelo estacionamento. A artista, sua equipe e os músicos fizeram testes de Covid antes das gravações (o que se repetiria no segundo dia de filmagem). Também tiveram que apresentar o cartão de vacinação. O uso de máscara foi obrigatório, exceto para Elza e a banda.

Todos os camarins do Municipal estavam reservados naqueles dois dias para a equipe do álbum visual. Elza ficou no de número 4, no primeiro andar, a dezenove passos do elevador e o único com acessibilidade no teatro. Em formato de “L”, o camarim tem 36 m2 e duas janelas ao fundo. O banheiro, com barras de apoio, ocupa cerca de 40% do espaço. Nos intervalos da gravação, Elza descansava em uma poltrona de estofado preto, parecida com um divã, perto da qual há um botão de emergência, para acionar os bombeiros.

No primeiro dia, ela foi maquiada inicialmente no hotel com base no rosto, blush em tom vinho, sombra na cor dourada, delineador nas pálpebras e gloss nos lábios. No camarim, Pachu fez retoques diante do espelho emoldurado de luzinhas e vestiu o primeiro figurino que Elza usaria nas filmagens, um macacão dourado. “Era como uma dança, já tínhamos tudo ensaiado: passei o macacão primeiro pelos pés dela, depois vesti as pernas e por fim levantei até o busto”, conta Pachu.

O paulista Cassius Cordeiro, de 46 anos, responsável pelo roteiro e a direção cinematográfica do álbum visual, explica que o cronograma de filmagens previa duas diárias, com doze horas cada. A equipe técnica já estava a postos desde bem cedo, mas a gravação só começou por volta das 11 horas. Não no palco do teatro, mas no Salão Nobre, um dos espaços mais suntuosos do Municipal, com 240 m2 de área, pé-direito de 12 metros, relevos folhados a ouro, vitrais alemães, espelhos e cristais belgas e pinturas no teto de Oscar Pereira da Silva, representando a dança, o teatro e a música. O assoalho de peroba-rosa e pau–marfim está protegido desde 2011 por um carpete criado pelos irmãos Campana.

Elza Soares chegou ao salão e sentou-se perto do piano de cauda Yamaha GH1, o único instrumento que a acompanharia nas duas músicas a serem filmadas ali: Meu Guri, de Chico Buarque, e Espumas ao Vento, de Accioly Neto. A cantora pediu à sua equipe para convidar um pianista negro e o escolhido foi o músico paulistano Fábio Leandro, que participou especialmente nessas duas canções. A luz do dia atravessava os vitrais do Salão Nobre, criando um clima de melancolia e ternura. Apesar do calor e das luzes, a maquiagem não teve que ser retocada nos vários takes e repetições das duas músicas. “Eu só usei um papel para secar as lágrimas dela”, recorda Pachu. “Tá tão lindo, tão emocionante, isso tá tão forte. Esse salão é o salão de Meu Guri. Melhor gravar Espumas de novo, no palco, à tarde”, disse a cantora.

Às 13 horas, todos foram almoçar, e Elza comeu pouco, mas com apetite. Depois da pausa, foi feito o plano-sequência de abertura, o que exigiu que ela e Leandro interpretassem Meu Guri novamente. Nesse tipo de plano, a câmera é levada a fazer um longo movimento pelo espaço sem interrupção nem corte. No caso das filmagens com Elza, a câmera foi ligada na calçada do Municipal, subiu as escadarias do teatro e seguiu pelo Salão Nobre até encontrar a cantora e o pianista, que interpretavam Meu Guri. Quem cuidou da sequência foi o cinegrafista goiano Gustavo Vilefort, de 29 anos, ajudado por um gimbal, espécie de braço mecânico para acoplar a câmera, o que facilita a realização desse tipo de movimento longo. “Elza falava sempre com o Cassius e os produtores sobre o que estava sendo filmado. Perguntava, dava sugestões, revia takes. Mostrava-se sempre presente, dentro do projeto”, conta Vilefort.

Cumprida essa etapa, seguiu-se uma pequena pausa, e os trabalhos foram retomados às 14h30, agora no palco do Municipal, onde já estava reunida a banda, composta por oito músicos: Thomas Harres na bateria, Mestre da Lua e Felipe Roseno na percussão, Luciano Barros no baixo, sintetizador e violão de sete cordas, Rovilson Pascoal na guitarra e cavaco, Ricardo Prado na guitarra, teclado e sintetizador, e como backing vocals Ana Paula Guimarães e Netão.

