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Chico Buarque aos olhos da irmã menor

    Ana de Hollanda e Chico Buarque nos anos 1950, na casa da Rua Haddock Lobo, em São Paulo, com a Babá ao fundo: “Nós, as meninas menores, tínhamos Chico como um ídolo particular” CRÉDITO: ÁLBUM DE FAMÍLIA

memória

Chico Buarque aos olhos da irmã menor

De todos os comentários que faziam sobre ele, o mais absurdo era chamá-lo de tímido

Ana de Hollanda | Edição 211, Abril 2024

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O ano era 1957. Morávamos no bairro de Pinheiros, em São Paulo, numa casa pequena, insuficiente para acomodar pai com escritório, mãe, sete filhos de todas as idades[1] e a Babá, que passara a ocupar a função de cozinheira. Minha mãe durante a metade daquele ano procurou outra moradia para sair da que se viu obrigada a se instalar às pressas, havia dois anos, quando chegamos da Itália. Certa noite ela anunciou que finalmente encontrara uma casa que Papai teria condições de alugar, onde caberíamos todos. Lembro-me bem da minha decepção quando, no bairro do Pacaembu, dobramos a esquina e Mamãe, realizada, disse para olharmos a casa nova. Vi uma casa velha de arquitetura meio normanda, com aspecto de total abandono e, do lado oposto da rua, outra novíssima de arquitetura estilo dos anos 1950, que, por segundos, quis que fosse a nossa.

Não consigo imaginar, hoje, um cenário que não seja este, o da Rua Buri, 35, para a história da minha família. Papai e seu escritório, seus alunos, amigos, pesquisadores, as paredes forradas de livros, Mamãe, nós sete, a Babá, a Generosa, gatos, agregados, frequentadores de todas as gerações, cantorias, brincadeiras, jogos, festas com centenas de pessoas e as constantes reuniões políticas.

O casarão e seu jardim, um caramanchão, bougainville, trepadeiras, chorão, muitos pinheiros, bambuzal, quaresmeira, pé de café, um quintal de três patamares com jabuticabeira, amoreira, um orquidário abandonado, adega, uma suposta cocheira da época da construção, em 1929 (foi o que então me contaram), terraço, palmeira, dois abacateiros e, culminando, no plano mais alto do jardim, uma enorme paineira cujas flores davam para ser vistas de longe, quando descíamos a rua, vindos da Avenida Paulista.

 

Uma das primeiras iniciativas de reconhecimento do novo território partiu de Sergito, meu irmão mais velho. Ele subiu em uma escada comprida de madeira esquecida no quintal para conferir do alto da paineira se seria possível assistir aos jogos do Estádio do Pacaembu. Os outros todos ficaram embaixo, fazendo perguntas, até que Pííí, a irmã dois anos mais velha que eu, muito dada a esportes radicais, se mandou escada acima. Não lembro se alguém mais subiu ou se todos preferiram confiar na palavra dos dois, mas não havia dúvida de que era possível ver mais da metade do campo de futebol. Na verdade, essa exploração só serviu mesmo para nos gabarmos, porque ninguém realmente se interessava em assistir a uma partida pela metade.

O estádio não era muito próximo, mas dava para ir a pé. Em pouco tempo descobrimos que, entre 5 e 10 minutos depois do início do segundo tempo, os guardas abriam os portões para a turma que ficara de fora. Com isso, assistimos a vários clássicos, incluindo partidas do Santos contra o Botafogo, com Pelé e Garrincha em campo. Mamãe, que nos incutiu o amor pelo Fluminense, além do amor pelo bom futebol, levava as três menores para esse programa de fim de semana. Sergito, Alvaro e Chico iam por conta própria, mas a preferência era sempre quando alguma equipe do Rio participava. Mamãe e os mais velhos, todos cariocas, se orgulhavam muito de suas origens, mesmo que Papai, que não ligava para futebol, fosse paulista, assim como nós, as pequenas.

