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BARBIES DOMÉSTICAS

Museu exibe presentes que patrões deram às empregadas
Imagem Barbies domésticas

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Bléim! Anuncio minha chegada ao Muquifu – Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos, que fica atrás de uma árvore gameleira, na fronteira entre o bairro Santo Antônio e o Aglomerado Santa Lúcia, uma das maiores favelas de Belo Horizonte.

“Não pode tocar o sino, ele é para uso religioso”, adverte padre Mauro Luiz da Silva, diretor do museu e pároco da Paróquia Santo Afonso. Não sei se cometi uma heresia, então peço perdão, para não comprometer a reportagem.

São 14h15 de uma terça-feira de dezembro, e padre Mauro – um homem negro de 56 anos, tranças nagô e barba grisalha – está sentado em um dos bancos da Capela Vila Estrela, no interior da Igreja Estrela da Manhã (ou Igreja das Santas Pretas). Ele degusta um caldo de mandioca com carne, cebolinha e torresmo, preparado ali mesmo por Maria de Lourdes Barreiros Lima, a dona Lourdinha, cuidadora e diarista.

Padre Mauro é graduado em filosofia e teologia, fez mestrado e doutorado em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Minas) e também cursou história e tutela do patrimônio cultural na Universidade de Pádua, na Itália. Além disso, é coordenador do Projeto NegriCidade e do Fórum Territórios Soterrados, que pesquisam o passado negro e indígena oculto sob o asfalto da capital mineira.

Em 2012, no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), ele inaugurou o Muquifu num anexo da Igreja das Santas Pretas. O museu comunitário e etnográfico “se dedica à preservação do patrimônio material e imaterial das vilas, favelas e quilombos urbanos de Belo Horizonte e Região Metropolitana”, conforme consta em um folheto educativo. Apesar das aparências, não é eclesiástico ou religioso.

A entrada é uma porta aberta na lateral da capela. Na primeira sala, o visitante é recebido por um banner com uma versão de Moça com brinco de pérola. Na foto, a assistente social negra Catharina Gonçalves reproduz a pose da jovem holandesa no quadro pintado por Johannes Vermeer no século XVII. A imagem foi produzida para a campanha “Favela é arte” e selecionada para a 13ª Semana Nacional dos Museus, de 2015. Gonçalves é integrante do Coletivo Muquifu, composto por nove membros que fazem a curadoria das atividades culturais do museu.

Padre Mauro diz que a imagem evidencia “o apagamento da pessoa negra na arte”. Ele conta que Gonçalves, depois de ouvir muitos elogios à sua beleza na foto, recusou-se a protagonizar a campanha do ano seguinte. “Ela sa­be que sua figura está associada a um padrão de beleza eurocêntrico, o da ‘negra branca’, de traços refinados”, diz. “E a negra negra? Retinta, com narizes de outros formatos?”

Com sua voz mansa, padre Mauro me deseja uma “bela visita” e retorna à capela. Agora que estou só – sou o único visitante do museu –, percebo que o Muquifu parece um penetrável ou alguma obra interativa de Hélio Oiticica (que se encantaria com sua “arquitetura de favela”). A construção de dois pisos está inacabada, por falta de recursos: algumas paredes têm tijolos aparentes; outras, só reboco. Não há câmeras nem portaria. O acervo não conta com catalogação sistemática. Pode-se tocar nos objetos. Vi até uma barata no chão – morta, ufa!

Começo pelo segundo piso. A exposição Uma rainha na favela é consagrada a Maria Marta da Silva, uma rainha do congado. Pedro pedreiro, tijolo com tijolo num desenho lógico (título colhido da canção de Chico Buarque) é uma instalação dedicada aos trabalhadores da construção civil. Na parte externa do segundo andar encontra-se o Jardim Wanda Silva (uma homenagem póstuma à mãe de padre Mauro), com plantas medicinais e decorativas, ervas para chás, flores e hortaliças. Um lance de escada acima e chega-se à laje do museu, que serve de mirante com vista para o Aglomerado Santa Lúcia.

Decido me concentrar no primeiro andar, sobretudo nas exposições dedicadas às empregadas domésticas.

A primeira instalação do museu foi Doméstica, da escravidão à extinção, inaugurada em 2013, no Dia da Empregada Doméstica – e de sua padroeira, Santa Zita (27 de abril). Está em cartaz no Muquifu até hoje. Consiste em um cubículo claustrofóbico com paredes de madeira compensada, dentro do qual há uma pequena cama, vassouras, um telefone fixo “para atender os desmandos da patroa”, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma boneca inspirada em Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo.

Em Uniforme das domésticas, cinco bonecas Barbie – só uma delas negra –, expostas sobre uma peneira de palha, estão vestidas de cozinheira e mucama, entre outros trajes adotados nos serviços domésticos. “Cadê meu uniforme, patroa?”, questiona um bilhete fixado no mostruário.

Presente de patroa é a seção mais curiosa do museu. Padre Mauro retorna ao Muquifu para me guiar por essa mostra. Ele conta que a ideia para a exposição surgiu em 2018, quando uma doméstica trouxe ao museu um cinzeiro de ferro fundido e talhado. “Presente de patroa”, disse ela, com desprezo. Então explicou: “Lá em casa, na minha família, ninguém fuma.”

O padre teve um lampejo: “Percebi essa origem em vários objetos do Muquifu.” Em parceria com Jezulino Lúcio Braga, professor de museologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele revisitou itens doados ao acervo por empregadas domésticas, procurando agrados e mimos recebidos das patroas.

Entre os objetos da mostra, contam-­se uma moringa, duas luminárias com defeito, uma coleção de canecas universitárias, uma enciclopédia Larousse, a obra completa de Monteiro Lobato. Há dois itens que, segundo o diretor, as empregadas “tiveram orgulho de receber”, pois foram trazidos especialmente para elas de viagens dos patrões: uma boneca japonesa e um suvenir de Pompeia, na Itália.

“Cada objeto, uma narrativa”, diz padre Mauro, como quem recita um adágio. Ele observa um traço comum nos presentes: “Quase sempre o sentido ou valor é o do descarte.” São coisas de que a patroa não precisa mais, e a empregada surge como alternativa à lata de lixo.

Pendurado numa parede está o quadro de um cavalo, com um pequeno rasgo na tela. Padre Mauro conta que foi confiado ao Muquifu por uma diarista. Ela disse: “Minha patroa falou que, se eu não quisesse, ela ia jogar fora. Achei a pintura tão bonita que fiquei com dó. Não ia combinar com a minha casa, então eu trouxe para o museu.”


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Jornalista e escritor, é autor do livroreportagem Nos Bastidores de Escobar & Outras Crônicas Bogotanas (Crivo Editorial)