CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Conexão Arpoador-Paris
Uma francesa entre a moda europeia e o funk
João Batista Jr. | Edição 227, Agosto 2025
O ano de 2024 estava chegando ao fim, e Fernanda Torres ainda não sabia o que vestir no Globo de Ouro, em 5 de janeiro. Buscou a ajuda de Alexia Niedzielski, francesa radicada no Rio de Janeiro que tem conexões com os figurões da haute couture. No dia 22 de dezembro, Niedzielski ligou para o estilista belga Olivier Theyskens, seu amigo. “Era melhor recorrer a um designer de renome do que a uma marca de renome que está sem um designer no comando”, ela recorda.
Com as medidas da protagonista de Ainda estou aqui em mãos, Theyskens apresentou duas opções de vestido. O stylist Antônio Frajado – responsável pela imagem elegante que Torres exibiu durante toda a campanha de premiações – fez a escolha, e a atriz pediu apenas uma pequena alteração: um decote mais discreto, em respeito à memória da personagem Eunice Paiva. “O vestido chegou em Los Angeles dois dias antes do evento”, conta Niedzielski.
Com um longo preto de gola alta e fenda lateral, Fernanda Torres subiu ao palco para receber o prêmio de melhor atriz. O estilo sofisticado e discreto chamou a atenção da Chanel, que fechou um contrato de exclusividade com a brasileira.
Nascida em Paris há 42 anos, Alexia Niedzielski é filha do advogado franco-polonês Cyrille Niedzielski e da carioca Claudia Gouthier, que trabalhou no departamento de alta-costura da Dior nos anos 1980 e 1990. Seu avô materno é o embaixador Hugo Gouthier (1909-92), responsável pela compra da sede da embaixada brasileira em Roma, o magnífico Palazzo Pamphilj – adquirido em 1960 por 1,4 milhão de dólares, o equivalente hoje a 15,2 milhões de dólares. A avó, Laís Gouthier, de 98 anos, abriu na década de 1970 em Paris a primeira loja do estilista italiano Valentino e é considerada até hoje uma das mulheres mais elegantes do Rio.
O primeiro trabalho de Niedzielski, depois de estudar artes e moda em Londres, foi na equipe de produção do fotógrafo de moda Mario Testino, na capital britânica. Depois, tornou-se sócia de uma consultoria de sustentabilidade – com Charlotte Casiraghi, filha da princesa Caroline de Mônaco – e diretora de três revistas, entre elas a System. Lançada em Londres em 2013, a publicação estreou com uma entrevista do estilista Nicolas Ghesquière, que recém-saído da Balenciaga, chutou o pau da barraca: disse que a renovada grife estava mais preocupada com dinheiro do que com estilo (ele é agora estilista da Louis Vuitton).
O rapper Kanye West também deu trabalho à editora. Insistiu para aparecer na capa da revista ao lado de Kim Kardashian, sua mulher na época. Em 2015, o alemão Jürgen Teller fez a foto. Mas West não gostou, e foi preciso telefonar para a gráfica e interromper a impressão. Muito cobiçadas por colecionadores, as poucas edições da System hoje chegam a ser comercializadas por 1,8 mil reais.
Há dez anos, Niedzielski se estabeleceu no Brasil, depois que se casou com o empresário Gabriel Klabin, com quem tem dois filhos. Aqui, ela vem atuando junto a empresas brasileiras que querem internacionalizar sua imagem e ter acesso ao mundo da moda europeia, ou vice-versa: marcas da Europa que querem ampliar seu público no Brasil. “Muita gente me procura”, ela conta. Entre seus clientes, estão a relojoaria suíça Piaget, o Shopping Iguatemi, de São Paulo, e a apresentadora Sabrina Sato.
Ela também tem se esforçado para realizar o cruzamento entre a cultura brasileira e a moda global, como o que fez em fevereiro passado: convidou estilistas de marcas europeias para criar os figurinos que a cantora Ludmilla e seu corpo de bailarinos vestiriam nas apresentações do Carnaval. Quatro grandes grifes toparam: Balenciaga, Jean-Paul Gaultier, Pucci e Rabanne. “Convidei a Mari Stockler, minha amiga e grande diretora e cenógrafa, para me ajudar com os códigos da cultura do Brasil”, conta Niedzielski. A estilista da Pucci, Camille Miceli, combinou estampas psicodélicas a pipas brasileiras, e em visita ao Brasil ainda subiu no trio elétrico de Ludmilla em Salvador.
Niedzielski acredita que, nessa troca, as grifes ganharam mais do que a funkeira. “Ludmilla não precisa de marca internacional para se projetar, mas as marcas de fora precisam de novas narrativas para se comunicar”, diz. “O consumo de luxo está em declínio. As marcas precisam se movimentar. O funk é o K-pop do Brasil.” O engajamento dos brasileiros nas redes e sua paixão pelos ídolos vale muito na era da economia da atenção. “O brasileiro lidera a conversa no mundo digital, e as marcas querem exatamente isso.” De fato, uma foto de Ludmilla usando Pucci rendeu mais de 210 mil likes no Instagram.
Outro estilista que expressou o desejo de fazer um projeto no Brasil foi Julien Dossena, da Rabanne, que comercializa vestidos de até 30 mil reais e encontrou no país um bom mercado para sua linha de perfumes. Niedzielski propôs a ele fazer um filme sobre o funk, de gênero híbrido, entre a publicidade e o documentário. E sugeriu que as locações fossem em uma favela. “De cara, levei um ‘não’, óbvio, mas daí expliquei que, sem dar poder às pessoas, não teria como seguir adiante.”
As filmagens aconteceram na Rocinha, em dois dias, com uma equipe de setenta pessoas da comunidade e com direção de fotografia de Melissa de Oliveira, que já documentara as manobras de motos e os penteados dos jovens do Morro do Dendê, na Ilha do Governador. Lançada em maio, a campanha alcançou o maior número de visualizações que a Rabanne já teve: 4,4 milhões no Instagram. Embora a publicidade de uma grife de luxo em uma favela possa despertar o debate sobre a apropriação cultural, a marca francesa tem um histórico com o ritmo musical explorado no filme feito na Rocinha: a Rabanne já teve uma gravadora de funk e uma boate parisiense especializada em música africana e caribenha.*
Niedzielski, ela mesma, detesta roupas e acessórios com monogramas de grifes, evita sempre que pode a maquiagem e não faz escova no cabelo. Em português correto, com leve sotaque, conta que às vezes faz reuniões de trabalho com os pés afundados na areia do Arpoador, onde toma Sol todas as manhãs. Quando está em Paris com a família, ela precisa avisar os filhos para colocarem os sapatos antes de sair de casa. “Aqui no Rio eles vivem descalços.”
*Texto corrigido: a versão anterior deste trecho dizia que a gravadora de funk e a boate em Paris haviam sido do estilista Julien Dossena