O corredor de carros, ônibus fretados e torcedores ruidosos descendo a ladeira a caminho do estádio, da mesma forma que os fogos, o sonoro coro dos torcedores a cada belo drible, lance marcante, falta, pênalti ou gooool eram contagiantes para quem morasse nas imediações. Para nós e a maioria do povo brasileiro que não tinha televisão, caso não fosse possível ir ao estádio, a solução era acompanhar os jogos pelas narrações eletrizantes dos locutores de rádio.

 

 

Chico ou Carioca, como era chamado em São Paulo, em poucos meses já liderava um bando de moleques da redondeza e colegas do Colégio Santa Cruz. Em dias de jogos, o ponto de encontro era lá em casa para a saída em bando rumo ao Pacaembu e, mesmo com eventuais divergências, iam e voltavam todos juntos, discutindo aos berros. Só que as partidas prosseguiam em casa com o futebol de botão. Os melhores não eram os fabricados com essa finalidade; os bons, valorizados e comercializados, eram lixados e adaptados a partir de tampas de relógio de pulso dos pais, tios e avós. Para meu azar, o campo prioritário vinha a ser exatamente o assoalho do quarto das meninas, onde eu dormia com Christina e Pííí. Era um deus nos acuda quando, no melhor sono da manhã, Chico irrompia no quarto arrastando meia dúzia de garotos, escancarava o janelão que dava para a varanda e abria espaço para o início da partida. A essas alturas, eu só pensava em me cobrir inteira para tirar a touca e os meninos não me virem com aquela meia ridícula enterrada na cabeça. Mas o que realmente interessava a eles era a partida na qual Chico, além de jogar, discutia e imitava locutores ao seu estilo, sem esquecer a vibração da torcida.

Conosco, as três meninas menores, existiam outros jogos. Acredito que em função da construção de Brasília, espalhou-se entre nós uma febre de arquitetura e urbanismo, e a partir de um papel qualquer, em geral de embrulho de pão, Chico deu para projetar cidades que se iniciavam com o posicionamento do estádio de futebol para, em seguida, definir a localização da prefeitura com a praça da igreja matriz, as escolas, os hospitais e, mais afastado do Centro, o bairro operário. A partir de então estávamos nós a criar cidades e submeter a ele para apreciação.

Nós, as meninas menores, tínhamos Chico como um ídolo particular, já que os dois outros irmãos mais velhos e Miúcha eram distantes ou não tinham muita paciência com criança. Chico não demorou a inventar outro desafio, que vinha a ser a planta de um planeta. Novamente, numa folha de papel, ele definiu seu continente, também país, batizado como Rosália; Pííí desenhou outro, que veio a se chamar Clarine; Christina e eu optamos pelo óbvio ululante – expressão bem da época – e concebemos Cristiano e Baiano. Alvaro topou marcar seu espaço e plantou no mapa as ilhas Bionda, Bruna e Rossa. Sergito, que não gostava muito de dividir as coisas, quis um planeta só para si e, a fim de deter mais terras, aboliu os oceanos. Tínhamos, cada um, nossa maior fonte de renda, nosso produto de exportação, estabelecíamos os preços e comercializávamos entre nós. Chico, o imperialista, não tardou a criar uma situação para declarar guerra a Christina e a mim em seguida. O confronto era disputado com dados e, à medida que íamos perdendo, seu exército avançava, implacável, centímetro a centímetro, até que perdemos tudo e fomos obrigadas a nos asilar em outras nações. Eu não tenho dúvidas de que ele dava suas trapaceadas nos dados, porque com Pííí, a irmã mais próxima dele e antenada em suas malandragens, não ousou provocar confrontos bélicos, e com Alvaro, dois anos mais velho, nem pensar. Só sei que, com tudo dominado, a brincadeira perdeu a graça, saiu de moda, mas eu continuei por anos com uma dívida impagável.

 

Os meninos já eram adolescentes, Miúcha uma moça, e nós ainda crianças, quando notei que Chico, o irmão divertido e espirituoso, a quem éramos mais ligadas, andava sério, distante, não tocava mais violão. Vivia escutando um lp de música clássica que havia comprado e que nós gostamos e adotamos também. Eu ouvia cochichos e sentia um clima estranho na casa. Vários dos amigos de antes, colegas da escola, continuaram a frequentar a casa, mas agora também muito fechados e todos de paletó e gravata.

