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COPA E COZINHA

A dupla que alimenta a Seleção Brasileira
Imagem Copa e cozinha

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No futebol, o mal pode ser o que entra e não o que sai da boca do homem. Que o diga o lateral Branco: no jogo em que o Brasil foi eliminado pela Argentina na Copa do Mundo de 1990, na Itália, ele bebeu de uma garrafa oferecida pelos adversários e sentiu-se grogue em campo. Não se sabe se a água foi mesmo “batizada” (a estrela do time rival, Diego Maradona, dizia que sim). Felizmente, a equipe da CBF conta hoje com profissionais para garantir que os jogadores só consumam alimentos e bebidas que propiciem o melhor rendimento. Já foi o tempo em que, nos intervalos das partidas eles bebiam água e chupavam laranjas, agora substituídas por repositores de energia. “Cada jogador tem a sua garrafinha individualizada, com seu nome escrito e um preparo especial de acordo com suas necessidades energéticas e de vitaminas”, explica a médica carioca Andréia Picanço, de 41 anos.

Ela e o chef gaúcho Jaime Maciel, de 67 anos, comandam a zaga que defende a alimentação dos atletas. Se o posto de treinador é incerto – em janeiro, a CBF substituiu Fernando Diniz por Dorival Júnior, a segunda troca depois da Copa de 2022 –, na cozinha da Seleção reina a estabilidade. Formada em medicina esportiva pela USP, com pós-­graduação em nutrologia, Picanço é a titular do cargo de nutróloga há cinco anos. Maciel é veterano: serve os melhores boleiros do país há 28 anos.

Em períodos de treinos e competições, a dupla sua os aventais: são cinco ou seis refeições diárias servidas aos atletas, sempre de três em três horas. Um cardápio decidido com base em vários fatores: as informações de cada craque passadas pelos seus clubes de origem, os exames médicos realizados na apresentação à CBF, os relatórios do fisiologista a cada treino ou atividade física. Há ainda que se considerar casos específicos de alergia ou intolerância a certos alimentos – e tudo isso mantendo a variedade de sabores, com três tipos diferentes de proteína (carne, frango ou peixe), servidos todos os dias, de modo a agradar paladares de jogadores que se acostumaram a culinárias tão díspares como a da Inglaterra (onde jogam Gabriel Jesus e outros) e a da Arábia Saudita (para onde se mudou Neymar).

“Em viagens ao exterior ou mesmo a outras regiões do país, procuramos sempre incluir algum prato que homenageie a culinária local”, diz Maciel, trajado a caráter com o dólmã branco que distingue o líder da cozinha e shapô na cabeça. Mas os jogadores que atuam no exterior – maioria absoluta do grupo – chegam com outras carências. “Eles querem matar a saudade do arroz e feijão”, diz o chef.

A chegada de Maciel à Seleção se deu por um lance do destino. Depois de trabalhar quinze anos em um hotel em Porto Alegre e outro em Canela, no Rio Grande do Sul, em 1995 ele foi comandar a cozinha do Jandaia, em Santana do Livramento, cidade na fronteira com o Uruguai, onde a Seleção se preparava para a Copa América. Quando a delegação nacional se transferiu para a cidade uruguaia de Rivera, para estrear na competição, a cozinha local desagradou os jogadores. A comissão técnica à época – Zagallo e o supervisor Américo Faria – não teve dúvida: convocou o gaúcho bom de panelas, que se tornou a partir daí o titular inconteste da cozinha canarinha. Serviu a todos os grupos reunidos desde então, inclusive os pentacampeões de 2002. Entre as iguarias de Maciel que vêm atravessando gerações do futebol, a mais popular é seu pudim de leite. “Antes mesmo de sentarem à mesa, alguns jogadores correm pra provar o pudim”, diz o orgulhoso cozinheiro. “E, quando não fui eu que fiz, tratam de gritar, alertando o grupo: ‘Esse não é do chef!’”

Na Copa do Catar, em 2022, o açaí passou a ser oferecido depois dos jogos. “Fez o maior sucesso”, diz Maciel. Agora, há outra mudança na escalação das frutas: a folclórica laranja está indo para o banco de reservas e entram no lugar as frutas vermelhas, como o morango, tidas hoje como mais revigorantes do que os cítricos.

A manutenção dos padrões culinários e nutricionais nos diferentes países visitados pelo time brasileiro já foi mais difícil. Em conversas com um servidor histórico da Seleção – Paulo César da Costa, o seu Paulinho, conhecido como o “funcionário número 1 da CBF”, para a qual trabalha há mais de sessenta anos –, Maciel soube que antigamente o chef viajava com alguns dias de antecedência para treinar equipes locais: “Ia ele e até o médico da delegação para os fogões demonstrar o preparo de comida brasileira.”

Nesse tempo, era preciso levar até 1 tonelada de alimentos para o país que sediava a Copa ou outra competição, pois não se encontravam ingredientes da comida brasileira no exterior. “Hoje, em qualquer país, conseguimos encontrar ou encomendar tudo”, diz Picanço. Apenas a farofa ainda dá trabalho: para alguns lugares, é preciso levar a farinha do Brasil.

Na Copa do Catar, teve péssima repercussão o episódio em que alguns jogadores foram a um restaurante, a convite de Ronaldo Fenômeno, para jantar carne embrulhada em folhas de ouro. Mas a nutróloga da CBF garante que não procede a história de que os craques sejam festeiros desregrados. “Já faz um tempo que os atletas profissionais de futebol têm muita consciência da importância da alimentação em seu rendimento físico e técnico. Eles mesmos se policiam e colaboram, inclusive nas folgas”, diz. Na concentração, todos aderem às refeições regulamentares. Pedir um misto-quente no quarto, tarde da noite, nem pensar.

Resta torcer para que a Seleção Brasileira, neste momento em sexto lugar entre os dez países que competem nas eliminatórias, recupere-se na rodada que começa em setembro. Antes disso, haverá jogos amistosos e a Copa América. A cozinha de Jaime Maciel e Andréia Picanço nunca fecha as portas: a dupla serve a mesa das seleções masculina e feminina em todas as categorias etárias, do sub-15 à principal. E sempre tem pudim de leite para todo mundo.


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