O paulistano Harres, de 34 anos, nunca tinha participado de um show com Elza, mas já havia acompanhado a cantora em uma apresentação no Domingão do Faustão. Devido à pandemia, ela não pôde ensaiar antes, o que criou, segundo ele, uma cumplicidade entre a artista e a banda na hora da gravação. Ensaio e filmagem se misturaram naqueles dias.

Elza insistiu que, no álbum visual, a única música no Salão Nobre deveria ser Meu Guri, e que Espumas ao Vento, filmada à tarde no mesmo local, fosse refilmada no palco do teatro. Mas isso não foi possível por causa da agenda apertada – e Espumas acabou ficando de fora do álbum. Devido aos atrasos no cronograma, o repertório gravado no palco foi reduzido a seis composições. Sentada na cadeira de acrílico de Philippe Starck, vestida com o turbante e o manto branco de seda, compondo com o gigantesco elemento cênico triangular, Elza cantou Dura na Queda, de Chico Buarque, Morro, de Mauro Duarte e Dona Ivone Lara, Lata d’Água, Jota Júnior e Luis Antônio, Comportamento Geral, de Gonzaguinha, Se Acaso Você Chegasse, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, e Balanço Zona Sul, de Tito Madi. Foi usado um teleprompter para ajudar a memória da cantora, mas ela quase não recorreu ao aparelho.

Diretor musical do álbum, o carioca Rafael Ramos, de 43 anos, participou da seleção das músicas com Loureiro, Vanessa Soares e a própria Elza. “O arco histórico escolhido pega desde o primeiro disco, quando ela grava Se Acaso Você Chegasse. Também entrou Saltei de Banda, que ela não cantava há muito tempo. E ainda teve músicas como Balanço Zona Sul, porque é uma gravação histórica dela com Wilson das Neves”, diz Ramos. O projeto foi financiado em parte via Lei Rouanet, podendo captar até 477 mil reais junto a empresas. Obteve 350 mil reais com a Natura, e investimentos do escritório Projetar Gestão Artística, do qual Pedro Loureiro, empresário da cantora, é diretor, e da gravadora Deck, de Rafael Ramos.

De volta ao hotel, à noite, Elza Soares não pareceu nem um pouco cansada do dia inteiro de filmagem. Quis jogar buraco, como gostava de fazer, mas ninguém havia se lembrado de trazer o baralho do Rio. Poderiam ter pedido um à recepção do hotel, mas acabaram optando por um bate-papo apenas, no quarto da cantora, tanto mais que a equipe estava exausta. Durante a prosa, Elza aproveitou para tomar um creme de aspargos frescos que não consta no cardápio do InterContinental, mas era preparado especialmente para ela, com caldo de galinha e pouco sal. Antes de dormir, assistiu pela tevê, com Vanessa, à comédia Vovó… Zona 3 – Tal Pai, Tal Filho. Elza se debulhou de rir com as travessuras do ator Martin Lawrence, travestido em uma desengonçada matrona.

Na terça-feira, dia 18, as filmagens foram feitas unicamente no palco do Municipal. Até o horário do almoço, o posicionamento de Elza e da banda era o mesmo do dia anterior: ela e os músicos formando um círculo. Depois, houve uma mudança, e todos se voltaram para a plateia. Assim, era possível compor melhor com os demais elementos cênicos: 24 placas de acrílico nas cores laranja, roxa, amarela e vermelha, em formatos geométricos – triângulos, retângulos, círculos, penduradas em cabos de aço –, outra criação de Colontonio, o diretor de arte, e de seu sócio no estúdio Decornautas, André Rodrigues. “Usamos 30 das 100 varas cênicas do teatro para pendurar as peças. Colocamos na frente e no fundo, para criar uma volumetria”, diz Rodrigues, cujas madeixas longas chegaram a ser elogiadas por Elza.

O cronograma de filmagem daquele dia previa como último ato um pocket show para cinquenta pessoas, às 18h30. Começou, no entanto, por volta de 19h15. Elza cantou Malandro, de Jorge Aragão e Jotabê, A Carne, de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti, Volta por Cima, de Paulo Vanzolini, Maria da Vila Matilde, de Douglas Germano, Saltei de Banda, de Zé Rodrix e Luiz Carlos Sá, Salve a Mocidade, de Luiz Reis, Banho, de Tulipa Ruiz, e Mulher do Fim do Mundo, de Romulo Fróes e Alice Coutinho.