Uma noite, Chico chegou com a turma de sempre, eu corri para falar com os meninos, só que a reação dele me deixou sem ação. Chamou Mamãe e disse que ela deveria nos mandar vestir uma roupa decente – estávamos as três de short. Só que a reação dela foi imediata: cortou a conversa dele e, pelo que me lembro, brigou, dizendo que ele andava com ideias malucas na cabeça e que nós continuaríamos usando as mesmas roupas. Em poucos dias, a bomba veio à tona: um professor do Santa Cruz ligado a um movimento católico extremamente conservador, com suas teorias políticas e morais medievais, vinha cooptando alguns alunos que julgava terem potencial de liderança para levar adiante aquelas convicções. Isso foi revelado numa reunião da escola com os pais desses garotos. O professor foi expulso, mas como o grupo continuava a se reunir, cada pai buscou uma forma de livrar o filho daquele movimento.

Papai, que normalmente confiava a educação dos filhos à minha mãe, mantendo-se alheio aos assuntos infantis, revelou uma faceta paternal que até então eu desconhecia por completo. Entre desnorteado e irado, comprou um chicote numa loja de artigos de montaria e ligou para o tal professor gritando os maiores impropérios e anunciando como usaria o chicote, caso o professor se aproximasse novamente do filho. Lembro-me bem do chicote, que ficou para sempre no alto de uma estante da sala de entrada, e de nós, os filhos, junto com Babá no andar de baixo, ouvindo os berros dele ao telefone no quarto, e Mamãe insistindo: “Basta, Sérgio, desliga o telefone.” Mas Papai, que não era de brigar com facilidade, quando se irritava pra valer perdia a cabeça e também qualquer autocensura. Acho que todos os nossos vizinhos da época têm memória daquele dia.

Chico foi levado pelos dois para um colégio interno em Cataguases, Minas Gerais, para onde meus pais viajavam mensalmente a fim de acompanhar o progresso do menino. Em dois meses, ele já tinha novos amigos, conhecia as histórias e costumes da cidade e passara a escrever regularmente crônicas para o jornalzinho da escola. Seis meses depois, Mamãe voltou eufórica, com o veredito constatado por ela e Papai: “Chico voltou a ser o cafajeste de sempre!” E, apesar da expressão um tanto exagerada, a intenção dela estava certa, já que ele voltou mais engraçado do que nunca, gozador, chutando bola e, com os amigos, aprontando na rua estripulias, da qual só tomávamos conhecimento quando a confusão terminava em delegacia de polícia. Em casa, uma das diversões de Chico e seus amigos era passar trotes por telefone em algumas infelizes, para as quais elucubravam histórias torturantes que duravam dias, semanas, ou até Mamãe perceber e intervir em favor da pobre desconhecida.

A música sempre esteve muito presente em casa. Papai, ainda jovem, solteiro, quando morava no Rio, como muitos jornalistas marcava ponto no Café Nice, no Centro, o bar da boemia onde circulavam os maiores sambistas de então. Ele se ressentia de nunca ter encontrado lá Noel Rosa, mas esteve várias vezes com Ismael Silva, a quem Manuel Bandeira chamava de Santo Ismael, o que motivou meu pai a criar uma reverência: a qualquer menção do nome do Santo, ele e Manuel se inclinavam e tiravam imaginários chapéus. Disso eu posso falar, porque assisti à cena na Rua Buri.

