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AXÉ NO OLIMPO

A primeira trans no topo da indústria da moda
Imagem Axé no Olimpo

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Foram muitas sessões de terapia dedicadas àquele dia na escola fundamental. Na hora da chamada, a professora fez uma pergunta grosseira. “Ela quis saber se eu era menino ou menina”, recorda a estilista Isa Silva, hoje com 35 anos. “Eu disse que não sabia.” A professora não gostou dessa indefinição. Insensível ao constrangimento da criança, mandou que ela ficasse em pé e abaixou sua calça para examinar o órgão genital – na frente de todos os alunos. Depois daquela humilhação, meninos e meninas passaram a isolá-la. “Foi ali que eu entendi que a vida não seria fácil”, diz ela.

A infância de Isa Silva em Barreiras, município a 885 km de Salvador, foi marcada por duas fases bem definidas, a da bonança e a da pobreza, tendo um denominador comum nas duas etapas: os horrores do preconceito. Nascida com o sexo masculino, a filha do comerciante Máximo Ferreira da Silva – dono de relojoaria, perfumaria e mercadinho – e de Leila Campos teve acesso a uma vida confortável. O regime na casa era o absolutismo patriarcal. O pai não deixava a mãe seguir com seus estudos e não dividia com ela a administração dos negócios. Mas havia brechas nesse machismo: aos 6 anos, Isa Silva pediu material escolar com o tema da personagem Moranguinho. O pai comprou.

Quando ela estava com 8 anos, um infarto fulminante levou Máximo da Silva – e a vida da menina desabou. Como sua mãe não sabia administrar os negócios herdados do marido, as lojas logo foram à falência. “Ela endoideceu. Tivemos que mudar para uma casa onde não havia sequer geladeira.” Leila Campos partiu para Salvador, em busca de emprego. Levou consigo apenas a filha caçula, três anos mais nova que Isa Silva, que permaneceu em Barreiras, na casa de uma tia.

A menina tinha poucos amigos. “Os garotos da rua não queriam brincar comigo por eu ser afeminada, já as meninas não queriam por eu ser menino”, conta. Foi no ateliê de uma costureira da vizinhança que ela encontrou refúgio. “Eu ficava fascinada que uma mulher semianalfabeta fizesse modelagem, costurasse e deixasse as pessoas felizes. Eu também queria deixar as pessoas felizes e passei a sonhar em ser costureira.” Um dia, passeando de carro com a tia, Isa Silva viu na rua uma pessoa de cabelão, salto alto e unhas enormes. Perguntou que figura era aquela, e a tia contou que era uma travesti. “Foi quando eu me reconheci.”

Depois que sua mãe encontrou um emprego estável em Salvador, Isa Silva foi finalmente morar com ela. Estava com 14 anos e ouviu da mãe que precisava ser o “homem da família”, já que seu pai tinha morrido. A adolescente foi trabalhar em um lava-jato.

Salvador lhe deu régua e compasso. Ela foi a shows de rock e de música eletrônica e viu as transformistas no Âncora do Marujo e na Boate Tropical. Enquanto trabalhava como bilheteira de teatro, ingressou em um curso de design e gestão de moda, em uma faculdade particular. Mas algo lhe dizia para tentar a sorte em São Paulo. Em 2009, aos 19 anos, mudou-se com apenas uma mala.

Em São Paulo, lendo o livro Babado forte, da jornalista Erika Palomino, sobre a noite paulistana e suas relações com a música e a moda, Isa Silva resolveu anotar o nome das pessoas citadas (o livro está sendo relançado neste mês, em versão ampliada). Uma dessas pessoas era André Hidalgo, fundador da Casa de Criadores – semana de moda voltada para estilistas de vanguarda – e na época sócio da boate Clube Glória.

Ela procurou o empresário, que lhe abriu as portas. “O meu primeiro emprego foi entregando flyer do Glória, onde conheci estilistas, modelos, jornalistas”, lembra. Depois, trabalhou em confecções no Bom Retiro e no Brás, os dois principais polos têxteis da capital paulista, costurando de roupa casual a vestidos de festa, para marcas como Animale e Iódice. Também foi assistente dos estilistas Gustavo Silvestre e Weider Silveiro, que a incentivaram a “trabalhar a brasilidade”.

Em uma entrevista de emprego com o estilista Tufi Duek, ela ouviu o criador da grife Forum afirmar que “não sabia que na Bahia tinha faculdade de moda”. “O ego de São Paulo é enorme, eu sei”, diz Isa Silva. “Mas ali mesmo tomei a decisão de estudar outra vez.” Em 2010, ingressou no curso de tecnologia de produção do vestuário, no Senai, no qual se formou três anos depois.

Em 2015, a estilista abriu a grife Isaac Silva. No mesmo ano, estreou na Casa de Criadores. Mostrou a coleção Dandaras do Brasil – em homenagem à mulher de Zumbi dos Palmares –, que chamou a atenção de ninguém menos que Elza Soares. A cantora encomendou peças para compor o figurino de seus shows. “Eu agradeci aos orixás e à Dandara”, diz.

Isa Silva consolidou sua fama na moda como homem gay. Saiu do casulo só em 2019, quando se reconheceu como mulher trans e mudou oficialmente seu nome. Em São Paulo, abriu duas lojas, uma no bairro Santa Cecília, outra em Pinheiros. “Enquanto as pessoas foram para o online, ela fez questão de abrir loja física”, observa André Hidalgo, hoje seu amigo. No mesmo ano, Isa Silva apresentou suas criações na São Paulo Fashion Week. O sucesso a levou a firmar parcerias com empresas como Havaianas, Magalu, C&A e Tok&Stok.

“Eu fico orgulhosa de ver uma representante de nossa classe ocupando tantos espaços”, diz Michelly X, estilista trans e criadora de figurinos para shows de Anitta, Xuxa e Ivete Sangalo. Até pouco tempo, não era assim, como ela mesma recorda: “Miss Biá, drag queen que maquiou e desenhou as roupas de Hebe Camargo por décadas, não foi citada em nenhuma peça ou série de tevê sobre a apresentadora.” Miss Biá morreu de Covid aos 80 anos, em 2020.

Em busca do mercado internacional, Isa Silva começou a vender as suas criações em um site americano, em outubro. O site informa que suas roupas são “sem gênero” e “feitas para vestir todos os corpos”. A estilista diz que está predestinada a vencer na vida – só lhe falta um grande amor. “Existe uma solidão específica da mulher trans. Ficamos com homens, mas poucos oferecem afeto e carinho. Apenas a coisa momentânea. É uma busca dolorida”, diz. Ela, entretanto, não desanima, estampando em suas roupas o seu lema preferido: “Acredite no seu axé.”


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)