No camarim, a própria Elza escolheu os brincos e braceletes que ia usar, comprados por Colontonio na Ladeira Porto Geral, na região da Rua 25 de Março, área de comércio popular em São Paulo. Os anéis e sapatos – tipo mule, fechado na frente e aberto atrás – foram trazidos do Rio. Quando Elza perguntou se faltava muito para terminar o ajuste na roupa, o diretor de produção de arte e figurino Rodrigo Braulina respondeu cantando um verso de Vatapá, de Dorival Caymmi (e usado na abertura da música Volta por Cima): “Um bocadinho, um bocadinho mais.”

Elza Soares voltou para o Rio de Janeiro na quarta-feira, dia 19, no início da tarde. No desembarque no Aeroporto Santos Dumont, encontrou-se por acaso com o cantor e compositor baiano Carlinhos Brown, na área de restituição de bagagens. Ele vinha de Salvador, e cumpriu o ritual de praxe quando encontrava a amiga. “Demos o último selinho ali”, diz ele, contando que o beijo em pessoas queridas era coisa sagrada para Elza. “Ela se retava quando alguém querido a cumprimentava apenas com um ‘oi’ básico.”

A conversa dos dois artistas durou cerca de quinze minutos. Elza contou a Brown sobre as gravações no Theatro Municipal e disse a ele: “Queria tanto que você estivesse lá.” Fãs começaram a se aglomerar ao lado deles, para registrar aquele encontro casual. Elza fez menção de se levantar, mas ele disse: “Precisa não, rainha. Fique aí.” O passado dos dois artistas tem um ponto em comum: as mães de ambos eram lavadeiras.

Depois do encontro com Brown, Elza seguiu para a casa de Vanessa, no BMW conduzido outra vez pelo marido de sua neta. Loureiro foi com ela e desceu do carro em Copacabana. Ao se despedirem, ela e o empresário trocaram o seguinte diálogo:

– Eu te amo, cara. Só queria que você soubesse disso – afirmou Elza.

– Você não me ama mais do que eu te amo. Não faz assim comigo, não, porque amanhã… Desse jeito, vou ficar com o coração apertado. Amanhã, a gente se vê, vou lá na sua casa.

– Será?

– Ô, meu amor, você não é disso, eu nunca deixei de cumprir nada que te prometi.

– Será que a gente vai se ver amanhã mesmo?

Eles não se encontrariam mais. Elza continuou seu caminho, ouvindo no carro o cantor mexicano Luis Miguel, que ela adorava.

Ao chegar em casa, Mônica, a cuidadora de Elza, reparou que a cantora estava com a mesma blusa do Flamengo que havia usado na partida para São Paulo. “Ih, vou tacar água sanitária nessa camisa”, brincou a cuidadora. Elza replicou, espirituosa: “Diz pra ela, Vanessa, quem faz o pagamento.”

Na quinta-feira, 20 de janeiro – dia de São Sebastião, padroeiro do Rio –, Elza teria uma sessão de fisioterapia pela manhã. “Normalmente, eu ia às 9 horas, mas como ela tinha voltado de viagem, cheguei um pouco mais tarde no dia 20”, recorda o fisioterapeuta Valter Botelho, que conduzia o tratamento da artista havia seis meses, de segunda a sexta. Naquele dia, quando ele chegou às 9h40, a cantora pediu para fazer a sessão no quarto, e não na sala, como de costume. Ela também deixou de lado as músicas de Chet Baker que muitas vezes embalavam os exercícios.

Depois de Botelho tirar Elza da cama e colocá-la na cadeira de rodas, ela disse: “Ai, paixão, estou tão cansada.” Foi o suficiente para o fisioterapeuta desistir dos exercícios repetitivos. Em vez disso, eles ficaram proseando por cerca de quarenta minutos. “Ela era muito curta nas palavras, ainda mais se estivesse com sono”, conta o fisioterapeuta. Perto das onze da manhã, quando acabou o bate-papo e o horário da aula, Botelho e Mônica colocaram a artista novamente na cama. “Descansa, paixão, amanhã eu volto”, disse ele.

Botelho já tinha ido embora quando Vanessa chegou do supermercado, trazendo ingredientes fresquinhos para o almoço da avó. A cuidadora logo avisou que havia algo errado com Elza, que estava ofegante, com a respiração estranha. Vanessa foi até o quarto e ligou para o médico da cantora, que sugeriu que a família conversasse com o geriatra que também atendia Elza. O geriatra, por sua vez, sugeriu que a levassem para o hospital, mas apenas por desencargo, já que os exames estavam todos o.k.