Como meu pai, Mamãe também estudou piano na infância, conhecia e adorava sambas antigos. Sergito era um rato de sebo e invariavelmente chegava em casa com preciosidades, na época pouco valorizadas, como os discos de 12 polegadas de Chico Alves e Mário Reis, Noel Rosa, Aracy de Almeida, alguns com uma ilustração de Di Cavalcanti na capa, e outros que ouvíamos sem parar e incorporávamos ao nosso repertório. Alvaro era fã de rock‘n’roll, como todos nós, porém ele conhecia mais e nos trazia o melhor dos lançamentos da música americana. Ouvíamos muito rádio, mas, além do hit parade, só nos interessavam os programas que tocavam Dorival Caymmi, sambas antigos e marchas de Carnaval, uma vez que, naquela época, a música brasileira vivia uma febre de boleros e sambas-canções de cortar os pulsos, impossíveis de cair no gosto de crianças e adolescentes.

Só que um dia apareceu em casa o primeiro long-play de João Gilberto, com um modo de cantar intimista, quase falando, a batida inédita, as divisões e as harmonias ao violão diferentes de tudo que se ouvia nas rádios. Ao ouvir João Gilberto, a minha impressão era a de que um novo Brasil surgia, junto com a construção de Brasília, a indústria automobilística, as revoluções artísticas na arquitetura, no cinema, no teatro, nas artes plásticas, na moda e na música popular, com aquela nova maneira de compor e cantar, leve e agradável. O LP foi unanimidade em casa e passou a rodar na vitrola sem parar, o dia inteiro, sem que ninguém reclamasse.

Miúcha tinha como meta cantar como Edith Piaf, mas não demorou a escorregar para o samba e, com o violão que aprendeu a tocar minimamente com minha tia Maria, passou a comandar estridentes saraus com as três irmãs, no caramanchão ou no jardim na frente da casa, e que contavam, muito eventualmente, com participações de Chico e Alvaro. O repertório, que ela separava em primeiras e segundas vozes, era basicamente com composições de Ataulfo Alves, Paulo Vanzolini, Noel Rosa, Ismael Silva, Noite Ilustrada, Vinicius de Moraes, Capiba, Nelson Ferreira, Zé da Zilda e, no ápice, a Exaltação à Mangueira. No entanto, cabiam de quando em quando alguns sucessos do repertório de Harry Belafonte, The Platters, The Everly Brothers e até canções napolitanas, trazidas da Itália na bagagem.

Eu, que também sonhava aprender violão, consegui ganhar um de presente de aniversário, com a garantia de que Miúcha me ensinaria a tocar, assim como já vinha fazendo com Chico. O instrumento que eu desejava estava bem além do orçamento previsto, e minha mãe me convenceu a aceitar um violão pequeno, bem mais simples que, ao ser apresentado em casa, recebeu no ato o apelido de Catupiry por sua cor e qualidade da madeira, sem nem ao menos a mão de verniz. Nas duas vezes em que consegui um tempinho de Miúcha para a aula, aprendi só três acordes de Serenô, de Antônio Almeida, até porque naquele instrumento bizarro de cordas de aço, nada saía próximo ao afinado. Chico, que tinha autorização para usar o violão da Miúcha, aos poucos foi se aprimorando para além dos primeiros acordes. Passou a observar e copiar de músicos mais tarimbados, ao mesmo tempo que se desenvolvia na convivência com violonistas nos bares e em casas de amigos. Não demorou muito, ele já arriscava algumas composições, ainda tímidas, indefinidas, mas sem dúvida melodiosas.

Em 1962, Miúcha arrumou uma bolsa de estudos e embarcou para Paris. As cantorias nas noites de luar findaram-se, mas nós continuamos a ouvir tudo que chegava em casa e a improvisar vocais em qualquer oportunidade, como nas noites em que Vinicius de Moraes aparecia por lá, levando às vezes Alaíde Costa, Baden Powell. Nessas ocasiões, a música ia até o dia amanhecer. A presença de Chico, arranhando suas primeiras composições ao violão, nos deixava como vespas ao redor da lâmpada. Afinal, já tínhamos vivido experiências musicais anteriores, na época em que moramos na Rua Henrique Schaumann, em Pinheiros, quando ele criava operetas e distribuía os papéis entre as três irmãs pequenas, sendo ele, obviamente, o protagonista.

Na casa da Rua Buri, era na sala de jantar que Chico se concentrava para criar, com todas as portas fechadas, sem se dar conta do quanto o som reverberava naquele espaço cheio de vidros e espelhos. Nós, na sala ao lado, ouvíamos tudo com a maior atenção, comentando baixinho um momento ou outro, fascinadas com aquele processo repetitivo em busca do acorde certo, da frase exata, da passagem da primeira para a segunda parte, enquanto a música ia se fixando nas nossas cabeças. No momento em que ele sentia que tinha conseguido algo satisfatório, uma música pronta para a primeira audição pública, ou melhor, para um primeiro teste com seu público particular, Chico abria a porta de vidro, e nós três já estávamos prontas para escutar e cantarolar junto com ele.

Aos poucos, começamos a inserir vocais em suas canções. Acompanhado pelo violão, ele entoava uma parte, nós fazíamos os vocais e depois cantávamos o estribilho. Além de trazer para ensaiar em casa seus amigos estudantes que dominavam algum instrumento, Chico também passou a se apresentar em algumas boates e shows em escolas ou faculdades. Certa vez, nos convidou para acompanhá-lo a um show que faria no Colégio Rio Branco e que contaria com a participação de vários artistas que vinham fazendo nome no circuito estudantil, como Taiguara, Toquinho, Tuca, Ivete, Maria Lúcia e outros. Eles abririam o espetáculo, que, na segunda parte traria, como grande atração, Alaíde Costa e Oscar Castro-Neves. Completamos o coro com uma amiga, Helena Hungria, para nos apresentar como o grupo Chico e as Quatro Mais. Fazíamos um vocal de vozes desencontradas numa pretensa bachiana contemporânea. Deu tudo certo, o número foi bem aplaudido e nem nos lembramos do nervosismo. A apresentação de Alaíde Costa, na segunda parte, começou com a própria cantando no breu e à capela Onde está você, de Oscar Castro-Neves, que causou um enorme assombro e euforia em parte do público, marcando, sem dúvida, a carreira dela.

Na minha lembrança, esse foi o assunto da semana nas escolas, mesas de bares, na faculdade da Rua Maria Antônia e em programas radiofônicos, até que veio um convite da TV Record – a Globo da época – para Alaíde Costa e os jovens artistas repetirem no seu auditório o show Primeira audição, realizado no teatro do Colégio Rio Branco. Porém o convite em casa esbarrou com o rigor de minha mãe: “Chico, você é rapaz, pode ir, mas as meninas, nem pensar!” Ele insistiu, argumentando que quem não pudesse se apresentar com o mesmo repertório e a mesma formação original seria excluído do show. Não sei se Papai intercedeu nos bastidores, mas Mamãe finalmente se convenceu de que não seria justo penalizar Chico e concordou com a nossa ida, mas impôs uma condição: a de que nunca mais na vida ele nos levasse para algum palco.

Tudo certo, fomos e fizemos bonito. Nós gostávamos do ambiente musical, nos sentíamos bastante integradas nos saraus da Rua Buri, nas temporadas de muita música no Rio de Janeiro ou quando íamos na Boate Jogral, de Luís Carlos Paraná, que transformou um pequeno espaço em São Paulo num clube de amantes da música, onde os melhores instrumentistas, cantores e compositores da cidade, assim como os de passagem, sentiam-se em casa. Nós, as meninas apadrinhadas por Paulo Vanzolini – velho amigo da família e da Boate Jogral – batíamos ponto na boate, onde tínhamos a oportunidade de cantar samba, acompanhadas pelos músicos sensacionais da casa.

Chico sonhava ser arquiteto, sendo que Mamãe sonhava em dobro. Assim, ele entrou para a Faculdade de Arquitetura da USP, e o curso imediatamente passou a enfrentar forte concorrência vinda do porão do belo prédio art nouveau da escola (que então funcionava no bairro Higienópolis), onde a batucada comia solta. Era o Sambafo, como os estudantes chamavam aqueles encontros regados a samba e cachaça, e para onde ele passou a arrastar outros músicos da cidade. Esse irmão sempre andou em bando, mas, aos poucos, o bando foi assumindo um perfil mais musical. Além das canções próprias e de algumas parcerias, passou a compor para filmes e peças. Lembro vagamente de ensaios para as gravações das trilhas sonoras, com a participação de colegas músicos e alguns jovens profissionais, como um rapaz que tocava cello, e outro, flauta, se não me engano.