Ao ligar para o hospital, Vanessa teve que esperar vinte minutos para ser atendida e conseguir uma ambulância – que levaria cerca de quarenta minutos para chegar. Ela voltou para o quarto de Elza. “Vanessa, estou morrendo”, disse a cantora. Vanessa tentou tranquilizá-la: “Amor, calma, calma, o médico está vindo.” Desesperada, chamou o marido, que ao se aproximar ouviu Elza dizer: “Eles estão chegando.” Pouco antes de a ambulância estacionar na frente do prédio, ela falou: “Eles chegaram.”

No momento em que a enfermeira Virna Soares, também neta de Elza, entrou no apartamento, a equipe médica já estava lá, aplicando o aparelho de massagem cardíaca na cantora. “Meu maior sonho era conhecer a Elza, mas não em uma hora dessas”, disse a médica que veio na ambulância, ao comunicar o falecimento à família. “Eu fiz de tudo, tentei de tudo para sentir algum sinal vital, mas não consegui.” De acordo com o comunicado da família, Elza Soares morreu às 15h45, de causas naturais.

O lançamento do álbum visual de Elza Ao Vivo no Municipal aconteceu no dia do aniversário da cantora, 23 de junho, em uma única exibição pelo YouTube. A estreia em plataformas de streaming está prevista para este ano. Também neste ano os fãs poderão assistir em um festival – ainda não definido – parte da apresentação filmada em 360º em São Paulo.

Algumas pessoas tiveram o privilégio de ver o espetáculo antes de todos, no Theatro Municipal. Entre os cinquenta convidados do pocket show no dia 18 estava o empresário catarinense Guto Dalçóquio, de 46 anos, amigo de Elza e ex-vice-prefeito do município de Itajaí (ele era do PFL e foi para o PSDB). Os dois se conheceram no começo dos anos 2000, quando ela apresentou o show do disco Do Cóccix Até o Pescoço, no Teatro Rival, na Cinelândia, no Centro do Rio. Eles tinham uma paixão em comum: a Mocidade Independente de Padre Miguel.

Em 2020, quando Elza foi tema da escola de samba, Dalçóquio estava no mesmo carro alegórico que a cantora, ao lado de Vanessa, Loureiro e Pachu. “Ela foi a primeira mulher a puxar um samba-enredo na Marquês da Sapucaí, em 1969, na nossa Mocidade”, diz Dalçóquio. Ele viajou por conta própria a São Paulo para assistir ao pocket show e se hospedou no mesmo hotel que Elza. “Me senti privilegiado de estar nesse grupo pequeno e selecionado para ver a apresentação no Municipal.”

Dalçóquio era uma das poucas pessoas brancas na plateia. A cantora queria ver seu povo ocupar um espaço outrora reservado à elite branca e pediu que a maioria do público fosse composta por pessoas negras. Uma delas foi o educador Éder Soares Sá Britto, de 37 anos. Ele entrou em contato com Elza em 2021, quando decidiu fazer na escola que dirigia em São Paulo uma homenagem à artista, no Dia da Consciência Negra. “Ela ficou muito feliz com o reconhecimento, mandou um recado em vídeo para os estudantes e sempre perguntava pelas atividades que eu estava desenvolvendo”, diz.

O show no Municipal foi um fato marcante para o professor. Ele se lembra até da roupa que estava vestindo: uma calça e uma camisa de linho, em tons azul-escuro e azul-claro. Os sapatos, de bico fino, eram da mesma cor. Britto foi ao teatro acompanhado da irmã, que também se chama Vanessa. “O pocket show não foi tão pocket assim. Durou de umas sete da noite até as nove. Não teve erro da Elza e da banda. Teve apenas a questão da iluminação e, às vezes, do som”, conta. “De repente, quando a gente estava no gás, dançando, alguém dizia: ‘Corta, faltou luz no baterista e no percussionista.’ Voltavam a gravar e então paravam de novo: ‘Corta, o microfone de não sei quem não está sendo captado.’”

Ele não pôde cumprimentar Elza no camarim do teatro, ao fim do show, mas foi até o InterContinental, acompanhado da irmã, para tentar dar um alô. “Achei que seria só um cumprimento na porta, mas nos chamaram para entrar.” Havia outros fãs e amigos, e todos se juntaram em torno de Elza Soares no hall do hotel. Britto ficou agachado ao lado da cantora, segurando a mão dela. Em dado momento, ele disse:

– Elza, você é um símbolo muito forte para todos nós.

Ela olhou fundo nos olhos de Britto e respondeu:

– É verdade. Não foi fácil, mas sou mesmo.


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.