Em duas montagens, Morte e vida severina e O&A, no Tuca, o teatro da PUC,[2] tivemos uma atuação determinante já que ele, sem conhecer praticamente nada de escrita e harmonia, mas sendo extremamente musical e sem dúvida dotado de um ouvido privilegiado, usava nossas vozes como instrumentos para compor, além do violão como base. No processo criativo, Chico estabelecia certo desenho melódico, que ensinava a uma ou duas de nós três; em seguida, com outro desenho melódico, ensinava para quem restasse. Com tudo decorado, ele tocava, e nós nos dividíamos nas melodias que se cruzavam como num coral harmônico. No entanto, quando a harmonia não lhe caía bem ao ouvido, ele experimentava outro desenho para uma das partes e assim ia mudando e testando quantas vezes fossem necessárias até encontrar a boa forma, a definitiva. Então tudo era registrado num gravador Geloso – um precursor do cassete –, que ele conseguira emprestado. Em Morte e vida severina, a música estava presente do começo ao fim, com os versos, ou como pano de fundo, tendo traduzido fortemente o clima árido, a angústia e a emoção presentes no texto de João Cabral de Melo Neto.

As gravações eram levadas para o elenco da peça e ensaiadas exaustivamente. Apesar dos atores da PUC serem razoavelmente musicais, às vezes demonstravam dificuldade em cantar com vozes desencontradas. Chico nos chamou para alguns ensaios a fim de que ajudássemos o coro a ensaiar. Não me esqueço da ponta de inveja que senti das garotas do elenco, apesar de eu ser uma mera estudante de colegial, com 15 ou 16 anos. O processo com o&a foi semelhante, só que no caso a peça de Roberto Freire, dirigida por Silnei Siqueira, não tinha texto. A encenação ousada se baseava num roteiro básico, elaborado junto com o cenário e as melodias, cantadas por dois grupos, um de perfil rebelde que se expressava em “Aaaaa” e o outro, antagônico, conservador, em “Ôôôôô”. A partir disso, o espectador compreendia, sem dificuldade, o enredo do musical e o que cada grupo representava. Nessa peça, meus irmãos Maria do Carmo, a Pííí, e Alvaro integraram o elenco.

Antes mesmo das peças, as canções de Chico foram se tornando conhecidas. Um de seus primeiros hits em ambientes estudantis e rodas de samba foi Marcha para um dia de sol, uma marchinha que agradava a todos e tinha uma letra um pouco ingênua, com temática social comportada, e não à toa passou a ser chamada de Marcha João XXIII. Ela foi gravada por Maricenne Costa em 1964. A partir daí, Chico não demorou a lançar seu primeiro compacto, com Pedro Pedreiro de um lado e Sonho de um Carnaval, do outro. Lembro que Pedro Pedreiro impressionou muito ao revelar um Chico mais maduro no uso das palavras e na melodia, que correspondia perfeitamente bem aos versos e à temática monótona e repetitiva. Pela primeira vez notei Papai se surpreendendo com o filho que há muito demonstrava interesse por literatura, mas que, bem novo ainda, revelara um indubitável talento no uso da palavra escrita na música. E passou a chamar a atenção de todos, incluindo seus amigos, para a expressão “penseiro”, um perfeito neologismo criado, talvez, a partir das leituras de Guimarães Rosa. Em seguida, Chico lançou outro compacto, com Olê olá e Meu refrão. As duas canções fizeram sucesso, sendo que a primeira foi mais executada, o que inevitavelmente o obrigava a repeti-la sempre nos shows e programas de tevê, quando sua vontade era mostrar outras novidades.

A faculdade de arquitetura aos poucos foi sendo deixada de lado, assim como os projetos de um garoto que já não era mais ele. O ano de 1964 foi traumático para o Brasil, e eu sinto que atingiu profundamente aquela geração que acreditava num futuro promissor com as reformas de base, Paulo Freire, as Ligas Camponesas e alguns princípios que imaginávamos inabaláveis. Toda a família acompanhou as notícias pelo rádio, pelo telefone que não parava de tocar com informações e boatos vindos de todos os cantos, inclusive das redações de jornais censurados. Ocorria um grande entra e sai de pessoas em nossa casa, gente que queria falar pessoalmente, já que as ligações telefônicas passaram a não ser mais seguras. Um a um, os comandantes das Forças Armadas foram aderindo ao golpe. Por fim, chegou a notícia de que Jango tinha partido rumo ao Rio Grande do Sul. Apesar de Brizola insistir numa resistência armada, o presidente, ilegalmente destituído pelo Congresso, com apoio do Exército, da elite financeira, da imprensa e da classe média conservadora, prevendo derramamento de sangue no país, preferiu o exílio.

A essa altura, o nome de Chico como cantor e compositor já tinha ultrapassado os limites do estado de São Paulo. Além do fato de que o Rio de Janeiro permanecia sendo a capital cultural do Brasil, era onde o menino que queria ser chamado de Carioca não abria mão de voltar a viver novamente. Não bastando, era a terra do samba, seu ritmo nativo, a terra dos maiores sambistas e, porque não, a terra da bossa nova, de Vinicius que o apadrinhou e o apresentou a vários de seus ídolos na terra de Tom Jobim.

 

Veio um convite para a temporada na Boate Arpège, no Leme, com a atriz e cantora Odete Lara e o MPB4, que ele já conhecia de apresentações em São Paulo, e ele alugou uma quitinete na Rua Prado Júnior, em Copacabana. Seus compromissos em São Paulo, com shows na capital, no interior ou na tv Record, o obrigavam a se dividir entre as duas cidades. Em casa ou na rua, arrastando inúmeros agregados, ele fazia festa nas noites paulistanas, serenatas para as namoradas, só que acrescentando então novos amigos, artistas do naipe de Paulo Autran, Caetano Veloso e músicos da Orquestra Sinfônica.

Não sei exatamente em que mês ele compôs A banda, lançada em 1966, mas me lembro bem dele criando a marchinha na sala de jantar e de nós, as meninas, como sempre escutando ansiosas na sala ao lado. A música era sem dúvida contagiante, não há como negar a magia que aquela melodia simples, mas redonda, e a letra alegre e singela exerciam sobre as pessoas. O país vivia sob a ditadura, mas a juventude ainda sonhava com a derrubada dos militares, sonho que se tornou pesadelo com o AI-5, decretado quatro anos depois.

A banda chegou e não passou, veio pra ficar na vida de todos. Do dia para a noite, dezenas de capas de revistas estampavam o menino de olhos cada vez mais assustados. Ele tentava levar a vida naturalmente, mas nada mais era natural àquela altura. Como de costume, numa madrugada, Chico promoveu uma serenata para a namorada, e no dia seguinte a aventura tinha se transformado em notícia de primeira página num jornal do Rio. Tudo que ele até então fazia por pura molecagem teve que ser radicalmente cortado de sua vida para não passar por exibicionismo, que era exatamente o que evitou sempre.

Em casa, o telefone tocava sem parar, com sugestivos nomes a se passar por Roberto Carlos, Hebe Camargo, Agnaldo Rayol, Nara Leão e meio elenco da TV Record tentando falar com Chico. Com isso, deixávamos o aparelho tocar e perdíamos ligações importantes. Algumas pessoas ao descer a ladeira de carro gritavam o nome dele. Na pracinha em frente, tinha sempre gente olhando e fotografando. Numa manhã apareceu, na porta de entrada de casa – já que o portão que dava para a calçada nunca fechava – um envelope com várias páginas escritas à mão por uma maluca que havia passado a madrugada inteira rodeando o casarão e anotando todos os movimentos dos moradores, achando que Chico, para quem ela escrevia, estava lá dentro, quando ele sequer estava em São Paulo. No colégio, eu passei a ser assediada por colegas com quem nunca tivera intimidade, que me convidavam para ir à casa delas, insinuando que eu também as convidasse para a minha. Acho que todos os irmãos que vivemos aquele período, a partir de então e por algum tempo, ficamos um pouco arredios a novas amizades.

De tudo que se falava sobre ele, o mais absurdo era chamá-lo de tímido. Tímido? Logo ele, que Mamãe sempre chamou de cafajeste? Ele nunca foi tímido nem cafajeste, mas podia ser reservado, e era natural que fosse, com desconhecidos que insistiam em invadir sua vida real para arrancar confidências irreais. E também para algumas pessoas, jornalistas em especial, que, quando não conseguiam nenhum furo, acabavam por inventar algum. Inventavam namoros, brigas, intrigas que impediam o rapaz de 22 anos de se expressar e agir naturalmente.

Por mais esperto que ele fosse, por mais amadurecido intelectualmente, era impossível estar psicologicamente preparado para ser endeusado por gregos e troianos. Chico foi transformado em unanimidade nacional, o que, paradoxalmente, atraía desconfiança de alguns e mágoas de outros. Manuel Bandeira, amigo de toda vida de meu pai, fez um comentário sincero e sentido, dizendo que, aos 80 anos, não havia recebido por toda sua obra o que um rapaz de pouco mais de 20 anos ganhara por apenas uma música.

Nós assistíamos àquele reconhecimento de Chico com gosto e certo orgulho sem dúvida, mas também um pouco assustadas com aquela transformação dele em um pop star desajeitado que, se não bebesse um pouquinho mais, teria dificuldade de encarar tanta exposição e algumas inusitadas demandas.

Em um almoço como tantos outros, estávamos todos nós à mesa sendo que Chico naquele dia, especialmente inspirado e divertido, já havia provocado a Babá, de quem era o xodó desde neném, e emendou histórias hilárias das quais Papai era o mais curioso e Mamãe tentava se fazer de séria, até que a campainha da casa tocou e deu-se uma certa tensão no ambiente. Generosa, funcionária antiga da casa, foi atender e voltou para avisar a Chico que um jornalista estava lá para entrevistá-lo. Exatamente naquele momento constatei a mudança de sua expressão alegre, brincalhona e meio gaiata de moleque que ainda era, para um homem sério que media as palavras, um tanto ressabiado – que as pessoas juravam ser tímido – a que se impusera ser.

Daí em diante sua obra passou a falar por si.


Este texto faz parte de um dossiê sobre Chico Buarque a ser publicado em maio no nº 84 da Revista da Academia Mineira de Letras, por ocasião dos 80 anos do compositor, que serão comemorados em 19 de junho.

[1] Sérgio Buarque de Hollanda (1902-82) e Maria Amelia Alvim Buarque de Hollanda (1910-2010) tiveram sete filhos: Heloísa Maria (1937-2018, Miúcha), Sérgio Filho (1940, Sergito), Alvaro Augusto (1942), Francisco (1944, Chico), Maria do Carmo (1946, Pííí), Ana Maria (1948) e Maria Christina (1950). A partir da segunda edição de Raízes do Brasil, Sérgio Buarque passou a assinar Holanda com um “l” apenas. (Todas as notas são da Redação.)

[2] A peça musical Morte e vida severina, baseada no livro de João Cabral de Melo Neto, estreou no Tuca, em São Paulo, em 11 de setembro de 1965. No mesmo teatro, em 17 de setembro de 1967, estreou O&A, de Roberto Freire, com direção de Silnei Siqueira e direção musical de Júlio Medaglia. As músicas de ambas as peças foram compostas por Chico Buarque.

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Francisco Buarque de Hollanda | 01 jun 2010

Ana de Hollanda

É cantora e compositora. Foi ministra da Cultura, diretora do Centro de Música da Funarte e secretária de Cultura de Osasco (SP).

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